A Cidade e a História
Um espaço que comporta ideias, críticas e visões de mundo
28 de fevereiro de 2026
Mortes na desordem urbana
21 de fevereiro de 2026
Personas urbanas (37)
Por Sierra
Vou seguindo pela vida
me esquecendo de você.
Eu não quero mais a morte
tenho muito que viver.
Vou querer amar de novo
e se não der não vou sofrer.
Já não sonho, hoje faço
com meu braço o meu viver.
Travessia. Fernando Brant/Milton Nascimento
Protelando mudanças.
Quantas e quantas vezes você se pegou dizendo a si mesmo ou falando para um amigo
ou parente que você estava pensando em mudar isso e aquilo em sua vida e essa
mudança nunca acontece porque, seja simples, seja mais, digamos, complexa e/ou
exija um esforço grande e duradouro, você, dia após dia, protela o início da
virada, da transformação, da mudança e da correção de rumo?
Numa viagem que eu fiz recentemente à capital paraibana, conheci alguém
que me abriu parte do livro de sua vida e me deixou entrar em contato com
acontecimentos bons e ruins, como, aliás, são os capítulos da história de todas
as pessoas; e, a respeito dos males, digo, de parte dos males que haviam
ocorrido, ele julgou ser fruto de repetidas escolhas ruins que fizera. Segundo
o seu relato, que eu ouvi muito atentamente, ele seguia e se mantinha como que
preso a um padrão - principalmente no que diz respeito a relacionamentos afetivos
-; ele me disse ainda que estava fazendo algum esforço para se livrar disso,
modificando algumas ações e comportamentos de sua vida prática e cotidiana. Só
que, entre o discurso e o agir, esse alguém deixou muito evidente para mim que
o tal planejamento para a almejada mudança continuaria no plano das ideias e
elucubrações e, portanto, longe da realidade.
Avaliando o comportamento daquela pessoa e olhando para mim mesmo eu,
que não sou estudioso disso e só estou falando e tocando nesse assunto como
forma de ampliação do meu autoconhecimento e do meu estar no mundo, me
perguntei: por que será que, às vezes, nos fazemos promessas de mudanças
interiores que, possivelmente, acarretarão mudanças exteriores em nosso viver e
nem sempre as colocamos em andamento e não damos o primeiro passo e nem
apertamos o botão do start para,
finalmente, fazer a coisa começar a acontecer? E por que é que, não raro, muito
mais persistente e vigorosa em nós é a força da protelação?
É fato que acontece de nos propormos a promover mudanças, digamos, muito
radicais e/ou muito amplas que não podem ser realizadas de uma hora para outra,
que exigem tempo e dinheiro para ser concretizadas e que não dependem apenas de
nós. Por outro lado, ocorre que muitos de nós protelamos algo simples como, por
exemplo, começar a manter uma rotina regular de prática de exercícios
físicos; prática essa que, diferentemente do que muitos pensam, não precisa
necessariamente estar ligada à matrícula em uma academia de musculação ou de
natação ou a algo que os valha.
A situação da pessoa que leu para mim trechos do livro da vida dela me
deixou ver que a sua situação tende a se manter a mesma e até se agravar, caso
persista nela uma ação protelatória que, por experiência própria, eu imagino
que está intrinsecamente ligada à autossabotagem e ao autoengano. E essa
prática de ficar sempre adiando o que deve e precisa ser feito, porque, do
contrário, vai continuar nos prejudicando interna e externamente, é um exercício
de autodestruição.
E por quê? Ora, não faz sentido dizer que se quer deixar de beber e você
frequentar festas todos os fins de semana. Não me parece ser coerente você me
falar que pretende deixar de consumir drogas se você trocou uma mais potente
por outra que considera menos nociva. Não tem lógica você afirmar que não quer
mais se relacionar com "certo tipo de pessoa", se você fica sempre
procurando, noutros indivíduos, a figura daquele alguém que lhe feriu
emocionalmente. Por fim, como é que você diz que está disposto a mudar de
alguma forma o seu estar no mundo se determina que só tem interesse, por exemplo,
por indivíduos com aparência atlética?
Em janeiro passado eu completei 52 anos de idade. Desde há muito eu larguei na beira da estrada da vida a mala de ilusões que eu vinha carregando, porque, além de pesada, ela só me fazia mal. Sim, eu falei de circunstâncias boas e ruins de minha vida para aquela pessoa que é quase dez anos mais nova do que eu; não procurei convencê-la de nada, porque cada um é que sabe de si; o que eu deixei bem claro para ela é que eu não tenho disposição nem interesse - ou pelo menos não tive até agora - para ser refém do autoengano, da autossabotagem e da autodestruição.
14 de fevereiro de 2026
O folião adestrado
Por Sierra
As minhas lembranças mais antigas dos dias de Carnaval remontam à minha infância na cidade onde eu nasci, Abreu e Lima, que fica na Região Metropolitana do Recife.
Eu tinha algum medo dos caboclos de lança que, solitários, vez por outra
passavam pelas ruas; para mim eles tinham qualquer coisa do Papa-figo e do
Homem do Saco que uns e outros diziam que levavam embora crianças
desobedientes.
Outras duas figuras carnavalescas do meu tempo de menino eram as
catirinas, homens que vestiam roupas femininas e que pintavam a cara com
carvão; e as ala ursas, que eram indivíduos que punham fantasias de ursos -
geralmente trajes brancos, como se fossem ursos polares; e urso tinha e até
hoje tem o significado de homem que se relaciona com mulheres comprometidas - e
saíam acompanhados por alguns batuqueiros parando em portas de residências e
estabelecimentos comerciais tocando e cantando uma música que dizia "Ala
ursa quer dinheiro, quem não dá é pirangueiro".
Outras recordações que me chegam é que brincávamos nas ruas. Alguns
garotos faziam as chamadas bombas d'água ou lanças de água com cano de PVC,
cabo de vassoura e solado de sandálias Havaianas: como se fossem grandes
seringas, essas bombas sugavam água e serviam para molhar foliões ou quaisquer
passantes - o maior receio de muitos era de que a água fosse suja ou que os
garotos pegassem xixi.
Por essa época uns e outros metiam talco na cabeça alheia, que era um
típico mela-mela. E Mainha, durante o tempo em que trabalhou numa fábrica de
embalagens de papel chamada Sumol, lá em Olinda, comprava para mim a camiseta
do Bloco Zebra de Olinda.
Não sei como era o Carnaval do meu tempo de criança no centro de Abreu e
Lima, porque eu não ia para lá durante o reinado de Momo; mas eu ouvia dizer
que ocorriam bailes no hoje inexistente Clube Vera Cruz, na Praça Antônio
Vitalino.
Foi já adolescente que, acompanhando filhos dos meus padrinhos, eu
conheci o Galo da Madrugada e o agito do Carnaval no sítio histórico de Olinda.
E foi ainda em minha adolescência que eu, por essa época residindo na Rua São
Gonçalo, no bairro Caetés Velho, passei a ver de perto uma escola de samba: era
o Grêmio Recreativo Escola de Samba Império do Bento, cuja sede, que também era
a residência do casal Bentinho e Márcia, ficava naquela rua: os ensaios
aconteciam aos domingos; e aquilo enchia os meus olhos e os meus ouvidos de
modo muito envolvente e encantador.
Não me recordo quando foi que, estando eu já adulto, comecei a
acompanhar os festejos de Momo indo tanto para o Recife como para Olinda,
geralmente sozinho. O que é bem nítido na minha cabeça é o início do meu
questionamento quanto ao adestramento progressivo dos foliões a partir,
principalmente, da segunda metade da década de 1990, quando eu passei a
acompanhar as transformações que foram ocorrendo no Carnaval do Recife, logo
denominado pela Municipalidade de "multicultural", que consistia -
como o é até hoje - em montar palcos em vários bairros da cidade e escalar
artistas locais e nacionais, das mais diversas manifestações culturais, para se
apresentarem neles.
Ou seja, paulatinamente a espontaneidade de quem saía para brincar o
Carnaval acompanhando uma troça ou um bloco que passava, essa coisa boa danada da
itinerância que, para mim, é a essência dessa folia, foi sequestrada e como que
reprimida pelas Prefeituras Municipais - o exemplo de organização do
Carnaval do Recife foi replicado por inúmeras cidades, inclusive, por Olinda
que, em que pese a montagem de palcos num ponto e noutro, ainda conserva o
vuco-vuco e o sobe e desce ladeira com blocos e troças que são acompanhados por
milhares de pessoas.
E o adestramento do folião foi tal que muitos deles saem para brincar o
Carnaval postados diante de um palco; ele deixou de ser folião para ser espectador;
e, por vezes, ele vai acompanhar apresentações de artistas que não têm
absolutamente nada a ver com a folia.
Remonta há várias décadas a curtição do Carnaval em clubes exclusivos,
frequentados, principalmente, por gente endinheirada que, mesmo gostando muito
dos festejos de Momo, não queria se misturar com o povão. Com o transcorrer do
tempo, em paralelo com o adestramento do folião, que deixou de sair às ruas
para acompanhar blocos e troças ou mesmo ficar se divertindo nas calçadas vendo
a banda passar e passou a ficar embasbacado diante de um palco, festas
exclusivas em espaços fechados e que custam os olhos da cara porque, para além
das atrações musicais, oferecem uma infinidade de "mimos" como open
bar, massagem, maquiagem e etc., começaram a proliferar também demarcando
territórios no espaço da folia.
Seja como for, ainda tem muito folião que continua apegado a um Carnaval que é curtido e reverenciado no calor do vai-e-vem das ruas mesmo que ele também tome parte na festa que é montada diante de um palco.
7 de fevereiro de 2026
De passagem por Neópolis
Por Sierra
De tempos longínquos...
As narrativas históricas nos
informam que o território primitivo que veio a constituir a atual cidade de
Neópolis, que dista a cerca de 121 km de Aracaju, era chamado de Santo Antônio
de Vila Nova, designação com o qual foi elevado à categoria de freguesia em 18
de outubro de 1679. O território primitivo media cinquenta léguas de extensão,
contadas da barra do Rio São Francisco até a barra do Rio do Sal, nas divisas
da freguesia do Pombu (Glória-BA).
Sabe-se que a freguesia foi
a única que pertenceu a um donatário, em Sergipe. E quem era ele? Antônio de
Britto Castro era o seu nome; e ele recebeu a doação do Rei assumindo o
compromisso de construir a Casa de Câmara e Cadeia, um pelourinho e trinta
casas para trinta moradores, com os quais se daria início ao povoamento do
lugar. A concessão continha uma cláusula que estabelecia que o donatário
perderia o direito à doação se, no período de seis anos, tais casas ou fogos,
como se dizia naquele tempo, não tivessem sido construídas.
No ano de 1683 o filho do
donatário, Sebastião de Britto de Castro, requereu nomeação em substituição a
seu falecido pai; em vista disso, a Coroa Portuguesa pediu informações sobre o
cumprimento daquela cláusula, uma vez que fazia apenas quatro anos que o pai
dele recebera as terras em donataria. O filho do donatário informou, no ano de
1689, que todas as exigências determinadas haviam sido cumpridas; e que ,
naquela altura, o lugar já contava com duzentos moradores. Muito provavelmente
desconfiando de tais feitos, o Governo português, em Carta Régia de 29 de
novembro do mesmo ano, mandou que fosse feita uma vistoria na localidade pelo
Ouvidor de Sergipe que, após as diligências, informou que o donatário não
cumprira exatamente o que fora acordado no contrato, porque as construções eram
frágeis e cobertas com palha e não erguidas em alvenaria e madeira, materiais
resistentes. Em razão disso, o território voltou a ser patrimônio da Coroa; e
passou a ser denominado de Vila Real do São Francisco.
Recuando no tempo, antes do estabelecimento da donataria, o lugar compreendeu cenário das investidas dos holandeses que invadiram Pernambuco em 1630. Disse-nos assim o narrador do verbete sobre Neópolis contido na Enciclopédia dos Municípios Brasileiros:
Nas
lutas contra as invasões holandesas, a vila, na qualidade de simples freguesia,
exerceu papel saliente como sentinela avançada do território sergipano,
suportando os primeiros impactos do exército de [Maurício] de Nassau.
Em
seu território foi construído o célebre fortim de Keert de Koe defendido pelas
tropas assaltantes. Por ali passaram as forças batavas para a conquista de
Sergipe, antes, porém, rechaçadas em ferozes recontros pelos soldados e civis vila-novenses, que
lutaram pela sobrevivência de suas famílias e defesa de suas propriedades (Enciclopédia dos Municípios Brasileiros.
Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1959, vol.
XIX, p. 378).
Na companhia desse prestimoso narrado enciclopédico, ficamos sabendo que, em 1817, a freguesia perdeu quatro quintos do seu território para a criação da freguesia de Santo Antônio do Urubu de Baixo (Propriá), ficando o termo com dez léguas de norte a sul. Foi nesse mesmo ano que ocorreu uma revolta contra o domínio lusitano – a Revolução Pernambucana de 1817 -, tendo como epicentro o Recife; e que ecoou por outras províncias. Vila Nova se posicionou em favor da soberania portuguesa, contendo a infidelidade ao Reino verificada em Penedo, Alagoas, logo ali, no outro lado do Rio São Francisco, bem à sua frente.
Publicado pela primeira vez
justamente nesse 1817, o livro Corografia
brasílica ou Relação histórico-geográfica do Reino do Brasil, do padre
Manuel Aires de Casal trouxe esta diminuta descrição do lugar:
Vilanova
de Santo Antônio está situada vistosamente numa eminência lavada dos ventos, e
sobranceira ao Rio de S. Francisco, meia légua abaixo e defronte da do Penedo,
ornada com boa matriz. Tem cadeira régia de Latim, e na sua vizinhança
abundantes pedreiras de pedra de amolar. No seu termo, que se estende até à
praia do mar, cria-se gado vacum, e cultivam-se vários mantimentos. Há nele
duas paróquias de índios, com o título de Missões
(Manuel Aires de Casal. Corografia
Brasília ou Relação histórico-geográfica do reino do Brasil. Belo
Horizonte: Editora Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo,
1976, p. 250).
No ano de 1833, o seu termo foi desmembrado do de Santo Amaro das Brotas e elevado oficialmente à categoria de vila com a denominação de Vila Nova d’El Rei. Dois anos depois, pela Lei provincial de 6 de março de 1835, recebeu a comarca a denominação de Vila Nova do Rio São Francisco, abrangendo o seu termo, o de Propriá e o de Porto da Folha.
Quando foi constituída a
Província de Sergipe, a freguesia foi reconhecida pela Resolução nº 119, de 26
de julho de 1843, que confirmou a Provisão de 18 de outubro de 1679. Já a
Resolução nº 379, de 9 de maio de 1854, transferiu a comarca de Vila Nova para
Propriá, conservando, no entanto, a sua denominação. As movimentações não
pararam. A Resolução nº 461, de 20 de fevereiro de 1857, a comarca foi extinta
e o seu termo passou a pertencer à de Propriá, medida que custou, mas foi
reparada.
Dom Pedro II, o imperador
viajante que fez uma ampla excursão por algumas das províncias do Norte em 1859
e 1860 – naquele tempo o país era dividido apenas em Norte e Sul -, incluiu a
então chamada Vila Nova em seu roteiro de viagem. Intelectual e estudioso
refinado e curioso, Dom Pedro II manteve à mão um diário – ele levou vários
diários aos estudiosos – onde anotava vários aspectos dos lugares que visitava
e, aqui e ali, fazia até uns desenhos. De Vila Nova Sua Majestade deixou
apontamentos sobre visita a escolas, a edifícios eclesiásticos, ao sítio do
comendador José Manuel de Araújo do Nascimento e a outros pontos da localidade.
Leiamos um breve de suas anotações:
Às
2 ½ desembarquei em Vila-Nova [ele navegou no vapor Pirajá] dirigindo-me à
igreja do Rosário que serve de matriz [era vigário o padre Antônio de Santa
Maria Madalena, que recebeu do imperador 300$000 (300 mil réis) para auxiliar a
reedificação desse templo], e feita a oração fui ver as obras da nova matriz
que é vasta, e onde se lê, bastante alto sobre a porta, a seguinte inscrição:
“Demolida em 1813 Vigr.° Ant.° do C. Brum. Reedificada em 1854 José C. da
Fraga, Mestre Miguel A. de Vasc.°”.Está em osso e apenas há a talha de um altar
lateral junto ao cruzeiro (Dom Pedro II. Viagens pelo Brasil: Bahia, Sergipe, Alagoas, 1859/1860. 2ª ed. Rio
de Janeiro: Bom Texto; Letras & Expressões, 2003, p. 112. A nota de rodapé
dessa página [as notas são de Lourenço Luiz Lacombe] diz que aquele dinheiro
recebido pelo padre era “para esmolas aos pobres”. As duas informações que eu
inseri – do vapor Pirajá e da destinação da quantia – encontram-se na p. 247 da
publicação Viagem imperial ou Narração
dos preparativos, festejos e felicitações que tiveram lugar na província da
Bahia por ocasião da visita que à mesma fizeram SS. MM. II. Em outubro e
novembro do corrente ano, lançado pela Typ. e Livraria de Epiphanio
Pedroza, de Salvador, em 1859, e que, nesta edição do diário por mim
consultada, aparece, ainda que incompleta, como anexo).
Outro viajante também dado a
escrever esteve em Vila Nova ainda em 1859, só que no mês de abril. O alemão
Robert Avé-Lallemant, no entanto, pouquíssimo disse do lugar. Eis o seu
lacônico comentário: “Penedo é realmente o entreposto de todo o baixo S.
Francisco. Vila Nova, defronte na Província de Sergipe, nem de longe se pode
comparar com a cidade da Província de Alagoas, por muito que deseja fazer-lhe
concorrência” (Robert Avé-Lallemant. Viagens
pelas províncias da Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe: 1859. Belo
Horizonte: Editora Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo,
1980, p. 302).
De acordo com a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros,
à qual tanto recorri para construir parte desta narrativa, pelo Aviso nº 153,
de 30 de abril de 1872, a ilha de Paraúna, foi incluída na freguesia de Vila
Nova, ilha essa que se encontrava indevidamente anexada à paróquia fronteiriça
de Penedo.
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| Esta imagem e as três seguintes aparecem, respectivamente, nas páginas 379, 381, 380 e 380 da Enciclopédia dos Municípios Brasileiros |
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Foi a Lei estadual nº 583,
de 23 de novembro de 1910 que elevou a vila à categoria de cidade mantendo a
mesma designação de Vila Nova. E durante o chamado Estado Novo (1937-1945), o
governo ditatorial de Getúlio Vargas, o Decreto-lei da Interventoria Federal do
Estado, de nº 272, de 30 de abril de 1940, deu à cidade a designação de Neópolis, condizente com o seu status de
cidade.
Quando da publicação da Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, Neópolis, que está situada na margem direita do Rio São Francisco, tinha na indústria de tecidos a sua principal fonte econômica. A bem da verdade, a indústria têxtil conferiu a essa cidade sergipana um relevo considerável na região. A primeira tecelagem foi instalada ali em 1906 sob o nome Antunes & Cia., na sede municipal; no ano seguinte ocorreu o estabelecimento da Fábrica de Tecidos de Peixoto & Cia. No entanto o narrador do verbete enciclopédico destacou que foi ainda no século XIX – em 1892 para ser exato – que teve início a industrialização do município, com a instalação da fábrica de óleo de caroço de algodão de Alberto Vaz, vindo depois uma usina de beneficiamento de arroz.
Em 1956 os produtos
agrícolas de maior destaque na economia neopolitana eram arroz com casa, milho,
mandioca, algodão em caroço, feijão e coco. A pecuária figurava como a terceira
atividade econômica da cidade, com rebanhos de bovinos, suínos, equinos, muares,
asininos e reduzido número de ovinos e caprinos. E, em se tratando de uma
cidade cuja razão de ser fosse a existência do Tio São Francisco, atividade
pesqueira era uma realidade pulsante ainda na década de 1950. Eis o que disse o
narrador na página 380 da Enciclopédia
dos Municípios Brasileiros:
Neópolis
está entre os municípios de maiores recursos pesqueiros do Estado, beneficiado
pela passagem do rio São Francisco, que banha o seu território. Segundo dados
fornecidos pela Colônia de Pescadores Z-7, aí sediada, o valor da produção do
pescado em 1956 atingiu a cifra de 5 milhões de cruzeiros.
Atravessando
o século XXI destituída de alguns dos marcos de sua economia que muito diziam
de sua memória urbana e social, Neópolis foi outra das cidades sergipanas que
eu fui conhecer pelas minhas andanças por este país que ainda em muito me
encanta.
E
de tempos recentes
No meu itinerário de viagens
Neóplois já esteve presente em três ocasiões e em anos distintos. Foram três
momentos de uma longa viagem que eu fiz saindo de Pernambuco e percorrendo
cidades da Bahia, Sergipe e Alagoas.
A primeira vez que eu estive
em Neópolois foi na tarde do dia 24 de outubro de 2013. Às 15h eu e o meu então
companheiro de viagens Ernani Neves embarcamos na lancha Midiane partindo da alagoana cidade de Penedo.
Durante a travessia do Rio
São Francisco eu conversei com José Ferreira Braz, caminhoneiro, pescador e
proprietário da Pousada Braz Familiar, em Penedo. Então com 66 anos de idade
,ele me contou que nasceu em Neópolis. E comentou sobre a situação o rio: “O
nível do rio era muito elevado, cobria essas ilhas. Com as barragens diminuiu”.
Quando eu desembarquei em
solo neopolitano e cheguei ao logradouro da orla vi quão enorme era o contraste
daquele cenário com o que eu vira em Penedo. Em Neópolis, que tem o esplendor
do Rio São Francisco como parte de sua paisagem, eu encontrei uma orla
descuidada e com prédios antigos abandonados, o que me deu a impressão de quem
quer que fosse responsável por aquele estado de coisas não tinha noção nem de
preservação do patrimônio histórico edificado e nem da importância da
preservação da cidade para os seus habitantes, porque, fundamentalmente, uma
cidade é de seus moradores e não dos turistas.
Avançando para a parte central da cidade, eu cheguei à Praça José Moreno de Sant’ana. Passei pela Prefeitura e pela Câmara Municipal. Vi a imponente igreja-matriz com sua fachada na direção do rio. E, junto à Igreja de Nossa Senhora do Rosário um senhor chamado Pedro Santos Coelho me disse assim: “A igreja está fechada, foi abandonada”.
A Praça Monsenhor José
Moreno de Sant’ana é um espaço largo que nos põe em contato com uma larga vista
do cenário central de Neópolis; e é ladeada por uma extensa avenida – Av. José
Odin Ribeirto – que é ela mesma o centro de grande movimento comercial da
cidade e seu logradouro principal.
Andando de um lado para o
outro eu vi as ruínas de uma fábrica de sabão. Passei pela sede do Vila Nova
Clube. E fui vendo a urbanidade de uma cidade que possui vários povoados como Betume,
Porteiras, Fazendinha, Flor do Brejo, Mata das Varas e Sítio São José. Ah, e,
como bom pernambucano que adora o Carnaval, eu vibrei ao saber que em Neópolis
o reinado de Momo é dominado pelo frevo.
Conversei um pouco com Luzia
dos Santos, de Pacatuba (SE), então com 66 anos. Ela me contou que aprendeu a
ler com os irmãos à luz de candeeiro; que chegou a trabalhar no cultivo de
arroz, mas acabou indo para a casa de uma sua tia, em Penedo, com intenção de
mudar de vida; e que começou trabalhando. Na verdade, eu não entendi se ela
primeiro foi agricultora ou empregada doméstica; e não esclareci isso. A
respeito da situação do Rio São Francisco ela me disse assim: “Pra quem
conheceu ele cheio, ver ele assim é uma tristeza”.
Embarcados na lancha Rosa Léria/Rainha do Sertão, que partiu
as 17h, eu ouvi também José Veto, de Junqueiro (AL), que fez a gentileza de
pagar as nossas passagens. Ele disse que era caminhoneiro fornecedor de
cana-de-açúcar. Contou-me sobre a última cheia que vira do chamado “Rio da Integração
Nacional”: “A última cheia foi em 93. A água batia na ponte de Propriá”.
Pelo que eu vira em Neópolis
com suas ruínas e prédios abandonados e pelos testemunhos que eu colhera, eu
refleti que o seu baixo desenvolvimento talvez fosse explicado pelo vulto da
vizinha Penedo, do outro lado do rio. Acredito que o crescimento de Penedo de
algum modo impediu que Neópolis alcançasse outro patamar como cidade, porque
era e é em Penedo que o comércio é maior e a cidade alagoana está ligada por
terra a centros consumidores mais próximos e maiores.
A minha segunda visita a
Neópolis ocorreu em 18 de dezembro de 2017.
Desta feita eu cheguei à cidade de ônibus, vindo de Aracaju.
Naquele dia eu tratei com um
José dos Santos, de 42 anos. Segundo ele o nível do ria baixara mais nos
últimos quatro anos; e que começara a dragagem de trechos assoreados havia uma
semana para possibilitar a navegação da balsa: “Não estão tirando a areia. A
draga solta [a areia] no rio mesmo”. Outro homem, de quem eu não anotei o nome,
comentou: “Aqui havia muito peixe”.
Ainda do ônibus eu vi
plantações enormes de maracujá, manga e coco, além de canaviais, assinalando
uma vocação agrícola daquele lugar.
Voltei a caminhar pela Praça
Monsenhor José Moreno de Sant’ana. Havia um parque de diversões montado ali. A cidade
parecia se animar para os festejos natalinos. E tudo na orla me dizia do mesmo
que eu vira ali há quatro anos. E dali eu embarquei na lancha Lidian rumo a Penedo.
O meu contato mais recente com Neópolis ocorreu no dia 24 de novembro de 2019. E outra vez eu cheguei ali de ônibus vindo novamente da capital sergipana. Andei um pouco pela cidade. Na orla a paisagem de ruínas continuava dando um tom de melancolia ao cenário da cidade. Contudo, o volume da água do rio que tomavam banho em torno do píer me contagiou intensamente. E assim eu fui deixando Neópolis pela terceira vez, carregando em minhas lembranças fragmentos de sua memória urbana que valentemente resistiam de pé desafiando o descaso dos homens e a inexorabilidade do tempo.


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