17 de janeiro de 2026

Feiras livres ( 20)

 Por Sierra

 

Fotos: Arquivo do Autor
Fazia tempo que eu não tinha batido perna por uma feira livre tão grande como a da cidade de Itabaiana. Deu-me saudade do tempo em que a feira livre minha cidade natal acontecia na Praça Antônio Vitalino e era uma das grandes atrações de lá


Centro (Itabaiana – SE). Dada a enorme fama que a feira livre de Itabaiana possui – cidade que dista a cerca de 54 km de Aracaju –, foi com grande expectativa que eu me vi tomado para ir conhecê-la quando, na tarde do dia 22 de novembro de 2019, eu me hospedei na pousada Nossa Senhora Aparecida.

Informado de que os dias da feira eram as quartas-feiras e principalmente os sábados, quando “a feira é maior”, eu tratei  de ir conhecer o seu local de ocorrência ainda naquela tarde. Fui vendo e acompanhando desde a sexta-feira, dia da minha chegada, os movimentos na área comercial.












A feira livre de Itabaiana ainda conserva uma característica que grande parte – talvez a maioria – das feiras livres nordestinas perdeu: ela é montada e desmontada; os dois pátios que a abrigam, bem como as ruas que os interligam, são ocupados e desocupados pelos feirantes à medida que o dia avança e a feira vai chegando ao fim. Esse monta e desmonta é um dos aspectos que mais me fascinam nas feiras livres desde criança. A mim sempre me pareceu curioso e algo com o seu quê de mágico ver um espaço enorme tomado de bancos, mercadorias e gente e, daí a pouco, o terreno se apresentar completamente vazio, como se tudo aquilo que os olhos viram e os ouvidos escutaram não tivesse acontecido. Eu experimentei essa sensação muitas vezes em minha cidade natal, Abreu e Lima, quando era criança; e esse encantamento é algo que eu nunca esqueci e que permanece exercendo ainda sobre mim um enorme fascínio.









Na tarde da sexta-feira eu vi os espaços dos pátios começando a receber os bancos dos feirantes; e o desenho dessa ocupação é por si mesmo curioso: cada um vai ocupando o espaço que lhe corresponde no terreno; e a ocupação vai ganhando forma e volume.

Um dos indicativos da pujança da feira livre itabaianense é que existem ali – e vale dizer que os pátios e as ruas que são ocupadas pelos feirantes estão inseridos no centro comercial da cidade, onde existem lojas, armarinhos, farmácias, escritórios, consultórios, supermercados, etc. – três mercados públicos: os dois mais antigos comercializam apenas carnes; e o de construção mais recente, onde são comercializados produtos como feijão, farinha de mandioca, queijos e doces, castanha de caju, temperos, frutas e verduras – eu notei que o espaço também serve como depósito de mercadorias, porque vi ali sacas de batata-doce e cebola, por exemplo; talvez não seja um depósito e sim um espaço que comercializa mercadorias somente no atacado.








Veio o sábado. E em mim era grande a ansiedade de ir logo bater perna pela feira e fazer mais registros fotográficos. Quem gosta de feiras livres sabe bem e imagina que sentimentos me tomavam naquela manhã ensolarada.

Ainda da varandinha do meu quarto eu pude ver uma aglomeração junto ao Estádio Etelvino Mendonça, o Mendonção, que já se chamou Estádio Presidente Emílio Garrastazu Médici. Ao sair da pousada a minha curiosidade me levou a ir ver do que se tratava aquela movimentação. Era nada mais nada menos do que a “feira do troca”, uma verdadeira “instituição” das feiras livres nordestinas. Curioso era que ela ocorresse ali, em local tão afastado da feira livre  propriamente dita. E o que é que poderia ser encontrado nela? Bem, como típica “feira do troca” – apesar do nome, além do troca-troca, do escambo, produtos também são vendidos nelas -, naquela eu encontrei calçados, roupas, brinquedos, eletroeletrônicos e uma infinidade de coisas, tudo ou quase tudo usado, como é de costume e reza a cartilha da “instituição”.










Saindo dali eu segui, enfim, para ir conhecer a feira livre de Itabaiana num dia em que ela acontece de maneira mais pulsante e movimentada.

Caro leitor, a feira livre de Itabaiana é um verdadeiro espetáculo para quem aprecia esse tipo de acontecimento socioeconômico. Ela é enorme e bastante espaçosa. Encontra-se nela quase que de um tudo: frutas, verduras e legumes; temperos e ervas; roupas, calçados e utensílios domésticos; peixes e crustáceos; e comidas prontas a valer.








Os bancos dos feirantes eram, na sua maioria, feitos de ferro e madeira e cobertos com lona plástica. E ocupavam os dois pátios e várias ruas, como que se derramando por eles e tomando todos os espaços. E eu andando e olhando para tudo; e, aqui e ali, parando para fazer registros fotográficos e anotações na minha caderneta.












Em dado momento eu senti um aperto no coração e certa apreensão ao ver um senhor vendendo pequenas aves já tratadas numa bacia. Curioso, eu lhe perguntei que ave ou aves eram aquelas; e ele me disse que eram rolinhas; e quando ele me falou que custava R$ 0,50 a unidade foi que eu me senti ainda mais abalado. E me lembrei da música “Fogo-pagou”, do Rivaldo Serrano de Andrade que foi celebrizada por Luiz Gonzaga e que diz assim: “Teve pena da rolinha que o menino matou/Mas depois que torrou a bichinha e comeu com farinha, gostou”.

Apesar da enormidade da feira eu não vi uma grande multidão circulando por ela. Como um ex-feirante eu sei que há certos dias do mês em que não ocorre grande fluxo de gente porque isso tem também e principalmente a ver com as datas de pagamentos de salários, que habitualmente se dão no fim ou no início dos meses. Não havia, aos meus olhos, muitas pessoas por ali; e com um sol quente da gota e de rachar o quengo, perto do meio-dia a feira deu uma esvaziada. O calor estava demais.









Manuê, canjica, tapioca e outras comidas deliciosas




Parei para comer no Restaurante da Carminha. Paguei R$ 13,00 por uma das comidas mais sem gosto que eu comi na vida. Talvez a comida fosse boa e eu não estivesse realmente com fome, porque, como se diz por aí, a fome é o melhor tempero. Enfim, foi assim.

De volta ao burburinho da feira livre eu comprei castanha de caju e manuê, também chamado em alguns lugares de pé de moleque, que é feito com massa de mandioca, coco e açúcar e não sei mais o quê e é cozido envolto em folha de bananeira sobre uma chapa quente - pelo menos era assim que a minha saudosa avó Maria da Conceição preparava essa iguaria num fogareiro de carvão.












Num ponto e outro eu vi charretes e caminhonetes adaptadas para transportar pessoas sentadas na carroceria; certamente as pessoas que elas traziam e levavam vinham de longe para fazer a feira. Também vi circulando por ali carregadores de frete; alguns dos carros deles eram feitos com carcaça de geladeiras.






























Nos arredores da feira livre passou um carro de som anunciando o falecimento de uma mulher chamada Maria Rosa. Quem seria essa Maria Rosa cujos parentes faziam questão que a cidade ficasse sabendo de sua morte? Eu não sei. O que eu sei é que, por sua dimensão , a feira livre é, sem sombra de dúvida, um grande acontecimento socioeconômico da cidade de Itabaiana.

Nenhum comentário:

Postar um comentário