1 de agosto de 2026

Economia circular, doçaria, empreendedorismo, moda, ciranda e cidadania: uma tarde no Centro Cultural Estrela de Lia

 Por Sierra

 

Fotos: Arquivo do Autor
Não bastasse levar para todos os lugares o seu carisma, o seu canto e a sua ciranda, Lia de Itamaracá mantém, há mais de vinte anos, na Ilha de Itamaracá, onde mora, um centro cultural que, além de arte e de cultura, se propõe a ofertar cursos, oficinas e palestras para a comunidade local

Quando eu vi o anúncio do evento nas redes sociais de Lia de Itamaracá, de pronto eu me programei e o pus na minha agenda, porque eu não queria perder o acontecimento de jeito nenhum, afinal, não é todo dia que se tem a oportunidade de estar presente e de prestigiar algo de tamanha dimensão e importância vinculado a uma instituição cultural que sempre primou pela responsabilidade social; sem falar que eu, também, não queria deixar de aproveitar aquele dia de confraternização e de conquistas.

 

Centro Cultural Estrela de Lia: uma trajetória de superações e de realizações

 

Confirmando sua vocação e finalidade de ser um lugar que se manteria com uma programação que não se reduziria a apresentações musicais, embora isso não fosse pouco, considerando o destaque e a importância que a artista Lia de Itamaracá tem para o folguedo ciranda e a cultura popular pernambucana, em particular, e brasileira, em geral, o Centro Cultural Estrela de Lia (CCEL), em que pesem os anos em que ficou inativo por causa do desabamento de sua estrutura, ocorrido em 2014, existe há mais de duas décadas à beira-mar da Praia de Jaguaribe, no bairro de mesmo nome, na Ilha de Itamaracá, onde a cirandeira Lia mora, como um marco revelador de uma atuação, desde o seu princípio, pontuada por ações que buscassem oferecer à comunidade local muito mais do que cultura e arte.

Sendo assim, ao longo de sua rica e movimentada trajetória o CCEL, além de disponibilizar ao público shows e apresentações de cirandas e de outros ritmos com a recepção de vários artistas convidados, ofereceu, também, em diferentes períodos e ocasiões, cursos e oficinas de culinária, percussão e fotografia - Ytallo Barreto, que há vários anos vem registrando fotograficamente a carreira de Lia de Itamaracá, é uma cria de uma dessas iniciativas - com vistas a promover capacitação profissional e ampliação de futuro para os moradores da Ilha de Itamaracá, enxergando nisso uma possibilidade de empreendedorismo, geração de renda e alcance de um emprego. E eu não posso me esquecer de dizer a vocês que, afora essas atividades que eu mencionei, o CCEL promoveu ainda palestras sobre educação ambiental como modo de despertar a consciência de crianças, jovens e adultos para o cuidado e a preservação da natureza, algo superimportante para uma comunidade que mora numa cidade-ilha, onde muitos são pescadores e marisqueiras,  e que convive direta e frequentemente com praias e mangues e com outros ambientes naturais, como a restinga e a Mata Atlântica.

Preparando tudo para o evento: durante toda a sua trajetória o Centro Cultural Estrela de Lia enfrentou o desafio de manter o seu funcionamento recorrendo a editais de fomento para desenvolver cursos e oficinas de qualificação profissional, uma vez que a iniciativa privada muito pouco colaborou para que esse espaço tão importante para a comunidade da Ilha de Itamaracá desenvolvesse mais atividades












No último dia 25 de julho - Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha e, no Brasil, Dia Nacional de Tereza de Benguela - o CCEL foi palco e cenário  para uma cerimônia festiva de encerramento de mais um projeto realizado: o "Economia da Ciranda: moda e culinária tradicional das mulheres da ilha", que foi financiado pela Fundação Banco do Brasil e por uma emenda parlamentar da deputada federal Marília Arraes. Tal projeto consistiu na capacitação de cerca de cinquenta mulheres nos cursos de moda circular, através da técnica do fuxico, que aproveita sobras de tecidos que teriam o lixo como destino, e de doçaria tradicional.

Quando cheguei ao CCEL, por volta das  15h10, eu encontrei homens e mulheres ainda arrumando o espaço, fixando a placa com o nome do centro, pintando a rampa de acesso, instalando lâmpadas, enfim, no corre-corre de última hora para fazer o negócio acontecer, o esforço coletivo de bastidores responsável pelo glamour e pelo brilho que o público acompanha depois. Mas, mais do que ajustes e acertos de momento, a ação de todas aquelas pessoas trabalhando para que tudo ficasse pronto - Beto Hees, produtor incansável de Lia de Itamaracá também estava colocando a mão na massa, como se diz, auxiliado por Lucas, Babá, Ruan, Mirtes e outros - revelava que tudo aquilo não fora aprontado antes porque o CCEL não dispunha de recursos financeiros para tanto, situação essa que é um dado marcante de sua trajetória; muito, a bem dizer, quase tudo que já foi realizado no CCEL em termos de oficinas e capacitações, só aconteceu às custas de editais de fomentos, porque, infelizmente, a entidade não dispõe de recursos próprios para isso e o patrocínio da iniciativa privada é algo muitíssimo difícil de aparecer, mesmo sendo Lia de Itamaracá uma artista de projeção internacional.

 

Falando nela...

 

A rainha da ciranda Lia de Itamaracá, Patrimônio Vivo de Pernambuco e um dos ícones da cultura popular brasileira, chegou ao seu centro cultural trajando um figurino assinado pela saudosa e talentosa modista Jane Travassos, a quem eu chamava de Fadinha Lilás, porque ela adorava se vestir com roupas dessa cor. Num gesto de grande reconhecimento à memória e à colaboração de Jane Travassos que, além de figurinista da cirandeira famosa, em mais de uma ocasião hospedou Lia de Itamaracá e sua trupe em sua casa no bairro de Santa Tereza, no tempo em que ela ainda morava no Rio de Janeiro, o CCEL batizou com o nome dela a charmosa galeria que foi inaugurada lá, naquele sábado de celebração de conquistas.


Lia de Itamaracá, uma estrela de primeira grandeza


Ainda antes do início do evento em si, eu circulei por toda a área do CCEL observando uma coisa e outra para novamente me familiarizar com aquele espaço do qual eu me mantivera afastado durante um bom tempo.  Aproveitei também para fazer uns registros fotográficos e trocar figurinhas com velhos conhecidos, como a cirandeira Dulce Baracho, o casal Chica e Nivaldo, Isa Melo e Marcos Paulo; e, claro, eu aproveitei para tietar Lia de Itamaracá, uma das artistas que eu mais admiro e de quem gosto muito.


Com Dulce Baracho: pense numa resenha



Isa Melo: sempre uma boa companhia






O casal Nivaldo e Chica: vai uma cervejinha aí?


Com a Rainha da Ciranda Lia de Itamaracá

Ana Cláudia Frazão, que foi a professora do curso de preparo e acondicionamento de doces - ah, sim, antes que eu me esqueça de lhes dizer isso: tanto o curso de doçaria como o de fuxico (este teve como professoras: Ana Peroba, Maria do Livramento de Aguiar, conhecida como Mestra Lívia, e Maria Gabrielly Dantas) foram realizados na Embaixada da Ciranda, que fica a cerca de 600 m do CCEL - me prestou o seguinte depoimento:

A oficina de qualificação, ela envolveu mulheres da ilha; a maioria delas já tinha alguma experiência na tradição e feitura de doces e outras não tão ligadas diretamente. Foi uma experiência muito rica que visou o desenvolvimento de uma marca, que é uma grife de doces, Delícias de Lia. E esse projeto, ele foi muito rico, pois todas aquelas que já faziam comercialização, elas ganharam, assim, através da troca de experiências, novos ingredientes, digamos, e ferramentas pra melhorar ainda mais o seu trabalho; e aquelas outras que não tinham uma ligação direta com a comercialização [e] apenas com a feitura doméstica ou algo assim, também se sentiram envolvidas dentro desse olhar de empreendedorismo.

 

Ana Claudia Frazão diante dos potes de passa de caju da marca Delícias de Lia





Ei, Seu Zé, ei Dona Maria, o negócio já vai começar, visse?!

 

À medida que o tempo foi passando, o público começou a ocupar o CCEL para acompanhar o que estava por vir. No meio da plateia se encontravam, além das pessoas da própria Ilha de Itamaracá, que sempre apoiam iniciativas que fomentam a cultura e o turismo dessa cidade da Região Metropolitana do Recife, como o casal Sol Esoje e Sara, os deputados João Paulo e Carlos Veras.







Da esquerda para a direita: Dulce Baracho, João Paulo, Lia de Itamaracá e Carlos Veras: espero que a visita desses deputados ao Centro Cultural Estrela de Lia tenha sido mais do que uma oportunidade para fazer fotos e vídeos para a propaganda eleitoral deles






Coube à jornalista e produtora cultural Michelle de Assumpção que, juntamente com Marcos Paulo, ficou responsável pela coordenação geral do "Economia da Ciranda", dar início aos trabalhos posicionando-se no palco e fazendo uma fala institucional, digamos assim, explicando o projeto em si e agradecendo os financiamentos, à Lia de Itamaracá, ao público que comparecera para prestigiar o evento, ao corpo docente dos dois cursos, a Beto Hees e às alunas que se empenharam nas aulas e que foram à cerimônia com dois propósitos: receber os certificados - algumas delas participaram das duas qualificações - e apresentar o resultado do que elas aprenderam.

A jornalista e produtora cultural Michelle de Assumpção abrindo os trabalhos





Parte do corpo docente dos cursos que o projeto ofertou







Após fala de Beto Hees, que, mais uma vez, destacou as dificuldades que Lia de Itamaracá e ele enfrentam para manter o CCEL funcionando sem auxílio e apoio financeiro governamentais para além de editais de fomento, teve início um desfile de moda com o lançamento da marca Fuxiqueiras da Ilha. (Antes de seguirmos para o próximo parágrafo eu abri este parêntese para comentar o seguinte: dias antes do evento, Lia de Itamaracá apareceu num vídeo postado em seu perfil, no Instagram, soltando o verbo, reclamando da imundície que estava tomando a área que fica defronte ao CCEL; imundície essa resultante do fato de a Prefeitura Municipal da Ilha de Itamaracá ter colocado uma enorme lixeira logo ali. Já pensaram? Como é que a Municipalidade faz uma coisa dessa na frente de um equipamento cultural de tanta relevância para a ilha-cidade? Francamente, prefeito Paulo Galvão. Se a Municipalidade não pode apoiar o funcionamento e a dinamização do CCEL que ela, pelo menos, trate de não prejudicar um centro cultural que Lia de Itamaracá batalhou tanto, junto com a equipe dela, para erguer, reerguer e mantê-lo funcionando.)



No primeiro plano vemos parte da cerca de palha Centro Cultural Estrela de Lia e, ao fundo, a Igreja do Bom Jesus dos Passos: quando Lia de Itamaracá postou um vídeo, em seu Instagram, mostrando a enorme quantidade de lixo que a comunidade depositara nesse local e a Prefeitura Municipal não recolhera, ela revelou a falta de cuidado da Municipalidade para com a limpeza dos lugares que são atrações turísticas da Ilha de Itamaracá





                                                 

Numa "passarela" demarcada na areia da praia com palhas de coqueiro, modelos apresentaram as criações com fuxicos elaboradas pelas participantes do curso; denominada de Cápsula, a coleção mostrou, para um público eufórico e muito atento, o fuxico aplicado a diferentes peças do vestuário feminino. O desfile contou ainda com um modelo criado pelo estilista Júlio César NYC, que já tinha sido usado por Daúde, a cantora baiana que, junto com Lia de Itamaracá, lançou o disco Pelos olhos do mar, no ano passado, pelo Selo Sesc.



Lá vem elas: a Coleção Cápsula tomou a passarela praieira e encantou o público











Este modelito é uma peça criada pelo estilista Júlio César NYC






Além da grife de roupas, o projeto "Economia da Ciranda" lançou a marca de doces Delícias de Lia com direito à degustação de passas de caju - gente, eu só não provei da guloseima porque estou na base do açúcar zero.

Outro ponto alto do evento foi a cerimônia de entrega dos certificados às participantes dos dois cursos que foram ofertados pelo projeto. Ver todas aquelas mulheres no palco exibindo aquele documento foi algo emocionante, porque revelador de como pequenas ações de formação e de qualificação podem desencadear mudanças de rumo e um redesenho de futuro para as pessoas quando a elas são oferecidas oportunidades de aprendizado como as que o projeto "Economia da Ciranda" disponibilizou.




Um dos pontos altos da festa: as mulheres que participaram dos cursos exibem os seus certificados



Nesta e nas oito fotos seguintes aparecem registros feitos na Galeria Jane Travassos



















De tudo o que vi e ouvi lá no CCEL , naquele 25 de julho, eu só lamentei o fato de que não fizeram a tal passa de caju para vender no evento e que, quando Dulce Baracho, a filha de Antônio Baracho, o rei da ciranda, começou o seu show, a maior parte do público já tinha ido embora - ao término da apresentação eu peguei uma carona com ela e, assim, não esperei pela outra atração musical num espaço que, àquela altura, já estava quase esvaziado.



Dulce Baracho continua levando adiante o legado do seu talentoso pai Antônio Baracho, o Rei da Ciranda pernambucana





Não acredito que você não sabe dançar ciranda. Na próxima vez eu quero ver você na roda, visse?!



No balanço geral, para mim, o evento foi um grande sucesso; e demonstrou, mais uma vez, que a cirandeira Lia de Itamaracá e o Centro Cultural Estrela de Lia continuam vencendo todos os obstáculos que aparecem para fazer a roda da arte, da cultura, da cidadania e do compromisso social girar.

Segue a roda da ciranda!