Por Sierra

Foto: Arquivo do Autor
Trecho da PE-001, conhecida como Estrada do Forte Orange, na Ilha de Itamaracá, que foi cortado pela Compesa e que está até o presente momento esperando ser remendado
Frequentemente nós nos deparamos com cenários e
situações em nossas cidades que nos suscitam inúmeras e por vezes revoltantes
indagações a respeito deles. Não raro, aqui e ali, nós observamos a falta de
ação e de comprometimento da Municipalidade para resolver problemas como a
limpeza de um canal, a construção de uma ponte ou a pavimentação de uma rua
que, sob a ótica do cidadão comum, que vivencia cotidianamente os espaços da
cidade, são de fácil execução; e então ele se pergunta: por que é que até agora
isso não foi feito?
Quem acompanha o NE1,
um telejornal da Rede Globo Nordeste, de Pernambuco, que já se chamou NE TV, conhece e sabe da existência de
um quadro muito popular que é o Calendário.
E no que ele consiste? Indivíduos procuram a emissora para dizer de transtornos
e deficiências estruturais de urbanização que eles encontram nos lugares onde
moram, como ruas sem pavimentação, morros sem escadarias e corrimões,
precariedade do abastecimento de água, irregularidade na coleta de lixo, etc.
Sabendo disso, repórteres se deslocam para tais locais e ouvem moradores e,
claro, pedem respostas às autoridades competentes sobre as demandas. Quando não
enviam apenas uma nota de esclarecimento, as Municipalidades, por vezes,
designam um funcionário para o lugar a fim de que ele dê explicações ao
repórter e, por conseguinte, aos populares que se encontram ali e, claro, aos
telespectadores.
Eu já acompanhei várias edições desse quadro do NE1; e, em meio a bons resultados das
cobranças de soluções de problemas feitas pela população - normalmente as
autoridades estipulam um prazo de resolução da demanda, que é marcado num
grande calendário; transcorrido o tempo, que pode e geralmente é de meses, uma
equipe do telejornal retorna ao local para averiguar se a promessa foi
realmente cumprida e, diversas vezes, não o são -, alguns secretários municipais
e outros representantes do prefeito não conseguem dar uma explicação
satisfatória para que a questão seja solucionada; eles falam de ausência de
projetos, captação de recursos, futuras parcerias com o governo estadual e
federal e por aí vai.
A lembrança do quadro Calendário do telejornal NE1
me veio quando eu pensei em escrever um artigo enfocando a dificuldade que
muitas Prefeituras Municipais têm para conseguir tirar do papel tanto projetos
novos como ações de requalificação de estruturas já existentes, porque, como se
sabe, são inúmeras as que vivem só e unicamente dos repasses do Fundo de
Participação dos Municípios.
Refletindo sobre isso, eu inevitavelmente pensei
também em obras que às vezes são realizadas e nos dão a impressão de que não houve
estudos para tanto e nem consultas a órgãos e entidades outras que pudessem ter
relação com o que seria realizado.
Muito tempo atrás eu publiquei neste blog um artigo
comentando o caso da Praça Olavo Bilac, no bairro da Boa Vista, no Recife, que,
pouco tempo depois de ter passado por uma ampla obra de revitalização, teve uma
grande parte de seu perímetro suprimido para dar lugar à ampliação de um
corredor viário. Ou seja, por falta de interlocução com o executivo estadual, a
Municipalidade recifense gastou dinheiro numa obra que, na verdade, desperdiçou
dinheiro público.
Milhões e milhões de reais por vezes são gastos não
somente em casos de construção seguida de destruição - como ocorreu na Praça
Olavo Bilac e nos canteiros centrais das faixas da BR 101 que cortam a cidade
de Abreu e Lima (PE), onde a Municipalidade, primeiro, gastou uma nota para
pavimentá-los com pedras portuguesas e, depois, removeu tudo para pôr no lugar
piso intertravado de concreto, e em outro caso que eu vou relatar a partir do próximo
parágrafo -, como também em obras inacabadas e noutras cujos resultados são
contraproducentes, vide a dinheirama gasta numa muito propagandeada engorda da
Praia de Ponta Negra, em Natal (RN), que resultou num completo fiasco, como
atestam os tantos vídeos que têm circulado nas redes sociais.
Eis agora mais um caso de construção seguida de destruição
e, por conseguinte, de desperdício do dinheiro resultante dos tantos impostos
que nós pagamos. Durante muitos anos a PE-001, na Ilha de Itamaracá, uma cidade-ilha
que integra a Região Metropolitana do Recife, permaneceu à espera de uma obra
que pudesse acabar com os tantos buracos que marcavam um ponto e outro da
rodovia que possui apenas 4,9 km de extensão e que leva a um dos maiores
atrativos turísticos do lugar, que é a Fortaleza de Santa Cruz, também
conhecida como Forte Orange.
Pois bem. Ao custo de R$ 22,6 milhões, a rodovia foi
toda restaurada e sinalizada e passou a contar com uma ciclo faixa; e foi
entregue, em março deste ano, à população itamaracaense pela governadora Raquel
Lyra.
Ao que aprece, ainda antes da entrega da obra, a
Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa), que possui uma lista imensa de
ações dessa natureza, começou a escavar partes da rodovia restaurada para fazer
manutenção de canos estourados. Já pensaram? E o pior é que a Compesa cava,
abre e danifica rodovias, ruas e etc. e nem sempre trata de mandar remendar os
trechos destruídos e, quando o faz, geralmente é um serviço de péssima
qualidade.
Falta-nos muito em termos de planejamento urbano e de competência para bem gerir a aplicação de recursos públicos em obras de infraestrutura. Quem passa pela PE-001 e olha atentamente para os dois lados, ao longo de todo o trajeto, facilmente se depara com os rastros de destruição deixados pela Compesa. Não é apenas lamentável que frequentemente isso ocorra; é, também, vergonhoso que tais ocorrências se deem e fiquem por isso mesmo, como se fossem uma coisinha à toa.
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