Por Sierra
Quando eu vi o anúncio do evento nas redes sociais de Lia de Itamaracá, de pronto eu me programei e o pus na minha agenda, porque eu não queria perder o acontecimento de jeito nenhum, afinal, não é todo dia que se tem a oportunidade de estar presente e de prestigiar algo de tamanha dimensão e importância vinculado a uma instituição cultural que sempre primou pela responsabilidade social; sem falar que eu, também, não queria deixar de aproveitar aquele dia de confraternização e de conquistas.
Centro Cultural Estrela de Lia: uma trajetória de
superações e de realizações
Confirmando sua vocação e finalidade de ser um lugar
que se manteria com uma programação que não se reduziria a apresentações
musicais, embora isso não fosse pouco, considerando o destaque e a importância
que a artista Lia de Itamaracá tem para o folguedo ciranda e a cultura popular
pernambucana, em particular, e brasileira, em geral, o Centro Cultural Estrela
de Lia (CCEL), em que pesem os anos em que ficou inativo por causa do
desabamento de sua estrutura, ocorrido em 2014, existe há mais de duas décadas
à beira-mar da Praia de Jaguaribe, no bairro de mesmo nome, na Ilha de
Itamaracá, onde a cirandeira Lia mora, como um marco revelador de uma atuação,
desde o seu princípio, pontuada por ações que buscassem oferecer à comunidade
local muito mais do que cultura e arte.
Sendo assim, ao longo de sua rica e movimentada
trajetória o CCEL, além de disponibilizar ao público shows e apresentações de
cirandas e de outros ritmos com a recepção de vários artistas convidados,
ofereceu, também, em diferentes períodos e ocasiões, cursos e oficinas de
culinária, percussão e fotografia - Ytallo Barreto, que há vários anos vem
registrando fotograficamente a carreira de Lia de Itamaracá, é uma cria de uma
dessas iniciativas - com vistas a promover capacitação profissional e ampliação
de futuro para os moradores da Ilha de Itamaracá, enxergando nisso uma
possibilidade de empreendedorismo, geração de renda e alcance de um emprego. E
eu não posso me esquecer de dizer a vocês que, afora essas atividades que eu
mencionei, o CCEL promoveu ainda palestras sobre educação ambiental como modo
de despertar a consciência de crianças, jovens e adultos para o cuidado e a
preservação da natureza, algo superimportante para uma comunidade que mora numa
cidade-ilha, onde muitos são pescadores e marisqueiras, e que convive
direta e frequentemente com praias e mangues e com outros ambientes naturais,
como a restinga e a Mata Atlântica.
No último dia 25 de julho - Dia Internacional da Mulher
Negra Latino-americana e Caribenha e, no Brasil, Dia Nacional de Tereza de
Benguela - o CCEL foi palco e cenário para uma cerimônia festiva de encerramento
de mais um projeto realizado: o "Economia da Ciranda: moda e culinária
tradicional das mulheres da ilha", que foi financiado pela Fundação Banco
do Brasil e por uma emenda parlamentar da deputada federal Marília Arraes. Tal
projeto consistiu na capacitação de cerca de cinquenta mulheres nos cursos de
moda circular, através da técnica do fuxico, que aproveita sobras de tecidos
que teriam o lixo como destino, e de doçaria tradicional.
Quando cheguei ao CCEL, por volta das 15h10, eu
encontrei homens e mulheres ainda arrumando o espaço, fixando a placa com o
nome do centro, pintando a rampa de acesso, instalando lâmpadas, enfim, no
corre-corre de última hora para fazer o negócio acontecer, o esforço coletivo
de bastidores responsável pelo glamour e pelo brilho que o público acompanha
depois. Mas, mais do que ajustes e acertos de momento, a ação de todas aquelas
pessoas trabalhando para que tudo ficasse pronto - Beto Hees, produtor
incansável de Lia de Itamaracá também estava colocando a mão na massa, como se
diz, auxiliado por Lucas, Babá, Ruan, Mirtes e outros - revelava que tudo
aquilo não fora aprontado antes porque o CCEL não dispunha de recursos
financeiros para tanto, situação essa que é um dado marcante de sua trajetória;
muito, a bem dizer, quase tudo que já foi realizado no CCEL em termos de
oficinas e capacitações, só aconteceu às custas de editais de fomentos, porque,
infelizmente, a entidade não dispõe de recursos próprios para isso e o
patrocínio da iniciativa privada é algo muitíssimo difícil de aparecer, mesmo
sendo Lia de Itamaracá uma artista de projeção internacional.
Falando nela...
A rainha da ciranda Lia de Itamaracá, Patrimônio Vivo
de Pernambuco e um dos ícones da cultura popular brasileira, chegou ao seu
centro cultural trajando um figurino assinado pela saudosa e talentosa modista
Jane Travassos, a quem eu chamava de Fadinha Lilás, porque ela adorava se
vestir com roupas dessa cor. Num gesto de grande reconhecimento à memória e à
colaboração de Jane Travassos que, além de figurinista da cirandeira famosa, em
mais de uma ocasião hospedou Lia de Itamaracá e sua trupe em sua casa no bairro
de Santa Tereza, no tempo em que ela ainda morava no Rio de Janeiro, o CCEL
batizou com o nome dela a charmosa galeria que foi inaugurada lá, naquele
sábado de celebração de conquistas.
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| Lia de Itamaracá, uma estrela de primeira grandeza |
Ainda antes do início do evento em si, eu circulei por toda a área do CCEL observando uma coisa e outra para novamente me familiarizar com aquele espaço do qual eu me mantivera afastado durante um bom tempo. Aproveitei também para fazer uns registros fotográficos e trocar figurinhas com velhos conhecidos, como a cirandeira Dulce Baracho, o casal Chica e Nivaldo, Isa Melo e Marcos Paulo; e, claro, eu aproveitei para tietar Lia de Itamaracá, uma das artistas que eu mais admiro e de quem gosto muito.
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| Com Dulce Baracho: pense numa resenha |
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| Isa Melo: sempre uma boa companhia |
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| O casal Nivaldo e Chica: vai uma cervejinha aí? |
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| Com a Rainha da Ciranda Lia de Itamaracá |
Ana Cláudia Frazão, que foi a professora do curso de preparo e acondicionamento de doces - ah, sim, antes que eu me esqueça de lhes dizer isso: tanto o curso de doçaria como o de fuxico (este teve como professoras: Ana Peroba, Maria do Livramento de Aguiar, conhecida como Mestra Lívia, e Maria Gabrielly Dantas) foram realizados na Embaixada da Ciranda, que fica a cerca de 600 m do CCEL - me prestou o seguinte depoimento:
A oficina de qualificação, ela envolveu mulheres da
ilha; a maioria delas já tinha alguma experiência na tradição e feitura de
doces e outras não tão ligadas diretamente. Foi uma experiência muito rica que
visou o desenvolvimento de uma marca, que é uma grife de doces, Delícias de
Lia. E esse projeto, ele foi muito rico, pois todas aquelas que já faziam
comercialização, elas ganharam, assim, através da troca de experiências, novos
ingredientes, digamos, e ferramentas pra melhorar ainda mais o seu trabalho; e
aquelas outras que não tinham uma ligação direta com a comercialização [e]
apenas com a feitura doméstica ou algo assim, também se sentiram envolvidas
dentro desse olhar de empreendedorismo.
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| Ana Claudia Frazão diante dos potes de passa de caju da marca Delícias de Lia |
Ei, Seu Zé, ei Dona Maria, o negócio já vai começar,
visse?!
À medida que o tempo foi passando, o público começou a
ocupar o CCEL para acompanhar o que estava por vir. No meio da plateia se encontravam,
além das pessoas da própria Ilha de Itamaracá, que sempre apoiam iniciativas
que fomentam a cultura e o turismo dessa cidade da Região Metropolitana do
Recife, como o casal Sol Esoje e Sara, os deputados João Paulo e Carlos Veras.
Coube à jornalista e produtora cultural Michelle de
Assumpção que, juntamente com Marcos Paulo, ficou responsável pela coordenação
geral do "Economia da Ciranda", dar início aos trabalhos
posicionando-se no palco e fazendo uma fala institucional, digamos assim,
explicando o projeto em si e agradecendo os financiamentos, à Lia de Itamaracá,
ao público que comparecera para prestigiar o evento, ao corpo docente dos dois
cursos, a Beto Hees e às alunas que se empenharam nas aulas e que foram à
cerimônia com dois propósitos: receber os certificados - algumas delas participaram
das duas qualificações - e apresentar o resultado do que elas aprenderam.
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| Parte do corpo docente dos cursos que o projeto ofertou |
Após fala de Beto Hees, que, mais uma vez, destacou as dificuldades que Lia de Itamaracá e ele enfrentam para manter o CCEL funcionando sem auxílio e apoio financeiro governamentais para além de editais de fomento, teve início um desfile de moda com o lançamento da marca Fuxiqueiras da Ilha. (Antes de seguirmos para o próximo parágrafo eu abri este parêntese para comentar o seguinte: dias antes do evento, Lia de Itamaracá apareceu num vídeo postado em seu perfil, no Instagram, soltando o verbo, reclamando da imundície que estava tomando a área que fica defronte ao CCEL; imundície essa resultante do fato de a Prefeitura Municipal da Ilha de Itamaracá ter colocado uma enorme lixeira logo ali. Já pensaram? Como é que a Municipalidade faz uma coisa dessa na frente de um equipamento cultural de tanta relevância para a ilha-cidade? Francamente, prefeito Paulo Galvão. Se a Municipalidade não pode apoiar o funcionamento e a dinamização do CCEL que ela, pelo menos, trate de não prejudicar um centro cultural que Lia de Itamaracá batalhou tanto, junto com a equipe dela, para erguer, reerguer e mantê-lo funcionando.)

Numa "passarela" demarcada na areia da praia com palhas de coqueiro, modelos apresentaram as criações com fuxicos elaboradas pelas participantes do curso; denominada de Cápsula, a coleção mostrou, para um público eufórico e muito atento, o fuxico aplicado a diferentes peças do vestuário feminino. O desfile contou ainda com um modelo criado pelo estilista Júlio César NYC, que já tinha sido usado por Daúde, a cantora baiana que, junto com Lia de Itamaracá, lançou o disco Pelos olhos do mar, no ano passado, pelo Selo Sesc.
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| Lá vem elas: a Coleção Cápsula tomou a passarela praieira e encantou o público |
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| Este modelito é uma peça criada pelo estilista Júlio César NYC |
Além da grife de roupas, o projeto "Economia da
Ciranda" lançou a marca de doces Delícias
de Lia com direito à degustação de passas de caju - gente, eu só não provei
da guloseima porque estou na base do açúcar zero.
Outro ponto alto do evento foi a cerimônia de entrega
dos certificados às participantes dos dois cursos que foram ofertados pelo
projeto. Ver todas aquelas mulheres no palco exibindo aquele documento foi algo
emocionante, porque revelador de como pequenas ações de formação e de
qualificação podem desencadear mudanças de rumo e um redesenho de futuro para
as pessoas quando a elas são oferecidas oportunidades de aprendizado como as
que o projeto "Economia da Ciranda" disponibilizou.
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| Nesta e nas oito fotos seguintes aparecem registros feitos na Galeria Jane Travassos |
De tudo o que vi e ouvi lá no CCEL , naquele 25 de
julho, eu só lamentei o fato de que não fizeram a tal passa de caju para vender
no evento e que, quando Dulce Baracho, a filha de Antônio Baracho, o rei da
ciranda, começou o seu show, a maior parte do público já tinha ido embora - ao
término da apresentação eu peguei uma carona com ela e, assim, não esperei pela
outra atração musical num espaço que, àquela altura, já estava quase esvaziado.
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| Dulce Baracho continua levando adiante o legado do seu talentoso pai Antônio Baracho, o Rei da Ciranda pernambucana |
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| Não acredito que você não sabe dançar ciranda. Na próxima vez eu quero ver você na roda, visse?! |
No balanço geral, para mim, o evento foi um grande sucesso; e demonstrou, mais uma vez, que a cirandeira Lia de Itamaracá e o Centro Cultural Estrela de Lia continuam vencendo todos os obstáculos que aparecem para fazer a roda da arte, da cultura, da cidadania e do compromisso social girar.
Segue a roda da ciranda!


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