Por Sierra
Centro (Itabaiana – SE). Dada a enorme fama que a feira livre de Itabaiana possui – cidade que dista a cerca de 54 km de Aracaju –, foi com grande expectativa que eu me vi tomado para ir conhecê-la quando, na tarde do dia 22 de novembro de 2019, eu me hospedei na pousada Nossa Senhora Aparecida.
Informado de que os dias da
feira eram as quartas-feiras e principalmente os sábados, quando “a feira é
maior”, eu tratei de ir conhecer o seu
local de ocorrência ainda naquela tarde. Fui vendo e acompanhando desde a
sexta-feira, dia da minha chegada, os movimentos na área comercial.
A feira livre de Itabaiana
ainda conserva uma característica que grande parte – talvez a maioria – das
feiras livres nordestinas perdeu: ela é montada e desmontada; os dois pátios
que a abrigam, bem como as ruas que os interligam, são ocupados e desocupados
pelos feirantes à medida que o dia avança e a feira vai chegando ao fim. Esse
monta e desmonta é um dos aspectos que mais me fascinam nas feiras livres desde
criança. A mim sempre me pareceu curioso e algo com o seu quê de mágico ver um
espaço enorme tomado de bancos, mercadorias e gente e, daí a pouco, o terreno
se apresentar completamente vazio, como se tudo aquilo que os olhos viram e os
ouvidos escutaram não tivesse acontecido. Eu experimentei essa sensação muitas
vezes em minha cidade natal, Abreu e Lima, quando era criança; e esse
encantamento é algo que eu nunca esqueci e que permanece exercendo ainda sobre
mim um enorme fascínio.
Na tarde da sexta-feira eu vi os espaços dos pátios começando a receber os bancos dos feirantes; e o desenho dessa ocupação é por si mesmo curioso: cada um vai ocupando o espaço que lhe corresponde no terreno; e a ocupação vai ganhando forma e volume.
Um dos indicativos da pujança da feira livre
itabaianense é que existem ali – e vale dizer que os pátios e as ruas que são
ocupadas pelos feirantes estão inseridos no centro comercial da cidade, onde
existem lojas, armarinhos, farmácias, escritórios, consultórios, supermercados,
etc. – três mercados públicos: os dois mais antigos comercializam apenas
carnes; e o de construção mais recente, onde são comercializados produtos como
feijão, farinha de mandioca, queijos e doces, castanha de caju, temperos,
frutas e verduras – eu notei que o espaço também serve como depósito de
mercadorias, porque vi ali sacas de batata-doce e cebola, por exemplo; talvez
não seja um depósito e sim um espaço que comercializa mercadorias somente no
atacado.
Veio o sábado. E em mim era
grande a ansiedade de ir logo bater perna pela feira e fazer mais registros
fotográficos. Quem gosta de feiras livres sabe bem e imagina que sentimentos me
tomavam naquela manhã ensolarada.
Ainda da varandinha do meu
quarto eu pude ver uma aglomeração junto ao Estádio Etelvino Mendonça, o
Mendonção, que já se chamou Estádio Presidente Emílio Garrastazu Médici. Ao
sair da pousada a minha curiosidade me levou a ir ver do que se tratava aquela
movimentação. Era nada mais nada menos do que a “feira do troca”, uma
verdadeira “instituição” das feiras livres nordestinas. Curioso era que ela
ocorresse ali, em local tão afastado da feira livre propriamente dita. E o que é que poderia ser
encontrado nela? Bem, como típica “feira do troca” – apesar do nome, além do
troca-troca, do escambo, produtos também são vendidos nelas -, naquela eu
encontrei calçados, roupas, brinquedos, eletroeletrônicos e uma infinidade de
coisas, tudo ou quase tudo usado, como é de costume e reza a cartilha da
“instituição”.
Saindo dali eu segui, enfim, para ir conhecer a feira livre de Itabaiana num dia em que ela acontece de maneira mais pulsante e movimentada.
Caro leitor, a feira livre
de Itabaiana é um verdadeiro espetáculo para quem aprecia esse tipo de
acontecimento socioeconômico. Ela é enorme e bastante espaçosa. Encontra-se
nela quase que de um tudo: frutas, verduras e legumes; temperos e ervas;
roupas, calçados e utensílios domésticos; peixes e crustáceos; e comidas
prontas a valer.
Os bancos dos feirantes eram, na sua maioria, feitos de ferro e madeira e cobertos com lona plástica. E ocupavam os dois pátios e várias ruas, como que se derramando por eles e tomando todos os espaços. E eu andando e olhando para tudo; e, aqui e ali, parando para fazer registros fotográficos e anotações na minha caderneta.
Em dado momento eu senti um
aperto no coração e certa apreensão ao ver um senhor vendendo pequenas aves já
tratadas numa bacia. Curioso, eu lhe perguntei que ave ou aves eram aquelas; e
ele me disse que eram rolinhas; e quando ele me falou que custava R$ 0,50 a
unidade foi que eu me senti ainda mais abalado. E me lembrei da música
“Fogo-pagou”, do Rivaldo Serrano de Andrade que foi celebrizada por Luiz
Gonzaga e que diz assim: “Teve pena da rolinha que o menino matou/Mas depois
que torrou a bichinha e comeu com farinha, gostou”.
Apesar da enormidade da
feira eu não vi uma grande multidão circulando por ela. Como um ex-feirante eu
sei que há certos dias do mês em que não ocorre grande fluxo de gente porque
isso tem também e principalmente a ver com as datas de pagamentos de salários,
que habitualmente se dão no fim ou no início dos meses. Não havia, aos meus
olhos, muitas pessoas por ali; e com um sol quente da gota e de rachar o quengo,
perto do meio-dia a feira deu uma esvaziada. O calor estava demais.
| Manuê, canjica, tapioca e outras comidas deliciosas |
Parei para comer no Restaurante da Carminha. Paguei R$ 13,00 por uma das comidas mais sem gosto que eu comi na vida. Talvez a comida fosse boa e eu não estivesse realmente com fome, porque, como se diz por aí, a fome é o melhor tempero. Enfim, foi assim.
De volta ao burburinho da feira livre eu comprei castanha de caju e manuê, também chamado em alguns lugares de pé de moleque, que é feito com massa de mandioca, coco e açúcar e não sei mais o quê e é cozido envolto em folha de bananeira sobre uma chapa quente - pelo menos era assim que a minha saudosa avó Maria da Conceição preparava essa iguaria num fogareiro de carvão.
Num ponto e outro eu vi
charretes e caminhonetes adaptadas para transportar pessoas sentadas na
carroceria; certamente as pessoas que elas traziam e levavam vinham de longe
para fazer a feira. Também vi circulando por ali carregadores de frete; alguns
dos carros deles eram feitos com carcaça de geladeiras.
Nos arredores da feira livre
passou um carro de som anunciando o falecimento de uma mulher chamada Maria
Rosa. Quem seria essa Maria Rosa cujos parentes faziam questão que a cidade
ficasse sabendo de sua morte? Eu não sei. O que eu sei é que, por sua dimensão
, a feira livre é, sem sombra de dúvida, um grande acontecimento socioeconômico
da cidade de Itabaiana.
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