18 de abril de 2026

Nos rastros deixados pelo Golpe de 1964

 Por Sierra

 

Fotos: Arquivo do Autor
Sessão de abertura do seminário: uma pena que o evento não tenha atraído um grande público, porque continua sendo urgente a defesa dos princípios democráticos


Um dos capítulos mais tenebrosos e desumanos de nossa história recente, o Golpe Mlitar de 1964 e os seus desdobramentos e reflexos foram, em parte, examinados, na última quinta-feira, num seminário promovido pelo Núcleo de Educação, Cultura, Inclusão, Meio Ambiente e Diversidade em Direitos Humanos (NECIMADH), da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), no campus de Casa Forte, no Recife.





Com o tema "Estado, democracia e direitos humanos no Brasil dos anos 60", o evento aconteceu em dois turnos, manhã e tarde; e teve lugar na Sala Calouste Gulbenkian, um espaço que eu comecei a frequentar há quase trinta anos, ainda na época da faculdade, e do qual eu guardo ótimas recordações.

Depois de sermos embalados por Marcondes Oliveira que, com voz e violão, apresentou as canções "Tempos modernos" (Lulu Santos), "Tanto amar" (Chico Buarque) e "Canta coração" (Geraldo Azevedo e Carlos Fernando), fazendo, digamos, uma pré-abertura, nós acompanhamos a composição da mesa - a presidenta da Fundaj, professora Márcia Angela Aguiar, não compareceu pela manhã por conta de um compromisso em Brasília; e foi representada por José Amaro Barbosa, chefe de gabinete da presidência da casa - e, logo em seguida, sob a mediação da historiadora Rita de Cássia Barbosa de Araújo, da Fundaj,  assistimos à palestra do professor, pesquisador e ativista de direitos humanos Manoel Moraes.

Manoel Moraes e Rita de Cássia Barbosa de Araújo










Com uma fala muito clara e precisa, Manoel Moraes fez um extenso recorte temporal para nos dizer como, desde o Brasil Colonial, com o massacre de povos originários, este país convive com os desrespeito aos direitos humanos. Com uma abordagem muito ampla, o palestrante recordou fatos e personagens como: Miguel Arraes; o Engenho Galileia, Francisco Julião; o Movimento de Cultura Popular; Gregório Bezerra; a Doutrina Monroe; a Aliança para o progresso; Pelópidas Silveira; Paulo Freire; Josué de Castro; o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES); o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD); as Comissões da Verdade; o professor Denis Bernardes; as políticas de reparação, individuais e coletivas para os perseguidos pela Ditadura Militar; etc. Foi uma explanação muito rica, abrangente e brilhante sob vários aspectos; e que foi seguida por de perguntas feitas por uma plateia que, lamentavelmente, não era numerosa - faltou gente para acompanhar e participar de um evento tão importante como esse.

No meio da pequena plateia se encontrava Jéssica Morris, filha do pastor metodista Frederick Morris, que foi preso e torturado durante os chamados Anos de Chumbo.

Após um intervalo para o almoço, o seminário foi retomado e com um público ainda menor.

Na mesa redonda intitulada "O golpe civil-militar e as repercussões para a educação brasileira" falaram Clodoaldo Meneguello Cardoso e Maria Nazaré Tavares Zenaide, ele da Universidade Estadual Paulista, campus de Bauru, e ela da Universidade Federal da Paraíba, ambos mediados por Edna Silva, da Fundaj.


Da esquerda para a direita: Maria Nazaré, Clodoaldo Meneguello e Edna Silva

Com uma serenidade toda sua, o professor Clodoaldo Mneguello enfaticamente destacou que "O golpe abortou um projeto de democracia social e reformista". Ele disse ainda que a ideia de liberdade não deve ser pensada como algo individual e, sim, dentro de uma coletividade, porque, segundo ele, não se pode falar do individual sem falar do social e vice-versa.

Em sua explanação, a professora Maria Nazaré, entre outros pontos, destacou que João Goulart era um empecilho para o projeto de hegemonia norte-americana no Brasil; e que a discussão em torno das chamadas "escolas sem partido" é uma afronta à pluralidade e à diversidade de ideias registradas pela Constituição do país.

Anteontem, 16 de abril, em pleno Dia Nacional de Lembrança do Holocausto, a Fundação Joaquim Nabuco que, no dizer de Rita de Cássia Barbosa de Araújo, "Está sempre revolvendo a questão do Golpe", promoveu um seminário no qual foram explanados e debatidos assuntos referentes à Ditadura Militar cujos reflexos são sentidos até hoje, principalmente quando, no cenário político, pululam figuras e personagens que defendem a decretação de outro estado de exceção neste país e que celebram torturadores e falam contra os direitos humanos.









A presidente da Fundaj, Márcia Angela Aguiar, compareceu à tarde ao evento



Antes de terminar eu quero registrar aqui uma fala do patrono da Educação brasileira que Aída Monteiro, coordenadora do NECIMADH, trouxe à baila na sessão de abertura do seminário, ao exibir a participação dele numa edição do Programa Livre, do Serginho Groisman: "Tomemos um tal gosto pela liberdade, um tal gosto pela presença no mundo, pela pergunta, pela criatividade, pela ação, pela denúncia, pelo anúncio que jamais seja possível, no Brasil, a gente voltar àquela experiência do pesado silêncio sobre nós".





Jéssica Morris 


Que estas palavras de mestre Paulo Freire continuem ecoando em nossos ouvidos, como alerta, para que não mais permitamos que os inimigos da democracia pisoteiem as leis e promovam as mais cruéis desumanidades contra todos aqueles que se recusam a aceitar toda e qualquer arbitrariedade usurpadora do livre pensar e do direito de ir e vir.

11 de abril de 2026

O Museu de História da Paraíba

Por Sierra

 

Fotos: Acervo do Autor
Um dos mais belos e imponentes prédios do sítio histórico da capital paraibana foi revitalizado e transformado em um museu, algo digno de muito louvor, sobretudo, numa cidade repleta de edificações antigas abandonadas e em ruínas


Depois de ter passado por uma grande obra de restauro que durou mais de um ano, o antigo prédio-sede do poder executivo estadual paraibano, o chamado Palácio da Redenção, localizado no começo da Rua Duque de Caxias e defronte para a Praça João Pessoa - a lateral direita do imóvel é voltada para a Praça Venâncio Neiva, que muitos conhecem como Pavilhão do Chá; e os fundos se voltam para a Avenida General Osório -, no perímetro histórico da capital situado na Cidade Alta, passou a abrigar a mais nova e imponente instituição museal da Paraíba. E eu, que vira toda a pompa e circunstância do evento de inauguração pelas redes sociais, tratei de ir ver tudo pessoalmente e bem de perto a fim de conhecer, prestigiar e celebrar esse grande acontecimento.

A minha primeira tentativa de conhecer o Museu de História da Paraíba ocorreu na manhã do último dia 7 de janeiro. E foi frustrante. E por quê? Quando eu cheguei lá, acompanhado do meu amigo Luiz Tavares, tomei conhecimento de que, além de as visitas só serem guiadas, elas só aconteciam em quatro horários: 9h, 11h, 13h e 15h. E só haviam vagas para o terceiro e quarto horários. Eu dei brabo com as recepcionistas que, claro, nada tinham a ver com o que eu julguei ser uma medida restritiva e limitadora, ainda mais numa alta estação de verão e num período de férias escolares, quando esses espaços costumam ser mais procurados. Mesmo considerando que caberia aos visitantes buscar informações sobre horário de visitação e tal, antes de seguir para lá, eu avaliei que aquela definição de horários e a obrigatoriedade de visitação guiada não eram adequadas. Cheguei a dar o nome para a visita das 15 e não retornei, porque eu resolvi aproveitar outros lugares da cidade, bater perna pelo sito histórico, algo que eu adoro fazer.


No salão térreo, ou hall de entrada, aguardando o início da visitação guiada, que não deu para todos que a queriam








Um dos vários grupos que chegaram para visitar o museu e deram a viagem perdida, porque não tinham mais vagas no horário das 15h, o último do dia



Dois dias depois eu, que estava pelos arredores, resolvi voltar ao Museu de História da Paraíba para, mais uma vez, tentar conhecê-lo por dentro, agora na visita guiada das 15h.

Quando eu cheguei lá, às 14h20, já encontrei muitas pessoas no salão térreo. Chegando à recepção foi que eu fiquei sabendo que o total de visitantes, por horário, era de 50 indivíduos; e que haviam, para a turma das 15h, excepcionalmente aberto mais 10 vagas - gente, eu fui o último da lista.












Eu, felizmente, consegui uma vaga para última visitação daquele dia, mas várias, dezenas de pessoas foram até lá e deram a viagem perdida e, claro, ficaram visivelmente frustradas. Troquei figurinhas com algumas delas. Umas eram turistas vindos de outros estados; e outras eram moradoras da própria João Pessoa. Assim como acontecera comigo dois dias antes - e em que pese a presença quase suprema das redes sociais em nosso cotidiano -, elas também foram até lá sem saber de horários e de visitas obrigatoriamente guiadas, algo que algumas delas consideraram completamente absurdo e com toda razão.

 

A visita em si

 

Para evitar possíveis penetras, no hall de entrada foi feita a leitura dos sessenta nomes que haviam sido anotados na lista. Além disso, todos que estavam ali receberam orientações de como iria acontecer a visitação guiada pelo Sgt PM Frederico Alexandre e de como deveríamos nos comportar nos ambientes do prédio para evitar dispersão.















Primitivamente parte integrante de um complexo construtivo da Companhia de Jesus, que era constituído por um convento, um colégio e por uma igreja que teve como primeiro orago São Gonçalo e, depois, Nossa Senhora da Conceição – igreja essa que foi mandada demolir pelo então governador João Pessoa para dar lugar a um jardim, uma das ações mais absurdas praticadas contra o patrimônio histórico edificado da capital paraibana; espaço esse que atualmente encerra o mausoléu do próprio João Pessoa -, o prédio recebeu diferentes nomes e usos e passou por várias alterações ao longo dos tempos desde que os jesuítas foram expulsos dos territórios dominados pela Coroa Portuguesa pelo Marquês de Pombal, em 1759.

A propósito das mudanças de nomes dessa edificação, vale a pena conferir esta passagem de uma narrativa do historiador Humberto Nóbrega:

 

Ao tempo do Brasil-colônia chamavam-no de Casa das Secções do Governo da Capitania, ou simplesmente Casa do Governo, ou Palácio do Governador.

Essas denominações são encontradas em muitos documentos antigos [...]

No Império, passou a ser denominada Palácio da Presidência ou Palácio do Governo da Presidência. E, implantada a República, Palácio do Governo.

Palácio da Redenção - seu nome atual é designativo que surgiu na Revolução de 1930. Deve-se à poetisa Rita Miranda que logo após a vitória do movimento, então considerado redentor, o propôs como uma homenagem ao presidente João Pessoa [...] (Humberto Nóbrega. "Um prédio de convento a palácio". In Wellington Aguiar e José Octávio [orgs.]. Uma cidade de quatro séculos: evolução e roteiro. João Pessoa: Governo do Estado da Paraíba, 1985, p. 149).







O prédio e os detalhes da arquitetura são de encher os olhos



Nesta e na foto seguinte, painéis fixados no quarto onde se diz que Ariano Suassuna nasceu: projeto museal muito simples










Não tanto pelo acervo - que é basicamente constituído por peças de mobiliário; quadros; objetos de decoração; fotografias; reproduções de documentos, jornais e pinturas antigos; e utensílios domésticos, componentes de um serviço de jantar - e sim pelo prédio imponente e repleto de detalhes arquitetônicos, o Museu de História da Paraíba encheu meus olhos e me alegrou deveras, porque eu sou um entusiasta e defensor das políticas públicas e particulares que visem à proteção e salvaguarda de exemplares do nosso patrimônio histórico edificado; e ver isso numa cidade como João Pessoa, onde vários sobrados e casas térreas estão abandonados e em ruínas há muitos anos no centro histórico, é digno de louvor e ainda mais quando se avalia que, além de ter sido inteiramente restaurado e revitalizado, o então Palácio da Redenção passou a abrigar um museu, o que demanda outros usos, outra dinâmica de ocupação e outras medidas que busquem manter uma conservação predial e de acervo ainda mais rigorosa e constante, porque passou agora a ser visitada por um público que, digamos, quer ver a casa sempre arrumada.

Além do seu acervo próprio, constituído basicamente por móveis e objetos de decoração, pinturas e fotografias, como já foi dito, o Museu de História da Paraíba dispõe de espaços para exposições temporárias; e, quando da minha visita, mantinha em uma das salas alguns quadros do acervo do Museu de Arte Assis Chateaubriand, de Campina Grande, com telas de nomes como Pedro Américo, Anita Malfatti, Ismael Nery, Santa Rosa, Cândido Portinari e Di Cavalcanti.

Uma das coisas que me dão prazer quando visito museus, galerias de arte e afins é o ser guiado por monitores bem preparados que nos enchem de informações tanto sobre o espaço em si como sobre o acervo, porque eu também defendo que tais instituições culturais têm e/ou deveriam ter um papel importante na formação e educação do público, sobretudo com públicos que não têm familiaridade com tais espaços.










Painel com fotos de igrejas de todos os municípios paraibanos: representatividade da história paraibana pode ser bem mais do que apenas isso




Fotos mostrando as várias etapas da revitalização do prédio: que bom que tudo foi feito com esmero!


Considerando tudo isso que eu registrei no parágrafo anterior, eu vou fazer agora duas observações a respeito de minha visita ao mais novo e imponente museu de João Pessoa. A primeira diz respeito à visita guiada; em termos de conhecimento e de bem falar, o Sgt PM Frederico Alexandre passou no teste com louvor: dinâmico, divertido e bem-humorado, ele conduziu com maestria a tarefa que lhe cabia. A ressalva que eu fiz foi quanto ao tempo de duração da monitoria; no dia da minha visita ela se prolongou por duas longas horas; e se você considerar que o acervo não é muito atraente - quer dizer, não foi para mim - e que, no grupo guiado, havia crianças e idosos, ficar ouvindo alguém falar durante duas horas se torna cansativo e o cansaço acaba gerando desinteresse de alguns indivíduos do grupo pelo que está sendo dito, como ocorreu, principalmente por parte das crianças.






Sgt PM Frederico Alexandre em ação como guia











A minha segunda ressalva foi direcionada ao acervo da instituição. Para um denominado Museu de História da Paraíba ele apresenta um acervo pobre. Eu não vi ali um conjunto representativo da Paraíba em si. Ora, colocar fotografias de igrejas de todos os municípios e painéis eletrônicos que mostram personalidades paraibanas é muito simplório e pouco representativo do estado como um todo. E o que dizer da ocupação do quarto no qual se diz que mestre Ariano Suassuna nasceu, no tempo em que João Suassuna, seu pai, era presidente da Paraíba, cargo equivalente ao de governador? Aquilo lá, como foi concebido e exposto, está digno de figurar em semináios e feiras de ciências escolares e não em um museu desse nível e porte. Eu penso e defendo que o governo da Paraíba deve angariar esforços para conseguir montar um acervo que, além de rico e atrativo, diga da Paraíba para além dos inícios da capital, no século XVI, e da Revolução de 1930, temas tão abordados pelo Museu da Cidade de João Pessoa, por exemplo.


O Sgt PM Frederico Alexandre, o guia do dia da minha visita: muita informação na ponta língua

No mais, eu só posso e quero é louvar a grande iniciativa do governador João Azevêdo em transformar o Palácio da Redenção nesse belo Museu de História da Paraíba.