26 de novembro de 2022

Os ipês-amarelos do Parque Sólon de Lucena: beleza, alegria e maravilhamento

 Por Sierra

 

Fotos: Arquivo do Autor
Dádiva da natureza e um encanto para os olhos, os ipês-amarelos encheram o Parque Sólon de Lucena de uma cor e de um brilho maravilhosos neste mês de novembro


Nada se lerá aqui d’As flores do mal, do Charles Baudelaire, o “lírico no auge do capitalismo”, do qual falava Walter Benjamin. Nada de spleen. Nada de tristeza. Nada de melancolia. Nada de “flores com cheiro de morte”, como as dos Titãs. Nada daquelas flores “do jardim da nossa casa” que “morreram todas de saudades de você”, como avisaram Roberto Carlos e Erasmo Carlos. E por quê? “Porque é primavera”, como nos diz o saudoso paraibano Cassiano. É tempo da florada dos ipês-amarelos. E “amarelo é sentir-se sol’, como canta lindamente a roraimense paraibanizada Érica Maria.



Canta, canta Érica Maria: "Amarelo é sentir-se sol"


Mestre Cartola, o bom Cartola que dizia que o “mundo é um moinho” também anunciava que “as rosas não falam”. Elas falam sim, mestre; e falam tanto que Antoine de Saint-Exupéry pôs uma rosa, uma flor encarnação de sua amada Consuelo Sandoval, falando em O pequeno príncipe. E Escurinho, danado que só ele, proclamou lá no Espaço Cultural José Lins do Rego: “Cadê as flores? Mande as flores pra mim”.




Ah, Escurinho, as flores estão irradiando beleza, alegria e maravilhamento nos vários ipês-amarelos do Parque Sólon de Lucena, que a boa gente da capital paraibana chama carinhosamente apenas de Lagoa. É tempo de florada dos ipês-amarelos. E eles encantam a todos ou a quase todos que passam por aquele recanto bucólico e calmante que é a Lagoa.





Todos os anos vêm a florada. E todos os anos eu miro aqueles ipês-amarelos como se fosse a primeira vez. Olho para todos eles e sinto uma imensa alegria, como se eles estivessem dizendo, falantes como a flor do Exupéry: “Bom dia! Seja bem-vindo”. E eu tomasse isso como uma saudação por demais intensa, verdadeira e íntima que me liga sempre e sempre mais à cidade de João Pessoa, esta cidade de vários nomes, de várias vocações e de alma acolhedora.





De longe, de quem vem vindo da Cidade Alta, os ipês-amarelos demarcam a paisagem do Parque Sólon de Lucena com o contraste de suas flores com a folhagem verde das outras árvores com as quais eles dividem o espaço. Bem faria a Prefeitura Municipal se plantasse mais ipês-amarelos em torno do parque, o que o tornaria ainda mais bonito. O círculo de flores lembraria uma coroa real amarela; amarela com uma beleza muito viva, muito atrativa, muito encantadora e muito inspiradora.






O encanto, os encantos da vida estão espalhados por quase toda a parte. E a natureza diariamente nos revela pequenos e grandes encantos. É o encanto do sol irradiando e enchendo tudo de luz. É o azul do céu. São os animais em harmonia com seus habitats. É, enfim, tudo o que faz de nossa existência algo satisfatório, prazeroso e bom.





Caminhar pelo Parque Sólon de Lucena nesta época de florada dos ipês-amarelos torna esse exercício de existência ainda mais revigorante, mais reenergizante. Deveríamos querer sempre e sempre manter esse contato íntimo e próximo com o ambiente natural. Mais árvores, mais pássaros, mais flores, mais convívio com a natureza num mundo excessivamente eletrônico e ligado a um sem-número de coisas que cabem num smartphone. Um contato, um convívio íntimo e próximo com o natural que está ao nosso redor e com o qual devemos viver em comunhão, porque a degradação do meio ambiente significa a degradação de cada um de nós, porque, sem os recursos naturais, nenhum ser vivo consegue sobreviver.





Não foi difícil encontrar nas manhãs e tardes deste novembro que corre rumo ao fim, uns e outros que paravam para registrar, com a câmera do celular, a beleza radiante dos ipês-amarelos floridos. Não dá para ficar indiferente à tamanha beleza. Aquelas porções gigantes de amarelo intenso, aquelas aparições temporárias de flores tão delicadas e formosas nos tocam com uma força indescritível, como se elas estivessem ali nos chamando, muito vaidosas e cheias de si, para que nós as admirássemos e fôssemos com elas bater um papo, trocar olhares e celebrar a magia da vida numa simbiose perfeita.


Tapete de flores






Muitas e muitas voltas eu dei em torno da lagoa, lagoa ao redor da qual o Parque Sólon de Lucena foi estabelecido e reconfigurado ao longo de várias décadas sem, contudo, perder o seu caráter de lugar de aconchego e de tranquilidade em meio ao barulho e à agitação da selva de pedra tomada por automóveis dentro da qual ele aparece.




Olhe direitinho: tem uma garça acima do lado direito da foto


Nada de spleen, nada de tristeza e nada de melancolia, eu disse nas primeiras linhas desta narrativa. Mas há algum lamento. Há um lamento por ter encontrado, depois de alguns meses em que eu estive ausente, um Parque Sólon de Lucena sem o cuidado e sem a afluência que se verificava antes da pandemia e mesmo no começo deste ano, quando por ele eu caminhei diversas vezes. O parque está carecendo de cuidados. A limpeza continua eficiente, mas existem problemas. Banheiros estão funcionando de forma limitada; os bebedouros estão quebrados; vendedores de drogas continuam atuando na área dos jogos de mesa; a iluminação não está adequada em pontos como a Praça dos Ipês; e a ausência dos vigilantes que faziam rondas constantes e advertiam uns e outros que estavam transgredindo normas, como caminhar na pista de ciclismo, talvez, explique a baixa procura pelo local que eu vi nesses dias recentes, o que é deveras lamentável, porque o Parque Sólon de Lucena é um dos encantos da capital paraibana. Felizmente a beleza dos ipês-amarelos se sobrepôs a todas essas coisas ruins.


Fazendo pose para guardar a beleza do amarelo numa fotografia




As flores rapidamente foram caindo ao longo desta semana


Sopra o vento nesta última semana de florada; e as flores dos ipês-amarelos voam, voam como que se despedindo de nós. Voam, voam para cair no chão e formar tapetes como se fossem a estrada dos tijolos amarelos que levam até o mágico de Oz. A vida também “pode ser maravilhosa”, como canta o Ivan Lins. E a curiosidade que mora dentro de cada um de nós chega aos nossos olhos com a força própria daquilo que busca todo o encantamento, todo o prazer, toda a satisfação, toda a compreensão, toda a alegria e toda a poesia que há no mundo.

19 de novembro de 2022

Botando o pé na estrada

 Por Sierra

 

Foto: Arquivo do Autor
 Conexão Ilha de Itamaracá-PE/Natal-RN para aproveitar as férias, porque ninguém é de ferro e eu menos ainda. Câmara Cascudo, daqui a pouco eu chego aí


Passei os primeiros dias das minhas férias deste ano ocupado com a tarefa de escritura do prefácio para o livro de um amigo que me tem muito em conta. Nunca que eu vi um prefácio tão longo – pelo menos em extensão eu consegui ultrapassar mestre Gilberto Freyre, que escreveu prefácios longos e memoráveis -, longo e aparentemente interminável. Pois é, eu ainda não o concluí. Dei uma pausa, porque eu já estava com a cabeça cheia e me sentindo cansado com aquela lida; e escrever nesse estado não é recomendável, porque a escrita emperra, o texto vai perdendo o rumo e nós tendemos a acabar fazendo um trabalho de má qualidade.

Deixei a escritura no modo pausado e tratei de pegar a estrada, porque eu estava precisando disso. Eu estava precisando flanar por outras ruas, ver outros rostos, lançar os olhos para outras paisagens, salgar as carnes do meu corpo em outras praias, apreciar outros encantos, enfim, eu estava precisando me dar outros prazeres.

Fazia dez meses que eu não pegava a estrada, metido que eu estava numa cansativa, monótona e enfadonha rotina casa-trabalho, trabalho-casa, porque é necessário trabalhar para pagar as contas e sobreviver. Quem quiser que goste de trabalhar. Eu não gosto. Eu gosto mesmo é de acordar mais tarde. De ler e escrever e compor música. Eu gosto é de ir para a academia malhar que só um condenado para continuar “desejável”, como eu digo na maior greia. Eu gosto é de ir à praia lavar o corpo, mirar a imensidão do mar e me estender, como carne posta em grelha, para que o sol amenize, pelo menos, as escamações e o vermelhidão que a psoríase deixa em mim. Eu gosto mesmo é de bater perna pelo Recife, visitar exposições, comprar livros nos sebos, ir ao cinema, olhar para a cidade, viajar e fazer sexo, quando isso é possível.

Poucas coisas são tão boas quanto poder – destaque-se isso, poder, porque, infelizmente, muitos e muitos não têm um mínimo que seja de grana para se dar a tal desfrute – pegar a estrada para passear. Deveríamos, todos nós que ralamos diariamente, dispor de alguma grana para, nem que fosse uma vez por ano, sair da rotina e partir nalguma aventura. A vida deveria ser equilibrada nessa dualidade da aventura e da rotina: a rotina serve para que nós coloquemos as coisas da vida prática em ordem – pagamento de contas, estudos e outras obrigações; e a aventura tem o objetivo de fazer com que nós nos reenergizemos, saindo de um dia a dia estafante e monótono e nos entregando a pequenos prazeres, como uma caminhada na beira da praia, que acabam nos conferindo grandes satisfações.

Confesso que a pandemia e tudo o que ela provocou de estrago e de tristeza, me deixaram meio borocoxô para voltar a viajar com o entusiasmo que eu tinha antes de a covid-19 chegar para nos assombrar. Esse estado de desânimo e os preços proibitivos de passagens aéreas contribuíram para que eu resolvesse não ir para o destino inicial que eu escolhera. Ainda assim, ter escolhido outro rumo não significou uma explosão de animação para que eu decretasse um #partiuviagemdeferias. Mas eu resolvi sair. Eu decidi pegar a estrada a fim de ficar com a cuca fresca depois de tudo que suportei neste ano de eleições presidenciais turbulentas, aflitivas e desgastantes.

É claro que pegar a estrada para passar vários dias longe de casa requer um rearranjo da cabeça a fim de lidar com uma nova rotina na qual se incluirão, além de outros ambientes para repouso, por exemplo, o provar outros temperos e compartilhar espaços de convivência com desconhecidos. Contudo, esses desafios que exigem rearranjos e reorganizações do cotidiano são muito bons para testar a nossa capacidade de adaptação a ambientes e ao convívio com pessoas que, no mais das vezes, nunca mais veremos novamente.

Quando eu pego a estrada para viajar a passeio, eu costumo carregar comigo uma vontade de sempre aprender algo novo no lugar que eu escolhi conhecer. Tal qual a leitura de um livro, eu faço um exercício de leitura ocular do lugar buscando com isso apreender conhecimentos e aumentar a minha bagagem de experiências.

Não sei se é pelo fato de eu ser alguém que escreve e que cria com palavras que faz com que eu sempre espere que as viagens de alguma forma me tragam inspirações e ideias e assuntos, não somente para este blog, mas também  para outras frentes. Eu gosto de pensar e de imaginar que a vivência de certas experiências pode provocar o surgimento e a construção de algo que sem elas eu não iria conceber. É como se a vivência da viagem fosse uma semeadura, sabe? Eu acredito muito nosso; daí por que eu continuo apostando que viajar sempre e sempre me enriquece de alguma maneira, mesmo quando eu experiencio situações desagradáveis e trato com gente que não vale o que o gato enterra, até porque a vida tem disso também, não é?

Peguei a estrada depois de longos dez meses de uma rotina quase sufocante. E estar na estrada novamente é algo por si só revigorante, porque viajar, e ainda mais sozinho, é algo por demais desafiador. Eu costumo dizer que, para viajar por conta própria, sozinho e sem depender de quem quer que seja, é necessário dispor de três itens: dinheiro, vontade e coragem. Não adianta ter apenas um ou mesmo dois desses itens, porque os três se completam harmoniosamente.

Voltei para a estrada. E o tanto que esse ato contribui para o meu senso de liberdade eu não sei lhes dizer. O que eu posso lhes garantir é que eu sempre retorno carregando algo de bom dentro de mim das viagens que faço.

12 de novembro de 2022

Como uma cantiga de adeus para Gal Costa

 Por Sierra


Foto: Divulgação
Como se fosse uma viagem musical, eu vi uma menina correndo e fazendo teco, teco, teco, teco, teco na bola de gude, eu li o folhetim, eu vi o tempo e adiei o quanto pude o embarque naquele velho vapor barato. Baby, eu te amo, eu sei que te amo sem a minha e sem a sua estupidez. Adoro o seu sorriso de gato de Alice que dissipa nuvem negra e que espanta o ciúme. Somos como dois e dois que fazem o que podem para ficar tudo joia rara no embalo de odara. Eu, que quero a massa real, eu, que quero a seiva vital, eu, que quero o quereres, olho as vitrines, mexo no cabelo e miro a amplidão do céu azul tomado pela sua grandeza. Sim, você me dá sorte, meu amor. Só louco não compreende as nuances da arte. Só os insensíveis não compreendem o mugido da vaca profana. A indiferença, a crueldade, a intolerância, o falso moralismo, a tirania, o machismo, a mentira, o preconceito, a pobreza, o abandono, a fome, o desamparo... Tudo isso dói; o resto é divino maravilhoso. As rosas não falam? Ah, mas você canta: canta Brasil, canta, canta, porque, alguém me disse que, alguém como tu – será que foi a Rita? –veio ao mundo para cantar e espalhar o amor, o sublime e a felicidade, porque você é acauã, você é assum preto e é até, quem sabe, muito mais do que um átimo de som. Seu sangue, sua garra, sua beleza e sua alma de índia fizeram de você uma mulher única. Eu vi tanta coisa. Eu vi o coração vagabundo brincando na festa do interior enquanto uma chuva de prata caía sem parar numa noite em que não se queria saber de nenhum objeto não identificado, porque São João, Xangô menino, meu bem, meu mal, sabia e contemplava sozinho a força estranha de uma mulher mais do que absoluta e estratosférica, corajosa, liberta e libertária, mãe de Gabriel, esposa de Wilma, que, brilhante como uma pérola negra, assim se apresentava em qualquer lugar e em qualquer dia como num dia de domingo: eu vim da Bahia e meu nome é Gal
 

 

Dizem alguns que tudo tem um fim. Não acredito nisso. Olho ao redor e dentro de mim e vejo indícios de eternidade. Eternidade que se compõe de ideias, de sons, de lembranças, de fecundidade esperançosa de futuro – todo futuro carrega passado e presente consigo - e de desejos que fenecem e que renascem permanentemente dizendo do ciclo infinito das coisas e das pessoas, porque, quando uma pessoa termina, ela é continuada em outra e mais outra e mais outra, em elos que, na universalidade cósmica e no mistério inexplicável da vida, faz o infinito, faz a eternidade.

Penso em Gal Costa como uma dessas partículas cósmicas que rondam a atmosfera que a gente não consegue ver, mas sabe que elas estão presentes como algo precioso, necessário, acalentador, prazeroso, estimulante, libertador, urgente e vital. Gal Costa é vital. Gal Costa é um resumo de tudo aquilo que um artista que é consciente de sua condição de artista e que não toma a arte dentro do conceito da arte pela arte, busca ser. Gal é plural. Gal é imagética. Gal é libertária. Gal é imática. Gal é influente. Gal é talento. Gal é resistência. Gal é coragem. Gal é arriscar-se. Gal é não temer. Gal é crença absoluta na arte. Gal é indicação de rumo. Gal é voz de convocação. Gal é permanência. Gal é eternidade.

As permanências e as eternidades atravessam as nossas vidas como marcos indissolúveis para nos dizer do que somos feitos e do que somos capazes de fazer como elementos componentes do todo que constitui o permanente e o eterno. Não somos partículas perdidas vagando a esmo. Nós somos partes de elos que só aparentemente se rompem, porque o que é de durar infinitamente nunca se dissolve nem se perde.

Voz do tempo, voz que atravessou e marcou um longo tempo, Gal Costa é uma de nossas maiores artistas. Não digo foi porque eu falo aqui de permanência e de eternidade. Gal está em muito do que me toca, em muito do que me inspira como artista e em muito do que me fascina e me emociona na música; música que para mim é uma espécie de alimento e seiva vital.

A arte, infelizmente, não toca profundamente todas as pessoas, porque existem pessoas que ou são indiferentes a ela ou a percebem de modo superficial; o que é bastante lamentável, porque a arte é uma forma de dizermos como nós percebemos, como nós interpretamos, como nós lidamos e como nós processamos tudo o que nos constitui e tudo o que nos envolve.

Como se fosse uma viagem musical, eu vi uma menina correndo e fazendo teco, teco, teco, teco, teco na bola de gude, eu li o folhetim, eu vi o tempo e adiei o quanto pude o embarque naquele velho vapor barato. Baby, eu te amo, eu sei que te amo sem a minha e sem a sua estupidez. Adoro o seu sorriso de gato de Alice que dissipa nuvem negra e que espanta o ciúme. Somos como dois e dois que fazem o que podem para ficar tudo jóia rara no embalo de odara. Eu, que quero a massa real, eu, que quero a seiva vital, eu, que quero o quereres, olho as vitrines, mexo no cabelo e miro a amplidão do céu azul tomado pela sua grandeza. Sim, você me dá sorte, meu amor. Só louco não compreende as nuances da arte. Só os insensíveis não compreendem o mugido da vaca profana. A indiferença, a crueldade, a intolerância, o falso moralismo, a tirania, o machismo, a mentira, o preconceito, a pobreza, o abandono, a fome, o desamparo... Tudo isso dói; o resto é divino maravilhoso. As rosas não falam? Ah, mas você canta: canta Brasil, canta, canta, porque, alguém me disse que, alguém como tu – será que foi a Rita? –veio ao mundo para cantar e espalhar o amor, o sublime e a felicidade, porque você é acauã, você é assum preto e é até, quem sabe, muito mais do que um átimo de som. Seu sangue, sua garra, sua beleza e sua alma de índia fizeram de você uma mulher única. Eu vi tanta coisa. Eu vi o coração vagabundo brincando na festa do interior enquanto uma chuva de prata caía sem parar numa noite em que não se queria saber de nenhum objeto não identificado, porque São João, Xangô menino, meu bem, meu mal, sabia e contemplava sozinho a força estranha de uma mulher mais do que absoluta e estratosférica, corajosa, liberta e libertária, mãe de Gabriel, esposa de Wilma, que, brilhante como uma pérola negra, assim se apresentava em qualquer lugar e em qualquer dia como num dia de domingo: eu vim da Bahia e meu nome é Gal.

Gal é uma das aves canoras da abençoada Bahia que percorreu os quatro cantos deste país e que fez a sua voz ecoar para além fronteiras, esbanjando sofisticação, elegância e beleza conjugadas com um talento enorme. Um talento enorme e uma força de expressão de uma vivacidade que pouco se vê no meio artístico brasileiro. Gal era luminosa. Gal compreendia cada milímetro do seu ofício. Gal cantava conferindo a cada música escolhida para o seu repertório uma marca toda sua. E se isso soa um tanto quanto clichê, leitor, procure e cate por aí quem do nosso meio musical detém tal capacidade; procure e veja no vasto cenário da música brasileira quem consegue, como Gal conseguia, pegar uma composição que não seja de nenhum dos chamados grandes mestres das composições e fazer dela algo que soe grandioso. Nem todo cantor nem toda cantora tem a capacidade de transformar e/ou de dar brilho a canções. Gal tinha. E tinha de sobra.

A notícia do falecimento de Gal Costa me chegou numa manhã de andanças pelo Recife, através do onipresente WhatsApp, numa mensagem enviada por Cristiano José, a quem eu já comprei vários discos. E o peso da tristeza ficou sobre os meus ombros enquanto eu seguia pelas ruas de um Recife barulhento e tumultuado. Na minha fantasia eu iria conhecer pessoalmente Gal qualquer dia desses, porque eu permanecia acreditando e apostando que qualquer hora dessas alguém iria me telefonar e dizer: “Sierra, é fulana. Tudo bem? Menino, eu gostei muito de suas músicas. Vou gravar algumas. E quero te apresentar à Gal Costa, porque acho que ela também vai gostar do teu trabalho”. Isso, infelizmente, não aconteceu e não tem mais possibilidade nenhuma de acontecer. E eu sei que foi muito em razão disso que, voltando para casa no finalzinho da tarde daquela quarta-feira, eu chorei como estou chorando agora. Eu chorei junto à janela do ônibus pensando em Gal e cantando silenciosamente os versos que pouco antes do choro eu fizera como um tributo, como uma homenagem, como uma retribuição e como um agradecimento pelo tanto de prazer e de satisfação que ela conferiu à minha vida. E chorei também porque fulana não me ligou e parece que nunca ligará.

Não, não eu não poderei mais abraçar e beijar Gal Costa como eu imaginei que em algum momento eu faria, mas, ela permanecerá dentro de mim como uma das forças motrizes que me fizeram acreditar na força avassaladora da arte. Obrigado, muito obrigado, Gal.

PS- Gal Costa se foi no mesmo dia em que Rolando Boldrin também nos disse adeus. O Sr. Brasil, o homem do Som Brasil, ao qual eu assistia quando era criança, igualmente deixará saudades em todos aqueles que acreditam que a boa música é o impalpável que nos põe em comunhão com o maravilhoso da vida.

5 de novembro de 2022

Nós vencemos

 Por Sierra


Imagem: Redes Sociais
Para o bem de todos, de todos, a tolerância, a ciência, a civilização, a fraternidade, o respeito às diferenças, o ecumenismo, a empatia, o bem comum, a crença num bom futuro, a justiça e a democracia venceram. Jair Bolsonaro apeado do poder fará um bem enorme a toda a sociedade. Todos nós vencemos.


De nada adiantou amedrontar o povo dizendo que o Brasil iria virar um país comunista. O ódio e a intolerância perderam. De nada adiantou promover uma guerra religiosa afirmando que Lula é um demônio inimigo dos cristãos e que ele iria fechar igrejas. O ódio, a intolerância e o preconceito perderam. De nada adiantou encher as redes sociais com uma notícia falsa atrás da outra. O ódio, a intolerância, o preconceito e a mentira perderam. De nada adiantou portar revólver, fuzil, granada e metralhadora para intimidar e até matar pessoas que discordavam da ideologia beligerante e autoritária. O ódio, a intolerância, o preconceito, a mentira e a barbárie perderam. De nada adiantou Silas Malafaia orar pedindo para as urnas travarem e André Valadão forjar um vídeo de retratação. O ódio, a intolerância, o preconceito, a mentira, a barbárie e o mau-caratismo perderam. De nada adiantou ameaçar de demissão os funcionários que votassem em Lula. O ódio, a intolerância, o preconceito, a mentira, a barbárie, o mau-caratismo e a pilantragem perderam. De nada adiantou fazer uso da Polícia Rodoviária Federal para montar blitze desnecessárias e atrapalhar a ida dos mais pobres aos locais de votação. O ódio, a intolerância, o preconceito, a mentira, a barbárie, o mau-caratismo, a pilantragem e a vileza perderam. De nada adiantou ofender os nordestinos chamando-os de analfabetos, parasitas e esfomeados. O ódio, a intolerância, o preconceito, a mentira, a barbárie, o mau-caratismo, a pilantragem, a vileza e a xenofobia perderam. De nada adiantou agredir jornalistas e ameaçar a suspensão da concessão da Rede Globo. O ódio, a intolerância, o preconceito, a mentira, a barbárie, o mau-caratismo, a pilantragem, a vileza, a xenofobia e o escrotismo perderam. De nada adiantou acusar o adversário de abortista. O ódio, a intolerância, o preconceito, a mentira, a barbárie, o mau-caratismo, a pilantragem, a vileza, a xenofobia, o escrotismo e a torpeza perderam. De nada adiantou cortar verbas da Educação e da Cultura. O ódio, a intolerância, o preconceito, a mentira, a barbárie, o mau-caratismo, a pilantragem, a vileza, a xenofobia, o escrotismo, a torpeza e o obscurantismo perderam. De nada adiantou atacar os homossexuais e acusá-los de causarem a dissolução da família tradicional. O ódio, a intolerância, o preconceito, a mentira, a barbárie, o mau-caratismo, a pilantragem, a vileza, a xenofobia, o escrotismo, a torpeza, o obscurantismo e o falso moralismo perderam. De nada adiantou desprezar, xingar, maltratar e desrespeitar mulheres. O ódio, a intolerância, o preconceito, a mentira, a barbárie, o mau-caratismo, a pilantragem, a vileza, a xenofobia, o escrotismo, a torpeza, o obscurantismo, o falso moralismo e a misoginia perderam. De nada adiantou incendiar e destruir terreiros de religiões de matriz africana e promover manifestações nazi-fascistas. O ódio, a intolerância, o preconceito, a mentira, a barbárie, o mau-caratismo, a pilantragem, a vileza, a xenofobia, o escrotismo, a torpeza, o obscurantismo, o falso moralismo, a misoginia e a selvageria perderam. De nada adiantou desacreditar a pandemia da covid-19, fazer motociatas, pilotar jetskis, montar em cavalos, incentivar a desobediência civil, adiar a compra de vacinas, invadir hospitais, sabotar o lockdown e tripudiar dos doentes, dos mortos e dos seus parentes. O ódio, a intolerância, o preconceito, a mentira, a barbárie, o mau-caratismo, a pilantragem, a vileza, a xenofobia, o escrotismo, a torpeza, o obscurantismo, o falso moralismo, a misoginia, a selvageria e a crueldade perderam. De nada adiantou celebrar a ditadura e exaltar torturadores. O ódio, a intolerância, o preconceito, a mentira, a barbárie, o mau-caratismo, a pilantragem, a vileza, a xenofobia, o escrotismo, a torpeza, o obscurantismo, o falso moralismo, a misoginia, a selvageria, a crueldade e o anacronismo perderam. De nada adiantou decretar sigilos de cem anos, esconder e indultar delinquentes. O ódio, a intolerância, o preconceito, a mentira, a barbárie, o mau-caratismo, a pilantragem, a vileza, a xenofobia, o escrotismo, a torpeza, o obscurantismo, o falso moralismo, a misoginia, a selvageria, a crueldade, o anacronismo e a injustiça perderam. De nada adiantou tripudiar e fazer pouco caso dos assassinatos de Marielle Franco, Anderson Gomes, Moïse Kabagambe, Dom Phillips, Bruno Pereira e Marcelo Arruda. O ódio, a intolerância, o preconceito, a mentira, a barbárie, o mau-caratismo, a pilantragem, a vileza, a xenofobia, o escrotismo, a torpeza, o obscurantismo, o falso moralismo, a misoginia, a selvageria, a crueldade, o anacronismo, a injustiça e a covardia perderam. De nada adiantou instruir investigadores, combinar ações, acelerar andamento de processos, julgar com parcialidade e prender Lula. O ódio, a intolerância, o preconceito, a mentira, a barbárie, o mau-caratismo, a pilantragem, a vileza, a xenofobia, o escrotismo, a torpeza, o obscurantismo, o falso moralismo, a misoginia, a selvageria, a crueldade, o anacronismo, a injustiça, a covardia e o conluio perderam. De nada adiantou receitar cloroquina, ivermectina e azitromicina. O ódio, a intolerância, o preconceito, a mentira, a barbárie, o mau-caratismo, a pilantragem, a vileza, a xenofobia, o escrotismo, a torpeza, o obscurantismo, o falso moralismo, a misoginia, a selvageria, a crueldade, o anacronismo, a injustiça, a covardia, o conluio e o negacionismo perderam. De nada adiantou Edir Macedo, Record Tv e Jovem Pan atacarem sistematicamente Lula e a esquerda. O ódio, a intolerância, o preconceito, a mentira, a barbárie, o mau-caratismo, a pilantragem, a vileza, a xenofobia, o escrotismo, a torpeza, o obscurantismo, o falso moralismo, a misoginia, a selvageria, a crueldade, o anacronismo, a injustiça, a covardia, o conluio, o negacionismo e o golpismo perderam.  De nada adiantou arranjar um “padre de festa junina” para animar a “quadrilha”. O ódio, a intolerância, o preconceito, a mentira, a barbárie, o mau-caratismo, a pilantragem, a vileza, a xenofobia, o escrotismo, a torpeza, o obscurantismo, o falso moralismo, a misoginia, a selvageria, a crueldade, o anacronismo, a injustiça, a covardia, o conluio, o negacionismo, o golpismo e a canalhice perderam. De nada adiantou negar rachadinhas, inflar lucro de loja de chocolates e defender compra de dezenas de imóveis com dinheiro vivo. O ódio, a intolerância, o preconceito, a mentira, a barbárie, o mau-caratismo, a pilantragem, a vileza, a xenofobia, o escrotismo, a torpeza, o obscurantismo, o falso moralismo, a misoginia, a selvageria, a crueldade, o anacronismo, a injustiça, a covardia, o conluio, o negacionismo, o golpismo, a canalhice e o descaramento perderam. De nada adiantou marchar, sequestrar a bandeira nacional, prestar continência, pedir intervenção militar e cooptar militares. O ódio, a intolerância, o preconceito, a mentira, a barbárie, o mau-caratismo, a pilantragem, a vileza, a xenofobia, o escrotismo, a torpeza, o obscurantismo, o falso moralismo, a misoginia, a selvageria, a crueldade, o anacronismo, a injustiça, a covardia, o conluio, o negacionismo, o golpismo, a canalhice, o descaramento e o extremismo perderam. De nada adiantou atacar o Supremo Tribunal Federal, o Tribunal Superior Eleitoral, as rádios do Norte e do Nordeste e a eficiência e a integridade das urnas eletrônicas. O ódio, a intolerância, o preconceito, a mentira, a barbárie, o mau-caratismo, a pilantragem, a vileza, a xenofobia, o escrotismo, a torpeza, o obscurantismo, o falso moralismo, a misoginia, a selvageria, a crueldade, o anacronismo, a injustiça, a covardia, o conluio, o negacionismo, o golpismo, a canalhice, o descaramento, o extremismo e o retrocesso perderam.

Para o bem de todos, de todos, a tolerância, a ciência, a civilização, a fraternidade, o respeito às diferenças, o ecumenismo, a empatia, o bem comum, a crença num bom futuro, a justiça e a democracia venceram. Jair Bolsonaro apeado do poder fará um bem enorme a toda a sociedade. Todos nós vencemos.

29 de outubro de 2022

Não seja uma Cássia Kis

 Por Sierra

 


Imagem: Redes sociais
Não seja uma Cássia Kis: acredite e aposte. numa ideia feliz de país



Esquerda e direita estão em polvorosa no Brasil com talvez nunca tenham estado desde o início da redemocratização. A batalha pela eleição presidencial escancarou o esgoto a céu aberto que movimenta as investidas intestinais dos comitês de campanha que recorrerem a tudo e mais um pouco para aniquilar o opositor, porque o ápice da civilização, segundo o entendimento dos marqueteiros políticos, é exatamente isso; e cada um entra numa batalha com as armas que tem.

É claro que, tal qual em 2018 – só que operando em modo ainda mais turbinado –, o uso das ditas redes sociais, que eu costumo chamar de antissociais, utilizadas como terra de ninguém, exacerbou a proliferação dos ataques aos que disputam o pleito neste ano. Ainda não faço parte desse universo. Ainda. E sei que nem tudo o que cai nessas redes é peixe. Na verdade, não se vê peixe por ali. Em tempos de eleição, o que essas redes de arrasto mais trazem é bandalheira, é escrotice, é mentira. Quem vive preso às redes sociais leva a vida numa espécie de universo paralelo.

Na troca de acusações entre a esquerda e a direita o Cristo que dizem estar ali, coitado, é constantemente crucificado, porque é evocado por pessoas que descaradamente disseminam mentiras e notícias falsas e até cometem crimes de injúria e difamação dizendo que estão agindo assim em nome da fé que professam. Pelos que acompanham os embates entre um e o outro lado, parece que o bem mesmo não existe. E, nessa guerra religiosa, valores ditos cristãos escorrem pela sarjeta como se fossem algo imprestável. É evidente que essas pessoas que recorrem à tal expediente de distorcer e manipular as instâncias da fé não são gente de boa fé; são, isso sim, pessoas que não medem seus atos, que não pensam nas conseqüências de seus abusos e desatinos e que revelam, na verdade, que estão dispostas a tudo e que são capazes de recorrer a qualquer expediente para difundir suas visões de mundo e para defender seus ideais. Nessa batalha religiosa as pessoas parecem não enxergar que estão espezinhando os verdadeiros e sublimes valores da fé que elas dizem professar.

Foram várias as vezes em que eu me vi raivoso e quase perdi as estribeiras escrevendo sobre o panorama político nacional e/ou tentando discutir política. Não é perda de tempo discutir política, como pensam alguns; é um exercício necessário e salutar. O que temos visto ultimamente e, infelizmente, é a discussão, é a defesa de posicionamentos descambarem para ataques físicos que resultaram até em homicídios, o que é o cúmulo da intolerância e da incapacidade de coexistência entre contrários.

As duas coisas que mais me chamaram atenção nesses últimos anos de acirramento violento de disputas políticas, polarizando esquerda e direita, foram: a cegueira de tantos e a disposição de muitos para permanecerem firmes e inabaláveis dentro de suas bolhas de crenças, desancando, distorcendo e negando tudo o que não se enquadre e/ou que não caiba em sua bolha; e o desmascaramento de tantos e quantos que resolveram revelar o que realmente são e o que fundamentalmente pensam aderindo e defendendo pautas que para o senso comum das pessoas realmente esclarecidas soam absurdas, retrógradas, obscurantistas e até criminosas, como se defender isso e se posicionar a favor disso, fosse pensar no bem comum.

Seguindo o mesmo torpe caminho de Regina Duarte, Cássia Kis resolveu também ela aderir às forças e às ideias do atraso, escrevendo em redes sociais e falando à imprensa barbaridades como ataques a homossexuais. Cássia Kis, uma das grandes atrizes da teledramaturgia nacional, uma senhora sexagenária que já viu muita coisa na vida, resolveu apoiar e defender um candidato à presidência da República que ataca incansavelmente as instituições, que faz pronunciamentos misóginos e homofóbicos e que defende o armamento da população, entre outras barbaridades. Como assim, Cássia Kis? Quer dizer que as minorias não têm serventia e nem são cidadãos merecedores de respeito? Quer dizer que você assina embaixo de tudo o que o inominável fala e faz? Cássia Kis, talentosa Cássia Kis, a sociedade é algo muito mais amplo e complexo do que você provavelmente pensa que ela é. E é uma lástima, uma grande lástima constatar que você tenha chegado a esta altura de sua vida apoiando uma ideia onde uns indivíduos devem ser vistos como anomalias e como quaisquer outras coisas e não como gente por causa da sexualidade que vivenciam. Eu compreendo perfeitamente que “pintou um clima” entre vocês dois, porque, o que eu já vivi nestes meus 48 anos de idade, me fizeram crer que, por mais que, às vezes, demore, quase sempre alguém encontra aquele ou aquela que lhe merece.

Eu vou amanhã novamente sair de casa de peito e de coração abertos e convicto, inteiramente convicto, de que farei a escolha certa votando no candidato Luiz Inácio Lula da Silva, o “menos pior”, o “mal menor”, como uns e outros têm dito por aí. Eu vou votar novamente em Lula contra todos os demônios, contra todos os bibelôs de trogloditas e contra todos os eczemas que estão espalhados pelo Brasil afora.

Leitor não seja uma Cássia Kis: acredite e aposte numa ideia feliz de país.

22 de outubro de 2022

A infame ignorância pretensiosa ou Tentando preencher vazios existenciais

 Por Sierra


Imagem: Internet
Que ninguém se iluda: nem toda luz realmente clareia o que é preciso que nós enxerguemos


Há quem celebre a ignorância como se ela fosse uma virtude. Há quem faça da ignorância uma justificativa de bem-viver. Há quem viva imerso na ignorância e, ainda assim, se julgue sabedor de tudo e mais um pouco.

Não foram poucos os que apostaram – e outros tantos continuam apostando – que a internet e a realidade virtual em si promoveriam um aumento significativo do nível de inteligência dos que nesse ambiente tecnológico fossem inseridos, tantas são as possibilidades e acessos que a rede mundial de computadores proporciona, como versões gratuitas de livros e de outras publicações, videoaulas, passeios virtuais por museus, shows de artistas consagrados pela qualidade da arte que concebem, et., etc., etc.

Os que apostaram nisso enxergando na internet e no mundo virtual apenas coisas positivas esqueceram, ao que parece, que mesmo as ideias aparentemente mais geniais e promissoras podem ser utilizadas para fins nada benéficos e muito menos edificantes. Tais anunciadores do futuro desprezaram o fato de que as gavinhas da ignorância não cessam de se movimentar a fim de ocupar espaços, como a erva daninha que consegue medrar mesmo em terreno aparentemente não propício para a sua proliferação.

A consolidação da internet – e não nos esqueçamos que ainda não é pequeno o número de pessoas que não têm acesso a ela e/ou que têm um acesso precário -, com todas as maravilhas que ela encerra, viu surgir, por outro lado, a propagação da desinformação, dos discursos de ódio e de perseguição a minorias, da apologia de práticas criminosas e da mentira com uma facilidade e numa velocidade nunca antes vistas na história da humanidade. No campo minado em que muito rapidamente foi se transformando o mundo virtual, a criação e disseminação das chamadas redes sociais elevou o status daninho à enésima potência.

Eu, você, nós, cada um de nós certamente conhece no mínimo uma dúzia de pessoas que gastam um bom tempo de seus dias mergulhadas no mar de futilidades, nulidades e de distorção da realidade que imperam nesses ambientes. Dificilmente você vai encontrar dentro de um ônibus, por exemplo, alguém fazendo uso do telefone celular para ler um livro ou obter informações num site de notícias. O mais comum – e eu falo isso com grande e por vezes aborrecido conhecimento de causa, porque tem pessoas que fazem questão de ser inconvenientes o máximo que podem – é você se deparar com gente que fica o tempo todo trocando mensagens no WhatsApp ou então acionando a barra de rolamento do Instagram vendo a miríade de bobagens que uns e outros postam ali na esperança de ganhar mais e mais seguidores e, claro, ser monetizados por isso.

Felizmente eu não pertenço à geração Tik Tok. Na verdade, eu estou bem longe disso. Certas sereias, por mais que cantem e até se esgoelem, não conseguem me seduzir. Não estou imune a tudo, mas também não estou submisso a tudo. Certas coisas não conseguem me atrair. Nunca que eu tive a ilusão de que vidas e realidades perfeitas existem; e não seria agora, à beira dos 50 anos de idade, que eu iria aderir a isso. Quem quiser que faça uso de filtros para parecer bonito nas redes sociais. Quem quiser que corra atrás dos seus seguidores a fim de ganhar seu dindim.  A minha vibe é outra. Se eu tiver de ganhar alguma relevância - e dindim, claro, porque todo mundo tem contas a pagar nem que seja apenas com o inferno – será por força do mérito e não por nulidades e desimportâncias.

Enquanto uns e outros estão nas redes sociais preenchendo, tentando preencher seus vazios existenciais, eu vou sentadinho nos ônibus lendo os meus livros. Enquanto uns e outros permanecem cada vez mais presos a bolhas virtuais de desinformação crentes muito crentes e/ou mesmo de má-fé, cumpliciados com redes criadoras e disseminadoras de mentiras destruidoras de reputações, eu acesso sites confiáveis e vou lendo notícias e tomando conhecimento de fatos. Que ninguém se iluda: nem toda luz realmente clareia o que é preciso que nós enxerguemos.

Não que as campanhas eleitorais tenham em algum momento da história sido exemplos de moralidade, ética, respeito e de compromisso com a verdade com os adversários e conosco, mas a atual disputa eleitoral visando à presidência da República tem sido, como talvez nenhuma outra, um quase esgoto a céu aberto; e, ainda por cima, colocando religião no centro dos debates. E, nessa seara, são muitos, por assim dizer, os pecados cometidos pelos que estão quase se digladiando num ringue da discórdia, tudo isso potencializado pela internet e pelas inescapáveis redes sociais.

Será que temos conserto? Eu não acredito nisso. Para mim isso vai seguir de mal para pior. Posso, dirão alguns, estar fazendo uma leitura muito simplista e pessimista da realidade, quando se considera que, às vezes, ocorrem transformações inesperadas. Vou repetir: eu não acredito nisso. Sobretudo numa sociedade na qual tantos e tantos praticam crimes e maldades dizendo que agem assim pensando no bem da maioria. Diante disso, não há filtro, por mais poderoso que seja, que consiga deixar esse retrato bonito.

Sigamos em frente, porque não acreditar numa transformação para melhor da realidade, não significa entregar os pontos, abrir mão dos princípios, não defender aquilo em que se acredita e muito menos jogar fora a lucidez que nos resta.

 

PS – A quem interessar possa: eu pincei a expressão “ignorância pretensiosa” do ensaio “A grandeza e a miséria de ser Oswald de Andrade” do livro de Cassiano Nunes que tem o luminoso título de A felicidade pela literatura (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983, p. 111).

15 de outubro de 2022

Não estou disposto a abrir mão disso

 Por Sierra

 

Especialmente para Letícia Oliveira, que me procurou, por causa do blog, no instante em que esta narrativa estava sendo escrita

 

Imagem: Internet
Ter me transformado em um leitor voraz e onívoro certamente se deu também pelos encontros que ocorreram ao longo do caminho com algumas pessoas dos livros. Ninguém se torna leitor compulsivo impunemente. Ninguém tem fome de saber sem uma razão de ser



Não consigo precisar qual foi o instante exato do start, do momento em que a leitura desencadeou em mim uma espécie de dependência, como quem precisa do ar para respirar, da água para se hidratar, do alimento para se nutrir e do sono para se restabelecer. Não consigo precisar isso, mas recordo com grande clareza alguns encantamentos esparsos que, muito possivelmente, eu acredito, foram as sementes do que estava por vir.

No ano de 1985, na 5ª série do 1º Grau, por força dos compromissos escolares – e então eu tinha 11 anos de idade – e recomendação da professora de Português, Suely Garcia, eu li dois livros da inesquecível série Vaga-lume, da Editora Ática: A ilha perdida, de Maria José Dupré; e Os barcos de papel, de José Maviael Monteiro. O meu encontro, o meu primeiro encontro com uma narrativa mais longa, digamos assim, se deu com esses dois bons livros, porque, antes deles, o meu universo de leitura se resumia a uma versão muitíssimo abreviada do Chapeuzinho Vermelho, do Charles Perrault – era uma daquelas publicações com pouquíssimas palavras e muitas imagens destinadas a leitores iniciantes -, gibis e a revista Alegria e Companhia, que eu adorava nos meus dias de criança. Anos se passaram. Eu pouco li durante o período. E no segundo ano do 2º Grau, nas aulas do professor Ibraim – eu não guardei o sobrenome dele, desculpem – afora o A mão e a luva, de Machado de Assis, eu li O cortiço, de Aluísio Azevedo, obra que me marcou profundamente e que possui um desfecho que sempre e sempre me emocionou muito à medida que a dimensão daquela tragédia foi sendo esclarecida pelo conhecimento de mundo e de história do Brasil que eu fui adquirindo. E, no terceiro ano do 2º Grau, sob a batuta do professor Eurípedes Luna, eu entrei em contato com “Psicologia de um vencido”, o famosíssimo poema de Augusto dos Anjos, algo que também me marcou de uma forma arrebatadora.

Mas essas ocorrências, esses encontros com a literatura não foram processos que se deram de modo contínuo. Outras obras eu leria, porém, sem me ter ainda como um leitor de fato, sem que eu buscasse os livros e a leitura em si como uma necessidade existencial, como uma substância primordial. Daí por que eu não sei dizer exatamente quando houve o big bang que desencadeou isso em mim. Contudo, eu considero que tal ocorrência se deu em algum momento da minha trajetória acadêmica, durante o tempo em que eu cursava a graduação em História na Universidade Federal de Pernambuco; tempo esse em que a obrigação e a necessidade imperiosa de ler livros para a minha formação foram paulatinamente dando lugar a um apego desmesurado, a uma busca incansável, a um querer desmedido e a uma verdadeira devoção à leitura e aos livros.

Ter me transformado em um leitor voraz e onívoro certamente se deu também pelos encontros que ocorreram ao longo do caminho com algumas pessoas dos livros. Ninguém se torna leitor compulsivo impunemente. Ninguém tem fome de saber sem uma razão de ser. Eu sei, eu tenho plena consciência de que devo parte da minha existência e da minha forma de estar no mundo e do meu constante exercício de compreensão e interpretação do mundo a várias pessoas que eu encontrei nas tantas leituras que fiz desde então. Como eu sei e penso que eu sei que o meu exercício de escrita, para além de toda e qualquer vaidade intelectual, é também ele uma necessidade de minha existência, do meu sentir, do meu querer dizer, da força e das crenças que me lançam para isso e do papel que eu assumi para minha travessia da vida. Eu sei que escrevo como parte de um entendimento de liberdade que não é só de pensar. E eu aceito o meu ser e o meu estar no mundo com a maior naturalidade, sem me colocar num plano superior nem inferior e sim posicionado numa superfície e num espaço que são meus, porque eu compreendo que eu estou aqui e que tenho plena capacidade de me expressar.

Nesta semana a leitura de um breve livro me deixou por horas e horas a fio mergulhado numa melancolia e numa tristeza sem pares. Eu tive ânsia de logo dar conta dele e de concluir a leitura a fim de afastá-lo imediatamente de mim. Mas como fazer isso, me digam? Como conseguir se livrar de algo que foi como que inoculado em nossa mente? Agora é tarde. A tragédia já se deu. O abalo sísmico já provocou maremotos e rachaduras em mim.

À medida que eu fui lendo Livros demais!, do Gabriel Zaid, eu me vi sendo tomado por uma angústia danada. Algumas afirmações nele contidas mexeram tremendamente comigo. Penso mesmo que na narrativa de Zaid eu encontrei inquietações que vinham me perseguindo há tempos e que eu de alguma forma as domava. Senti até vontade de chorar depois de pausar a leitura na tarde da quinta-feira. Pensei na biblioteca que eu venho formando, pensei nos livros que eu publiquei e que foram um retumbante fracasso, pensei nestes textos que publico aqui no blog e que quase ninguém lê, pensei nos projetos de outros livros que pretendo realizar e pensei até mesmo – vejam a que ponto eu cheguei – em quanto tempo ainda eu tenho de vida para estar em companhia dos meus livros.

Mas eu não entreguei os pontos, não. Ontem mesmo eu arrumei e limpei a minha biblioteca, como tenho feito todas as semanas. Não pensei em quantos livros eu terei ainda tempo de ler até o fim dos meus dias. Não pensei em parar por aqui e pôr fim a tudo isso que me move. Aprendi com o Elias Canetti, ao ler a coletânea Sobre os escritores, que eu também encontrei nesta semana de tantas leituras, que “Escreve-se para ser diferente. Quem frauda a escrita continua sendo o que é de qualquer maneira”. Eu não vou fazer, nesse campo, nada, absolutamente nada diferente do que eu tenho feito. Eu vou continuar sem fazer concessões. Eu vou permanecer acreditando em tudo o que me trouxe até aqui. Eu não estou disposto a abrir mão disso.

Em razão da escrita do prefácio para um estudo que um amigo meu fez, hoje eu pus sobre o meu birô de trabalho, entre outras, a obra Uma vida entre livros, do José Mindlin, cujo exemplar pertenceu a um dos maiores bibliotecários deste país, o meu saudoso Edson Nery da Fonseca, e cuja leitura eu finalizei em 23 de abril de 2012. Relendo algumas páginas da narrativa do Mindlin, relendo essa verdadeira declaração de amor, de dedicação e de devoção aos livros e à leitura, todo o meu apego, todo o meu carinho e toda a minha fascinação pelos livros, pela leitura e pela escrita se renovaram forte e robustamente.

Eu sei, eu bem sei que o meu estar no mundo apoia-se firmemente nisso; e não como missão, e sim como necessidade existencial mesmo.

8 de outubro de 2022

O diabo diante do púlpito

 Por Sierra


Imagem: Reprodução/Redes sociais
Como eu disse no artigo anterior, eu vou votar em Lula oferecendo a ele um voto de confiança. Podem dizer o que quiserem do candidato do Partido dos Trabalhadores. Para mim, os polos antagônicos que estão disputando a presidência da República opõem a fraternidade e a humanidade que eu vejo no candidato Lula ao obscurantismo e à desumanidade personificados em Bolsonaro
 

Ao lado da misoginia, da homofobia, da xenofobia e do descaso para com a educação e a preservação do meio ambiente, o atual presidente da República pôs também o discurso do ódio e da intolerância religiosa, conseguindo atrair para junto de si, com todos esses males, um contingente de milhões de brasileiros que se reconhecem e que se identificam com a pauta da beligerância e da malignidade que ele dissemina, muito convictos de que o verdadeiro mal está no outro lado e não neles próprios.

O entendimento de que os seres humanos em suas relações com outros seres humanos, com a natureza e com tudo o que existe de palpável e de impalpável está ligado a crenças muito particulares, levou a humanidade a tratar com o sobrenatural evocando uma diversidade de deuses dentro de cosmologias próprias e distintas umas das outras. Por que está errado e deve ser perseguido quem cultua Oxum, quem segue os preceitos de Buda, quem destina oferendas a Ganesha e quem adotou a doutrina do kardecismo? A questão fundamental da intolerância religiosa que se manifesta pelos quatro cantos do mundo é que, para uns e outros, só valem os escritos da Bíblia, só os ensinamentos cristãos é que garantem a salvação de todos e de cada um de nós. Extremistas cristãos estão à solta por aí praticando maldades em nome da crença que eles professam e há quem pense que isso é bom para uma sociedade que se enxerga plural.

É justamente essa postura algo belicosa que adentrou na atual disputa pela presidência da República. Estão fazendo da crença no sobrenatural um instrumento de combate e de confronto apontando, cada um a seu modo, os supostos perigos à fé cristã que estariam na pauta de governo do candidato Luiz Inácio Lula da Silva. O negócio é tão absurdo e ao mesmo tão perigoso que muitas das ditas lideranças evangélicas, que são as que até aqui vêm demonstrando mais intolerância religiosa e crendo e disseminando inverdades, parecem não saber que o mundo é diverso e plural e que, ao fomentarem, apoiarem e estimularem um descrédito e uma perseguição a crenças espirituais e religiosas diferentes das que eles professam, estimulam a desarmonia e os ataques àqueles que as vivenciam.

Notem que um dos maiores absurdos que algumas lideranças evangélicas consciente e perversamente estão propagando é a que diz que, uma vez que seja eleito, Lula mandará fechar as igrejas evangélicas. Vejam, por outro lado, que essas mesmas lideranças evangélicas não se pronunciam contra os ataques sistemáticos que vêm sendo feitos aos territórios de umbanda e de candomblé e nem tampouco falaram das ofensas recentes direcionadas aos maçons. E por que isso? Porque entre eles não impera e nem sequer existe uma ideia de comunhão e de ecumenismo. O que entre eles prospera é a lógica do “inimigo precisa ser derrotado” e “nós vamos acabar com eles”. É a mesma lógica do não se importar com os constantes assassinatos de homossexuais, porque, segundo eles, homossexuais são qualquer outra coisa, menos gente.

Eu vejo evangélicos afirmando que Lula é anticristão e contra os preceitos da Bíblia. Minha gente, quanta ignorância. Curioso e espantoso é ver essas pessoas mancomunadas com Jair Bolsonaro, um sujeito que seguidamente deu demonstrações que de cristão ele pouco ou nada tem. Por que esses evangélicos que se julgam acima do bem e do mal e poços de fraternidade e de humanidade não demonstram um mínimo de empatia para com as minorias que o atual presidente da República ataca? Ser homossexual é ser contra a família? Ser negro é ser burro de carga? Ser mulher é ser cidadão de segunda classe? Ser adepto de uma crença que não for a que eu sigo é ser demoníaco? Que pregação de amor, de fraternidade e de humanidade é essa?

Não faltam evangélicos que atacam Lula dizendo que ele é um ex-presidiário e que eles jamais votariam num ex-presidiário. Eu ouço coisas desse tipo e fico pensando no que é que essa gente vai pregar nas unidades prisionais. Será que elas vão até esses locais para tentar transformar, através do Evangelho, assassinos, ladrões e estupradores ou será que elas não acreditam nisso, porque uma vez bandido o indivíduo nunca mais cultivará bons valores e nem será, como eles dizem, “gente de bem”? Penso nessas questões e fico imaginando um pastor e/ou um seu auxiliar na porta de sua igreja avaliando alguém por ele desconhecido:

- Pois não? Eu sou o pastor João. E você, quem é?

- Meu nome é Carlos...

- É a sua primeira vez aqui, Seu Carlos?

- Sim, é. Eu tô precisando me consertar na vida...

- Ah, é? Muito bem. E o que foi de errado que o senhor fez, Seu Carlos, para vir procurar conforto na casa de Deus?

- Eu bebia muito, sabe? E num dia em que teu tava muito bêbado matei minha mulher a facadas. Cumpri minha pena já.

- E foi? Olhe, Seu Carlos, eu não deixo entrar aqui nem homossexuais, nem bêbados, nem estupradores, nem ladrões e muito menos assassinos. Sabe o que o senhor faz, Seu Carlos? Vá procurar outro lugar para entrar.

Mas minha gente, vocês não vivem repetindo que Deus é amor?!

A necessidade que uns e outros sentem de dar ouvidos e seguir um guia e/ou líder espiritual me apavora. Eu me recuso terminantemente a aceitar que “guiem”, que “orientem” a minha subjetividade; e que alguém diga o que eu devo ser e como eu devo ser. Não creio no sobrenatural; mas não é porque eu não creio que eu deva partir para atacar e desacreditar as crenças de quem quer que seja. A liberdade de consciência é seguramente, para mim, a maior das liberdades. Sermos donos de nós mesmos e termos plenitude de consciência nos confere uma força enorme para dizer “não” aos que intencionam tirar de nós a capacidade que temos de pensar por si próprio e de ter discernimento.

Como eu disse no artigo anterior, eu vou votar em Lula oferecendo a ele um voto de confiança. Podem dizer o que quiserem do candidato do Partido dos Trabalhadores. Para mim, os polos antagônicos que estão disputando a presidência da República opõem a fraternidade e a humanidade que eu vejo no candidato Lula ao obscurantismo e à desumanidade personificados em Bolsonaro.

E para não dizerem que eu fui muito sombrio e sério demais neste artigo, eu, que sei tanto ser da greia, do deboche e do escracho sin perder la ternura, fiz estes versos escrotos para embalar o pleito e zoar daqueles que se julgam seres humanos melhores e superiores a outros seres humanos. Lá vai:

Ão, ão, ão eu voto é no ladrão.

Quem só prega o ódio

é que vota no diabão.


Um tirano é sempre e sempre muito mais perigoso e cruel do que um ladrão, porque tiranos nos subtraem até a liberdade.