29 de agosto de 2026

Entre marquises e pedras portuguesas a Edichão reúne parte da memória urbana e cultural do Recife

 Por Sierra

 

hoje amanheci domingo

estou cedo pelo Recife deserto

as possibilidades são raras

na cidade que eu sou:

o sol do atlântico pode me devorar

ou a chuva do capibaribe me apodrecer.

ninguém transita ou veicula sorrisos

não chega ou se despede ninguém cotidiano

tudo sou eu que parei e descanso mortemente.

                                                                    Identificado Recife. Juhareiz Correya

  

Fotos:Arquivo do Autor
Espalhados pelas calçadas da Avenida Guararapes, livros e mais livros marcam o cenário de um pedaço do bairro de Santo Antônio, no coração do Recife 



Olhares sobre a cidade

 

Para mim é impossível andar pelo Recife sem deixar de olhar para as suas transformações e abandonos e para as suas permanências e contrastes, porque essa percepção da mutabilidade da cidade salta aos olhos de modo quase imático, atraindo a minha visão; e mirar espaços urbanos, eu  confesso, é um exercício que eu não me canso de praticar.

Num livro que, embora escrito na hoje distante década de 1990 conserva, em essência, o caráter das grandes cidades brasileiras de um modo quase que geral, caráter esse que permanece até os dias de hoje, Júlia Falivene Alves descreveu o quadro genérico de uma urbe que, a bem dizer, é um retrato revelador de uma realidade vista em inúmeras cidades deste país:

Se, para alguns, viver em nossas metrópoles significa optar por maior acesso à modernidade e à realização pessoal e profissional mais completa, para outros representa apenas uma esperança frustrada de superação da miséria já por eles conhecida em outras partes do país. Para a grande maioria, porém, a vida nessas cidades não é mais do que uma luta sem trégua e constante contra o processo cada vez mais ameaçador do empobrecimento e contra o rebaixamento do nível de suas condições de moradia, transporte, saúde, educação, lazer etc. (Júlia Falivene Alves. Metrópoles: cidadania e qualidade de vida. São Paulo: Editora Moderna, 1992).

José Rodrigues observando o movimento


Elvis Rossi, o rei dos discos de vinil, fazendo um lanchinho


Canário do Império: é muito talento para uma pessoa só


O cordelista Fernando Serpa




À medida que o caminhante conhecedor do passado do Recife vai atravessando suas ruas, pontes, praças, becos e avenidas, ele se depara não apenas com contrastes sociais deveras gritantes no que diz respeito à ocupação edificada - às margens do Rio Capibaribe, por exemplo, se encontram sobrados imponentes dos tempos de antanho (alguns deles em completo estado de abandono, é verdade), prédios de alto padrão mirando o horizonte e, também, inúmeras famílias que vivem se equilibrando em palafitas, enquanto, apenas na área central da capital, existem dezenas de edifícios de não sei quantos andares desocupados e que poderiam servir de moradia para famílias de baixa renda e mesmo para os chamados sem-teto -, bem como com cenários marcados por ausências e novas construções.

As cidades não são inteiramente imutáveis, mesmo quando conservam expressivos conjuntos de edifícios históricos; e isso se dá porque as mudanças que se operam nos sítios urbanos não dizem respeito só às transformações de formas edificadas como também de ocupação e de uso.






Apagamentos, destruições, construções recentes, redefinição de modos de percorrer as ruas - agora mesmo a Prefeitura Municipal do Recife atendendo, segundo foi divulgado, aos apelos dos proprietários dos imóveis, vai liberar, depois de décadas de proibição, a circulação de veículos pela Rua da Imperatriz, no bairro da Boa Vista, medida essa que buscará atrair público para esse logradouro que já foi um dos pontos comerciais mais pulsantes da cidade - normalmente implicam e resultam em mudanças de convivência com a urbe; alteram-se, igualmente, rotinas de quem busca certos lugares do espaço citadino, algo que pode refletir de maneira muito drástica e por vezes irreversível no modo como eles são procurados seja para o que for: comercialmente, turisticamente, laboralmente, culturalmente, etc.






Geraldo José e Nerivaldo Guedes


Elizeu Espíndola dando o seu recado



Toda mudança de uso, busca e ocupação de determinados espaços da cidade podem ser modificados, por exemplo, com o fechamento de uma loja, de uma agência bancária ou de um cinema; isso porque, a loja, o banco e o cinema, ainda que sejam estabelecimentos muito distintos e independentes, de alguma forma se ligam a outros, como uma lanchonete, uma farmácia, um engraxate, um fiteiro, uma perfumaria, uma livraria, um quiosque que vende coco verde e por aí vai, num encadeamento quase infinito.

Alguém faz ideia de quantas pessoas frequentaram o hoje desaparecido Bar Savoy, que ficava na Avenida Guararapes, no bairro de Santo Antônio? Alguém pode avaliar quantos encontros e desencontros foram ali vividos, quantos pensamentos, projetos, fantasias, obras e desilusões foram vivenciados e experimentados ali? Alguém compreende que isso também faz parte da ama e da memória urbana do Recife? O Bar Savoy era um recanto de boemia e de encontro de intelectuais e de ilustres desconhecidos que se orgulhava de ostentar - e tinha razão para tanto, porque não é todo dia que um ponto comercial é agraciado com uma homenagem dessa - em sua placa, uma bonita placa, por sinal, versos do poeta Carlos Pena Filho que dizem assim:

 

Na Avenida Guararapes,

o Recife vai marchando.

O bairro de Santo Antonio,

tanto se foi transformando 

que, agora, às cinco da tarde

mais se assemelha a um festim,

nas mesas do bar Savoy,

o refrão tem sido assim:

São trinta copos de chope,

são trinta homens sentados,

trezentos desejos presos

trinta mil sonhos frustrados (Carlos Pena Filho. "Chope". In Livro Geral. Olinda: Gráfica Vitória, 1973, sem paginação).

 

Como eu disse, as cidades não são inteiramente imutáveis; e com o Recife, uma cidade conquistada às águas com um sem-número de aterros, uma "cidade-sereia", no dizer de mestre Gilberto Freyre, com "encantos anfíbios" de "suas águas de mar a que se juntam as águas de rios" não foi diferente (Gilberto Freyre. O Recife, sim! Recife, não!. São Paulo: Arquimedes Edições, 1967, p. 16).

 

Allan Sales: violinista e cantor de primeira categoria







Dentro do Recife: histórias rememoradas em dias de domingo

 

Desde dezembro de 2021 - e sempre aos domingos e com uma periodicidade que variou ao longo dos anos - as pedras portuguesas das calçadas da Avenida Guararapes - sim, ali, o furor da Municipalidade por trocar tais pedras por pisos intertravados ainda não chegou, felizmente - são testemunhas de um acontecimento multicultural, que é a Edichão, um evento que acabou levando ao estabelecimento de um denominado Coletivo Sebos do Capibaribe, um grupo de livreiros, sebistas, apoiadores e entusiastas da causa e da atividade, que foi reunido e criado em 2025 (a data oficial ou extraoficial da criação e definição do nome é o dia 3 de fevereiro de 2025, segundo a informação que consta num grupo de WhatsApp do qual o sebista José Ítalo participa) com o propósito de manter viva essa tradição muito recifense de venda de livros arrumados nas calçadas, ocupando um pedaço de chão do Recife onde sebistas e livreiros - e eles estão lá de segunda-feira a sábado - comercializam livros, revistas e discos musicais desde a década de 1970. E, todas as vezes que eu vou prestigiar a Edichão, inevitavelmente, eu olho ao redor e revejo um memorial de ausências. E por quê?

Vamos lá. Eu venho há anos pesquisando sobre a formação, a evolução e as transformações pelas quais o chamado núcleo primitivo do Recife - Bairro do Recife, Santo Antônio, São José e Boa Vista - foi passando em termos de reestruturação urbana e alteração no desenho e traçado de suas ruas em seguidos bota-abaixo de centenas de edificações que compunham um conjunto bastante significativo de prédios que remontavam aos períodos Colonial e Imperial de nossa história. Acontece que esse olhar para o passado do Recife acabou não se limitando às modificações das formas da cidade e dos usos e ocupações do solo e se estendeu, inevitavelmente, para outras memórias além da urbana: a memória administrativa; a memória artística e cultural; a memória das lutas libertárias; a memória documental devidamente guardada em arquivos; a memória imagética - pinturas, desenhos, mapas e fotografias -;  a memória literária e jornalística; a memória de testemunhos orais; e a memória que eu mesmo fui acumulando da cidade não somente como vasculhador do seu passado mas também como apreciador dos seus territórios.

De modo que, chegar e estar na Edichão, em plena Avenida Guararapes, me remete, também, a um tempo que eu vivi freqüentando, durante anos, aquele espaço no vai e vem de labutas e necessidades do dia a dia, e indo ao prédio monumental da agência central dos Correios para despachar cartas e comprar selos para a minha coleção e à Caixa Econômica Federal para resolver questões da minha conta e, ainda, como cliente de muitos anos dos sebistas que atuam naquelas calçadas. Lembram que eu recordei o Bar Savoy? Pois é, o Bar Savoy não existe mais, assim como não marcam mais presença naquela avenida  a agência do Banco do Brasil e o Cinema Trianon, por exemplo, estabelecimentos que eu conheci em pleno funcionamento.

No último dia 9 de agosto, num domingo de Dia dos Pais, ocorreu mais uma edição da Edichão: e eu, que venho cobrindo com fotos e textos pelo menos algumas das vezes que eu participei desse evento, novamente tive a oportunidade de alargar o meu conhecimento sobre o passado cultural do Recife, especificamente sobre o movimento dos sebos ali, naquelas calçadas. E como foi isso? Ah, eu vou lhes contar só depois do próximo parágrafo.










José Rodrigues e o médico Luiz Carlos: dois frequentadores assíduos dos sebos da Avenida Guararapes




Sebista também garimpa livros, visse?! Não é Fátima Soares?


No domingo ensolarado do Dia dos Pais, mais uma vez a Edichão ocupou as calçadas da Avenida Guararapes com muitos livros levados pelos livreiros e sebistas Elizeu Espíndola (do Seborreia Recife), Fátima Soares (do Livro Aberto), José Ítalo, Geraldo José, Hélio Moura Filho, Nerivaldo Guedes (d'O Amado Livros), Paulo Rogério e sua esposa Fabiana Maria e Severino Alves, conhecido como Ramos. Oh, Sierra, e teve música, teve? E então: Allan Sales e Canário do Império não só cantaram como apresentaram para o público o talento que eles também têm como violinistas. E foi só isso, foi? Teve ainda "pegue e leve" de livros infantis organizado por José Rodrigues; o sortimento de cd's e discos de vinil postos à venda por Elvis Rossi; e o cordelista Fernando Serpa, a sebista, professora e poeta Fátima Soares e o artista plástico Lúcio Mustafá dizendo versos no microfone, microfone esse que, diga-se de passagem, fica sempre aberto para quem quiser se expressar, como fez o professor André Ferreira, que leu para nós um artigo que ele escreveu traçando um panorama da Avenida Guararapes e do seu entorno, destacando a presença dos sebos em suas calçadas, como neste trecho que eu pincei para transcrever aqui:

A avenida tinha algo a mais nos dois lados das suas calçadas. Os pedestres desatentos e desinteressados não percebiam que no calçamento em quase toda sua extensão eram espalhados livros usados e novos. Esse comércio era realizado durante toda a semana, sábado e domingo (André Ferreira. "Avenida Guararapes: histórias, calçadas, livreiros e livros". Recife, 12 de junho de 2026. Duas folhas digitadas).


O professor André Ferreira no momento em que lia o seu artigo

Agora vamos à tal oportunidade que eu disse que tive, naquele dia, de alargar o meu conhecimento sobre a presença de sebistas e do comércio de livros usados nas calçadas da Avenida Guararapes. De fato, o texto do professor André Ferreira, embora carregado e recheado com muitas informações, não trouxe dados novos para mim; algo novo eu apreendi conversando com outro assíduo frequentador dos sebos do Recife, em especial os das calçadas da Avenida Guararapes, aonde ele costuma ir para se abastecer com as duas formas de expressão literária de sua predileção: ensaio e poesia. Luiz Carlos, clínico geral de 72 anos, me contou que, na sua lembrança, os primeiros sebos das calçadas daquela avenida começaram a aparecer no final da década de 1970, período esse em que ele principiou a frequentá-los, hábito esse mantido até hoje, tendo ele apresentado os sebos, inclusive, aos seus filhos e netos.

Durante a conversa que eu mantive com Luiz Carlos, além de contar dos primórdios dos sebos nas calçadas da Avenida Guararapes, ele me disse que, em 1993 e em 2015, a Municipalidade agiu para remover os sebistas da área, enquadrando-os na mesma condição dos camelôs e vendedores ambulantes que ela vinha buscando retirar de certos espaços da cidade, situação essa que o motivou a escrever cartas aos principais jornais da cidade dizendo do absurdo da comparação entre os livreiros e sebistas com os outros vendedores que a Prefeitura Municipal queria banir das ruas centrais da capital. A respeito do início do comércio de livros usados naquela artéria, ele me disse o seguinte:

Em 1978, Zé Ursulino, que era funcionário de Jaime, colocava um sebo na esquina dos Correios com a Rua do Sol. Depois, começaram a chegar mais pessoas. Tinha um Joquinha, que já morreu, que era o segundo mais antigo depois de Zé [...] Jaime negociava na Rua da Roda; ele pegava, aos domingos, contratava Zé, sei lá, e trazia os livros pra cá. Marcelo Dias sabe o sobrenome de Jaime, eu não sei. Então, colocaram os sebos. Depois, começou a chegar mais gente. Chegou Ramos com Joquinha, que eram sócios.

Enquanto ouvia o depoimento do médico Luiz Carlos, eu fiquei a imaginar aquelas calçadas ocupadas por livros em tempos idos, um tempo em que, muito diferente dos dias recentes, o espaço central do Recife mais se parecia com um formigueiro humano tantas eram as pessoas que circulavam de um lado para o outro atravessando e ocupando as ruas com os mais variados propósitos.

 










Memórias e mais memórias do Recife

 

Em linhas atrás eu disse de minha busca do passado do Recife em várias memórias possíveis, algo como procurar e reunir peças de um quebra-cabeça ou como quem junta e coleciona fragmentos, pedaços e coisas sobre um mesmo tema de tempos vários.

Naquele 9 de agosto, na Edichão, eu ganhei duas publicações que me remeteram ao passado da capital pernambucana em dois períodos bem distintos e afastados no tempo. O sebista Elizeu Espíndola me presenteou com o livrinho O Estado Novo, de Maria Celina D'Araújo, que integra a prestigiada Coleção Descobrindo o Brasil, da Jorge Zahar Editor. Você que está lendo este artigo por acaso sabia que foi durante o Estado Novo (1937-1945), a ditadura de Getúlio Vargas, que a Avenida Guararapes foi aberta e os seus prédios imponentes construídos? Pois é. E, antes de se chamar Guararapes, ela foi batizada inicialmente de Avenida 10 de Novembro, em homenagem à decretação do golpe, em 1937. Tudo isso foi relatado por Joel Outtes num livro admirável que é O Recife: gênese do urbanismo 1927-1943 (Recife: Fundaj/Editora Massangana, 1997), no qual ele denominou a nova artéria que foi aberta no bairro de Santo Antônio como o "símbolo moderno da ditadura fascista" (p. 179).


A Avenida Guararapes vista a partir da Ponte Duarte Coelho: símbolo de um tempo ditatorial de nossa história









O outro presente quem me foi o sebista e cartofilista Hélio Moura Filho que, sabedor da minha coleção, me ofertou um exemplar do nº 138 da Agenda Cultural, de fevereiro de 2007, uma publicação da Fundação de Cultura Cidade do Recife que, com o perdão do clichê surradíssimo, marcou época na cidade informando não somente sobre instituições culturais como também dizendo de espetáculos teatrais, shows musicais, lançamentos de livros, exposições, etc. E sabe o que mais ela trazia? Reportagens, entrevistas e um mapa da região central do Recife no qual era indicados museus, teatros, mercados municipais, igrejas e outras instituições que integravam o universo artístico e cultural da capital pernambucana. Não à toa a Agenda Cultural da Prefeitura Municipal do Recife era uma publicação muito procurada, nos pontos em que era distribuída, por pessoas que, assim como eu, a colecionava.


Severino Alves, o Ramos: muitos anos de convívio com os livros


Eu com Nerivaldo Guedes




Fernando Serpa e Lúcio Mustafá






O jornalista Leonardo Klück e o antropólogo e escritor Roberto Azoubel




Uma das mais curtas avenidas do Recife - e, possivelmente do mundo, junto com a Avenida Nossa Senhora do Carmo, que fica não muito distante dela -, a Avenida Guararapes é, ela mesma, um retrato bastante expressivo das mudanças de ocupação e de usos pelas quais a capital pernambucana, em geral, e o seu núcleo primitivo, em particular, passaram numa cidade cujos contrastes sociais - destaco outra vez isso - permanecem sendo enormes: enquanto existem salas e mais salas desocupadas naqueles prédios imensos que se encontram de um lado e de outro daquela artéria, uma parcela de despossuídos se abriga e dorme o sono dos socialmente excluídos sob a marquise da agência central dos Correios. E é nesse cenário que, há quase cinquenta anos, livreiros e sebistas vêm resistindo  ao transcurso do tempo e também às transformações de uso e forma do cenário urbano e aos mais avançados inventos eletrônicos, comercializando livros, algo que, desde que foi inventado, nunca se tornou obsoleto e nem saiu de moda.

22 de agosto de 2026

Cláudio Rafael Landeiro Moreira, 37 anos, espancado, linchado e morto em Copacabana, no Rio de Janeiro ou Quando a barbárie é a força dominante que conduz a manada

 Por Sierra


Os assassinos estão livres,

nós não estamos

              O Teatro dos Vampiros. Dado Villa-Lobos/Marcelo Bonfá/Renato Russo



Imagem (reprodução do LinkedIn)
A barbaridade do crime que vitimou Claúdio Rafael Landeiro Moreira nos diz muita coisa, uma delas é a falência de um Estado que "premia" criminosos e assassinos com relaxamentos de prisões, prisões domiciliares, saidinhas e reduções de pena

 

Não, eu não vou bancar aqui o sociólogo e nem o especialista em segurança pública para tratar desse caso estarrecedor e chocante que foi o espancamento e linchamento do Cláudio Rafael Landeiro Moreira, de 37 anos, na noite do último dia 11 de agosto, em Copacabana, no Rio de Janeiro, a cidade que, apesar dos tantos pesares, ainda é chamada de "maravilhosa" e que, na verdade nua e crua é, como tantas outras deste país, impiedosa, cruel, desumana e assassina, e onde, para recorrermos a uma expressão cunhada pela filósofa alemã Hannah Arendt, impera a "banalidade do mal". Este meu artigo o que carrega em seu bojo e finalidade é a pretensão de render minha solidariedade e o meu afeto aos familiares desse rapaz que acabou morrendo no dia seguinte, num hospital, devido à gravidade das lesões provocadas por socos, chutes e pauladas.

Decerto que a criminalidade desenfreada não é um privilégio do Rio de Janeiro; a violência marca o cotidiano de inúmeras cidades deste país preenchendo diariamente as crônicas policiais com relatos os mais escabrosos e aterrorizantes; realidade essa que, diga-se de passagem, não se estabeleceu de ontem para hoje em nossa sociedade; a insegurança, a violência e a criminalidade são pesadelos reais que nos perseguem há décadas.

Segundo o noticiário que registrou o caso ocorrido em Copacabana - e que eu vou relatar aqui de modo muito resumido - o que houve foi o seguinte: Cláudio Rafael Landeiro Moreira foi abordado pelo segurança de um restaurante na Rua Barata Ribeiro, que suspeitara que a bicicleta, com a qual ele estava, fosse fruto de um roubo; daí a pouco, nessa abordagem, apareceram outros caras - as investigações apuraram que no grupo figuravam mais um segurança e dois entregadores - que conduziram o rapaz para outra rua e, lá, deram início aos atos covardes e bárbaros de espancamento e de linchamento que resultaram na morte do jovem que saíra de casa para pedalar nos arredores.

O que leva alguém a espancar um indivíduo até a morte? Será que é a ausência de consciência de que está praticando um crime? A confiança de que, no final das contas, a Justiça será benevolente demais para com ele e livrará sua cara impondo uma puniçãozinha de nada? Ou será que episódios como esse ocorrem porque os seres humanos carregamos conosco uma maldade e uma crueldade inatas que fazem da violência um exercício que, em menor ou maior grau, deve ser praticado diariamente?

Li, em mais de uma matéria que abordou o crime, que Cláudio Rafael Landeiro Moreira foi atacado, espancado, linchado e morto porque foi "confundido com um ladrão. Então quer dizer que, se eu e você virmos um indivíduo suspeito de ter praticado um assalto ou um furto vamos tratar não só de detê-lo como também de tirar a vida dele? E onde é que entram as polícias nessa história? E para que é que servem os aparatos legais do Estado que, em tese, atuam para salvaguardar, proteger e punir a todos pela prática de delinquências?

O filósofo e psicanalista francês Roger Dadoun escreveu um breve e contundente ensaio no qual, recorrendo a inúmeras fontes, incluindo a Bíblia, obra tão influente sobretudo no chamado mundo ocidental, ele relatou seguidos casos de violência praticados pelo "homo violens" ao longo de sua história. Dadoun acreditava que o ser humano que ele analisou em sua narrativa era "definido, estruturado, intrínseca e fundamentalmente pela violência". Mais adiante, no texto introdutório, ele registrou o seguinte, recorrendo à etimologia latina da palavra violência:

"Violência" vem do latim vis que significa "violência", mas também "força", "vigor", "potência"; vis designa mais precisamente o "emprego da força", as "vias de fato", assim como a "força das armas". Muito esclarecedor para nós é o fato que vis serve para marcar o "caráter essencial", a "essência" de um ser - o que solidifica nossa hipótese da violência como essência do homem (essência bem singular, na verdade, posto que "autodestrutiva" por vocação) (Roger Dadoun. A violência: ensaio acerca do "homo violens".  Trad. Pilar Ferreira de Carvalho e Carmen de Carvalho Ferreira. Rio de Janeiro: DIFEL, 1998. Por ordem de citação, p. 8 e 10).

Quer sejamos essencialmente violentos ou não, o fato é que a prática da violência normalmente redunda em ações criminosas - como que ratificando o pensamento de Roger Dadoun, um dos criminosos que agiram Copacabana disse, em depoimento à polícia, que agiu "por instinto" -;  e que existe um arcabouço legal que tipifica e enquadra os delitos.

Nós estamos seguramente atravessando o período da história em que, em escala de bilhões, os indivíduos foram mais monitorados e vigiados não somente por olhos humanos, como também por retinas eletrônicas, câmeras que estão instaladas e espalhadas por tudo quanto é canto, de vias públicas a residências passando por estabelecimentos comerciais e órgãos públicos, como num Big Brother. Acontece que nem isso intimida a prática de crimes: o episódio de espancamento e linchamento do Cláudio Rafael Landeiro Moreira foi registrado por câmeras de segurança, destaque-se isso.

Descrevendo uma cadeia de vigilância montada como uma das medidas para se conter o contágio pela peste numa cidade de fins do século XVII, o filósofo francês Michel Foucault, numa de suas obras mais conhecidas e celebradas, nos disse assim:

A cidade pestilenta, atravessada inteira pela hierarquia, pela vigilância, pelo olhar, pela documentação, a cidade imobilizada no funcionamento de um poder extensivo que age de maneira diversa sobre todos os corpos individuais - é a utopia da cidade perfeitamente governada (Michel Foucault. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 25ª ed. Trad. Raquel Ramalhete. Petrópolis: Editora Vozes, 2002, p. 164).

O Rio de Janeiro segue não sendo uma cidade perfeitamente governada, de modo que a utopia urbana de "cidade maravilhosa", dia após dia, é um pouco mais corroída, corrompida, dilapidada e destruída. A criminalidade ali não está entranhada somente nos complexos de favelas e nos morros onde gente de bem paga um alto preço a traficantes e milicianos para sobreviver na ausência da força e do poder do Estado; a criminalidade avançou e lançou os seus tentáculos para os apartamentos à beira da praia ensolarada e para os refrigerados gabinetes governamentais.

Talvez não seja o caso de refundar o Rio de Janeiro e todo um país e, sim, o estabelecimento de uma utopia tangível e possível de ser instituída; uma utopia urbana na qual a cidade figure como um lugar de segurança, onde o aparato policial e judicial realmente funcione para que delinquentes e pessoas de bem confundidas com delinquentes nãos sejam espancados, linchados e mortos por indivíduos que barbaramente pensam que Justiça, de fato, é a que é feita com as próprias mãos.

Adeus, Cláudio Rafael Landeiro Moreira!

15 de agosto de 2026

Sobre o privilégio de ser desimportante

 Por Sierra

 

Foto: Divulgação
Mudando de conversa, hoje eu preprarei uma gostosa geleia com morangos cultivados às margens do Rio Nilo, na cidade do Cairo, no Egito, 


Assim como eu, você certamente já leu ou ouviu por aí uns e outros que fizeram o diabo para ficar famosos e conhecidos pelo grande público e, depois, passaram a reclamar da vida dizendo que não têm mais sossego e que invadem as suas privacidades.

Num tempo, como este de nosso, em que, para tentar ficar conhecido e famoso - e até endinheirado - não se precisa ser um artista talentoso e nem mesmo um jogador de futebol fora de série e, sim, fazer postagens nas redes sociais e torcer para que a cada dia elas consigam atrair mais e mais visualizações e seguidores - quanto a isso, o que se vê em números nem sempre é o que parece, porque, quem quiser e tiver grana para tanto pode muito bem comprar uma quantidade significativa de seguidores para chamar de seus -, esse papo sobre não ter privacidade soa fake e furado, porque a exibição em tais redes é praticamente uma imposição da vida atual; e quem fez a posta alguma coisa ali não espera somente ser visto: a pessoa torce para que, como diz o termo desse meio, viralize e chegue a milhões e milhões de redesocialmente dependentes como o próprio indivíduo que fez a postagem.

Sim, eu sei que isso vai de uma vaidade enorme, passa pela vontade de aparecer, faz pausa para retocar a maquiagem e o filtro que deixa a autoestima na estratosfera - a pessoa fica "se achando", alguns dizem - e, na maioria das tentativas de sair do anonimato e da grana curta, chega a uma desilusão e a uma frustração que não tem blush, batom, Dolce & Gabbana falsiê, barba desenhada e olhar de macho alfa que deem jeito, mesmo que o cenário onde as criaturas aparecem seja a coisa mais linda de se ver.

Não passei ainda pela crise existencial de ser desimportante para o grande público nas redes sociais e nem hei de passar, porque eu mesmo puxei o meu tapete e caí de cara no chão, o que foi um santo remédio para a pouca veleidade que eu carregava comigo no mundo virtual. Caí com a fuça no chão e me certifiquei da enorme dimensão da minha insignificância naquele espaço. Nada, nada como uma autocrítica diariamente exercitada e bem disposta para fazer com que enxerguemos qual é o nosso tamanho no mundo, seja nas redes sociais ou fora delas. Também não há nada, nada como a liberdade de poder escolher e decidir, de poder dizer sim ou não e de ficar ou simplesmente cair fora dali ou de onde quer que seja que nos faça sentir deslocados.

Às vezes, enquanto caminho à beira-mar da ilha onde eu moro, me pego pensando no grande privilégio que é ser desimportante: nenhum desconhecido me aborda; o telefone não toca; ignoram o que eu posto nas minhas redes sociais; o meu WhatsApp fica dias e dias sem receber mensagens; ninguém me pede opinião sobre algo que apareceu no noticiário, como a virilha da Xuxa Meneghel, a pós-graduação de mentirinha do currículo de Flávio Bolsonaro e as perversidades praticadas pela dupla Donald Trump e Benjamin Netanyahu; enfim, eu praticamente só existo para o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, vulgo IBGE, as fornecedoras de água e energia, a provedora de internet e a administradora do cartão de crédito.

Enquanto sigo mirando a imensidão do mar - o que aumenta ainda mais a minha insignificância e desimportância - eu também, por vezes, me pego refletindo a respeito de outros privilégios que eu consegui até agora, como este de poder escrever e dar vazão ao que vai dentro de mim sem precisar passar por um diretor de redação.

Hoje, pela manhã, depois de cuidar dos gatos da casa junto com meu irmão, que é extremamente importante para mim, eu preparei uma geleia com morangos vindos da milenar cidade do Cairo e que eu comprei num supermercado na cidade de Igaraçu, que está prestes a completar meio milênio de sua fundação, e considerei isso muito curioso, porque revelador de que não é só o universo virtual que nos põe em contato com outras partes do mundo.

Mas por que foi que eu falei de geleia de morango aqui, gente? O que é que tem a ver o fundo com as calças? Sei lá. Talvez o meu pensamento tenha se distraído no meio do caminho e eu simplesmente perdi o foco e a direção do que fundamentalmente eu queria dizer ou porque eu já dissera tudo o que era preciso e me lembrei da geleia de morando apenas para dar cor e sabor a essa narrativa tão insípida e, assim como eu sou para você, tão desimportante.

8 de agosto de 2026

Patrimônio & Descaso (IX)

 Por Sierra

 

Fotos: Arquivo do Autor
Esse conjunto de sobrados fica na Rua da Aurora, pertinho da Ponte da Boa Vista. O estado de abandono, que se arrasta há anos, me leva a crer que, infelizmente, esses prédios irão desaparecer da paisagem urbana recifense para darem lugar a sabe-se lá o quê


Desde pelo menos os anos em que ficaram em evidência as discussões e os protestos em torno do megaprojeto de gentrificação do Cais José Estelita, no bairro de São José, um dos núcleos primitivos do Recife - os outros são os bairros de Santo Antônio, Bairro do Recife e Boa Vista -, obra essa que vinha na esteira do que se verificara no Cais de Santa Rita, onde foram erguidos dois prédios de alto padrão que uns e outros apelidaram de Torres Gêmeas, o espaço de ocupação urbana mais antiga do Recife, se estendendo até o bairro de Santo Amaro, veio paulatinamente sendo tomado por uma verticalização que parecia estar desenfreada, ao mesmo tempo em que se observava que vários exemplares do patrimônio histórico edificado da cidade foram deixados de lado, abandonados e entregues à própria sorte. E por que isso?

Bem, enquanto a gentrificação avançou no Cais de Santa Rita, no bairro de São José - lá construíram um hotel e demoliram antigos armazéns de açúcar para levantar no terreno um centro de convenções - e no bairro de Santo Amaro - nele foram erguidos vários edifícios nas imediações tanta da Rua da Aurora como da Avenida Cruz Cabugá -, eu me perguntei: qual será o destino dos velhos sobrados do Recife que se encontram, em alguns casos, abandonados há mais de uma década?


Também na Rua da Aurora, só que em outro quarteirão e mais próximo ao Cinema São Luiz. Estes sobrados, como se vê na foto abaixo, são vizinhos de um que abriga o Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, administrado pela Prefeitura Municipal do Recife; eles estão abandonados há mais de dez anos




Como eu já disse noutra ocasião, esse processo de abandono de edifícios que integram o patrimônio edificado da capital pernambucana também pode ser visto em centros históricos de capitais como o Rio de Janeiro, Salvador, Natal e João Pessoa, onde eu pude ver, in loco, acúmulos de ruínas e escombros. Mesmo políticas públicas de incentivos fiscais - tanto municipais como estaduais - para que os proprietários desses edifícios se vejam motivados a recuperá-los - recentemente eu fiquei sabendo que, em João Pessoa, a Prefeitura Municipal está abrindo mão da cobrança do Imposto de Transmissão de Bens Imóveis para quem comprar um imóvel no centro histórico - não têm conseguido livrar parte dos prédios antigos de um risco iminente de desabamento e, por conseguinte, de desaparecimento da paisagem dos lugares onde eles foram erguidos há dezenas e, às vezes, há centenas de anos.

Quem passa, por exemplo, por ruas como a da Imperatriz e da Aurora (no bairro da Boa Vista) e a Rua 1º de Março (no bairro de Santo Antônio) se depara com edificações que não estão nem um pouco instagramáveis, para usarmos um neologismo derivado da rede social Instagram, onde costumeiramente são postadas imagens de vídeos e fotografias flagrando pessoas, coisas e animais bem bonitos. O estado de precariedade em que se encontram alguns dos sobrados desses logradouros revela que o poder público continua sem conseguir fazer com que os proprietários desses imóveis os restaure e revitalize; e o resultado disso são cenários de abandono que não somente enfeam a cidade como fazem qualquer um pensar que a Municipalidade não se importa para valer com a preservação do que é palpável da memória urbana recifense.


Outro flagrante de sobrados que não estão de todo bem cuidados: estes aqui ficam na Praça Joaquim Nabuco


Não é raro que se encontrem por aí casos de Prefeituras Municipais que alugam imóveis para abrigar secretarias quando elas poderiam desapropriar prédios abandonados que compõem o acervo do patrimônio histórico edificado, restaurá-los e ocupá-los e, assim, livrá-los do risco de ruírem ante o descaso e falta de consciência de preservação dos proprietários.

Por mais que uns e outros neguem a intenção de abandonar completamente tais prédios para se livrarem dos custos de restauração e de toda a carga de regras que os órgãos de preservação determinam no trato e uso deles, o que se pode inferir, além disso, é que os seus proprietários pretendem é remover tais edificações desses centros históricos e erguer nos terrenos edificações outras que possam lhes render muito mais dinheiro ou até mesmo transformar os espaços livres em estacionamentos de carros.

Velhos e imponentes sobrados do Recife estão, há muitos anos, clamando e implorando por socorro e o poder púbico e os órgãos de preservação estão fazendo de conta que não os ouvem e que não os veem.