13 de junho de 2026

Quanto mais doces, melhor: Gilberto Freyre e algumas delícias feitas com açúcar

Por Sierra

  

Fotos: Arquivo do Autor
A partir de uma obra inovadora e repleta de gostosuras, a Fundação Gilberto Freyre montou uma exposição no Shopping Plaza

  

Quem tem familiaridade e conhece a vasta obra do pernambucano Gilberto Freyre sabe que, em alguns dos seus estudos, ele foi pioneiro em várias frentes, como o uso de jornais e de álbuns de fotografias de famílias como fontes de pesquisa.

Em 1939 um desses pioneirismos do autor de Mucambos do Nordeste veio a lume com a publicação do livro Açúcar - na época a palavra ainda era escrita com dois S -, o que serviu como mais munição para os críticos dele o atacarem, porque não se admitia que um estudioso sério pudesse escrever um livro recheado de receitas de bolos e doces; e ainda mais escrito por um homem, visto que o cozinhar e o anotar receitas, para muitos, "era coisa só de mulher".



Nesta e na foto seguinte, reproduções de ilustrações feitas pelo pernambucano Manoel Bandeira, artista que muito colaborou com Gilberto Freyre




É preciso que se diga que o interesse freyreano pela alimentação, em geral, e pelos bolos e pela doçaria, em particular, remonta a um tempo bem anterior tanto à publicação de sua obra mais comentada e celebrada, que é Casa-grande & senzala (1933) e do próprio Açúcar (1939). Num dos artigos da série numerada e sem título que publicou no Diario de Pernambuco na década de 1920, Gilberto Freyre abordou o assunto ao imaginar como deveria ser um típico e tradicional restaurante, café ou confeitaria do Recife:

Imagino bem como seria semelhante café: uns papagaios em gaiolas de latas, coco verde à vontade pelo chão - não se serve coco verde nos cafés do Recife! - uma fartura de vinho de jenipapo, folhas de canela aromatizando o ar com seu pungente cheiro tropical. À noite, menestréis - cantadores! - cantando ao violão trovas de desafio; num canto uma dessas pretalhonas vastas e boas, assando castanhas ou fazendo pamonha. Ao seu lado, quitutes e doces, ingenuamente enfeitados com flores de papel recortado, anunciando uma culinária e uma confeitaria que constituem talvez a única arte que verdadeiramente nos honra. Isso, sim, seria uma delícia de café (Gilberto Freyre. "26". In Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor: 1918-1926. Organizado por José Antônio Gonsalves de Mello. Vol. I. São Paulo: Instituição Brasileira de Difusão Cultural; Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1979, p. 322. Originalmente o artigo foi publicado na edição do Diario de Pernambuco do dia 14 de outubro de 1923).






Decerto que hoje seria muito improvável ver num café tanto "papagaios em gaiolas" como "pretalhonas vastas e boas" num canto; contudo, a descrição de uma identidade local e a defesa do caráter regional de comida aparecem ali e é algo que vale até para os dias atuais, indo na contramão da padronização alimentar vindas com as alienígenas redes de fast food. A ênfase nesse assunto, ainda na década de 1920, foi reforçada por Gilberto Freyre e alguns dos seus amigos, como Odilon Nestor e Amaury de Medeiros, e seu, Alfredo Freyre, quando da fundação, na capital pernambucana, do Centro Regionalista do Nordeste, em abril de 1924, e, dois anos depois, com a realização, também no Recife, do 1º Congresso Brasileiro de Regionalismo, evento esse sobre o qual Gilberto Freyre escreveu o muito controverso Manifesto Regionalista de 1926, publicado em 1952, obra essa que foi durante anos atacada pelo modernista Joaquim Inojosa, que afirmava que em 1926 não houve declaração de manifesto nenhum.

No trato e no permanente estudo da chamada "civilização do açúcar" nordestina, Gilberto Freyre acreditava numa "sociologia do açúcar"; e isso ele abordou numa conferência havida dentro do programa do curso "Sociologia do açúcar", ministrado durante os meses de outubro e novembro de 1970 no Museu do Açúcar, que existia na época e que foi, posteriormente, incorporado ao Museu do Homem do Nordeste, da Fundação Joaquim Nabuco. Disse-nos o autor de Aventura e rotina:

Se não há - pode haver e, ao meu ver, estaria já em formação - uma sociologia do açúcar, como pode haver, ou já haveria em potencial, uma sociologia do trigo, outra do vinho, ainda outra da mandioca. Todo produto que seja, sob critério antropológico, a base de um complexo sociocultural de vida e de convivência humana, é susceptível de servir de objeto a uma sociologia especializada no seu estudo (Gilberto Freyre. "A contribuição brasileira para uma sociologia do açúcar". In Sociologia do açúcar. Recife: Instituto do Açúcar e do Álcool/Museu do Açúcar, 1971, p. 9).


Vista panorâmica do espaço da exposição: faltaram cor e alegria à composição do cenário, elementos que poderiam torná-lo mais atraente






No muito que escreveu sobre o tema da comida e dos doces vê-se que Gilberto Freyre era um apreciador da boa mesa nordestina mesmo sendo ele um homem cosmopolita e muito viajado, que conheceu diferentes cozinhas, formas de comer e hábitos alimentares ao redor do mundo. E no livro Açúcar ele, que disse saber que o açúcar é um produto que pode ser extraído de várias plantas, sendo que, no Brasil - e não apenas aqui -, foi com a manufatura do açúcar de cana que ele se tornou efetivamente presente na alimentação humana, revelou a sua relação com a temática das comidas adocicadas:

Bolos e doces, coisas de doçaria, de pastelaria e de cozinha, estão entre as que o autor vem considerando mais atraentes do ponto de vista pictórico e não apenas gastronômico; do artístico e não apenas do sociológico - o sociológico sob que passou a vê-los e até a estudá-los desde que se tornou estudante de sociologia e de ciências afins (Gilberto Freyre. Açúcar: uma sociologia do doce, com receitas de bolos e doces do Nordeste do Brasil . 5ª ed. São Paulo: Global, 2007, p. 24).


Exemplar da edição príncipe do livro Açúcar


Dentro do complexo dos engenhos de cana-de-açúcar, a doçaria impregnou as dependências das casas-grandes com cheiros e sabores que eram verdadeiros manjares dos deuses. O alagoano Manuel Diégues Júnior, autor de um estudo bastante conhecido sobre os engenhos nos quais se extraía da cana o tal elemento, chegou mesmo a dizer que, "Onde o açúcar se espalhou em utilização, servindo proveitosamente e criando como que uma arte culinária no Brasil, no Nordeste sobretudo", foi - ele destacou - "no preparo de doces e bolos"; nos doces de caju, de mangaba, de maracujá, de jenipapo, bolos e sequilhos de vários tipos, "muitos deles criações especiais, trazendo tradicionalmente o nome da família que o ideou, tal o bolo Souza Leão" ou o nome da engenho onde a iguaria foi criada, como o bolo Suspiros, do Engenho Noruega (Manuel Diégues Júnior. O engenho de açúcar no Nordeste. Documentário da Vida Rural nº 1. Rio de Janeiro: Ministério da Agricultura/Serviço de Informação Agrícola, 1962, p. 55).

 

Cheiros  e sabores que inspiram 

 

Tomando esse universo e principalmente a obra Açúcar como fundamento e inspiração, a Fundação Gilberto Freyre, em parceria com o Shopping Plaza, localizado no bairro de Casa Forte, no Recife - não é demais dizer que as terras ou grande parte das terras que deram origem a esse bairro compreendiam um dos mais antigos e importantes engenhos de cana-de-açúcar pernambucanos, o Engenho Casa Forte -, montou, no piso L4 daquele centro de compras e lazer, a exposição "Açúcar: sabores, cheiros e memórias", que eu fui prestigiar na última quarta-feira.

Montada num cenário todo ele feito de madeira como se fosse uma casa sem telhado e sem algumas de suas paredes, a princípio eu avaliei que a exposição, cuja curadoria coube a Jamille Barbosa, que é diretora executiva da Fundação Gilberto Freyre, estava muito simples e acanhadinha, mesmo considerando o local onde ela fora instalada. Daí a pouco eu avaliei também que, por se tratar de bolos e doces e, ainda por cima, estarmos em pleno mês das festas juninas com suas várias comidas repletas de açúcar - pamonha, canjica, mungunzá, bolo pé-de-moleque, bolo de milho, etc. – e seu muito colorido, sobretudo das vestimentas os integrantes das quadrilhas, faltou cor ao cenário, deixando-o muito pouco atraente. Por outro lado, eu, como conhecedor da obra freyreana, considerei que, em todo o caso, ela apresentava para o público os elementos essenciais que aquele estudo de Gilberto Freyre - junto, claro, com o tal Manifesto Regionalista de 1926 - abordou e propôs.


Nesta foto e na seguinte, livros de culinária do acervo de Gilberto Freyre




Na sisudez bicolor do cenário, o público entra em contato com utensílios domésticos que eram muito comuns, pelo menos em casas humildes daqui de Pernambuco, como abanador de palha, colheres de pau, raladores feitos de madeira, flandres e aço; também com fôrmas de bolos de vários formatos; trechos da obra Açúcar reproduzidos nas "paredes"; recipientes contendo alguns tipos de doces; a receita de bolinhos de milho; reproduções de desenhos feitos pelo artista plástico pernambucano Manoel Bandeira para ilustrar aquela obra pioneira do Mestre de Apipucos; um exemplar da 1ª edição de Açúcar; etc. O que está exposto ali é como que um resumo do espírito e finalidade do livro; a exposição que, ao meu ver, falhou, digamos assim, pelo aspecto sisudo e bicolor do cenário, acertou, por assim dizer, no quesito didático.

Nas palavras do antropólogo Raul Lody, que há muitos anos pesquisa e escreve sobre alimentação, o açúcar é uma iguaria por si mesmo; e, mais do que isso, quando em combinação com outros elementos e especiarias dando forma a doces:

Os doces acompanham a vida, as trajetórias individuais de sociedades; construíram identidades, compondo com arquitetura, pinturas, esculturas, músicas, danças, indumentárias; acervos patrimoniais de valor e que singularizam o homem nordestino (Raul Lody. "Comidas do Nordeste". In Caminhos do açúcar: ecologia, gastronomia, moda, religiosidade e roteiros turísticos a partir de Gilberto Freyre Rio de Janeiro: Topbooks Editora, 2011, p. 183).



Evocando e celebrando um estudioso de grande quilate, uma obra pioneira e toda uma tradição culinária muito pernambucana e nordestina, a exposição "Açúcar: sabores, cheiros e memórias", que está em cartaz no Shopping Plaza promove e apresenta Gilberto Freyre a um público que, talvez, não saiba que, além dos clássicos Casa-grande & senzala, Sobrados e mucambos e Ordem e progresso, ele escreveu também o delicioso e inovador livro Açúcar.

6 de junho de 2026

Será mesmo que os sonhos não envelhecem?

Por Sierra

 

 

Foto: Joshua Earle
Quando a vida parecer estar esgotada, é hora de retraçar rotas, se desfazer de fardos que não fazem mais sentido algum carregar e se abastecer de outros projetos, metas, desejos e propósitos

 

Para além daquele pão doce gostoso e dos passeios que os nossos pensamentos às vezes fazem enquanto estamos dormindo, a palavra sonho tem conotações e/ou significados diversos para todos e cada um de nós. Muita gente, na verdade, nem recorre à palavra sonho porque, segundo alguns, sonho remete a algo que é deveras difícil de alcançar; então, eles preferem dizer que não têm e nem cultivam sonhos e, sim, que eles têm planos, metas, projetos e, vá lá, desejos - todos eles bem possíveis de serem alcançados. Já outros miram horizontes que não dependem unicamente deles para acontecer e/ou ser realizados, como ganhar um grande prêmio na loteria, por exemplo; ou, para quem acredita no sobrenatural, superar obstáculos, como uma doença muito grave, contando com uma intervenção divina no seu caso.

Os sonhos têm muitos formatos, pesos, cores, cheiros, sabores, tamanhos, sentimentos, afetos, valores; podem estar perto ou bem distantes; aparecem vez por outra na televisão ou nas redes sociais; são amplos e com muitos cômodos, varandas e uma piscina na parte da frente; possuem olhos azuis, bochechas rosadas e cabelos loiros; é preciso enfrentar uma viagem de várias horas para se chegar a eles; às vezes eles saem para trabalhar às 5h e só retornam para seus lares depois das 20h; têm pelos e bagunçam a casa toda; estão ali numa loja da Avenida Conde da Boa Vista; passam todos os dias, de segunda à sexta-feira, defronte ao portão quando vão para a faculdade; apresentam assentos de couro legítimo e atingem a velocidade de 180 km/h em menos de 15s; nunca puxam conversa com ninguém na academia; apresentam versões com câmeras triplas e baterias ultrapotentes; gostam de curtir as férias no sítio dos avós; são raros porque a tiragem foi de apenas quinhentos exemplares; costumam sorrir cheios de faceirice quando se cruza com eles nas ruas...

Estive por esses dias a pensar em sonhos - com seus múltiplos significados - olhando para o percurso que até agora eu atravessei na vida e questionando os porquês de, por várias razões - mudanças de hábitos, aprendizados, correção de rota, desinteresse, dificuldades financeiras e outras mais, conquistas que se revelaram ser bem diferente de como foram imaginadas, perdas de entes queridos, fins de relacionamentos afetivos, apostas e investimentos que não deram bons resultados e por aí vai -, eu ter deixado para lá e abandonado completamente não apenas metas, projetos e objetivos como também pessoas pelo caminho.

Decerto que, para alguns indivíduos - e esse dever ter sido o meu caso -, os desencontros, os esforços vãos, a mudança de sentimentos, o reavaliar o que realmente importava para si, os reveses, as rebordosas e, principalmente, o envelhecimento trazem consigo constantes análises que resultam em ressignificações de entendimentos que pareciam ser inalteráveis em nós, como quem diz, "se não for isso ou se não for assim, não serve e eu não quero".  Olhando para o caminho que eu até o presente momento trilhei, eu vejo que o que foi ficando às margens da minha estrada se amontoaram formando uma montanha de detritos, um monturo onde estão depositados fracassos, objetos dos quais me desfiz, projetos dos quais me desinteressei, desilusões, pessoas com as quais deixei de me relacionar, tesouros que eram ouro de tolo e toda sorte de quinquilharias palpáveis e impalpáveis que estavam pesando em mim como fardos que eu me recusei  terminantemente a continuar carregando. E isso se deu também, em parte, porque outros propósitos, outras metas, outros projetos, outros desejos e outras ideias e reflexões tomaram o lugar daquilo que estava dentro de mim.

Não quero dizer com isso que, agora, eu sou uma pessoa renovada por inteiro. Não, não é isso. Muito do que ontem eu fui, hoje e até o fim dos meus dias eu continuarei sendo, porque a essência do que eu sou permaneceu e resistiu incólume a todas as intempéries que eu já enfrentei.

Para mim, diferentemente do que dizem os versos da canção "Clube da Esquina nº 2", sonhos não só envelhecem como também morrem e desaparecem para dar lugar a outras formas de desenhar o futuro.

30 de maio de 2026

Posicionamentos políticos

 Por Sierra

 

 

Imagem: DepositPhotos
A alienação e a falta de esclarecimentos sobre as engrenagens que movem a política podem nos levar a apoiar ideias que, no fundo, são discursos de dominação e de manutenção do status quo e não de desenvolvimento social em seu sentido mais amplo

Morando num subúrbio sem ter tido contato com livros, fontes do noticiário e mesmo com pessoas que pudessem me dar um mínimo de esclarecimento que fosse sobre a dinâmica da vida no âmbito da política - a escola não supria isso, mesmo porque, praticamente toda a minha infância escolar foi vivenciada durante a Ditadura Militar -, eu atravessei a adolescência e até entrei na fase adulta carregando o fardo pesado da alienação. No que dizia respeito a questões  da vida prática eu tinha plena consciência dela, porque, como filho de uma mão solteira pobre e sem recursos, ela e eu e, depois, meu irmão, que só chegou ao mundo quando eu completara 11 anos de idade, atravessamos muitos maus bocados, experiências essas que me marcaram profundamente; e que seguem comigo, em minhas memórias, como marcas de um tempo deveras ruim.

O ingresso na faculdade começou a definhar a minha alienação; e, a partir dali, foi que eu realmente principiei a enxergar o mundo com lentes ampliadas que me deram, se não a medida exata, uma compreensão bem maior da realidade, que era algo que eu absolutamente não tinha. E o fato de precisar conciliar trabalho com estudos e toda sorte de dificuldades que, a princípio, o alcance de um emprego não conseguiu sanar, talvez, tenha feito com que o querer saber e o querer se livrar de uma vez por todas do meu eu alienado se avolumassem em mim, me dando um nível de compreensão suficiente para despertar a minha consciência mirando os arredores do lugar onde eu vivia - e alhures - de outra maneira.

Possivelmente pelo fato de tanto ouvir frases como "todo político é ladrão" e "fulano rouba, mas faz", eu passei anos saindo de casa para ir à seção eleitoral anular o meu voto, posicionamento esse que, adiante, eu tomei como uma das maiores estupidez que eu cometi na minha vida.

A partir do momento em que eu me pus a entender que todos e cada um de nós somos seres políticos, eu me vi naturalmente identificado com o espectro político baseado e lastreado pelo pensamento de esquerda; e, sendo assim, a figura de Luiz Inácio Lula da Silva despontou como o porta-voz das ânsias de transformações sociais com as quais eu mais me identificava.

Quando não se tem letramento e nem compreensão das engrenagens, das movimentações, dos grupos ideológicos e de interesses, da política e do tecido social que constituem a sociedade em que vivemos e nem do que é denominado de consciência de classe, não é raro que assumamos posturas e defendamos lógicas de dominação que, vistas ligeiramente, parecem que são ideais e perfeitas. Por exemplo: houve um tempo em que eu acreditava piamente na defesa da meritocracia tão anunciada e defendida pela direita, como se todos, na escala social, estivessem no mesmo nível educacional para competir de igual para igual entre si, fosse por uma vaga de emprego ou por uma matrícula numa universidade pública.

Tendo me feito como cidadão consciente de seus deveres e obrigações como membro de uma sociedade e ciente do que o Estado deveria oferecer à população em geral, seguindo os ditames da Constituição, dia após dia eu fui me abastecendo de mais informações e esclarecimentos, de maneira que os pleitos eleitorais passaram a ser encarados como momentos de suma importância e de reflexão sobre que tipo de progresso e de desenvolvimento social eu defendia e esperava ver sendo implantado e conduzido neste país.

É claro que, nesse percurso pessoal, a primeira eleição do Lula foi um desses acontecimentos inesquecíveis que dão uma injeção de ânimo e de esperança e que nos fazem acreditar que a vida pode ser transformada com as realizações políticas dos governantes. Aí veio a ocorrência do que se chamou de Mensalão, algo que abalou profundamente as minhas crenças e apostas no Partido dos Trabalhadores (PT). E isso foi algo terrível para mim, como uma quebra de confiança entre amigos que nada mais consegue superar. Desacreditei de Lula, do PT e da ala esquerdista vendo tudo como parte de um todo político que era podre e corrupto. E, como se isso já não fosse o suficiente, veio o comboio da Operação Lava Jato revelando mais entranhas do jogo do poder político e tentáculos de corruptos e de corruptores com suas fomes insaciáveis para devorar o dinheiro e os recursos públicos. Foi outro baque: depois da queda, o coice, como diz a frase feita. E Lula e vários outros acabaram presos.

Minha desilusão para com a esquerda se agigantou ao mesmo tempo em que surgia um demônio direitista ganhando espaço no cenário eleitoral em âmbito nacional: Jair Bolsonaro, que passara décadas como um parasita quase invisível a olho nu, na Câmara dos Deputados, ganhou status de "salvador da pátria" - tal qual ocorrera com o igualmente de triste lembrança Fernando Collor - na onda do antilulopetismo que inundou o país com o auxílio da grande mídia. O que sucedeu a isso foi a eleição presidencial de Jair Bolsonaro, cujo mandato foi marcado por uma pandemia mortífera e por sucessivas demonstrações, por parte do ocupante do Palácio do Planalto, de que ele não tinha capacidade alguma de ser presidente da República, porque, desprovido de um senso mínimo de civilidade, como deixaram ver sucessivos discursos misóginos e homofóbicos, desprezo para com o meio ambiente e o pouco caso para com a mortandade causada pela covid-19, dentre outras aberrações.

A essa altura o chamado bolsonarismo contaminara - é essa a palavra apropriada e certa para designar o que ocorreu - milhões de brasileiros que se identificaram com a personalidade abjeta e desprezível de Jair Bolsonaro e dos filhos dele. Por esse tempo nós também ficamos sabendo qual era o nível de desonestidade daqueles que tinham comandado a tão louvada e celebrada Operação Lava Jato, o que foi outro choque de realidade, porque figuras como Sergio Moro e Deltan Dallagnol se revelaram uns inescrupulosos de primeira hora e tanto que disputaram pleitos eleitorais: aquele como senador e este como deputado federal, que acabou tendo o mandato cassado. Não fosse a Vaza Jato, possivelmente nós estaríamos até hoje acreditando em autoridades do judiciário e do Ministério Público que, apresentando-se como baluartes da ética, da moralidade e da honestidade, praticavam indecências nos bastidores dos processos, pisoteando as leis que elas diziam defender. E todo o enredo maligno que fora iniciado já ali, nos movimentos que resultaram no impeachment da presidenta Dilma Rousseff, ficou claro como um ensolarado dia de verão.

A experiência maldita do mandato de Jair Bolsonaro na presidência da República com tudo o que ele trouxe a reboque - polarização política, ataques ao processo eleitoral, defesa do regime militar instalado em 1964 neste país, louvação a torturadores, maquinação de um golpe de Estado, plano de assassinato de autoridades e etc. - fez com que eu abrisse bem os olhos para enxergar a realidade nua e crua do panorama político nacional e compreendesse, definitivamente e sem pestanejar, que, mesmo com seus erros, tropeços e malfeitorias, o único espaço que me cabia defender e atuar como cidadão e agente político, seja pela minha história de vida, seja pelas minhas convicções, seja pelas ideias de justiça social que me movem, seja, enfim, pelo meu entendimento de mundo, era/é o terreno progressista, seja com o PT, seja com qualquer outro partido que levante e empunhe firmemente a bandeira do verdadeiro desenvolvimento da sociedade, que fundamentalmente passa pelo acesso à educação de qualidade, em todos os seus níveis, e, também, pelo alcance de moradia digna, ambiente de pleno emprego e saúde e segurança públicas igualmente funcionando a contento.

Nos tempos de minha desilusão com o lulopetismo eu escrevi textos para este blog atacando e colocando Lula e Bolsonaro no mesmo tabuleiro, desejando que ambos sumissem do cenário político. Escrevi, publiquei e deixei aqui até hoje, não apaguei e nem vou apagar para que quem lê-los saiba como eu estava pensando nas ocasiões em que os escrevi.

Este 2026 é mais um ano de eleições gerais; a polarização continua em alta voltagem; e, no que depender de mim, a extrema direita será derrotada novamente para o bem de todos e de cada um de nós.

23 de maio de 2026

A preservação da memória e do legado de Naná Vasconcelos

 Por Sierra

 

Fotos: Arquivo do Autor
Foi realmente memorável a realização do seminário em homenagem a Naná Vasconcelos. Todos os que se empenharam para que o evento acontecesse estão mesmo de parabéns, inclusive, os artistas que se apresentaram dando um colorido e contagiando toda a plateia

 

Há um clichê bastante repisado que diz que "só quem está por dentro do negócio é quem realmente sabe como ele é", que equivale e que é uma variante do "só quem calça o sapato é quem sabe onde o calo aperta", que serve para explicar que fazer um julgamento apenas pelo que é visto por fora, pelo aparente não é o mesmo que avaliar tal coisa mirando-a também a partir do lado de atrás, pelos bastidores, enxergando como tudo foi feito.

Ontem, à tarde, eu fui prestigiar o acontecimento do Seminário Naná Vasconcelos: os maracatus e o Carnaval do Recife, que teve lugar na Sala Aloisio Magalhães, no campus do bairro do Derby, no Recife, da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). Resultado de uma parceria entre essa instituição e a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), que instituiu a Cátedra Naná Vasconcelos, o seminário foi uma espécie de tributo ao recifense Juvenal de Holanda Vasconcelos, o percussionista nacional e internacionalmente conhecido por Naná Vasconcelos, que faleceu em março de 2016.


Professor Moisés Santana abrindo os trabalhos

Patricia Vasconcelos, viúva de Naná, encontra-se empenhadíssima em proteger, salvaguardar e difundir o legado do marido



Porfessor Moisés Santana: salve simpatia!


Na primeira metade do seminário, que, em sua abertura contou com uma apresentação de maracatu feita por alunos da Escola de Música Naná Vasconcelos, foram divulgados, pelo professor Moisés Santana e por Patricia Vasconcelos, viúva do percussionista, os resultados parciais de uma ampla pesquisa que está em andamento na cátedra com o fito de mapear e catalogar dados da vida e da obra de Naná Vasconcelos. Ainda nessa parte do evento foi lançado o Repositório Digital Arandu UFRPE - Cátedra Naná Vasconcelos; e exibido o vídeo Naná Vasconcelos - 10 anos Doutor Honoris Causa UFRPE.


Apresentação de alunos da Escola de Música Naná Vasconcelos



Após um breve intervalo - gente, no coffee break eu comi do melhor bobó de camarão que já provei na vida: que delícia! - e antes da conversa com os membros da mesa para a segunda parte do seminário, nós assistimos a uma apresentação do caboclo de lança Mestre Lilo, que é um dos netos do saudoso e muito incensado Mestre Salustiano.


Mestre Lilo fazendo sua apresentação





Mediado pelo professor José Nilton de Almeida, falaram: Ana Paula Guedes, que integrou, durante dezesseis anos, o grupo Voz Nagô - em dado momento ela cantou um pouco: que voz linda! ; Mestre Fábio Sotero, presidente da Associação dos Maracatus Nação de Pernambuco; Mestre e babalorixá Chacon Viana; Paz Brandão, ex-gestora do Núcleo Afro da Secretaria de Cultura da Prefeitura Municipal do Recife; e a professora Claudilene Silva. Cada um deles falou de vivências artísticas e de políticas públicas culturais, recordando, aqui e ali, acontecimentos vivenciados em companhia de Naná Vasconcelos. E foi em virtude de tais falas e depoimentos que eu escrevi o que escrevi no parágrafo que iniciou este artigo, porque nem todos têm acesso ao que se passa nos bastidores de acontecimentos artísticos e culturais, sobretudo nos ligados às manifestações do que se convencionou chamar de cultura popular.

A mesa da segunda parte do seminário. Da esquerda para a direita: Fábio Sotero, Ana Paula Guedes, Claudilene Silva, José Nilton de Almeida, Mestre Chacon Viana e Paz Brandão






Alguns dos participantes da mesa, ao falarem especificamente a respeito da reunião de maracatus para a abertura do Carnaval do Recife, recordaram o empenho de Naná Vasconcelos para acabar com a rivalidade que tais grupos mantinham entre si; e esse lidar com os mestres de maracatu em suas comunidades foi algo amplamente destacado por eles, que enxergaram e compreenderam isso como algo que ia muito além de uma visita com o propósito de conhecer os locais onde os maracatus aconteciam ao longo do ano. Na avaliação de Ana Paula Guedes, a partir do momento que Naná Vasconcelos ia para as comunidades, ele dava visibilidade, por exemplo, a candomblés e a fazedores de cultura dos subúrbios do Recife. "Todo mundo tem mania de dizer que tudo que é de preto é malfeito. Então, a gente fez a coisa bem feita no Marco Zero, que é o centro do mundo, porque vai gente de tudo que é lugar pra lá", ela acrescentou.






Vídeo da cerimônia da outorga do título de Doutor Honoris Causa a Naná Vasconcelos




Hora dos comes e bebes


Quantas pessoas sabem, por exemplo, que houve e ainda hoje há resistência a respeito da presença de maracatus na noite de abertura do Carnaval, mesmo já tendo transcorrido mais de quinze anos desde a primeira vez que maracatuzeiros passaram a atuar naquela cerimônia no Bairro do Recife sob a regência de Naná Vasconcelos? É uma resistência que ganhou mais força principalmente depois, segundo Fábio Sotero, que o frevo foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Ele disse que sempre vinham questionamentos sobre a presença do maracatu naquele espaço grandioso do Carnaval; e que Naná Vasconcelos afirmava: "O maracatu não vai sair".

Quando de sua intervenção, Mestre Chacon Viana lembrou como o ilustre percussionista trabalhava para que predominasse uma harmonia entre os maracatus. Esse entendimento foi reforçado por Paz Brandão, que asseverou que a rivalidade entre os grupos era tamanha que "Ninguém ousava ir ao ensaio do outro"; ela disse ainda que Naná lutou para colocar todos em pé de igualdade, pelo menos na abertura do Carnaval.









Avaliando o papel de Naná Vasconcelos como um elemento não somente agregador como também defensor dos folguedos, Claudilene Silva destacou a importância dele para a valorização dessas expressões artísticas e culturais, principalmente as ligadas aos elementos negros da sociedade, porque, no entendimento dela, "Esta é uma cidade negra que nunca quis ser negra", disse ela se referindo ao Recife.





Para coroar um tributo e uma homenagem tão efusiva e movimentada para o inigualável Naná Vasconcelos num seminário onde tanto quanto a preservação de sua memória e do seu legado discutiu-se a permanência e a valorização da cultura popular, Mestre Chacon Viana, que já havia cantado a loa "Sou de Luanda", que ele compôs para celebrar o exímio tocador de berimbau que era Naná, nos brindou com uma apresentação da Nação Maracatu Porto Rico, que adentrou na sala e, depois, se dirigiu para o jardim daquele campus da Fundaj tornando aquele dia ainda mais inesquecível.




Nação Maracatu Porto Rico: que maravilha!



Viva a cultura popular! 

Viva os maracatus!

Viva Naná Vasconcelos!