Por
Sierra

Fotos: Arquivo do Autor
A partir de uma obra inovadora e repleta de gostosuras, a Fundação Gilberto Freyre montou uma exposição no Shopping Plaza
Quem tem familiaridade e conhece a vasta obra do
pernambucano Gilberto Freyre sabe que, em alguns dos seus estudos, ele foi
pioneiro em várias frentes, como o uso de jornais e de álbuns de fotografias de
famílias como fontes de pesquisa.
Em 1939 um desses pioneirismos do autor de Mucambos do Nordeste veio a lume com a
publicação do livro Açúcar - na época a palavra ainda era
escrita com dois S -, o que serviu como mais munição para os críticos dele o
atacarem, porque não se admitia que um estudioso sério pudesse escrever um
livro recheado de receitas de bolos e doces; e ainda mais escrito por um homem,
visto que o cozinhar e o anotar receitas, para muitos, "era coisa só de
mulher".
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| Nesta e na foto seguinte, reproduções de ilustrações feitas pelo pernambucano Manoel Bandeira, artista que muito colaborou com Gilberto Freyre |
É preciso que se diga que o interesse freyreano pela
alimentação, em geral, e pelos bolos e pela doçaria, em particular, remonta a
um tempo bem anterior tanto à publicação de sua obra mais comentada e
celebrada, que é Casa-grande & senzala (1933) e do
próprio Açúcar (1939). Num dos artigos da série numerada e sem
título que publicou no Diario de Pernambuco na década de 1920,
Gilberto Freyre abordou o assunto ao imaginar como deveria ser um típico e
tradicional restaurante, café ou confeitaria do Recife:
Imagino bem como seria semelhante café: uns papagaios
em gaiolas de latas, coco verde à vontade pelo chão - não se serve coco verde
nos cafés do Recife! - uma fartura de vinho de jenipapo, folhas de canela
aromatizando o ar com seu pungente cheiro tropical. À noite, menestréis -
cantadores! - cantando ao violão trovas de desafio; num canto uma dessas
pretalhonas vastas e boas, assando castanhas ou fazendo pamonha. Ao seu lado,
quitutes e doces, ingenuamente enfeitados com flores de papel recortado,
anunciando uma culinária e uma confeitaria que constituem talvez a única arte
que verdadeiramente nos honra. Isso, sim, seria uma delícia de café (Gilberto Freyre. "26". In Tempo
de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira
mocidade do autor: 1918-1926. Organizado por José Antônio Gonsalves de
Mello. Vol. I. São Paulo: Instituição Brasileira de Difusão Cultural; Brasília:
Instituto Nacional do Livro, 1979, p. 322. Originalmente o artigo foi publicado
na edição do Diario de Pernambuco do dia 14 de outubro de
1923).
Decerto que hoje seria muito improvável ver num café tanto
"papagaios em gaiolas" como "pretalhonas vastas e boas" num
canto; contudo, a descrição de uma identidade local e a defesa do caráter
regional de comida aparecem ali e é algo que vale até para os dias atuais, indo
na contramão da padronização alimentar vindas com as alienígenas redes de fast
food. A ênfase nesse assunto, ainda na década de 1920, foi reforçada por
Gilberto Freyre e alguns dos seus amigos, como Odilon Nestor e Amaury de
Medeiros, e seu, Alfredo Freyre, quando da fundação, na capital pernambucana,
do Centro Regionalista do Nordeste, em abril de 1924, e, dois anos depois, com
a realização, também no Recife, do 1º Congresso Brasileiro de Regionalismo,
evento esse sobre o qual Gilberto Freyre escreveu o muito controverso Manifesto
Regionalista de 1926, publicado em 1952, obra essa que foi durante anos
atacada pelo modernista Joaquim Inojosa, que afirmava que em 1926 não houve
declaração de manifesto nenhum.
No trato e no permanente estudo da chamada
"civilização do açúcar" nordestina, Gilberto Freyre acreditava numa
"sociologia do açúcar"; e isso ele abordou numa conferência havida
dentro do programa do curso "Sociologia do açúcar", ministrado
durante os meses de outubro e novembro de 1970 no Museu do Açúcar, que existia
na época e que foi, posteriormente, incorporado ao Museu do Homem do Nordeste,
da Fundação Joaquim Nabuco. Disse-nos o autor de Aventura e rotina:
Se não há - pode haver e, ao meu ver, estaria já em
formação - uma sociologia do açúcar, como pode haver, ou já haveria em
potencial, uma sociologia do trigo, outra do vinho, ainda outra da mandioca.
Todo produto que seja, sob critério antropológico, a base de um complexo
sociocultural de vida e de convivência humana, é susceptível de servir de
objeto a uma sociologia especializada no seu estudo (Gilberto Freyre. "A contribuição brasileira
para uma sociologia do açúcar". In Sociologia do açúcar.
Recife: Instituto do Açúcar e do Álcool/Museu do Açúcar, 1971, p. 9).

Vista panorâmica do espaço da exposição: faltaram cor e alegria à composição do cenário, elementos que poderiam torná-lo mais atraente
No muito que escreveu sobre o tema da comida e dos
doces vê-se que Gilberto Freyre era um apreciador da boa mesa nordestina mesmo
sendo ele um homem cosmopolita e muito viajado, que conheceu diferentes
cozinhas, formas de comer e hábitos alimentares ao redor do mundo. E no
livro Açúcar ele, que disse saber que o açúcar é um produto
que pode ser extraído de várias plantas, sendo que, no Brasil - e não apenas
aqui -, foi com a manufatura do açúcar de cana que ele se tornou efetivamente
presente na alimentação humana, revelou a sua relação com a temática das
comidas adocicadas:
Bolos e doces, coisas de doçaria, de pastelaria e de
cozinha, estão entre as que o autor vem considerando mais atraentes do ponto de
vista pictórico e não apenas gastronômico; do artístico e não apenas do sociológico
- o sociológico sob que passou a vê-los e até a estudá-los desde que se tornou
estudante de sociologia e de ciências afins (Gilberto Freyre. Açúcar: uma sociologia
do doce, com receitas de bolos e doces do Nordeste do Brasil . 5ª ed.
São Paulo: Global, 2007, p. 24).
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Exemplar da edição príncipe do livro Açúcar
Dentro do complexo dos engenhos de cana-de-açúcar, a
doçaria impregnou as dependências das casas-grandes com cheiros e sabores que
eram verdadeiros manjares dos deuses. O alagoano Manuel Diégues Júnior, autor
de um estudo bastante conhecido sobre os engenhos nos quais se extraía da cana
o tal elemento, chegou mesmo a dizer que, "Onde o açúcar se espalhou em
utilização, servindo proveitosamente e criando como que uma arte culinária no
Brasil, no Nordeste sobretudo", foi - ele destacou - "no preparo de
doces e bolos"; nos doces de caju, de mangaba, de maracujá, de jenipapo,
bolos e sequilhos de vários tipos, "muitos deles criações especiais,
trazendo tradicionalmente o nome da família que o ideou, tal o bolo Souza
Leão" ou o nome da engenho onde a iguaria foi criada, como o bolo
Suspiros, do Engenho Noruega (Manuel Diégues Júnior. O engenho de
açúcar no Nordeste. Documentário da Vida Rural nº 1. Rio de Janeiro:
Ministério da Agricultura/Serviço de Informação Agrícola, 1962, p. 55).
Cheiros e sabores que inspiram
Tomando esse universo e principalmente a obra Açúcar como
fundamento e inspiração, a Fundação Gilberto Freyre, em parceria com o Shopping
Plaza, localizado no bairro de Casa Forte, no Recife - não é demais dizer que
as terras ou grande parte das terras que deram origem a esse bairro
compreendiam um dos mais antigos e importantes engenhos de cana-de-açúcar
pernambucanos, o Engenho Casa Forte -, montou, no piso L4 daquele centro de
compras e lazer, a exposição "Açúcar: sabores, cheiros e memórias",
que eu fui prestigiar na última quarta-feira.
Montada num cenário todo ele feito de madeira como se
fosse uma casa sem telhado e sem algumas de suas paredes, a princípio eu
avaliei que a exposição, cuja curadoria coube a Jamille Barbosa, que é diretora
executiva da Fundação Gilberto Freyre, estava muito simples e acanhadinha,
mesmo considerando o local onde ela fora instalada. Daí a pouco eu avaliei também
que, por se tratar de bolos e doces e, ainda por cima, estarmos em pleno mês
das festas juninas com suas várias comidas repletas de açúcar - pamonha,
canjica, mungunzá, bolo pé-de-moleque, bolo de milho, etc. – e seu muito colorido,
sobretudo das vestimentas os integrantes das quadrilhas, faltou cor ao cenário,
deixando-o muito pouco atraente. Por outro lado, eu, como conhecedor da obra
freyreana, considerei que, em todo o caso, ela apresentava para o público os
elementos essenciais que aquele estudo de Gilberto Freyre - junto, claro, com o
tal Manifesto Regionalista de 1926 - abordou e propôs.
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Nesta foto e na seguinte, livros de culinária do acervo de Gilberto Freyre
Na sisudez bicolor do cenário, o público entra em contato com utensílios domésticos que eram muito comuns, pelo menos em casas humildes daqui de Pernambuco, como abanador de palha, colheres de pau, raladores feitos de madeira, flandres e aço; também com fôrmas de bolos de vários formatos; trechos da obra Açúcar reproduzidos nas "paredes"; recipientes contendo alguns tipos de doces; a receita de bolinhos de milho; reproduções de desenhos feitos pelo artista plástico pernambucano Manoel Bandeira para ilustrar aquela obra pioneira do Mestre de Apipucos; um exemplar da 1ª edição de Açúcar; etc. O que está exposto ali é como que um resumo do espírito e finalidade do livro; a exposição que, ao meu ver, falhou, digamos assim, pelo aspecto sisudo e bicolor do cenário, acertou, por assim dizer, no quesito didático.
Nas palavras do antropólogo Raul Lody, que há muitos
anos pesquisa e escreve sobre alimentação, o açúcar é uma iguaria por si mesmo;
e, mais do que isso, quando em combinação com outros elementos e especiarias
dando forma a doces:
Os doces acompanham a vida, as trajetórias individuais
de sociedades; construíram identidades, compondo com arquitetura, pinturas,
esculturas, músicas, danças, indumentárias; acervos patrimoniais de valor e que
singularizam o homem nordestino (Raul Lody. "Comidas do Nordeste".
In Caminhos do açúcar: ecologia, gastronomia, moda, religiosidade e
roteiros turísticos a partir de Gilberto Freyre Rio de Janeiro:
Topbooks Editora, 2011, p. 183).
Evocando e celebrando um estudioso de grande quilate, uma obra pioneira e toda uma tradição culinária muito pernambucana e nordestina, a exposição "Açúcar: sabores, cheiros e memórias", que está em cartaz no Shopping Plaza promove e apresenta Gilberto Freyre a um público que, talvez, não saiba que, além dos clássicos Casa-grande & senzala, Sobrados e mucambos e Ordem e progresso, ele escreveu também o delicioso e inovador livro Açúcar.
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