Por Sierra
Caso você já tenha lido um bom livro de História do
Brasil, sobretudo algum que abordou o período da Ditadura Militar (1964-1985),
certamente há de ter se deparado com algumas linhas descrevendo as chamadas
Ligas Camponesas, que existiram no Nordeste, e lido o nome de um personagem que
durante vários anos atuou como advogado dos camponeses, o pernambucano de Bom
Jardim chamado Francisco Julião, que, além de advogado, foi escritor e deputado
estadual e federal; e que teve os seus direitos políticos cassados nos
primeiros dias do Golpe Militar, passou quase dois anos preso e,
posteriormente, foi para o exílio, tendo passado quinze anos fora do país.
De Francisco Julião eu imagino que você tomou algum
conhecimento. Agora e de Alexina Crêspo, uma recifense nascida no bairro de
Afogados em 30 de junho de 1926, que foi casada durante vinte anos com aquele
presidente de honra das Ligas Camponesas do Nordeste, atuando ao lado dele na
causa da reforma agrária e para além dela, participando de movimentos sociais,
políticos e femininos de forma mais radical do que o marido, razão pela qual,
segundo é divulgado, ela se separou dele, em 1963, você já ouviu falar? Ela
aderiu à luta armada quando os militares tomaram o poder e amordaçaram a
democracia; e da clandestinidade Alexina Crêspo partiu, igualmente ao
ex-esposo, para o exílio, tendo passado por Chile, Cuba e Suécia. Comprometida
com os seus ideais revolucionários, ela esteve com Fidel Castro, Che Guevara,
Salvador Allende e Mao Tsé-Tung.
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| Em companhia do artista maranhense Felipe Puxirum, cantor, compositor e instrumentista |
Sabe por que você provavelmente não leu nada sobre
Alexina Crêspo quando se deparou com um texto a respeito das Ligas Camponesas e
de Francisco Julião? Porque durante muito tempo a nossa historiografia e mesmo
as narrativas jornalísticas invisibilizaram personagens femininos, como se eles
não fossem importantes e sempre tivessem permanecido fora dos acontecimentos
históricos, porque as mulheres compreendem um dos grupos que a estudiosa
francesa Michelle Perrot classificou de "os excluídos da História".
Na última terça-feira, dia em que Alexina Crêspo
completaria cem anos, a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) promoveu, em seu
campus do bairro de Casa Forte, no Recife, à noite, um evento para celebrar
essa figura singular da História recente do nosso país.
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A exposição em homenagem à Alexina Crêspo está imperdível. Não perca!
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| Com a vereadora Cida Pedrosa |
A programação que, para a minha alegria e satisfação,
foi muito concorrida, teve início com a exibição de dois documentários no
Cinema do Museu: "Alexina - Memórias de um exílio", de Stella Maris
Saldanha e Cláudio Bezerra; e "The troubled land", de Helen Jean
Rogers. Ao término das exibições, os deputados João Paulo e Túlio Gadêlha, as
deputadas Rosa Amorim e Dani Portela e as vereadoras Cida Pedrosa e Kari Santos
e Túlio Velho Barreto falaram um pouco sobre a importância do acontecimento
daquele evento para celebrar a memória e a trajetória de Alexina Crêspo.
Ao sairmos do cinema, nos dirigimos ao Edifício José Bonifácio - a esta altura, os representantes do Memorial das Ligas Camponesas de Sapé, na Paraíba, já haviam chegado; eles tinham se atrasado por conta de um grave acidente de trânsito que ocorrera na BR 230 - para tomarmos parte em mais dois acontecimentos daquela noite de celebração: o vernissage, a abertura da exposição "Vermelho Brasil - 100 anos de Alexina Crêspo", na Galeria Massangana, que, com a curadoria de Camila Maria Santos, Elaine Santana do Ó e Raul Calle de Paula, bisneto de Alexina, exibiu um conjunto de fotografias, recortes originais e também reproduções de jornais, cartas, documentos públicos, joias e outros pertences da homenageada e de sua família que, em parte, estava lá prestigiando o evento; e para acompanharmos, no hall de entrada daquele edifício, o lançamento do livro de Alexina Crêspo Os poemas de Apolo e outros escritos, que foi organizado por Raul Calle de Paula e que foi lançado pela Companhia Editora de Pernambuco - enquanto Raul autografava exemplares da obra, aquele espaço foi tomado pela cantoria do Coral Voz Ativa, de João Pessoa, que entoou o "Hino do camponês", uma composição de Francisco Julião e Geraldo Menucci cujo estribilho marcante diz que
A bandeira que adoramos
Não pode ser manchada
Com o sangue de uma raça
Presa ao cabo da enxada.
Na apresentação que escreveu para o grande livro que
é História das mulheres no Brasil, (Mary Del Priore [org.]. 7ª ed.
São Paulo: Contexto, 2004, p. 7), Mary Del Priore nos disse que a história das
mulheres "não é só delas", é também aquela da família, da criança, do
trabalho, da mídia, da literatura: "É a história do seu corpo, da sua sexualidade,
da violência que sofreram e que praticaram, da sua loucura, dos seus amores e
dos seus sentimentos" - à qual eu acrescento a história de suas lutas, de
suas insubmissões, de sua coragem e de suas resistências.
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| Raul Calle de Paula autografando livros |
Protagonista de uma das trajetórias mais emblemáticas
no campo dos movimentos sociais, da reforma agrária e das lutas em defesa de
uma sociedade justa onde o bem-estar social fosse algo ao alcance de todos,
Alexina Crêspo é uma personagem de nossa História recente que merecer ter o seu
percurso revelado para um público cada vez mais amplo, algo que datas
comemorativas, como esta de agora, de celebração do centenário do seu
nascimento, proporcionam. É preciso que nós reconheçamos a importância que as
mulheres tiveram e têm ao longo do nosso processo civilizatório, porque elas
também foram protagonistas de acontecimentos bastante significativos do nosso
passado e estiveram em várias frentes de lutas por direitos e conquistas
sociais, além, claro, de terem contribuído para o engrandecimento dos universos
pedagógico, artístico e cultural deste país e de alhures.
Viva Alexina Crêspo!
Viva as mulheres!

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