16 de maio de 2026

O último azul: etarismo, opressão e redenção ou De como tentam impor data de validade nas pessoas ou O triunfo da velhice insubmissa

Por Sierra

 

Aproveite a vida. Não se queixe. Nada consola uma velhice idiota.

                                                                                     Fernanda Montenegro (1)

 


Imagem: DeositPhotos
Não existe juventude eterna; o que, de fato, existe é o transcurso da vida que se vai escapapando de nós dia após dia. Envelhecer é algo inevitável. Prepararmo-nos para todas as etapas da vida é a grande sabedoria do existir. Não fechemos os olhos e não ignoremos as crueldades todas que são cometidas contra os idosos. O etarismo é um dos grandes males deste nosso tempo



Nada será como antes

 

A força bruta e imperiosa do etarismo está de tal forma presente em nossa sociedade que, por mais absurdos e por vezes desumanos e cruéis, muito cruéis que sejam comportamentos deles advindos, não poucos de nós agimos como se isso fosse um fato banal da nossa existência, como o nascer, crescer, procriar e morrer. E esse entendimento que, não raro, resvala para a indiferença, para o descaso e mesmo para a prática e cumplicidade com essa chaga social, costuma nos pôr em face de cenas e situações tão infames e reprováveis sem que, no entanto, reajamos contra esse estado de coisas.

Faz quase dez anos que eu tive uma experiência bastante dolorosa com a minha avó Maria da Conceição que, na época, estava com 89 anos de idade. O modo como vários dos filhos dela lidaram com a sua condição de idosa que precisava de amparo, atenção e cuidados, me marcou negativamente de tal maneira que isso ficou a pesar na minha consciência até hoje, desde o seu falecimento, ocorrido em 2017. Eu passei dias e dias remoendo aquelas ocorrências; e sonhava constantemente com ela; e chorava como estou chorando agora em que me encontro rememorando aqueles acontecimentos ruins, porque, em certa medida, eu me vejo como cúmplice de tudo o que marcou os últimos meses de vida dela: as mudanças de casas; o não aceitar de todo as vontades dela; as ausências de quase todos os seus filhos... Minha avó, eu sei, me queria bem e me amava sobre todas as coisas; e pensar que eu não soube cuidar dela como deveria é o que mais me doi e me pesa; e eu não quero nunca me esquecer disso para que não torne a repetir o que eu fiz e nem aceitar que ajam com outrem como eu agi para com ela.

Essa experiência amarga, amaríssima, na verdade, me levou a encarar o avanço  da idade e a velhice propriamente dita, no terreno social como um todo, porque, além de eu ter uma mãe por perto, eu próprio estava/estou caminhando na minha jornada inescapável e inevitável de envelhecer numa sociedade que fundamentalmente só valoriza e exalta a juventude, relegando os mais velhos a uma espécie de escaninho onde eles quase não possam ser vistos. E essa percepção só fez se acentuar ao longo dos últimos anos, tempo esse em que experiências do meu dia a dia foram se juntando a leituras ligadas ao tema.

 

Largado na rua

 

No dia 8 de agosto do ano passado, quando eu me encontrava almoçando na sala de casa e assistia ao Jornal Hoje, da Rede Globo, vi, estarrecido, mais uma dessas notícias que de tão tristes, aterradoras e chocantes, fazem com que nossos olhos lacrimejem: o telejornal exibiu uma breve matéria que mostrou imagens de um carro estacionando e um idoso sendo retirado do veículo e largado numa calçada de um dos mais movimentados mercados públicos de São Luís do Maranhão. Até aquele momento, o telejornal não tinha mais informações sobre o flagrante.

Depois que eu acabei de almoçar, busquei mais detalhes daquele caso; e no G1MA, site também pertencente ao Grupo Globo, eu li uma reportagem publicada naquele mesmo dia; em linhas gerais, o texto, sem indicação de autoria, dizia o seguinte: o idoso, de 77 anos, fora deixado na calçada de um estabelecimento do Mercado Central de São Luís por volta das 6h18 daquela sexta-feira 8 de agosto, conforme o registro de uma câmera de segurança, que mostrou um carro estacionando, um homem descendo da carroceria - onde estava junto com uma mulher - e sendo acompanhado pelo motorista, que também descera do veículo, pegou o idoso, que se encontrava no banco do carona, e  o levou no colo para a calçada e foram embora. A reportagem disse ainda que, por meio de nota, a Secretaria Municipal da Criança e Assistência Social (Semcas) informou que o coordenador do Centro de Referência Especializada para População em Situação de Rua fora até o local e fizera o devido atendimento ao idoso, encaminhando-o para o Centro de Atenção Integral à Saúde do Idoso (CAISI). Ainda de acordo com a notícia, até aquele momento não se sabia a origem do homem e nem sobre quem o largara na calçada; e que, procurada pelo G1MA, a Polícia Civil não informara se o caso já estava sendo investigado. (2)

Quatro dias depois, o mesmo portal de notícias aprofundou as informações, informações essas que tornaram o caso ainda mais absurdo e revoltante. A apuração dos jornalistas nos deu conta de que: o homem que carregara o idoso no colo e o largara na calçada era irmão dele; que o motorista declarou que só deu uma carona ao grupo e que não sabia o que aconteceria; que a mulher sentada na carroceria era cunhada do idoso; que, segundo o levantamento feito pelas autoridades policiais, o motivo do abandono  fora uma briga familiar; que o irmão do idoso ainda não se apresentara para prestar um depoimento; que o abandonado, o senhor Romão Duarte Brito, era natural da cidade de Alcântara, onde a família dele também morava; e que, até aquele dia, nenhum parente aparecera no CAISI para buscá-lo. Em entrevista à reportagem, Isabel Lopizic, coordenadora do Centro Integrado de Apoio e Prevenção à Violência contra a Pessoa Idosa (CIAPVI) foi categórica: "Abandono é crime, principalmente de uma pessoa idosa, que está em uma situação de extrema vulnerabilidade como todo mundo percebeu. Então, a gente precisa ter esse conhecimento e tentar intervir nessa dinâmica, para que a violência deixe de existir". (3)

O episódio ocorrido em São Luís vitimando um idoso foi só um entre dezenas, centenas de outros que marcam homens e mulheres dessa faixa etária. Basta que façamos uma simples pesquisa na internet para que nos deparemos com reportagens que narram os mais diversos crimes praticados contra idosos; crimes que vão de cárcere privado até o abandono completo e total; crimes esses que, no mais das vezes, têm parentes das vítimas como protagonistas. (4)

 

O dia em que eu assisti ao filme O último azul

 

Naquela tarde do dia 24 de agosto do ano passado, quando eu me dirigi ao Cinema da Fundação, no bairro do Derby, no Recife, para assistir ao filme O último azul, do diretor Gabriel Mascaro, eu não sabia que se tratava de uma sessão de pré-estreia, de uma muitíssimo concorrida sessão de pré-estreia, melhor dizendo. De modo que, quando eu cheguei lá, me deparei com uma verdadeira multidão no corredor num clima muito efusivo e marcado pela presença do Gabriel Mascaro e pela exibição do Urso de Prata - posicionado junto a uma janela de onde podia se ver o icônico Rio Capibaribe -, que  a produção ganhara no Festival de Berlim, e, claro, não havia mais ingressos disponíveis. Desapontado, eu já estava descendo a escada para ir embora quando uma mulher me chamou e perguntou se eu  conseguira ingresso; e, ao me ouvir dizer que não, ela disse que tinha um sobrando; eu, alegre que só um pinto no lixo, paguei a ela via PIX e lhe agradeci muito  - seu nome é Marta Jeruza - por ter me chamado e oferecido o ingresso.

Agora era aproveitar o burburinho e esperar pelo início da exibição do filme.

Com um principiar sombrio e aflitivo - pelo menos o foi para mim -, a narrativa me fez mergulhar em lembranças amargas e dolorosas; e uma tristeza me tomou quase por inteiro. Aquela distopia com um pé fincado na realidade dizia de um modo muito cruel e desumano de tratar a velhice e os velhos; coisificar o indivíduo por conta de sua ancianidade é algo que lateja na primeira parte de O último azul. Inservível, imprestável, incômodo... São várias as depreciações atribuídas aos idosos como justificativas para tirá-los literalmente de circulação da sociedade livre e enviá-los para uma colônia, um grande asilo estatal onde eles têm de permanecer até o fim de suas existências.

Passada essa primeira parte pesada, tristonha e sombria, eis que, mais adiante, O último azul nos conduz por uma solar e entusiasmadora aventura, por uma feliz epopeia de uma liberdade ampla e sem restrições que navega nas águas de um rio. Nossa, que coisa emocionante e encorajadora!

Ao fim da exibição do filme - e ainda muito emocionado -, eu abracei o diretor Gabriel Mascaro e lhe agradeci pelo que acabara de ver. E deixei o Cinema da Fundação carregando comigo uma carga poderosa de destemor quanto ao futuro.

 

Retratos da velhice ou Como ser velho numa sociedade que fundamentalmente só celebra a juventude?   

 

Não há como escapar do envelhecimento. Eis um fato inalterável de nossa existência. Envelhecemos um pouco todos os dias. E não há procedimento estético, creme e aplicação de botox que consiga deter e barrar isso. E o modo como estamos na vida e sobrevivemos indiscutivelmente reflete não somente em nosso corpo, deixando, por vezes, marcas que levam muitos a dizer "Olha só, fulano envelheceu muito antes do tempo", como também tem reflexos na maneira como encaramos o envelhecer e a própria dinâmica existencial, porque, muito provavelmente, não é com o mesmo olhar sobre o tempo futuro e suas consequências que pessoas de situações socioeconômicas diametralmente opostas o encaram.     

Num mundo tomado por uma permanente exaltação da "juventude eterna", onde velhos endinheirados recorrem a tudo que podem para esconder e disfarçar rugas  - uns chegam ao absurdo de manipular fotos para postá-las em redes sociais -, as estatísticas governamentais vêm divulgando que, independentemente da classe social, a porcentagem de velhos no todo da população só vem aumentando, resultado de uma série de fatores como acesso à medicina preventiva, descobertas da indústria farmacêutica, a adoção de hábitos saudáveis de alimentação, prática de exercícios físicos, etc. Em que pese a discussão sobre o impacto que a longevidade acarretará para o sistema previdenciário e o de saúde pública, a mim, o que realmente mais me preocupa é: como a sociedade, historicamente tão, digamos, antivelhos, vai lidar com eles?

Muitos anos antes de assistir ao filme O último azul, eu tinha tido contato com três produções em vídeo que me marcaram profundamente pelo tom deveras negativo com que abordaram o tema da velhice: no final da minha adolescência eu vi, em casa, um episódio do seriado Família Dinossauro [1991] intitulado de "O dia do arremesso"; anos depois, na época da faculdade, eu assisti, em sala de aula, ao A balada de Narayama [1983], adaptação de uma novela de Shichiro Fukuzawa feita pelo diretor Shoei Imamura - ao ver esse drama eu deduzi que aquele episódio do Família Dinossauro igualmente fora uma adaptação da obra do Fukuzawa -;  e, algum tempo mais adiante - se não me falha a memória, eu o vi também no Cinema da Fundação -, assisti ao tremendamente impactante Amor [2012], do diretor Michael Haneke. E, devido a uma série de circunstâncias e interesses pessoais e intelectuais, ainda antes de assistir ao filme do Gabriel Mascaro, eu li obras diversas que, de uma maneira ou de outra, enfocaram a temática do envelhecimento - vou dizer um pouco sobre tais leituras no parágrafos seguintes.

Um dos livros mais instigantes que eu até hoje li na esfera de minha formação intelectual e fundamental para as minhas práticas de pesquisador, Memória e sociedade: lembranças de velhos, de Ecléa Bosi, abriu os meus olhos não só para os meandros do que se convencionou chamar de história oral, bem como para a compreensão da história individual como parte de uma história coletiva. Ao recolher depoimentos de homens e mulheres de idade avançada e analisá-los sob diferentes perspectivas, a autora nos pôs em face de diversas camadas existenciais que formam o todo social com suas riquezas de singularidades permeadas pelo transcurso do tempo na vida de cada um deles; e um dos seus comentários a respeito de tais vozes, do que tais vozes evocaram, melhor dizendo, é bastante pertinente sobre o que eu escrevi, lá atrás, sobre o caráter do "inservíviel" e do "imprestável" visto em O último azul para justificar o recolhimento dos idosos naquela distopia; Ecleá Bosi destacou:

Curiosa é a expressão meu tempo [grifo do autor] usada pelos que recordam. Qual é o meu tempo [grifo do autor], se ainda estou vivo e não tomei emprestada minha época a ninguém, pois ela me pertence tanto quanto a outros, meus coetâneos?. (5)

No caminho de minha formação intelectual eu tive o grande, o imenso privilégio de conhecer e de conviver durante algum tempo com o bibliotecário, escritor e memorialista Edson Nery da Fonseca. Conheci-o quando ele estava às vésperas de completar 89 anos; tendo vivido tanto e ainda dotado de uma memória espantosa, ele, pelo que eu via, não mantinha um grande interesse pelo tema da velhice; a mim me parecia que ele evitava falar sobre isso. A primeira vez que nós estivemos juntos foi em 2011, na casa onde ele morava, em Olinda, casa onde eu passaria alguns dos melhores momentos da minha vida. Dois anos antes do nosso encontro, Edson Nery da Fonseca lançara um delicioso livro de memórias, obra que eu li com enorme entusiasmo; em Vão-se os dias e eu fico, onde ele disse muito, mas não tudo de sua vida, já no capítulo inicial ele revelou um desprazer para com a velhice que, em todo caso, não tirou o brilho da narrativa; evocando a figura do seu amigo Manuel da Silveira Cardozo que, segundo ele, lhe confessara "sentir-se mais feliz na velhice do que em toda sua vida", o autor de Introdução à Biblioteconomia nos disse assim:

Fiquei com inveja da alegria pós-balzaquiana de Manuel Cardozo porque em minha velhice não me sinto tão feliz como fui na mocidade. Peço perdão a Deus por dizer isto, porque tenho de ser agradecido por ter sido  poupado dos achaques mais comuns da terceira idade, como câncer de próstata, diabetes, catarata, doença de Parkinson, demência etc. Mas não posso dizer que seja, existencialmente, um velho feliz. (6)

Esse viés evocativo de lembranças Edson Nery da Fonseca manteve noutro livro, que foi publicado apenas um ano depois daquelas suas memórias. Em Estão todos dormindo ele nos apresentou a alguns dos tantos amigos que teve, como Zila Mamede, Otto Maria Carpeaux e Mauro Mota que, àquela altura "de minha já longa existência" (7) não se encontravam mais acordados no meio de nós e, sim, dormindo, dormindo profundamente como no poema "Profundamente" do seu bardo preferido Manuel Bandeira.

Lendo tais escritos do meu saudoso e querido Edson Nery da Fonseca eu me peguei pensando que ele leu o Saber envelhecer, de Cícero, que eu encontrei em sua biblioteca, e não tomou para si algumas das passagens que se encontram ali e que não estão entre as que ele grifou com uma caneta de tinta azul: "O tempo perdido jamais retorna e ninguém conhece o futuro. Contentemo-nos com o tempo que nos é dado a viver, seja qual for!". (8)

E ainda antes de ir assistir àquele filme do Gabriel Mascaro eu devorei outro livro de memórias, agora o da celebradíssima e adorada atriz Fernanda Montenegro. Em Prólogo,ato, epílogo, que ela lançou no marco de seus 90 anos de idade, a grande dama do teatro brasileiro narrou diversas passagens de sua trajetória, alinhavando tudo com a colaboração de Marta Góes. Num tom e num ritmo aliciantes, Fernanda Montenegro nos disse de uma existência cheia êxitos, sim, mas também repleta de dissabores, como normalmente é o viver de todos e de cada um de nós; e, lá no epílogo, sentenciou, sem cerimônia e alicerçada pela sabedoria que o tempo lhe ofertou: "Tudo vai se harmonizando para a despedida inevitável. Inarredável. O que lamento é a vida durar apenas o tempo de um suspiro. Mas, acordo e canto". (9)

 

O que eu busquei depois do filme

 

Na esteira do que eu me propus a escrever sobre a velhice, depois que eu assisti ao O último azul, eu busquei outras fontes, outras leituras. A força bruta e perversa à qual deram o nome de etarismo todos os dias coloca as suas garras infames e desumanas de fora, algo que nem sempre chega às páginas e telas do noticiário e nem aparece nas timelines das redes sociais.

Há pouco mais de dois anos eu experimentei uma crise de meia idade que, felizmente, apesar dolorosa, foi muitíssimo breve. Imaginem que eu, aos 50 anos de idade, amarguei essa coisa ruim pesando os reflexos que o transcorrer do tempo havia deixado na parte exterior do meu corpo e como isso fizera com que, para os olhos dos adoradores da juventude, ele deixasse de ser interessante e atraente e passasse a ser ignorado e até repulsivo. Em vista disso, eu me disse: "Se, aos 50 anos, eu estou pensando assim, como será que alguém, com bem mais idade do que eu, se percebe e se enxerga no mundo e avalia como é visto pelo olhar dos outros?".

Não desanimei; e segui em caminhada pela estrada da vida por onde me é possível seguir.

Todo um universo de personagens, anônimos e conhecidos, com suas histórias de sucessos e fracassos, perdas e ganhos, abundâncias e privações, risos e choros povoam as páginas de duas obras que eu li mais recentemente; páginas onde várias questões sobre a velhice - solidão, desamparo, perda de relevância social, doenças, reclusão, aposentadoria, etc. - fazem com que o leitor de certa forma se reconheça em pelo menos alguns deles, seja por sua própria condição, seja porque viu neles como que o retrato de pessoas que estão muito próximas dele, afinal, as vidas são singulares, mas em muito elas se repetem e são iguaizinhas umas às outras.

Publicado em 1970, na França, A velhice, de Simone de Beauvoir, é uma narrativa que analisa o retrato da velhice no mundo ocidental numa perspectiva existencial, social e histórica; deveras abrangente e com uma imensa riqueza de citações, essa obra da renomada escritora francesa nada tem de suave. Muito pelo contrário. É um relato pesado e denunciador; é um verdadeiro libelo contra o modo com que, em geral, as sociedades dos países ocidentais trataram os seus velhos ao longo dos tempos. Um fragmento do texto introdutório do 1º volume dá o tom do que o leitor irá encontrar na longa e minuciosa narrativa:

Afirmam-nos que a aposentadoria constitui a época da liberdade e dos lazeres; poetas têm enaltecido as "delícias do porto" [a expressão é de Racan].  Mentiras deslavadas. A sociedade impõe à imensa maioria dos velhos um padrão de vida tão miserável que a expressão "velho e pobre" quase chega a ser pleonasmo; e vice-versa, a maior parte dos indigentes é constituída de velhos. Os lazeres não oferecem possibilidades novas ao aposentado: na hora em que se vê liberado dos constrangimentos, roubam-se ao indivíduo os meios de utilizar sua liberdade. Condenam-no a vegetar na solidão e no tédio, como um legítimo refugo. O fato  de ser um homem reduzido à condição de "sobra", de "resto", durante os últimos quinze ou vinte anos de sua existência, comprova a falência de nossa civilização: semelhante evidência nos deixaria interditos se considerássemos os velhos como seres humanos, tendo às suas costas uma existência humana, e não como cadáveres ambulantes. Aqueles que denunciam este nosso sistema mutilador deveriam chamar a atenção para semelhante escândalo. (10)

No segundo volume de A velhice, que é recheado de passagens da vida de personalidades, nem tudo é amargor e pesadelo na escrita da autora de Sob o signo da história, mas o peso da realidade vista por ela continua ali ditando  uma mirada para o mundo dos velhos:

A sociedade só se preocupa com o indivíduo na medida em que ele produz. Sabem-no muito bem os jovens. Sua ansiedade no momento de abordar a vida social é simétrica à angústia dos velhos na hora de serem dela excluídos. No ínterim, a rotina se encarrega de mascarar os problemas. O jovem teme a máquina que o vai abocanhar e procura, de quando em quando, defender-se a golpes de paralelepípedos; ao velho, por ela repelido, esgotado e nu, só lhe restam os olhos para chorar. (11)

 

No ano passado, a historiadora Mary Del Priore lançou Uma história da velhice no Brasil, um livro possivelmente inspirado na obra de Simone de Beauvoir - que é citada apenas de passagem - e que, em que pese umas pequenas falhas de revisão - por exemplo: alguns autores diversas vezes citados, como Mário Sette, ficaram de fora da bibliografia -, nos deu um panorama sobre o tema da velhice ao longo da história nacional, como descrever o que era ser velho e negro no tempo da vigência da escravidão. E como foi mergulhar e pesquisar sobre esse assunto, que se tornou tão urgente e discutido nos últimos anos? Ela nos disse que:

Apesar da falta de documentos, ficou claro que, no passado, a velhice não era um privilégio. Era uma fatalidade. Não era possível se projetar no futuro. Para muitos, a velhice foi vinculada à pobreza, à inatividade, à quietude. E velhos foram alvo de incontáveis doenças que varreram o Brasil. Os centros urbanos foram difusores de males: solidão, fim de correntes de solidariedade, endemias - como a covid-19. (12)

 

Como encarar a velhice, esse inevitável da vida?

 

Recentemente eu li um conjunto significativo de entrevistas que o sociólogo, antropólogo, historiador e escritor Gilberto Freyre concedeu a vários veículos de imprensa; em algumas, quando indagado a respeito, o autor de Casa-grande & senzala falou com entusiasmo da velhice; ele, que viveu durante 87 anos, se manteve intelectualmente relevante até quase os seus últimos dias. Na efeméride dos seus 70 anos de vida, uma repórter da revista O Cruzeiro lhe perguntou se a vida começava aos 70; e ele de pronto respondeu:

Não direi tanto. Nada de exageros caricaturescos. Mas não me sinto aos 70 - favorecido, como venho sendo, por Deus, com uma saúde que tem enganado até médicos ilustres com relação à minha idade - desoladamente velho. E sim - "excusez do (sic) peu!" - goetheanamente idoso. Preciso de dizer a mim mesmo, como outrora o pregoeiro ao triunfador que devia seguir nas ruas de Roma - "lembra-te que és mortal!", este outro "lembra-te": "lembra-te que és velho!". (13)

Quase catorze anos depois - só para ficarmos com mais um exemplo -, o ilustre e renomado autor de Dona Sinhá e o filho padre, em entrevista concedida à revista Veja, respondeu o seguinte a Mauro Bastos, que lhe perguntou "De que modo o senhor encara a velhice?":

Nunca me integrei no status de velho, nem nas suas vantagens nem nas desvantagens. Nunca aceitei a denominação de mestre, e é por isso que não formei escola. Não sou mestre de modo algum, nem quero que me tirem esta grande liberdade que é estar sempre aprendendo, renovando-me. E acho que Deus - eu creio na existência de um Deus, à minha maneira - me concedeu uma série de vantagens, entre elas a de estar já numa idade avançada e sem os achaques da velhice. Por exemplo, li muito a vida inteira e não uso óculos. Também não uso bengala. (14)

Para cada Gilberto Freyre que, além de prestígio e relevância intelectual na velhice, gozava também de uma boa condição socioeconômica, algo que impacta diretamente o enfrentamento desse estágio da vida, quantos outros existiam e existem por aí amargurados, acamados, abandonados por seus familiares e largados em asilos? Para cada Mário Sette, que teve uma profunda clareza de sua condição de velho ao abordar o tema dos conflitos geracionais em seu livro de memórias ao dizer que a "verdadeira sabedoria da velhice" lhe convenceu da distância a se formar entre as gerações, mesmo quando as ligue os mais sólidos e sinceros afetos", (15) há, ao nosso redor e alhures, homens e mulheres de idade avançada sofrendo com choques geracionais num mundo em permanente e rápidas transformações que impactam o dia a dia deles?

Num sábado de março e noutro de abril passados, eu fui à Caixa Cultural do Recife assistir à peça "Não me entrego, não!", escrita por Flávio Marinho. Abordando diversas passagens da longa vida do ator Othon Bastos que, aos 92 anos de idade, a protagoniza, o espetáculo é uma ode a muito celebrada carreira desse ator baiano e, também, ao estar na vida resistindo o quanto possível ao transcurso do tempo com um título que é, ele mesmo, uma comprovação disso. Foi uma espécie de catarse, para mim, estar lá, na plateia. Eu me dissera que era necessário que eu cv  v fosse assistir à peça como parte do reunir elementos para escrever este artigo. Ri. Chorei. E saí do teatro em duas noites de sábado carregando comigo mais alguns aprendizados e boas doses de otimismo e encorajamento frente ao futuro incerto.

Atormentado por certa solidão em seus dois últimos aos de vida, Jean-Jacques Rousseau, vagando por ruas de Paris, refletiu sobre diversos aspectos da existência e a velhice não escapou disso. Eis aqui apenas uma parte do que ele registrou na narrativa de sua terceira caminhada:

Entramos em cena no nascimento, dela saímos na morte. De que serve aprender a melhor conduzir o seu carro quando se está no fim? Só resta pensar como sair dela. O estudo de um velho, se ainda tem algum a fazer, é apenas aprender a morrer, e é justamente o que menos se faz na minha idade; se pensa em tudo, menos nisso. Todos os velhos têm mais apego à vida que as crianças e saem dela com maior má vontade que os jovens. Como todas as suas obras foram pra essa mesma vida, veem a seu fim que trabalharam em vão. (16)

O ranço e o amargor no relato de Rousseau é algo presente em várias narrativas sobre a velhice e a finitude, como deixou ver Simone de Beauvoir em sua obra que abordou o tema. A realidade é incontornável. O peso dos anos transforma o corpo e o pensar. Jorge Luis Borges nos descreveu, no conto "No Sul", a figura de "um homem bastante velho" que "Os muitos anos haviam-no reduzido e polido como as águas a uma pedra ou as gerações dos homens a um refrão". (17)

Olhar-se num espelho é um tormento para muitos, daí por que tantos endinheirados recorrem a cosméticos, a aplicações de substâncias na epiderme e a cirurgias plásticas num esforço financeiro custoso e vão contras as marcas deixadas pelo tempo implacável. A poesia que é apanhada e colhida na vida também escancara o inevitável do envelhecimento e do caminhar para o fim. Está, por exemplo, nos versos do poeta alagoano Ângelo Monteiro: "Nem para a terra nem para o céu/ fomos feitos./ Nem mesmo para ser lembrados./ No encontro entre a luz dos nossos olhos/ e a imagem das coisas provisórias/ consistem nossa noite e nosso dia"; (18) e nos do pernambucano Jomard Muniz de Britto que proclamou: "O tempo passa,/ não nos diz NADA./ Envelhecemos./ Saibamos, quase/ maliciosos/ sentir-nos ir./ Nada fica de nada. Nada somos". (19)

O tempo vai passando e o envelhecimento se impõe sem fazer concessões a quem quer que seja. É bem verdade, como já foi referido aqui, que as condições socioeconômicas de cada indivíduo têm ou podem ter impacto não somente com o lidar com esse processo como também com o modo de encarar essa etapa da vida.

Não envelhecemos todos da mesma maneira, isso é fato; e tanto isso é verdade que, às vezes, nos deparamos com pessoas jovens que apresentam uma fisionomia envelhecida demais para a idade que têm e vice-versa. E sempre há aqueles que precisam e requerem mais cuidados e atenção do que outros na rotina do dia a dia, como vai minuciosamente descrito num folder informativo intitulado Pessoa idosa no lar: cuidando de quem já cuidou de nós, que eu peguei semanas atrás numa visita que fiz ao campus de Casa Forte da Fundação Joaquim Nabuco, no Recife, no qual se descreve uma série de ações e procedimentos que devem ser observados no trato com pessoas idosas, como medicamentos, posições no leito, mobilidade no banheiro, alimentação e outros pontos, sempre lembrando que devemos fazer pela pessoa idosa "apenas o que ela não puder fazer sozinha" e que devemos respeitar "seu tempo, sua história e sua autonomia". (20)

Sob o prisma do etarismo, os idosos não podem sequer ter vida sexual, porque, a respeito disso, há quem considere que o tempo deles também já passou. E não é bem assim. Recentemente o ator Marcos Oliveira, que ficou muito conhecido pelo personagem Beiçola, do seriado A grande família, que era exibido pela Rede Globo, provocou uma onda de indignação nas redes sociais por causa de uma participação dele numa publicação feita no canal da revista Veja, no YouTube, sobre o Retiro dos Artistas, um espaço que existe há décadas, no Rio de Janeiro; em que pese o fato de que muitas das críticas negativas que o ator recebeu se deveu ao modo como ele falou daquela instituição onde ele se encontrava alojado, foi nítido no teor acidamente crítico que pousou sobre ele pelo fato de, em seu depoimento, ele ter também falado de seus desejos sexuais, algo que ele, aos 70 anos de idade, ainda sente. (21)

 

Navegantes de uma plenitude possível

 

Agora, que eu cheguei à parte final desse artigo, eu recobro a lembrança das imagens e das cenas de O último azul em que Tereza (Denise Weinberg) e Roberta (Miriam Socarrás) navegam num rio caudaloso gozando, na dimensão e na potência de suas velhices, na redescoberta de suas vidas e na liberdade alcançada, a plenitude possível de uma existência que há de ser eterna enquanto durar.

A liberdade sempre anda de mãos dadas com a insubmissão.

 

 

 

Notas 

 

1- Apud Marina Lima em entrevista em entrevista concedida a Matheus Rocha, da Folha de S. Paulo - "Marina Lima não quer 'velhice idiota' e canta morte de Antonio Cicero em novo álbum" -, publicado no dia 23 de março de 2026 na TV Folha, canal do jornal no YouTube (hhttps://giro.gl/EBg4ag). Acessado em 23 de março de 2026. A fala de Fernanda Montenegro é parte de uma mensagem de áudio que ela encaminhou, via WhatsApp, para Marina Lima que, por sua vez, inseriu o trecho citado do áudio na música "Collab grunkie", uma das faixas do seu álbum Ópera grunkie.

2- "Vídeo: idoso é deixado em calçada de estabelecimento comercial no Mercado Central de São Luís". In G1MA https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2025/08/08/video-idoso-e-deixado-em-calcada-de-estabelecimento-comercial-no-mercado-central-de-sao-luis.ghtml. Publicado em 8 de agosto de 2025.  Acessado em 31 de março de 2026.

3- "Homem que abandonou idoso no Mercado Central de São Luís é irmão da vítima, afirma Polícia Civil". In G1MA https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2025/08/12/homem-que-abandonou-idoso-no-mercado-central-de-sao-luis-e-irmao-da-vitima-afirma-policia-civil.ghtml. Publicado em 12 de agosto de 2025. Acessado em 31 de março de 2026.

4- Eis algumas manchetes de notícias envolvendo crimes praticados contra idosos: Bruna Ribeiro. "Idosa é resgatada de cárcere privado em Belém". In Agência Pará https://agenciapara.com.br/noticia/60463/idosa-e-resgatada-de-carcere-privado-em-belem. Publicado em 15 de outubro de 2024. Acessado em 31 de março de 2026; "Filho é preso por manter pai idoso em cárcere privado e situação extrema de abandono". In Goias.gov.br https://goias.gov.br/policiacivil/filho-e-preso-por-manter-pai-idoso-em-carcere-privado-e-situacao-extrema-de-abandono/. Publicado em 2 de outubro de 2023.  Acessado em 31 de março de 2026; Giovanna Machado. "idosa era mantida em cárcere privado pelo marido, que é usuário de crack". In CNN Brasil https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/centro-oeste/ms/idosa-era-mantida-em-carcere-privado-pelo-marido-que-e-usuario-de-crack/. Publicado em 3 de abril de 2025. Acessado em: 31 de março de 2026; Gustavo Basso. "Denúncias de idosos abandonados sobem 26% em um ano no Brasil". In UOL https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2025/12/02/abandono-de-pessoas-idosas-e-crime-e-aumenta-no-brasil.htm. Publicado em 2 de dezembro de 2025. Acessado em 31 de março de 2026.

5- Ecléa Bosi. Memória e sociedade: lembranças de velhos, p. 421. Nessa mesma página a autora avalia como "pessimista" a afirmação de Simone de Beauvoir de que o homem idoso se volta tão prazerosamente para o passado, porque esse era o tempo em que ele considerava que era um indivíduo que estava inteiro e vivo. Disse Ecléa: "Achamos pessimista a visão de Simone, pois não se aplica  todas as pessoas".

6- Edson Nery da Fonseca. Vão-se os dias e eu fico. Por ordem de citação pp. 15 e 16.

7- Edson Nery da Fonseca. Estão todos dormindo. A citação aparece na segunda orelha do livro.

8- Marco Aurélio Cícero. Saber envelhecer e A amizade, p. 54.

9- Fernanda Montenegro. Prólogo, ato, epílogo, p. 272.

10- Simone de Beauvoir. A velhice - 1. A realidade incômoda, p. 11.

11- Simone de Beauvoir. A velhice - 2. As relações com o mundo, p. 303.

12- Mary Del Priore. Uma história da velhice no Brasil, p. 12. Na verdade, a covid-19 foi uma pandemia não uma endemia.

13- Estefânia Pinheiro. "Gilberto Freyre - A sinceridade dos 70 anos" (entrevista). O Cruzeiro, 7 de abril de 1970, p. 96.

14- Mauro Bastos. "Gilberto Freyre - O anarquista construtivo" (entrevista). Veja, 4 de janeiro de 1984, p. 7.

15- Mário Sette. Memórias íntimas, p. 210.

16- Jean-Jacques Rousseau. Os devaneios do caminhante solitário, p. 28.

17- Jorge Luis Borges. "O Sul". In Ficções, p. 154.

18- Ângelo Monteiro. "Para que fomos feitos". In O canto da esfinge, p. 35. Originalmente publicado no livro Os olhos da vigília.

19-  Jomard Muniz de Britto. "Fernando Ricardo Reis Pessoa". In Atentados poéticos, p. 29.

20- Folder Pessoa idosa no lar: cuidando de quem já cuidou de nós.

21- Mafê Firpo. "As angústias de Marcos Oliveira no Retiro dos Artistas: 'não sou inútil'". Canal da revista Veja no YouTube. Publicado no dia 23 de março de 2026. Acessado em 23 de março de 2026.

 

Referências e bibliografia

 

- Sites e canais do YouTube

Agência Pará

CNN Brasil

Folha de S. Paulo

Goias.gov.br

G1MA

UOL

Veja

 

- Livros, periódicos e folder

BASTOS, Mauro. "Gilberto Freyre - O anarquista construtivo" (entrevista). Veja, São Paulo, 4 de janeiro de 1984, p. 5-7.

BEAUVOIR, Simone de. A velhice - 1. A realidade incômoda. 2ª ed. Trad. Heloysa de Lima Dantas. São Paulo: Difel/Difusão Editorial S.A., 1976.

______. A velhice - 2. As relações com o mundo. Trad. Heloysa de Lima Dantas. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1970.

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. 3ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

BORGES, Jorge Luis. Ficções. Trad. Carlos Nejar. Porto Alegre: Editora Globo, 1976.

BRITTO, Jomard Muniz de. Atentados poéticos. Recife: Bagaço, 2002.

CÍCERO, Marco Túlio. Saber envelhecer e A amizade. Trad. Paulo Neves. Porto Alegre: L&PM, 1997.

FOSNECA, Edson Nery da. Estão todos dormindo. Recife: CEPE, 2010.

______. Vão-se os dias e eu fico: memórias. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009.

MONTEIRO, Ângelo. O canto da esfinge: antologia poética. Seleção e apresentação de Bernardo Souto. Recife: Tarcísio Pereira Editor; Olinda: Luci Artes Gráficas, 2013.

MONTENEGRO, Fernanda. Prólogo, ato, epílogo: memórias. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

Pessoa idosa no lar: cuidando de quem já cuidou de nós (folder). s. l. Governo de Pernambuco/Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Prevenção à Violência/Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Idosa de Pernambuco, s. d.

PINHEIRO, Estefânia. "Gilberto Freyre - A sinceridade dos 70 anos" (entrevista). O Cruzeiro, 7 de abril de 1970, p. 94-96.

PRIORE, Mary Del. Uma história da velhice no Brasil. São Paulo: Vestígio, 2025.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Os devaneios do caminhante solitário. Trad. Julia da Rosa Simões. Porto Alegre: L&PM, 2009.

SETTE, Mário. Memórias íntimas: caminhos de um coração. Recife; Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1980.

9 de maio de 2026

Para onde vai nos levar a Inteligência Artificial?

Por Sierra


Imagem: Foto do arquivo do autor trablhada com IA por Rennat Said para a história em quadrinhos que ele criou


Ultimamente eu não tenho passado sequer um dia sem que eu me depare com algum fato, alguma notícia ou algo feito ou relacionado com a chamada Inteligência Artificial (IA), o que tem me levado a pensar que ela está se tornando onipresente nas coisas de nossa vida prática e até para além dela, suscitando em minha cabeça levemente perturbada com tal assunto a seguinte pergunta: para onde vai nos levar a Inteligência Artificial?

Meses atrás, ao pegar carona com um conhecido, ele pôs para tocar no celular, enquanto seguíamos na estrada num começo de noite chuvoso, uma música gospel. Ele deixou que eu a ouvisse durante um bom tempo; e, então, me contou, bastante entusiasmado, como se aquilo fosse a coisa mais incrível do mundo, que a tal gravação era fruto da IA: com exceção da letra, que ele escrevera, tudo o mais, ou seja, voz, arranjo e instrumentos fora realizado por uma IA pela qual ele vinha pagando uma mensalidade. Esse letrista, de trinta e poucos anos, que não toca instrumento musical nenhum, se mostrou muito empolgado com a possibilidade de criar mais músicas com a ajuda da IA, disponibilizá-las nas plataformas de streaming e, quem sabe?, começar a ganhar um dinheirinho com isso.

E se você, leitor, está pensando que essa tal de IA é assunto somente de jovens, você está ultrapassado, ops, enganado. Duas semanas atrás um amigo sessentão, primeiro, me enviou, pelo WhatsApp, vídeos em que apareciam animais diversos num espaço da casa dele, tudo fruto da IA; depois, ele me pediu para ler e apreciar uma sequência de história em quadrinhos, visualmente muito bem feita e cheia de detalhes, que ele também criara recorrendo à IA.

Eu não sou contrário ao avanço das tecnologias - e, mesmo que eu fosse, isso não iria adiantar de nada; iria, sim, era atrapalhar e atrasar alguns aspectos da minha vida cotidiana -; e, às vezes, fico até espantado com certas transformações que elas causam nos mais diversos setores do nosso dia a dia. Mas me vejo, na verdade, me sinto sem preparo para encarar e fazer uso de tudo que é disponibilizado por elas; e isso, sem dúvida alguma, tem um impacto negativo porque atrapalha o meu lidar com aplicações de recursos tecnológicos que poderiam facilitar a dinâmica e os afazeres de todos os dias. Um exemplo: eu resisti durante anos a ter um smartphone; e conheço pessoas que não querem saber disso de maneira alguma.

São vários os usos que tem sido dados à IA; e, na esteira disso, vieram inúmeros questionamentos, sobretudo, em tempos de um apego massivo às chamadas redes sociais, espaços esses onde, ainda antes da IA, já existia o, digamos, conflito sobre o que era real e o que era manipulado e exibido nelas, algo que a utilização da IA só fez exacerbar. E o que dizer dos usos da IA na criação artística? Eu citei aqui o caso de uma música e de uma história em quadrinhos; e quanto à escrita de livros e de roteiros de filmes e da própria feitura dos filmes? Será que vamos nos acostumar a consumir produções artísticas e culturais feitas por IA? E isso que eu produzo e publico aqui neste blog, que serventia terá para quem recorre à IA para produzir textos muito rapidamente sem precisar ler livros, notícias e pesquisar simplesmente?

São tantos os desdobramentos em decorrência dos múltiplos usos da IA que ela está ganhando status de um deus onisciente e quase onipresente, porque, pelo que se viu e foi revelado até agora, a IA está sendo utilizada em pesquisas científicas, em pareceres jurídicos, em áreas da medicina, etc. Ou seja, tendemos a cada vez mais nos deparar com o uso da IA que, inevitavelmente, substituirá a mão de obra humana em vários setores do mundo do trabalho.

Eu vi, recentemente, um protesto, em Londres, contra o uso da IA; e artistas vêm reclamando quanto à questão de direitos autorais, uma batalha que, ao que tudo indica e leva a crer, será vencida pela IA e pelas empresas que as criam e desenvolvem.

Num mundo hiperconectado, no qual diversas atividades de nossa vida prática podem ser resolvidas pelo universo virtual - pagamentos de contas, consultas médicas, transações bancárias, compras de supermercado, etc., etc. -, a expansão acelerada dos usos da IA haverá de nos conduzir por caminhos que nós sequer imaginamos. "Será que eu preciso disso ou quero isso para a minha vida?", você pode se perguntar; e a única resposta que pessoalmente eu me dou a esse respeito é que, por ora, não temos opção de querer ou não querer isso; mesmo que resistamos a ela, a IA vai invadir e tomar de assalto a nossa existência como uma avalanche que ninguém consegue deter.

Reféns das mais avançadas das mais avançadas das tecnologias, só nos resta viver clicando nos links, digitando senhas, acionando câmeras, descrevendo os pedidos e esperando para ver o que acontece.

2 de maio de 2026

Construção e destruição: a (des) ordem de uma urbanização imperfeita

 Por Sierra

  

Fotos: Arquivo do Autor
Trechos da PE-001, conhecida como Estrada do Forte Orange, na Ilha de Itamaracá, que foram cortados pela Compesa e que estão até o presente momento esperando ser remendados e/ou melhor remendados

  

Frequentemente nós nos deparamos com cenários e situações em nossas cidades que nos suscitam inúmeras e por vezes revoltantes indagações a respeito deles. Não raro, aqui e ali, nós observamos a falta de ação e de comprometimento da Municipalidade para resolver problemas como a limpeza de um canal, a construção de uma ponte ou a pavimentação de uma rua que, sob a ótica do cidadão comum, que vivencia cotidianamente os espaços da cidade, são de fácil execução; e então ele se pergunta: por que é que até agora isso não foi feito?

Quem acompanha o NE1, um telejornal da Rede Globo Nordeste, de Pernambuco, que já se chamou NE TV, conhece e sabe da existência de um quadro muito popular que é o Calendário. E no que ele consiste? Indivíduos procuram a emissora para dizer de transtornos e deficiências estruturais de urbanização que eles encontram nos lugares onde moram, como ruas sem pavimentação, morros sem escadarias e corrimões, precariedade do abastecimento de água, irregularidade na coleta de lixo, etc. Sabendo disso, repórteres se deslocam para tais locais e ouvem moradores e, claro, pedem respostas às autoridades competentes sobre as demandas. Quando não enviam apenas uma nota de esclarecimento, as Municipalidades, por vezes, designam um funcionário para o lugar a fim de que ele dê explicações ao repórter e, por conseguinte, aos populares que se encontram ali e, claro, aos telespectadores.






Eu já acompanhei várias edições desse quadro do NE1; e, em meio a bons resultados das cobranças de soluções de problemas feitas pela população - normalmente as autoridades estipulam um prazo de resolução da demanda, que é marcado num grande calendário; transcorrido o tempo, que pode e geralmente é de meses, uma equipe do telejornal retorna ao local para averiguar se a promessa foi realmente cumprida e, diversas vezes, não o são -, alguns secretários municipais e outros representantes do prefeito não conseguem dar uma explicação satisfatória para que a questão seja solucionada; eles falam de ausência de projetos, captação de recursos, futuras parcerias com o governo estadual e federal e por aí vai.

A lembrança do quadro Calendário do telejornal NE1 me veio quando eu pensei em escrever um artigo enfocando a dificuldade que muitas Prefeituras Municipais têm para conseguir tirar do papel tanto projetos novos como ações de requalificação de estruturas já existentes, porque, como se sabe, são inúmeras as que vivem só e unicamente dos repasses do Fundo de Participação dos Municípios.

Refletindo sobre isso, eu inevitavelmente pensei também em obras que às vezes são realizadas e nos dão a impressão de que não houve estudos para tanto e nem consultas a órgãos e entidades outras que pudessem ter relação com o que seria realizado.

Muito tempo atrás eu publiquei neste blog um artigo comentando o caso da Praça Olavo Bilac, no bairro da Boa Vista, no Recife, que, pouco tempo depois de ter passado por uma ampla obra de revitalização, teve uma grande parte de seu perímetro suprimido para dar lugar à ampliação de um corredor viário. Ou seja, por falta de interlocução com o executivo estadual, a Municipalidade recifense gastou dinheiro numa obra que, na verdade, desperdiçou dinheiro público.





Milhões e milhões de reais por vezes são gastos não somente em casos de construção seguida de destruição - como ocorreu na Praça Olavo Bilac e nos canteiros centrais das faixas da BR 101 que cortam a cidade de Abreu e Lima (PE), onde a Municipalidade, primeiro, gastou uma nota para pavimentá-los com pedras portuguesas e, depois, removeu tudo para pôr no lugar piso intertravado de concreto, e em outro caso que eu vou relatar a partir do próximo parágrafo -, como também em obras inacabadas e noutras cujos resultados são contraproducentes, vide a dinheirama gasta numa muito propagandeada engorda da Praia de Ponta Negra, em Natal (RN), que resultou num completo fiasco, como atestam os tantos vídeos que têm circulado nas redes sociais.

Eis agora mais um caso de construção seguida de destruição e, por conseguinte, de desperdício do dinheiro resultante dos tantos impostos que nós pagamos. Durante muitos anos a PE-001, na Ilha de Itamaracá, uma cidade-ilha que integra a Região Metropolitana do Recife, permaneceu à espera de uma obra que pudesse acabar com os tantos buracos que marcavam um ponto e outro da rodovia que possui apenas 4,9 km de extensão e que leva a um dos maiores atrativos turísticos do lugar, que é a Fortaleza de Santa Cruz, também conhecida como Forte Orange.

Pois bem. Ao custo de R$ 22,6 milhões, a rodovia foi toda restaurada e sinalizada e passou a contar com uma ciclo faixa; e foi entregue, em março deste ano, à população itamaracaense pela governadora Raquel Lyra.



Ao que aprece, ainda antes da entrega da obra, a Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa), que possui uma lista imensa de ações dessa natureza, começou a escavar partes da rodovia restaurada para fazer manutenção de canos estourados. Já pensaram? E o pior é que a Compesa cava, abre e danifica rodovias, ruas e etc. e nem sempre trata de mandar remendar os trechos destruídos e, quando o faz, geralmente é um serviço de péssima qualidade.

Falta-nos muito em termos de planejamento urbano e de competência para bem gerir  a aplicação de recursos públicos em obras de infraestrutura. Quem passa pela PE-001 e olha atentamente para os dois lados, ao longo de todo o trajeto, facilmente se depara com os rastros de destruição deixados pela Compesa. Não é apenas lamentável que frequentemente isso ocorra; é, também, vergonhoso que tais ocorrências se deem e fiquem por isso mesmo, como se fossem uma coisinha à toa.

25 de abril de 2026

Personas urbanas (38)

 Por Sierra

  

Eu sou o sol, 

sou eu que brilho

pra você, meu amor.

   O dia que o sol declarou o seu amor pela terra. Jorge Ben Jor

 

O mundo não gira em torno de você. Eu, você, todos nós certamente conhecemos pessoas que são tão cheias de si, mas tão cheias de si que pensam que tudo o que existe, existe por causa e em função delas; são aqueles tipinhos enjoados e pretensiosos que "se acham", como se costuma dizer por aí.

Ao longo dos anos eu venho obervando - e não só eu, evidentemente -, que, com o advento e a disseminação das chamadas redes sociais, esses tipinhos que "se acham" não apenas se multiplicaram exponencialmente como ganharam "relevância" por causa do número de seguidores que os seus perfis ostentam, muito embora nós saibamos que nem tudo o que se vê nas redes sociais é o que realmente é.

Na esteira das postagens, curtidas e reproduções de seus conteúdos, certos perfis com milhares e até milhões de seguidores escancararam o que poderíamos chamar de cultura da individualização, cultura essa que jogou por terra uma crença disseminada nos primórdios das redes sociais que diziam que elas promoveriam conexões e ajuntamentos, reuniões e ligações visando ao bem comum. Não foi exatamente isso o que se deu, porque as tais conexões e interações virtuais entre indivíduos não reuniram somente, digamos, gente de bem e com propósitos dignos de aplausos; e os arautos do tempo futuro não vislumbraram a disseminação de um verme chamado fake news, a construção de espaços sombrios na internet - a deep web, por exemplo - e nem a força imperiosa da individualização e a exacerbação do "eu sou o sol" em perfis dessas ditas redes sociais.

A praga do "eu sou o sol" é daninha, a meu ver, sob vários aspectos, principalmente, se considerarmos o papel de influência negativa que muitos desses perfis acabam tendo na vida de muitas pessoas que os seguem sem avaliar criteriosamente o que é postado por eles; e, não sejamos ingênuos, muitos seguem os tais perfis não por falta de discernimento e, sim, porque se identificam em gênero, número e grau com o que é postado neles - é o tal do "ele/ela me representa". E pronto: está fechada a questão.

Nessa dinâmica envolvendo a mistura dos mundos virtual e real, a individualização do espaço virtual demarcou um terreno vasto e de alcance que, em tese, é ilimitado, porque qualquer pessoa que tenha acesso às tais redes sociais podem entrar em contato com os seus conteúdos, caso os perfis não estejam na modalidade "conta privada". Ou seja, de qualquer parte do mundo e lugar, o perfil pode ser visto e acionado com algum tipo de interação.

Na vasta gama de assuntos e possibilidades proporcionados pelos ambientes virtuais - sites de notícias, casas de apostas, pornografia, livros digitalizados, passeios por museus e galerias, etc. -, as redes sociais têm angariado uma quantidade gigantesca de usuários, sendo que vários deles fizeram disso seu ganha-pão, interagindo com seus seguidores, no mais das vezes, como garotos e garotas propaganda de uma diversidade imensa de produtos e serviços e o que mais seja e do que se convencionou chamar de estilo de vida que, normalmente, abarca viagens, ida a restaurantes requintados e consumo de roupas de grife e joias, muitas joias e relógios caríssimos. E, quanto mais o perfil agrega seguidores, o seu dono ganha status de celebridade e começa a aparecer em tudo quanto é quanto - até nas crônicas policiais.

É claro que uma superexposição  nas redes sociais gera, para muitos, uma frustração enorme, principalmente quando o indivíduo investiu tempo, dinheiro e disposição para ser, quem sabe, a nova celebridade desse ambiente e a coisa não aconteceu, o seu plano de ser um novo "sol virtual" simplesmente não vingou e ele acabou ali com não sei quantos seguidores e uma desilusão sem tamanho.

E o que dizer daqueles que se mantêm do lado de cá, acessando os perfis de quem se esforça para ser o centro das atenções e que ficam o tempo todo a sonhar e desejar ter uma vida cheia de glamour e felicidade que o moço e a moça mostram para eles? Quantas frustrações será que tais pessoas colecionam com suas vidinhas que elas definem como medíocres e sem alegrias? O que é que resta para elas, que não conseguem sair dessa bolha virtual? Gastar o que elas não têm apostando nas bets que os seus influencers favoritos anunciam para, quem sabe assim, ficarem ricos como eles? Ou simplesmente continuarem levando suas existências como meros expectadores da vida alheia enquanto a deles permanece quase que parada no tempo e no espaço?

Na era da proliferação desconcertante de tanta gente que "se acha", o mundo virtual vem ditando comportamentos que fazem com que, para muitos, este mundo do lado de cá, sem maquiagem, filtro, luz e enquadramento bacana de uma câmera de primeira linha figure como espaço e território malquisto e indesejado porque repleto e tomado por uma realidade como cotidianamente ela de fato é.

18 de abril de 2026

Nos rastros deixados pelo Golpe de 1964

 Por Sierra

 

Fotos: Arquivo do Autor
Sessão de abertura do seminário: uma pena que o evento não tenha atraído um grande público, porque continua sendo urgente a defesa dos princípios democráticos


Um dos capítulos mais tenebrosos e desumanos de nossa história recente, o Golpe Mlitar de 1964 e os seus desdobramentos e reflexos foram, em parte, examinados, na última quinta-feira, num seminário promovido pelo Núcleo de Educação, Cultura, Inclusão, Meio Ambiente e Diversidade em Direitos Humanos (NECIMADH), da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), no campus de Casa Forte, no Recife.





Com o tema "Estado, democracia e direitos humanos no Brasil dos anos 60", o evento aconteceu em dois turnos, manhã e tarde; e teve lugar na Sala Calouste Gulbenkian, um espaço que eu comecei a frequentar há quase trinta anos, ainda na época da faculdade, e do qual eu guardo ótimas recordações.

Depois de sermos embalados por Marcondes Oliveira que, com voz e violão, apresentou as canções "Tempos modernos" (Lulu Santos), "Tanto amar" (Chico Buarque) e "Canta coração" (Geraldo Azevedo e Carlos Fernando), fazendo, digamos, uma pré-abertura, nós acompanhamos a composição da mesa - a presidenta da Fundaj, professora Márcia Angela Aguiar, não compareceu pela manhã por conta de um compromisso em Brasília; e foi representada por José Amaro Barbosa, chefe de gabinete da presidência da casa - e, logo em seguida, sob a mediação da historiadora Rita de Cássia Barbosa de Araújo, da Fundaj,  assistimos à palestra do professor, pesquisador e ativista de direitos humanos Manoel Moraes.

Manoel Moraes e Rita de Cássia Barbosa de Araújo










Com uma fala muito clara e precisa, Manoel Moraes fez um extenso recorte temporal para nos dizer como, desde o Brasil Colonial, com o massacre de povos originários, este país convive com os desrespeito aos direitos humanos. Com uma abordagem muito ampla, o palestrante recordou fatos e personagens como: Miguel Arraes; o Engenho Galileia, Francisco Julião; o Movimento de Cultura Popular; Gregório Bezerra; a Doutrina Monroe; a Aliança para o progresso; Pelópidas Silveira; Paulo Freire; Josué de Castro; o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES); o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD); as Comissões da Verdade; o professor Denis Bernardes; as políticas de reparação, individuais e coletivas para os perseguidos pela Ditadura Militar; etc. Foi uma explanação muito rica, abrangente e brilhante sob vários aspectos; e que foi seguida por de perguntas feitas por uma plateia que, lamentavelmente, não era numerosa - faltou gente para acompanhar e participar de um evento tão importante como esse.

No meio da pequena plateia se encontrava Jéssica Morris, filha do pastor metodista Frederick Morris, que foi preso e torturado durante os chamados Anos de Chumbo.

Após um intervalo para o almoço, o seminário foi retomado e com um público ainda menor.

Na mesa redonda intitulada "O golpe civil-militar e as repercussões para a educação brasileira" falaram Clodoaldo Meneguello Cardoso e Maria Nazaré Tavares Zenaide, ele da Universidade Estadual Paulista, campus de Bauru, e ela da Universidade Federal da Paraíba, ambos mediados por Edna Silva, da Fundaj.


Da esquerda para a direita: Maria Nazaré, Clodoaldo Meneguello e Edna Silva

Com uma serenidade toda sua, o professor Clodoaldo Mneguello enfaticamente destacou que "O golpe abortou um projeto de democracia social e reformista". Ele disse ainda que a ideia de liberdade não deve ser pensada como algo individual e, sim, dentro de uma coletividade, porque, segundo ele, não se pode falar do individual sem falar do social e vice-versa.

Em sua explanação, a professora Maria Nazaré, entre outros pontos, destacou que João Goulart era um empecilho para o projeto de hegemonia norte-americana no Brasil; e que a discussão em torno das chamadas "escolas sem partido" é uma afronta à pluralidade e à diversidade de ideias registradas pela Constituição do país.

Anteontem, 16 de abril, em pleno Dia Nacional de Lembrança do Holocausto, a Fundação Joaquim Nabuco que, no dizer de Rita de Cássia Barbosa de Araújo, "Está sempre revolvendo a questão do Golpe", promoveu um seminário no qual foram explanados e debatidos assuntos referentes à Ditadura Militar cujos reflexos são sentidos até hoje, principalmente quando, no cenário político, pululam figuras e personagens que defendem a decretação de outro estado de exceção neste país e que celebram torturadores e falam contra os direitos humanos.









A presidente da Fundaj, Márcia Angela Aguiar, compareceu à tarde ao evento



Antes de terminar eu quero registrar aqui uma fala do patrono da Educação brasileira que Aída Monteiro, coordenadora do NECIMADH, trouxe à baila na sessão de abertura do seminário, ao exibir a participação dele numa edição do Programa Livre, do Serginho Groisman: "Tomemos um tal gosto pela liberdade, um tal gosto pela presença no mundo, pela pergunta, pela criatividade, pela ação, pela denúncia, pelo anúncio que jamais seja possível, no Brasil, a gente voltar àquela experiência do pesado silêncio sobre nós".





Jéssica Morris 


Que estas palavras de mestre Paulo Freire continuem ecoando em nossos ouvidos, como alerta, para que não mais permitamos que os inimigos da democracia pisoteiem as leis e promovam as mais cruéis desumanidades contra todos aqueles que se recusam a aceitar toda e qualquer arbitrariedade usurpadora do livre pensar e do direito de ir e vir.