15 de junho de 2024

Sobre presentes que nos desagradam

 Por Sierra



Imagem: Freep!k
Ninguém merece ganhar coisas das quais não gosta


Quem é que não gosta de ganhar presente? Eu particularmente adoro. Assim como também gosto de ver o brilho nos olhos daqueles que recebem presentes que eu lhes oferto. Ganhar e ofertar presentes são formas de demonstrar um carinho e um gostar, na maioria das vezes. Ruim é quando acontece de você ter escolhido algo que a pessoa visivelmente não gostou de ter recebido.

Muitos anos atrás - o episódio ocorreu há mais de uma década - eu ganhei um porta-retratos de um casal que voltara de lua de mel. Ao receber das mãos do sujeito aquele objeto eu disse assim de mim para mim: "Como alguém traz um troço desses de viagem para presentear alguém?". Chegando à minha casa eu tratei de manter o tal porta-retratos guardado num lugar que não ficasse ao alcance da minha vista.

O tempo foi passando e a estratégia de esconder o porta-retratos não funcionou, porque, quando, por algum motivo, me deparava com ele, eu sentia uma raiva danada daquilo. Até que num belo e iluminado dia me veio a indagação: "Qual a razão para eu manter dentro de casa algo que só me causa contrariedade, algo que inteiramente me desagrada?". E eu de pronto me dei uma resposta em ação que foi uma verdadeira catarse: eu peguei aquela coisa feia, quebrei ela em mil pedaços e joguei logo no balde de lixo.

Nossa, como foi bom ter feito isso. Ufa, que alívio! Se eu soubesse que ter feito isso me faria tão bem, eu teria destruído aquele troço no dia mesmo em que ele chegou às minhas mãos e imediatamente começou a me fazer mal.

Normalmente a vida e as pessoas ao nosso redor nos ensinam uma porção de coisas para o nosso bem viver; e, às vezes, ocorre que nós mesmos temos alguns insights e fazemos pequenas e grandes descobertas que nos elevam para um patamar que sequer imaginávamos que alcançaríamos, como aconteceu comigo ao me livrar daquele presente incômodo, daquele intruso, daquele inconveniente objeto que eu levara para dentro da minha casa sem quê nem para quê e que ficara me atanazando com sua presença durante um longo tempo.

Há quem diga que presentes são coisas que nós devemos guardar e preservar mesmo que eles não nos agradem. Existe até um dito popular para isso: "a cavalo dado não se olham os dentes". Quem louva e defende isso parece ignorar aquele outro quadrúpede, o cavalo de Troia, o presente dos aqueus para os eólios que causou a derrota destes numa guerra.

Não, gente, comigo isso não funciona mais desde aquele iluminado dia em que eu me livrei do maldito porta-retratos. "Ah, a pessoa escolheu com tanto carinho o presente e se lembrou de você durante a viagem e você fez isso?". Bem, se foi verdade que sobrou carinho, o fato é que faltaram bom senso e simancol na escolha do suvenir. E eu decididamente não tenho vocação nenhuma para autoflagelação. Não tenho mesmo.

Vejam o que é a falta de bom senso - de bom senso e de respeito, melhor dizendo - na postura de quem escolhe um presente para dar a alguém. Por ocasião do meu mais recente aniversário uma alma que talvez se julgue ser muito, muito caridosa - ela é evangélica, ainda por cima; não que ser evangélico seja um mal em si e um defeito; para mim o mal e o defeito de um evangélico estão na postura de querer a todo custo converter alguém à crença dele e de pensar que todos os outros que não seguem a religião que ele professa irão para o inferno. Particularmente eu não tenho nenhum problema com a ideia de inferno por eles desenhada e constantemente anunciada; mas, com gente desse tipo eu tenho sim; e, por isso, eu os evito -,  sabendo que eu sou ateu me presenteou, imaginem, com uma caneca na qual estava gravado um versículo bíblico. Não é de lascar? Como se não bastasse a cafonice de dar de presente uma caneca, a criatura, que não se conforma com o fato de ir para o céu sozinha, ainda teve a petulância e o descaramento de afrontar a minha descrença. Eu tive ímpeto de jogar no chão a caneca assim que eu a recebi no meio de um grupo de pessoas. Mas consegui me conter. E dois ou três dias depois, não me lembro bem, eu repassei o objeto para um conhecido meu dizendo que eu ganhara aquilo e que não gostara dele; e perguntei a ele, claro, se a queria ou não, porque, caso ele não a quisesse, eu a jogaria fora. Ele a quis.

Passadas algumas semanas a criatura que me presenteara com a indesejada caneca me perguntou por ela. Sem titubear e nem medir as palavras eu lhe disse que me desfizera do objeto, que o repassara para outra pessoa, porque não gostara do presente e muito menos da frase que ele trazia. E arrematei a explicação com esta frase que eu carrego como um mantra desde aquele dia catártico em que eu me livrei do porta-retratos: "Presente só é de fato um presente quando faz bem e agrada a gente".

O livrar-se do porta-retratos foi um aprendizado e tanto para mim. Depois dele, nunca mais eu me deixei ficar refém de presentes incômodos: eu trato de me livrar deles o mais rápido que posso. Amém!

8 de junho de 2024

A Praça da Democracia de Abreu e Lima

   Por Sierra

 

 

Fotos: Arquivo do Autor
A agora denominada Praça da Democracia, de Abreu e Lima: espaço público que testemunhou um dos capítulos mais importantes da História recente deste país

 As cidades, todas elas, são compostas por pequenos mundos, por verdadeiros microcosmos detentores de memórias; memórias essas que nem sempre são de conhecimento da maior parte de seus habitantes, porque, no mais das vezes, ocorre que esses pequenos mundos e esses microcosmos nem sempre se comunicam entre si, não se interligam, de modo que, embora as cidades sejam constituídas por várias memórias locais, como uma verdadeira colcha de retalhos de acontecimentos, isso não significa dizer que essa colcha esteja ao alcance de todos os indivíduos que nelas residam.

O conceito de memória que eu estou inserindo aqui diz respeito aos fatos que de alguma forma deixaram vestígios e esses vestígios foram de alguma maneira preservados, quer como documentos textuais, quer como objetos, quer como espaços construídos e/ou apenas delimitados, quer como filmagem e/ou só captação de som, quer, enfim, até mesmo e apenas como uma tradição oral, que foi passando de geração em geração.


Torçamos para que a população cuide bem desse  equipamento urbano recentemente revitalizado







Foi pensando em tal conceito de memória que, na sexta-feira da semana passada, eu fui até a Praça da Bandeira, em Abreu e Lima, cidade da Região Metropolitana do Recife que, na década de 1980, teve um grande naco de seu centro urbano posto abaixo para que mais faixas da BR 101 fossem abertas. É curioso que pouco se trate disso neste país: a situação por que algumas cidades têm de conviver com uma BR passando pelo seu centro urbano, em vez de ser pelas suas franjas, pelos seus terrenos afastados das áreas centrais.

Pois bem. Eu soubera que a tal Praça da Bandeira passara por uma ação revitalizadora; e, como eu estivera lá noutra ocasião e a encontrara em estado de abandono, eu resolvi ir conferir o que fora feito a fim de escrever outro artigo para este blog.

Pouca gente sabe que a Praça da Bandeira, uma pequena praça, na verdade, é considerada como o local onde, pela primeira vez em todo o país, ocorreu uma manifestação pública reivindicando que o povo pudesse voltar a comparecer às urnas e votar para eleger o presidente da República, porque vivia-se sob uma ditadura militar desde 1964. Não existem documentos físicos da época - registros textuais, fotografias, etc. - que sirvam como , digamos, atestados fidedignos de tal fato aconteceu. Mas existem testemunhas oculares; alguns dos cidadãos que tomaram parte no evento como protagonistas ainda estão vivos; e isso também é importante, isso também é um marco. Reginaldo Silva, Severino Farias, Antônio Amaro, José da Silva Brito, vereadores na ocasião, e Aguinaldo Fenelon, suplente de vereador, estiveram naquele lugar em 31 de março de 1983 para fazer História.


Placa informando sobre o acontecimento havido em 1983


Detalhe da escultura de autoria de Demétrio Albuquerque: a meu ver ela ficou com informações demais; e informações que não dizem propriamente respeito ao evento de 1983. Ela ficaria muito bem colocada num museu da cidade ou na sede da Prefeitura Municipal




Como eu lhes disse, eu estivera naquele equipamento urbano noutra ocasião; e encontrando-o abandonado, lamentei muitíssimo que a Prefeitura Municipal de Abreu e Lima deixasse que a Praça da Bandeira amargasse uma situação tão precária independentemente de ela ser ou não um lugar de marco histórico da cidade - vocês podem ler o artigo "A Praça da Bandeira, em Abreu e Lima (PE), como um dos marcos germinais da Campanha pelas Diretas Já!" publicado também neste blog.

Foi preciso o acontecimento de duas efemérides - a lembrança dos 40 anos do início daquela Campanha e dos 60 anos da decretação da Ditadura Militar - para que a Municipalidade abreulimense finalmente se movimentasse para revitalizar a praça, que, conforme a placa instalada no local para assinalar a sua reinauguração, ocorrida no último dia 31 de março, passou a ser denominada de Praça da Democracia.

Claro que a recuperação da outrora Praça da Bandeira deve ser louvada. Contudo, entretanto e todavia um olhar aguçado sobre o que foi feito ali revela que a restauração e/ou revitalização teve alguns erros e acertos, segundo a minha avaliação. 


Nesta e nas duas fotos seguintes detalhes do revestimento da pista de caminhada: está evidente que o material ou foi mal aplicado ou é de baixa qualidade ou ambas as coisas






Que eu me lembre - eu nasci em Abreu e Lima; e estudei numa escola que ladeia o espaço - aquela diminuta praça nunca gozou de grande prestígio. A reforma de agora, que teve o mérito de celebrá-la por causa daquele acontecimento histórico, promoveu algumas modificações em seu desenho: inseriram rampas para cadeirantes; mastros para bandeiras; uma pistazinha de caminhada - ao que parece o material com o qual a revestiram é de qualidade ruim, porque já está se soltando; e eu registrei um trecho coberto com lona plástica preta -; uma escultura autoria do renomado Demétrio Albuquerque - eu, que aprecio muito as esculturas desse artista, avaliei que a que ele fez para a Praça da Democracia ficou com informação demais, tem muita coisa ali; para mim ela não ficou artisticamente interessante para aquele ambiente; a minha opinião é que esculturas que retratassem os indivíduos que estiveram ali em 1983 ficariam adequadas e condizentes com o ocorrido -; uma placa dizendo daquele fato histórico; e um espaço que pode servir como palco para apresentações artísticas e/ou de outra natureza. Gente, outro senão: para que o exagero de vinte lixeiras num espaço tão diminuto? Além de a quantidade de lixeiras postas ali ter ficado esteticamente feio, minha opinião é que nos espaços ocupados por algumas delas deveriam ter plantado flores, isso sim. Ah, gente tem mais um ponto positivo para a Municipalidade: foi posta uma placa na faixa da BR 101 denominada Avenida Duque de Caxias indicando a direção da localização da praça.

Espero que a agora denominada Praça da Democracia, de Abreu e Lima, comece a figurar de alguma maneira na memória de um número maior de moradores da minha cidade natal. 

1 de junho de 2024

Fora da gaiola

 Por Sierra


Charge de Renato Magrini de Souza.
Quem nasceu para ser livre jamais se conformará com a usurpação de sua liberdade


Eu era um adolescente. Não lembro quantos anos eu tinha exatamente. Por esse tempo mainha estava namorando um sujeito chamado Mário, que trabalhava vendendo frutas, era cachaceiro e gostava de criar passarinhos. Mário foi um dos namorados da minha mãe com o qual me dei bem, não o repeli nem nada, porque ele me parecia ser gente boa.

Certo dia Mário, que gostava de me agradar, trouxe para mim, de presente, um curió. Também não recordo os sentimentos que me tomaram naquela ocasião. Aquilo era novo para mim. Eu nunca sequer cogitara possuir um pássaro numa gaiola naquela casinha de taipa;  casinha mesmo pois só possuía uma salinha, um quarto e um espaço que servia como cozinha; o banheiro e o estrado, que chamávamos de jirau, onde lavávamos roupas e pratos, ficavam do lado de fora do casebre. Retratos de tempos difíceis, muito difíceis.

O meu encantamento como garoto que possuía um passarinho numa gaiola e ainda mais um curió, logo um curió, um passarinho do qual se dizia que poderia valer uma nota caso ele fosse um bom cantor, não demorou um mês. Certo dia, quando eu acordei e mirei a gaiola, me dei conta de que o curió não estava ali, em seu abrigo, pendurado num caibro do telhado da sala. Cheguei a pensar que fora a inveja dos meus colegas que fizera com que o danadinho tivesse deixado a nossa morada. Examinando a gaiola mais de perto eu verifiquei que sua portinha não estava aberta e que uma das laterais daquele objeto feito com madeira, arame e varetas fininhas estava quebrada; e eu deduzi que só poderia ter sido por ali que o bichinho havia saído para reconquistar a sua liberdade.

A tristeza que me tomou foi também ela fugaz. E o episódio, hoje tão longínquo, me deu na ocasião um olhar novo sobre aquilo: eu nunca mais que iria querer possuir um passarinho engaiolado pelo resto de minha vida. Aquele acontecimento fez brotar em mim o entendimento da dimensão do aprisionamento e da necessidade de liberdade. E isso despertou em mim certa aversão que eu passei a nutrir por esse costume, por essa cultura da gaiola. E foi e é exatamente por isso que eu me sinto até hoje incomodado quando passo e observo nos terraços e nos alpendres das casas gaiolas expostas como se fossem troféus.

Não tem quem me convença, não tem que me faça compreender e aceitar que seja carinho ou algo que o valha o comportamento de quem mantém em sua casa uma ou mais gaiolas com passarinho. Eu sei que muita gente cria para vender; e que outros possuem passarinhos porque egoisticamente querem ouvir seus cantos, como se essas aves canoras existissem para ser propriedades suas e não para viverem livres e soltas na natureza.

Recordar a lembrança do curió que um dia eu possuí está servindo aqui como preâmbulo para eu dizer, a partir de agora, de uma cultura de passarinho de gaiola que existe neste pedacinho da Ilha de Itamaracá onde eu moro e que ocupa muitos adolescentes e jovens adultos.

Todos os dias, todos os dias em que eu saio de casa às cinco e pouca horas da manhã para pegar o primeiro dos dois ônibus que me conduzem até o meu lugar de trabalho, na cidade de Abreu e Lima, eu me deparo com alguns dos muitos criadores de passarinhos que existem por aqui. Reparo que um deles, da rua onde eu moro, possui várias gaiolas; e que ele cuida com grande dedicação de todos os passarinhos, trocando a água, repondo comidinhas e saindo para campear com pelo menos um deles - campear é sair com a gaiola por aí e colocá-la em algum ponto afastado da casa; e o campear por vezes reúne diversos criadores, que se encontram nalgumas esquinas de certas ruas que dão para a Avenida do Forte Orange. Não há uma só vez em que eu olhe para todas aquelas gaiolas e sinta dó pelos passarinhos privados de sua natureza de voar e de ser livre. E quase sempre isso me entristece.

A propósito eu quero registrar aqui uma passagem do livro de memórias de José Lins do Rego, que foi um menino de engenho de cana de açúcar na Paraíba. No capítulo XVII do seu Meus verdes anos ele nos contou de um sujeito conhecido como Chico Pechincha, que vivia de capturar passarinhos e vendê-los nas feiras livres. Certa feita esse comerciante disse assim a Zé Lins;

- Menino, eu pego passarinho mas até tenho vergonha do ofício. Olha aquele canário que está naquele pé de goiabeira. A gente bota o alçapão e ele vem cair na esparrela. Nunca mais que ele canta como está cantando. Perde a voz e há até muitos que morrem (José Lins do Rego. Meus verdes anos. Rio de Janeiro: Editora Tecnoprint S. A., s. d., p. 67).

Durante a desgraceira da pandemia da covid-19, circulou nas redes sociais uma charge do Renato Magrini de Souza que me marcou profundamente. No desenho do que parecia ser uma sala, sentado numa cadeira junto a uma janela de onde se via a paisagem verdejante de um dia ensolarado, um homem mirava o vazio lamentando o fato de não poder sair de casa por causa da quarentena. Ele dizia assim: "Poxa, não aguento mais ficar trancado dentro de casa...". E um passarinho preso numa gaiola comentava: "È ruin (sic) né? Por quê (sic) você não canta pra passar o tempo?".

O maravilhoso Zé Lins fechou o seu livro de memórias nos contando tristemente sobre o dia em que viu pela última vez o seu canário Marechal, que fora presente do negro José Joaquim, que trabalhara no Engenho Corredor, propriedade do seu avô materno. Zé Lins acreditava que fora o marido de sua Tia Naninha que abrira a porta da gaiola. O menino ficou desconsolado; e chorou tanto. Certa manhã Marechal apareceu no quintal. Havia uma esperança de que ele estivesse querendo voltar para casa. Zé Lins chegou a jogar alpiste no terreiro para ver se o bichinho se aproximava mais. Mas não foi isso o que aconteceu:


E mal pus os pés por debaixo da goiabeira, ele voou para longe até sumir-se na distância. Ainda o vi como um pontinho no céu azul. Vi-o furando o espaço e correndo  para o mundo. Lá se fora ele com os cantos que enchiam de alegria minhas madrugadas de asmático. Lá se perdia ele para sempre, assim como estes meus verdes anos que em vão procuro reter (José Lins do Rego. Op. cit., p. 262-263).

Quem nasceu para ser livre jamais se conformará com a usurpação de sua liberdade.

25 de maio de 2024

Aqui você não é bem-vindo

 Por Sierra



Foto: David Mareuil/Anadolu/Getty Images
Barreira erguida defronte a uma loja de conveniência na cidade japonesa de Fujikawaguchiko para tentar afugentar os caçadores de selfies com vista do belíssimo Monte Fuji


Um dos efeitos benéficos, por assim dizer, da pandemia de covid-19 para as cidades que atraem muitos turistas foi o gozo da paz e dos sossego que elas desfrutaram ao longo de vários meses. O esvaziamento dessas cidades proporcionou ao poder público e aos moradores perceber quão passou a ser bom andar tranquilamente sem esbarrar em multidões que costumam lotar esses lugares.

O mundo é assim. Não adianta reclamar. O mundo é diverso e desigual. E absurdo. Enquanto umas e outras cidades estão por aí se movimentando para fomentar a economia local através do turismo, criando atrações para o público visitante - valem até aqueles letreiros bregas e horrorosos que dizem "eu amo tal lugar" -, outras estão seguindo no sentido justamente contrário: estão recorrendo a vários expedientes na tentativa de frear, diminuir e até mesmo fazer com que o viajante em potencial não apareça por lá, não dê as caras e mesmo retire a tal cidade da lista de desejos "lugares que eu devo conhecer antes de morrer".

E por que essa tomada de atitude? Por que essa correção de rumo? Por que várias cidades passaram a desestimular a presença de turistas e visitantes? Por que resolveram atuar com esse movimento inverso ao habitual? Enfim, por que tais cidades começaram a enxergar os turistas como um mal que se deve de todo modo evitar?

As respostas para todas essas indagações não são difíceis de serem encontradas. O fato incontestável para esses centros urbanos muito badalados é que as autoridades locais e principalmente os seus moradores chegaram à conclusão de que o grande fluxo de turistas num determinado lugar provoca e causa danos que a receita que esses viajantes proporcionam à economia local não cobrem. Eles puseram as coisas na balança e avaliaram que, na verdade, melhor seria que esse pessoal não encontrasse a tal cidade no mapa e nunca e jamais aparecesse por lá.

Não se trata de xenofobia - embora aqui e ali isso entre também no caldeirão de descontentamentos e insatisfações dos moradores - e nem de um comportamento puramente antissocial. O que está sendo posto na balança para ser avaliado é se vale realmente a pena perder e sacrificar o bem viver da população local com o fito de transformar a cidade numa espécie de parque de diversões, porque, em alguma medida, os impactos negativos são muito visíveis, são muito perceptíveis de modo imediato. O aumento do tráfego de veículos é um deles; e ele por si só tem feito com que alguns centros urbanos - e isso vem sendo tratado há vários anos - tenham buscado restringir sua circulação em determinados espaços das urbs.

Mas ainda tem o impacto ambiental provocado pelo aumento considerável do consumo de água e de energia elétrica e pela produção de grande volume de lixo. E tem mais. Grandes fluxos de turistas e visitantes por vezes provocam alterações na dinâmica da vida animal que existe nos lugares procurados. E não são poucas as reclamações de moradores que veem práticas como uma banal e cotidiana ida à padaria, que fica próxima às suas casas, ser transformada num verdadeiro martírio, porque a tal padaria virou um point muito frequentado desde que um fulaninho que é influencer fez um vídeo ali dizendo que em nenhum outro lugar comera uma torta de morango tão gostosa.

Eis outro fato inescapável desta nossa vida mediada pelos celulares e pelas redes sociais que eles abrigam: vários lugares do mundo estão sendo buscados tão somente porque tais e tais influencers postaram isso e aquilo da localidade e a partir de então e só por isso seus seguidores passaram a vê-la como uma meta a ser alcançada, porque nada mais cobiçado e desejável atualmente do que conseguir fazer uma selfie, fotografar e/ou filmar, num cenário que seja tido como instagramável para postar e ganhar, quem sabe, milhares, milhões de visualizações e comentários exaltados.

Na última terça-feira, dia 21, autoridades municipais da cidade japonesa de Fujikawaguchiko tomaram uma medida drástica com o propósito, imagine vocês, de impedir, de tentar impedir a concentração de pessoas no espaço defronte de uma loja de conveniência chamada Lawson, de onde se tem uma vista maravilhosa do belíssimo Monte Fuji. E o que fizeram as autoridades para afugentar os indesejados visitantes e o seus celulares que parece que nunca dormem? Mandaram instalar uma barreira de malha de ferro com 20 metros de comprimento e 2,5 metros de altura ali. Um vídeo no qual aparece uma funcionária da loja tentando afastar os indesejados visitantes fazedores de selfies dá bem uma dimensão da inconveniência que eles se tornaram.

Cidades europeias como Veneza e  Barcelona, por exemplo, estão também elas repensando as estratégias para lidar com o turismo em massa e, por conseguinte, com a série de estragos e/ou incômodos que ele acarreta. Sendo assim, leitor, antes de programar a sua próxima viagem certifique-se  se no local escolhido não irá você se deparar com uma placa dizendo: "Aqui você não é bem-vindo".

18 de maio de 2024

Cidades em perigo

 Por Sierra


Imagem: UOL
Tragédia que se repete. Porto Alegre em parte inundada, como em 1941. Não se trata mais de avaliar se as mudanças climáticas são um fenômeno natural ou se elas são decorrentes de ações humanas. Urge que os nossos conceitos de urbanização e de urbanismo sejam revistos sob pena de termos de enterrar dezenas de mortos toda vez que ocorrerem precipitações pluviométricas intensas e prolongadas, como aconteceu agora no Rio Grande do Sul



Ao longo dos últimos dias o Brasil e o mundo vêm acompanhando a grande tragédia que castigou centenas de cidades no Rio Grande do Sul. Chuvas intensas e prolongadas, que especialistas vêm apontando como sendo decorrentes do aquecimento global, provocaram muita, muita destruição, alagamentos, enchentes e mortes de pessoas e de animais. O quadro é de catástrofe. E a tristeza vista nos olhos de quem perdeu parentes, amigos e bens é a marca definidora de tudo o que aconteceu e ainda está acontecendo ali, porque em vários lugares as águas levarão semanas para baixar.

Houve tempo em que casos de inundações, enchentes e deslizamentos de barreiras vitimavam apenas os chamados vulneráveis sociais, pessoas que, por alguma razão de ordem socioeconômica, ocupavam - e ocupam - áreas de encostas e beiras de rios e lagoas. Mas isso vem mudando. Nos últimos anos nós assistimos a ocorrências de enchentes e inundações, com tudo de ruim que elas causam, não somente em locais ocupados pelos vulneráveis como também em lugares das cidades considerados seguros e onde se encontram moradias de alto padrão e grandes estabelecimentos comerciais; ocorrências essas que evidenciam que, em alguma medida, todos nós estamos à mercê desses desastres naturais.

As imagens de uma Porto Alegre em parte tomada pelas águas lembram cenas de filmes-catástrofe. Em 1941 a cidade já tinha vivenciado esse pesadelo. Tudo invadido. Tudo tomado. Tudo compondo um cenário de evidente impotência frente à força da natureza. Tudo deixando ver que, diante das mudanças climáticas, será preciso, urgentemente, repensarmos o nosso conceito de urbanização e essa política governamental de fechar os olhos para todos e cada um que insistem diuturnamente em desprezar e ignorar as leis de uso e ocupação do solo e promover o desordenamento urbano.

Acredito que não exista uma única cidade neste país onde a Municipalidade mantenha uma séria e eficaz atuação que promova uma fiscalização contínua, uma fiscalização que monitore e coíba ocupações desordenadas, construções irregulares, aterros de áreas de escoamento das águas da chuva, estreitamento de rios e córregos, cortes de barreiras e etc.

Por onde se anda e para onde se olha, de norte a sul deste país, nós nos deparamos com cenários que nos dizem claramente de uma indigência urbanística, de uma urbanização com seu muito de descompromisso com a salubridade, a segurança, o ordenamento e o futuro da própria cidade e, por conseguinte, dos seus habitantes.

Enquanto muitos desacreditam o alarme científico que diz que o planeta está passando por um aquecimento global que vem provocando  mudanças drásticas nas condições climáticas, temos visto acontecimentos catastróficos ocorrer em várias partes do mundo. Secas prolongadas e enchentes têm, ao que tudo indica, ficado mais frequentes e intensas que normalmente.

Independentemente de acreditar ou não em quem professa o aquecimento global, quer esse aquecimento seja decorrente da própria natureza, quer ele seja consequência de ações humanas, o fato inescapável, para crentes e negacionistas, é que o fundamento do nosso urbanismo, os pilares de nossa urbanização precisam ser revistos sob pena de continuarmos a lamentar e chorar pelo tanto de vidas perdidas e pelos cenários de destruição e de terra arrasada que estamos vendo em centenas de cidades gaúchas, evento esse de magnitude e abrangência sem precedentes neste país.

As cidades, quando comparadas com organismos vivos, passam por transformações ao longo de suas existências. E, tal qual seres vivos, elas podem sofrer adoecimentos provocados por ações que nós, que as ocupamos, vamos lhe destinando. A partir do momento em que você obstrui e/ou estreita o curso das águas de um rio, por exemplo, pode ter absoluta certeza que isso trará alguma consequência ruim, porque naturalmente esse rio vai manter sua existência de rio, ou seja, vai continuar a correr para algum lugar; e ai de quem ou o quê estiver no seu caminho.

Eu falei de obstrução de um rio, mas as cidades podem adoecer de diversas outras formas: com o desmatamento; com os aterros; com o descarte irregular de entulhos; com o tráfego de veículos; com um número muito elevado de habitantes; e com a ausência de mecanismos de controle do seu crescimento; mecanismos esses que tratem de promover o ordenamento urbano e as diretrizes que estabelecem como as cidades devem existir de modo sustentável.

Nós temos o costume, o mau costume de postergar necessidades e urgências, como se sempre e sempre fôssemos dispor de uma nova chance para reparar, reconstruir, refazer, remendar, resgatar, retelhar, reabilitar, reordenar, recapear, reconduzir, recobrir, reavaliar, religar, reabastecer, reutilizar... e recomeçar.

É assim. É sempre assim. Mas não deveria ser assim. As mais de cem vítimas fatais da tragédia gaúcha, por exemplo, não irão mais poder recomeçar. Tudo para elas acabou. Tudo para elas teve fim. A enchente, a enxurrada e a inundação acabaram com a vida delas.

As cidades estão em perigo. E postergar a elaboração de um urbanismo que nos confira mais segurança frente às turbulências dos fenômenos da natureza é promover um ordenamento urbano que não desacredite o imperativo das mudanças climáticas e nem feche os olhos para o que nas cidades são ataques à sua integridade física.

Não nos esqueçamos disto: quem sempre posterga, além de não mudar para melhor o seu presente, desacredita e arruína parte ou todo o seu futuro.

11 de maio de 2024

Novamente o infernal terminal de ônibus de Igaraçu

 Por Sierra


Fotos: Arquivo do Autor
Novas instalações e velhos problemas: filas enormes no dia em que a parte nova do terminal de ônibus de Igaraçu foi aberta para os usuários


Quando uma obra pública se arrasta por anos a fio nós costumamos pensar, porque somos gatos mais do que escaldados, que a coisa vai gorar e figurar como mais uma peça abandonada no museu do desperdício do dinheiro do contribuinte. Não parece ser esse, felizmente, o caso do terminal  de ônibus de Igaraçu que, depois de ter ficado com suas obras paralisadas por não sei quanto tempo, ele as viu serem retomadas; e, ao que tudo indica, elas serão realmente finalizadas.

Informalmente eleito pela língua ferina do povo, pela língua certeira do povo, porque só ele verdadeiramente é que sabe onde o calo realmente aperta, como o pior terminal de ônibus de toda a Região Metropolitana do Recife, o terminal da cidade de Igaraçu é um eixo muito importante dentro da engrenagem que atende a milhares de indivíduos que diariamente recorrem ao sistema de transporte público de passageiros e que tomam como destino a capital e outros lugares ao longo do caminho saindo da Ilha de Itamaracá, Itapiçuma, Araçoiaba e da própria Igaraçu; e, ao longo de vários anos, passou por um processo de degradação que só tornava um martírio a condição de quem tinha e tem de passar por ele para seguir seu rumo a partir  das diversas linhas que saem de lá.







Desde que as obras foram retomadas, nós, as pessoas que diariamente afluem para aquele terminal, ficamos na expectativa de que agora o negócio era para valer, era à vera; e que finalmente iríamos deixar de ocupar um espaço pequeno e mal administrado.

Enquanto as obras seguiam, um incidente ocorrido em março ratificou o dito que proclama que o que é ruim pode piorar: um caminhão que carregava um contêiner bateu num dos pilares de sustentação da cobertura do terminal que, assim, teve de ser interditado, porque corria o risco de desabar. O resultado disso foi que nós tivemos de passar quase duas semanas sob sol, chuva e sereno - e sem banheiros e sem bancos para sentar - embarcando e desembarcando do lado de fora até que as cabeças pensantes que administram o equipamento tivessem a iniciativa de montar algumas tendas - insuficientes, diga-se logo, para tanta gente - para que nós pudéssemos voltar para dentro do terminal que a essa altura se parecia com qualquer outra coisa, menos com um terminal de ônibus, principalmente à noite, quando boa parte dele ficava às escuras elevando a nota triste do improviso.


Detalhe do telhado

Quando eu passei por lá na última quinta-feira escutei o disse me disse informando que, no dia seguinte, a área nova seria liberada para os usuários; informação essa reforçada pelos tapumes que foram postos para separar o perímetro novo do velho.

E assim foi que, na manhã de ontem, eu e centenas, milhares de passageiros desembarcamos num terminal parcialmente renovado e ainda em obras. Vários funcionários da empresa que o administra e outros do Consórcio Conorte, responsável pelo gerenciamento e controle das linhas que circulam por ali, estavam no meio do vuco-vuco dando informações sobre os novos pontos de embarque.





Eu de pronto tratei de fazer uns registros fotográficos do espaço antes de embarcar com destino ao meu local de trabalho na cidade de Abreu e Lima - e fiz registros outros registros à tarde. Também busquei ouvir algumas impressões de usuários que estavam ali. Alguém comentou: "Esse telhado não ficou bom. Vê só: quando chover vai molhar a gente. Quem já viu fazer um telhado assim, separado?!". Outro disse: "Parece que agora o negócio vai sair mesmo". E por ali, naquela muvuca toda, ainda se encontravam os inconvenientes vendedores de passagens.

O espaço era novo, mas a rotina era velha; velha não, velhíssima. Filas enormes davam o tom do atraso das saídas dos ônibus, um dos principais problemas de quem precisa do sistema de transporte público de passageiros. E, como retiraram os leitores eletrônicos dos cartões de passagens, algo que agilizava o embarque, porque ele podia ser feito também pela porta do meio, o atraso dos ônibus somado à demora para que todos embarquem apenas pela porta dianteira só piora a situação; sem esquecer que tais atrasos ainda acarretam perda de minutos preciosos dentro do sistema temporal que foi implantado para seguidos embarques pagando apenas uma passagem. Será que o pessoal do Grande Recife Consórcio de Transportes Metropolitano não vai rever isso?









Atrasos e superlotação de ônibus são dois dos castigos mais comumente aplicados a quem, infelizmente, depende dos busões para fazer seus deslocamentos rumo aos compromissos da vida prática.

Além da multidão que ocupava a parte nova do terminal, ontem eu observei que alguns dos pombos que moravam no telhado que foi removido da parte velha apareceram por lá. O que será que eles acharam da nova possível morada?


4 de maio de 2024

A propósito de prédios muito altos e de sistemas de segurança predial

Por Sierra



Foto: Eduardo Fialho
Chamas tomando o topo do Edifício Botanik, no bairro da Torre, no Recife, no último dia 28 de março


Existem várias linhas de abordagem na história das cidades; podemos estudar, por exemplo, a cidade como um organismo político, econômico e social; e também podemos nos lançar na perspectiva de uma história do cenário físico da cidade acompanhando as transformações que o traçado urbano e as edificações que o ocupam sofreram no decorrer dos anos.

Muito embora a chamada "verticalização" das cidades não seja algo novo pelo menos em países desenvolvidos - os primeiros arranha-céus de Chicago, com 20-30 andares surgiram ainda no século XIX, enquanto os edifícios ainda mais altos de Nova York apareceram nas primeiras décadas do século XX, como nos mostrou Leonardo Benevolo em seu História da cidade -, o assunto tem sido abordado de maneira recorrente nos últimos anos no Brasil, principalmente porque vem surgindo e sendo anunciados projetos de grandes imobiliárias em áreas de interesse histórico, de preservação ambiental ou que estejam sendo ocupadas por famílias de baixa renda, a exemplo das construções no Cais José Estelita, no bairro de São José, e os vários prédios que foram erguidos no bairro de Santo Amaro, ambos no Recife.

Nos últimos anos a verticalização ganhou destaque em âmbito nacional por causa da série de edificações erguidas em Balneário Camboriú (SC), que estão entre as mais altas do país; realidade essa que o bairro Altiplano, em João Pessoa (PB), também está vivenciando.

A verticalização de nossas cidades é um fato e uma tendência que, ao que tudo indica, seguirá em ritmo acelerado e fazendo um grande contraste, ou melhor dizendo, acentuando os contrastes sociais de uma sociedade historicamente marcada por uma elevadíssima desigualdade socioeconômica.

O objetivo do artigo de hoje não é discutir a verticalização em termos de reordenamento e de reocupação dos espaços urbanos e nem tampouco pôr em debate desníveis socioeconômicos. Eu quis, digo, eu quero tratar aqui de segurança predial no que diz respeito especificamente a ações de prevenção e de combate a incêndios.

Na noite da quinta-feira 28 de março deste ano circularam, em redes sociais e em sites de notícias, imagens apavorantes que mostravam o alto de um prédio em construção em chamas, no bairro da Torre, no Recife. As imagens faziam lembrar uma grande tocha acesa na escuridão. E eu fiquei pensando no caos que teria sido se se tratasse de uma edificação que já estivesse ocupada por moradores.

Foi observando as chamas que tomavam o alto do Edifício Botanik, um prédio de 28 andares e 84 metros de altura, que eu me peguei indagando: "Como combater incêndios em edificações tão elevadas? Será que os órgãos responsáveis pelas licenças e autorizações para que prédios desse porte sejam erguidos avaliam tal problemática e têm conhecimento da capacidade operacional dos Corpos Bombeiros que atuam nas cidades onde tais prédios serão levantados?".

Não é preciso ser um técnico em segurança predial e nem um bombeiro para saber que um sistema de segurança de qualquer edificação não se resume à instalação de extintores, portas corta-fogo e sprinklers e à sinalização de portas de saídas de emergência e rotas de evacuação e fuga.  O complexo segurança predial -  o denominemos assim - também deve abranger componentes externos que existem independentemente do próprio prédio, como: a existência ou não de hidrantes na rua da edificação ou próximo a ela; o pleno funcionamento e/ou regularidade com a que a companhia de abastecimento libera o fornecimento de água; e, claro, a existência e a capacidade de operacionalidade de um efetivo de combate a incêndios, seja ele civil ou militar, atentando não só para o número de combatentes em si, mas também para o que tais efetivos têm à sua disposição em termos de viaturas e equipamentos necessários para atuação em tal tipo de sinistro.

Historicamente o quesito urbanização não foi e em verdade continua não sendo o forte deste país, como demonstram os cenários citadinos tomados por ocupações desordenadas - favelizar, no Brasil, é um verbo que não se conjuga apenas nas favelas - e a precariedade e/ou a ausência de saneamento básico em todas as regiões do país. Dito isso, algo me faz pensar que também no que diz respeito à complexidade do sistema de segurança predial, algo que impacta não somente um prédio sinistrado em si, bem como boa parte do seu entorno, não prima pela excelência. Muito pelo contrário. E eu digo isso não por achismo e sim pelo acompanhamento, através dos veículos de comunicação, de casos em que, por exemplo, os bombeiros não puderam atuar rápido e eficientemente porque não havia água em hidrantes ou porque a escada do tipo Magirus não era de longuíssimo alcance. Querem outro exemplo: agora mesmo o Ministério Público da Paraíba está na luta para que construtoras que desobedeceram à lei que determina o gabarito de prédios na orla de João Pessoa, ponham abaixo a metragem construída que ultrapassou o limite legal.

É uma grande ingenuidade pensar que projetos de segurança predial sejam rigorosamente implantados nas edificações. Quando desastres envolvendo prédios acontecem - desabamentos, incêndios, etc. - não é raro que tomemos conhecimento, através da imprensa, que a construção não tinha sequer o "Habite-se", que é um documento emitido pelas autoridades municipais ou órgãos competentes que atesta que a obra de construção do imóvel foi concluída e a sua adequação às normas e regulamentações vigentes. Também não é difícil nos depararmos com estabelecimentos que não disponham de alvarás de funcionamento, como vimos no recente caso do incêndio que atingiu a Pousada Garoa, em Porto Alegre (RS), no último dia 26 de abril, que causou a morte de dez pessoas e que deixou outras quinze feridas - a pousada não tinha alvará e nem o Plano de Proteção e Combate a Incêndios (PPCI) válidos. E se isso não diz tudo, diz muito do emaranhado de irregularidades que a falta de fiscalização e outras ingerências provocam no amplo campo da segurança predial, o que leva muitos a dizerem - sejam proprietários de edificações que estão longe de atender completamente às normas de segurança, sejam os profissionais que têm de mostrar um pronto atendimento quando ocorrem os sinistros -: "Tomara que não aconteça nada de ruim naquele prédio".

Naquela quinta-feira de março uma providencial e benfazeja chuva caiu sobre a capital pernambucana, ajudando os valentes soldados do fogo do Corpo de Bombeiros de Pernambuco, que não precisaram atuar para controlar e combater as chamas que tomavam o topo do Edifício Botanik. E assim mais um sinistro foi vencido numa edificação de grande altura, sinistro esse que, segundo as primeiras avaliações, foi possivelmente causado por um curto-circuito.

Antes de encerrar e só para lembrar o óbvio ululante, não é todo dia que uma chuvinha cai para ajudar a combater um incêndio no topo de um edifício.

27 de abril de 2024

À procura de uma morada

 Por Sierra



Fotos: Arquivo do Autor
Aspecto da Rua João Lopes de Albuquerque: para cada rua calçada e  que não enfrenta inundação na época das chuvas, a Ilha de Itamaracá possui nove de chão de terra batida e/ou pavimentadas que são transformadas em rios em tempos chuvosos. Somado a isso, a urbanização caótica deu margem a uma arquitetura que pende à favelização em muitos logradouros


Neste ano, em dois dias de chuvas intensas, a casa onde eu moro, que pertence à minha mãe, uma casa muito simples, foi invadida pelas águas. Não foi a primeira vez que isso aconteceu; e, certamente, não foi a última.

Como centenas, milhares de outras casas construídas aqui na Ilha de Itamaracá, a da minha mãe foi erguida sobre uma área alagadiça sem preparo adequado do terreno e ainda por cima espremendo um córrego. Ou seja, não poderia mesmo dar certo; e as inundações iriam acontecer em algum momento.


Aspectos da Rua Pau-ferro: sem pavimentação e coberta por lama e detritos arrastados pela chuva


Quem já passou pelo pesadelo de ter a casa invadida pela água da chuva sabe que isso é um verdadeiro pesadelo: a sujeita toda; o sentimento de impotência e de derrota; as coisas que ficam perdidas... É uma verdadeira tragédia pessoal.

Em vista de tais ocorrências eu tratei de procurar casa para me mudar a fim de dar um basta nessa situação ruim. Busquei anúncios em sites especializados. Fui ver os imóveis in loco. Telefonei e troquei mensagens com os proprietários e/ou com seus representantes. Andei, andei que só a má notícia e até agora nada.


Dois flagrantes da Rua Jenipapo: embora seja pavimentada com paralelepípedos, esta via sofre em todos os períodos de chuva com o acúmulo de água; água essa que invade casas e que destrói o que encontra pela frente


Aqui o transbordamento revela que a passagem da água pelas manilhas foi bloqueada. A casa da foto seguinte fica nesse terreno do canal






Não é tarefa das mais fáceis e confortáveis procurar outra morada, porque trocar de moradia requer muito mais do que a escolha do imóvel propriamente dito: você também tem de avaliar onde ele está localizado. Além disso, tem o fato das vivências e das raízes que você fincou no lugar onde morou durante alguns anos. Não é simples se desprender dessas memórias.

Em mais de uma ocasião eu fui tomado pela decepção no que diz respeito aos imóveis. Anúncios da internet me passaram uma projeção que não correspondia à realidade quando eu fui visitar as casas. Sem falar que tais anúncios por vezes não costumam nos dar uma ideia mínima que seja do entorno do imóvel, de modo que, quando você chega lá, se depara com cenários lamentáveis. e desencantadores. A casa ficava próxima à um córrego e o terreno estava alagado. Ou a um lixão. A rua, sem asfalto, estava com esgoto correndo a céu aberto e com poças que mais pareciam lagoas. As paredes do imóvel eram conjugadas com as de outro - e eu tenho verdadeiro horror a imóveis assim. As dimensões  da casa e do terreno pareciam menores do que você vira no anúncio atraente. O imóvel, na verdade, era parte de um condomínio e condomínios costumam ser um inferno, ainda mais em balneários, como é o caso desta ilha onde eu moro, para onde vem, para onde costumam vir uns espécimes mal-educados que não respeitam absolutamente ninguém da vizinhança e colocam aparelhos de som ligados nas alturas pela noite adentro e que jogam lixo na sua porta. E ainda tem os preços fora da realidade local cobrados pelos proprietários dos imóveis; preços esses que levam ou podem levar você a pensar que a pessoa realmente não tem noção alguma do contexto em que suas propriedades estão inseridas.



Rua Dr. Valter Jatobá: aqui e ali o aspecto de abandono dá a tônica nos logradouros da  Ilha de Itamaracá


Como bem avaliou Dona Zeza, mãe do meu amigo Adriano Ribeiro - ele está, inclusive, me auxiliando nessa difícil tarefa -, escolher uma casa para comprar exige de nós muita cautela e paciência para que não façamos escolhas que, ao fim e ao cabo, não nos trarão satisfação e sim aborrecimentos e frustrações, porque uma casa não é como um objeto que você compra numa loja, se arrepende e vai lá e troca. Não é assim. Por isso, eu tenho tido cuidado para não me apressar e nem meter os pés pelas mãos.




Rua Jacarandá: sem pavimentação, o logradouro é cenário de buracos abertos pela força das enxurradas




Rua Ipê-amarelo: não existe sequer um ipê-amarelo neste lugar; o que se vê nele é um canal que está em processo de erosão. Foi o represamento deste canal que causou, semanas atrás, uma grande inundação em parte das ruas Jenipapo e Pau-ferro, inundação essa que atingiu várias casas, inclusive, a  da minha mãe. O muro, à esquerda na foto, cercou um terreno onde o córrego deveria correr naturalmente. Tragédias naturais  geralmente não são apenas naturais: elas contam com uma contribuição humana. Sem fiscalização da Municipalidade, muitos fazem o que querem na Ilha de Itamaracá em termos de ocupação do solo


A exemplo do que fiz noutros dias, hoje, ao sair da academia, eu percorri várias ruas desta Ilha de Itamaracá à procura de casas com placas de "vende-se" que não aparecem nos anúncios dos sites OLX E Zap Imóveis. Andei, andei, andei... E parei aqui e ali para contemplar os cenários. Nossa, como são feias e descuidadas as ruas deste lugar. E como são deprimentes e feias muitas  das moradias que foram erguidas por aqui. Tem coisa que você vê e só acredita que aquele troço existe porque está diante dele. É uma arquitetura medonha a predominante na ilha. Você percorre grandes extensões de ruas e avenidas e para onde olha se depara com imóveis mal construídos e projetados formando um quadro com seu quê de favelas, porque muito do que foi erguido em matéria de moradias e de estabelecimentos comerciais na Ilha de Itamaracá pendeu para uma favelização do lugar. Daí por que você se depara com centenas e centenas de imóveis construídos à beira do mar, de rios e córregos e com invasões descaradas de mangues e de mata nativa sem que a Municipalidade e o Ministério Público façam absolutamente nada para coibir isso.

A esta altura você leitor deve estar se perguntando por que que, pintando um quadro como esse, onde predomina o desencanto, eu ainda queira continuar ou pense em continuar morando neste lugar. Eu sei exatamente por quê. É que é muito forte em mim o apego à presença do mar. Aqui o mar se encarrega da tarefa de se sobrepor a todos os males urbanísticos que há tempos tomam a Ilha de Itamaracá e suas ruas repletas de sujeiras, buracos, águas empoçadas, invasões e desencantos.


PS - Um conselho: nunca e em hipótese alguma adquira um imóvel na Ilha de Itamaracá durante o verão, porque, quando o inverno chegar, você poderá ter surpresas desagradáveis.


20 de abril de 2024

Sobre como nós maltratamos os idosos

 Por Sierra



Foto: Luís Cesar Silva
Cômodo onde vivia o idoso que foi levado morto a uma agência bancária.
 Quando eu penso que existem por aí inúmeras Marias da Conceição e milhares de Paulos Roberto Braga sendo humilhados, espancados, maltratados, explorados e abandonados por seus entes queridos que, depois de subtraírem o que de bom havia neles, os relegam à posição de rejeitos sociais, eu me sinto um pouco menor como ser humano e fico a imaginar o que o futuro me reserva como um idoso que daqui a pouco eu serei



Eu já abordei mais de uma vez e sempre hei de abordar esse acontecimento que para mim foi muito traumatizante. Trata-se do episódio em que minha avó Maria da Conceição chegou a um ponto de sua vida em que a maioria dos seus filhos não quis cuidar dela, porque, eu imagino, ela deixara de ser útil para eles e se tornara um fardo muito pesado que eles até tinham disposição para carregar, mas consideraram que o cômodo mesmo era deixá-la para quem  quisesse cuidar dela. Isso, somado às vezes em que eu fui incompreensivo com ela, às vezes em que eu lhe dirigi palavras duras e às vezes em que eu de alguma forma desrespeitei a sua velhice, me deixaram arrasado quando ela partiu, internada num hospital. Eu chorei tanto. E me culpei tanto. (Desculpem-me por estar chorando agora neste exato momento em que escrevo isso.) Minha avó não merecia o desprezo que a maioria dos seus filhos lhe deu.

A experiência que eu tive  nos anos finais de existência da minha avó me fez rever a minha própria condição de filho de uma mulher já idosa e de mim mesmo como um indivíduo que chegou aos 50 anos de idade e percebeu e vivenciou episódios de etarismo, porque, numa sociedade onde só e somente só a jovialidade, a juventude e a beleza física são valorizadas, os velhos figuram como os indesejados e rejeitados.

Não é só o abandono e o não querer cuidar que caracterizam, digamos assim, os maus-tratos dos idosos. Também são maus-tratos a exploração financeira; o não alimentar correta e adequadamente; o não dar atenção ao que eles falam; o acomodá-los no quarto lá nos fundos da casa para que as visitas não os vejam; o desrespeito às preferências e aos gostos deles; a privação de cuidados médicos; o não reconhecimento de seus saberes; o terror psicológico e o amedrontamento; a chantagem emocional; o ficar encarregando eles de irem a tais e tais lugares porque eles não pagam passagens em ônibus e são atendidos em filas preferenciais; as agressões físicas e verbais; é o não deixar que eles falem nem deem opinião; é mantê-los em cárcere privado; é menosprezá-los; é dizer que o tempo deles já passou; etc.

Eu pensei em tudo isso quando vi as imagens chocantes que circularam na imprensa e nas redes sociais, nesta semana, mostrando um idoso, já morto, sedo conduzido numa cadeira de rodas por uma mulher, numa agência bancária, no Rio de Janeiro, com o fito de assinar a liberação de um empréstimo financeiro. Pelo que eu até agora li sobre o caso do senhor Paulo Roberto Braga, de 68 anos de idade, a perícia não soube indicar se ele morrera horas antes ou a caminho do banco. Independentemente disso, o fato expôs que ele se encontrava bastante debilitado e que recebera tratamento médico havia poucos dias; e que vivia num cômodo de cerca de quatro metros quadrados com paredes sem reboco e chão de terra, frio, úmido e com cheiro de mofo, onde havia uma cama improvisada sobre caixotes com um colchão velho e outros objetos, segundo reportagem publicada pelo jornal O Globo ontem. A meu ver, dizer que a mulher que acompanhou Paulo Roberto Braga até o banco tem problemas psicológicos só piora a condição de abandono em que ele se encontrava, porque, em tese, ele estava sob os "cuidados" de alguém que não tinha capacidades física e mental plenas para tanto.

Tudo o que até agora foi apurado sobre o caso do senhor Paulo Roberto Braga deixou ver como parte de nossa sociedade trata os idosos. E essa situação não diz só respeito e nem está restrita apenas aos idosos pobres. Não, essa situação horrenda e calamitosa é, infelizmente, verificada em todos os estratos sociais. Faça você leitor, uma busca rápida na internet que você irá se deparar com inúmeras reportagens narrando episódios de maus-tratos de idosos praticados, na maioria das vezes, pelos próprios parentes deles; episódios esses que revelam o grau de vulnerabilidade em que eles se encontram.

Não duvido que, assim como eu, você que agora que está lendo este artigo tenha pelo menos um relato de maus-tratos a idosos ocorridos na realidade em que você vive; relato ou relatos esses dos quais você tomou conhecimento em sua família, na sua vizinhança e até mesmo presenciou em algum outro lugar, como num ponto de ônibus, num hospital ou na fila de um supermercado.

Crimes contra idosos são praticados todos os dias e em grandes quantidades neste país. Crimes esses perpetrados diariamente em abrigos, nas casas onde esses idosos moram  e em vários outros locais. Crimes que muitas vezes só são descobertos quando as vítimas já penaram por anos a fio como pobres diabos aos quais não se devessem nenhuma consideração, nenhum respeito e nenhuma humanidade, como se a eles restasse apenas um sofrer e um fim de vida indigno, vergonhoso, humilhante e cruel.

Quando eu penso que existem por aí inúmeras Marias da Conceição e milhares de Paulos Roberto Braga sendo humilhados, espancados, maltratados, explorados e abandonados por seus entes queridos que, depois de subtraírem o que de bom havia neles, os relegam à posição de rejeitos sociais, eu me sinto um pouco menor como ser humano e fico a imaginar o que o futuro me reserva como um idoso que daqui a pouco eu serei.

Séculos e séculos de processo civilizatório não conferiram a nós um sentimento intenso e profundo que fosse suficiente para tratarmos os idosos com todo o respeito e com toda a dignidade que eles merecem. E nos comportamos como se não fôssemos nunca envelhecer. "Ah, mas existem idosos que não valem nada, que são pessoas criminosas e ruins", você pode me dizer. Sim, é verdade isso. Como também é verdade que velhice não faz zerar tudo o que fizermos ao longo de nossa existência, como se a velhice significasse uma absolvição e um renascimento ético e moral. Não, não se trata disso. O que normalmente ocorre é que, independentemente da sua trajetória de vida, se o indivíduo é bom ou mau, se é honesto ou desonesto, se é pobre ou rico, ele é malquisto pura e simplesmente por sua condição de idoso, e, por isso, deve ser rejeitado, evitado e descartado como um objeto que quebrou e/ou que ficou ultrapassado e caiu em desuso.

Assim como não aprendemos a morrer no sentido de compreender que a morte é nosso destino comum irrevogável, nós também não aprendemos a envelhecer.

Eu não temo propriamente a velhice, porque eu sei que ninguém, absolutamente ninguém, seja de que estrato social for, escapará de algum tipo de maus-tratos. O que vez por outra me acomete é o olhar mergulhado no vazio, momentos em que eu, reflexivo, lamento profundamente que nós sejamos tão cruéis e desumanos como nós somos.