4 de julho de 2026

O centenário de Alexina Crêspo comemorado na Fundação Joaquim Nabuco

 Por Sierra

 

Fotos: Arquivo do Autor
A história de Alexina Crêspo precisa ser cada vez mais difundida para que muito mais pessoas tomem conhecimento das lutas que ela empreendeu por conquistas sociais, como a reforma agrária

 

Caso você já tenha lido um bom livro de História do Brasil, sobretudo algum que abordou o período da Ditadura Militar (1964-1985), certamente há de ter se deparado com algumas linhas descrevendo as chamadas Ligas Camponesas, que existiram no Nordeste, e lido o nome de um personagem que durante vários anos atuou como advogado dos camponeses, o pernambucano de Bom Jardim chamado Francisco Julião, que, além de advogado, foi escritor e deputado estadual e federal; e que teve os seus direitos políticos cassados nos primeiros dias do Golpe Militar, passou quase dois anos preso e, posteriormente, foi para o exílio, tendo passado quinze anos fora do país.

De Francisco Julião eu imagino que você tomou algum conhecimento. Agora e de Alexina Crêspo, uma recifense nascida no bairro de Afogados em 30 de junho de 1926, que foi casada durante vinte anos com aquele presidente de honra das Ligas Camponesas do Nordeste, atuando ao lado dele na causa da reforma agrária e para além dela, participando de movimentos sociais, políticos e femininos de forma mais radical do que o marido, razão pela qual, segundo é divulgado, ela se separou dele, em 1963, você já ouviu falar? Ela aderiu à luta armada quando os militares tomaram o poder e amordaçaram a democracia; e da clandestinidade Alexina Crêspo partiu, igualmente ao ex-esposo, para o exílio, tendo passado por Chile, Cuba e Suécia. Comprometida com os seus ideais revolucionários, ela esteve com Fidel Castro, Che Guevara, Salvador Allende e Mao Tsé-Tung.








Em companhia do artista maranhense Felipe Puxirum, cantor, compositor e instrumentista





Sabe por que você provavelmente não leu nada sobre Alexina Crêspo quando se deparou com um texto a respeito das Ligas Camponesas e de Francisco Julião? Porque durante muito tempo a nossa historiografia e mesmo as narrativas jornalísticas invisibilizaram personagens femininos, como se eles não fossem importantes e sempre tivessem permanecido fora dos acontecimentos históricos, porque as mulheres compreendem um dos grupos que a estudiosa francesa Michelle Perrot classificou de "os excluídos da História".

Na última terça-feira, dia em que Alexina Crêspo completaria cem anos, a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) promoveu, em seu campus do bairro de Casa Forte, no Recife, à noite, um evento para celebrar essa figura singular da História recente do nosso país.


A exposição em homenagem à Alexina Crêspo está imperdível. Não perca!



















Com a vereadora Cida Pedrosa






A programação que, para a minha alegria e satisfação, foi muito concorrida, teve início com a exibição de dois documentários no Cinema do Museu: "Alexina - Memórias de um exílio", de Stella Maris Saldanha e Cláudio Bezerra; e "The troubled land", de Helen Jean Rogers. Ao término das exibições, os deputados João Paulo e Túlio Gadêlha, as deputadas Rosa Amorim e Dani Portela e as vereadoras Cida Pedrosa e Kari Santos e Túlio Velho Barreto falaram um pouco sobre a importância do acontecimento daquele evento para celebrar a memória e a trajetória de Alexina Crêspo.



















Ao sairmos do cinema, nos dirigimos ao Edifício José Bonifácio - a esta altura, os representantes do Memorial das Ligas Camponesas de Sapé, na Paraíba, já haviam chegado; eles tinham se atrasado por conta de um grave acidente de trânsito que ocorrera na BR 230 - para tomarmos parte em mais dois acontecimentos daquela noite de celebração: o vernissage, a abertura da exposição "Vermelho Brasil - 100 anos de Alexina Crêspo", na Galeria Massangana, que, com a curadoria de Camila Maria Santos, Elaine Santana do Ó e Raul Calle de Paula, bisneto de Alexina, exibiu um conjunto de fotografias, recortes originais e também reproduções de jornais, cartas, documentos públicos, joias e outros pertences da homenageada e de sua família que, em parte, estava lá prestigiando o evento; e para acompanharmos, no hall de entrada daquele edifício, o lançamento do livro de Alexina Crêspo Os poemas de Apolo e outros escritos, que foi organizado por Raul Calle de Paula e que foi lançado pela Companhia Editora de Pernambuco - enquanto Raul autografava exemplares da obra, aquele espaço foi tomado pela cantoria do Coral Voz Ativa, de João Pessoa, que entoou o "Hino do camponês", uma composição de Francisco Julião e Geraldo Menucci cujo estribilho marcante diz que

A bandeira que adoramos

Não pode ser manchada

Com o sangue de uma raça

Presa ao cabo da enxada.

 

Na apresentação que escreveu para o grande livro que é História das mulheres no Brasil, (Mary Del Priore [org.]. 7ª ed. São Paulo: Contexto, 2004, p. 7), Mary Del Priore nos disse que a história das mulheres "não é só delas", é também aquela da família, da criança, do trabalho, da mídia, da literatura: "É a história do seu corpo, da sua sexualidade, da violência que sofreram e que praticaram, da sua loucura, dos seus amores e dos seus sentimentos" - à qual eu acrescento a história de suas lutas, de suas insubmissões, de sua coragem e de suas resistências.

O Coral Voz Ativa em ação





Raul Calle de Paula autografando livros



Protagonista de uma das trajetórias mais emblemáticas no campo dos movimentos sociais, da reforma agrária e das lutas em defesa de uma sociedade justa onde o bem-estar social fosse algo ao alcance de todos, Alexina Crêspo é uma personagem de nossa História recente que merecer ter o seu percurso revelado para um público cada vez mais amplo, algo que datas comemorativas, como esta de agora, de celebração do centenário do seu nascimento, proporcionam. É preciso que nós reconheçamos a importância que as mulheres tiveram e têm ao longo do nosso processo civilizatório, porque elas também foram protagonistas de acontecimentos bastante significativos do nosso passado e estiveram em várias frentes de lutas por direitos e conquistas sociais, além, claro, de terem contribuído para o engrandecimento dos universos pedagógico, artístico e cultural deste país e de alhures.

Viva Alexina Crêspo!

Viva as mulheres!

27 de junho de 2026

A vida em companhia de gatos

Por Sierra

 

Fotos: Arquivo do Autor
 Leon, "O gato que é um gato" é um dos felinos que chegaram para encher a nossa casa não só de pelo, mas também de animação, prazer e satisfação. Gatos são uma das melhores coisas que existem


Não sei a partir de que momento nós, aqui em casa, começamos a ter gatos como animais de estimação. O que eu sei é que nós três, eu, Mainha e meu irmão, gostamos muito dos bichanos. Somos uns quase gatomaníacos.

Particularmente eu gosto de gatos por admirar sua elegância, seu espírito de curiosidade, sua higiene pessoal, sua beleza e, acima de tudo, por seu firme e inegociável caráter de independência e senso de liberdade. Gatos, ao mesmo tempo que se portam como donos imperiais da casa, têm uma disposição para o desapego que, para mim, é qualquer coisa de muito admirável.


Brenda, "a gata que pensa que é gente": enquanto ela não ganha a cama box que nos pediu, vai dando um jeito numa caixa mesmo






A minha lembrança mais remota de convívio caseiro com um bichano é de um tempo da infância na casa de minha avó materna Maria da Conceição, que possuía um gorducho e bonito gato chamado Mimoso, do qual eu muito gostava. Mimoso, como todo gato, se comportava como se tudo girasse em torno dele.

Nós já possuímos gatos das mais variadas cores e tamanhos, quase todos sem designação de raça. Uns que alguém nos deu; outros que nós apanhamos na rua; e todos muito queridos e paparicados, porque os gatos, vocês devem saber, vieram ao mundo para serem muito bem servidos ainda que às vezes, eles pareçam desdenhar toda a atenção que nós lhes dispensamos.

Devido a vários fatores, sendo o principal deles a carga de responsabilidade dos bichanos que Mainha e meu irmão deixavam para mim e os lutos que foram se somando – nós chegamos a ter, em certa época, oito gatos, machos e fêmeas; e alguns deles foram envenenados por alguém da vizinhança -, nós ficamos durante vários anos, muitos anos sem possuir gatos; os contatos com bichanos vinham se dando apenas esporadicamente, quando uns e outros, dos vizinhos ou de rua, apareciam aqui em casa procurando por comida.

Ocorreu que, no segundo semestre do ano passado, quando eu me afastei de minhas atividades laborais que me tomavam mais tempo, eu resolvi voltar a ter ao menos um gato; e calhou de um dos bichanos visitantes angariar a nossa simpatia porque vivia aparecendo frequentemente por aqui; e nós resolvemos adotá-lo sem saber qualquer era a sua procedência; deduzimos que ela – sim, é uma fêmea; e Mainha a batizou de Brenda – não tinha dono, porque, tendo plena liberdade de ir e vir – e ela fez isso algumas vezes -, ela resolveu ficar.

Não demorou muito e meu irmão veio com a conversa de que Brenda, “a gata que pensa que é gente”, precisava de uma companhia felina; e ele falou com um seu amigo que estava com uma gata prenhe; disse-lhe que iria querer um dos filhotes dela. Quando a gataiada nasceu, ele foi até a casa do rapaz e escolheu o que ele iria querer; e, assim que passou o período de aleitamento, ele trouxe para cá um alaranjado Leon, “o gato que é um gato”, que ele mesmo batizou.

Nina, "a gata que é cheia de si": ela chegou aqui trazida da rua. Lindona e muito senhora de seu ambiente




Íamos tranquilos – tranquilos nada: parecendo ter a energia de todos os gatos do mundo em seu corpo, Leon punha e põe a casa de cabeça para baixo com um corre-corre danado para lá e para cá e fazendo mil travessuras, além de travar embate com Brenda que, já sendo adulta, não dava bola e nem atenção para o pirralho tão traquinas - nessa convivência com os gatos quando, no mês passado, voltando da academia de musculação num começo de noite, eu resolvi trazer para casa uma gatinha preta e branca e de rabo bem flocado, que vivia num monturo que existe na entrada da rua onde moramos e que eu vira poucos dias atrás. Coloquei-a nos braços e carreguei-a já escolhendo o nome com o qual a batizaria: Nina, por causa da Nina Simone. A princípio Nina, "a gata que é cheia de si", ficou ressabiada com os outros felinos da nova morada, depois, ela já se sentia a dona do pedaço: gatos são assim mesmo.

Ainda antes da chegada da Nina, eu me peguei olhando para Brenda e Leon e sentindo um prazer e uma satisfação enormes de tê-los por perto; e cheguei mesmo a comentar com o meu irmão, que divide a casa comigo - Mainha mora noutra casa e noutra cidade -: "Irmão, que coisa boa voltar a ter gatos em casa!". E ele concordou, porque também adora bichanos.

É claro que a nossa rotina foi em parte alterada com a chegada dos bichanos, porque animais de estimação exigem cuidados com comida e higiene, por exemplo. Porém, todo esforço é recompensado pelo prazer  de vê-los brincar, revirar tudo, disputarem espaços de soneca e ficarem em nosso colo ronronando e querendo afagos.





O nosso lar tem tido dias repletos de gatices com a presença de Brenda, Leon e Nina, um trio e tanto, uns danadinhos que rotineiramente nos ocupam, nos motivam, nos alegram e nos convidam a querer tê-los sempre junto de nós, porque gatos são dessas coisas da vida que fazem com que aprendamos a reconhecer o princípio da plena satisfação de existir, porque podemos ter seres como eles por perto.

PS- Nina, "a gata que é cheia de si", chegou aqui prenhe, algo do qual só tomamos conhecimento quando o seu ventre se avolumou com o passar dos dias. Na madrugada do último dia 22 ela pariu cinco filhotes, sendo que um deles chegou ao mundo natimorto. Até agora nós não sabemos o sexo deles e, sendo assim, não os batizamos ainda. A família, a nossa família cresceu muito em pouco tempo.


Nina, a mamãe do ano





20 de junho de 2026

Crônicas de ônibus (XV)

 Por Sierra

  

Foto: Arquivo do Autor
Às vezes, nos ônibus, nós nos deparamos com pessoas que falam como se tivessem empunhando um megafone. Misericórdia!

 

Uma das coisas inescapáveis na rotina de quem utiliza ônibus para se deslocar é ouvir conversas alheias, porque tem pessoas que, quando estão, normalmente com conhecidos, falam que só o homem da cobra pelo tempo todo que durar a viagem. E há certas bocas de matraca que parecem fazer questão de que suas falas sejam ouvidas por todos os passageiros, porque, além de falarem pelos cotovelos, elas o fazem como se estivessem dispondo de um megafone.

Quase sempre, quando eu consigo assento, eu vou para os meus destinos lendo livros, prática essa que eu mantenho há muitos anos. Habitualmente eu consigo me concentrar de tal maneira que ignoro não somente conversas paralelas como também aparelhos de som e mesmo de telefones celulares tocando músicas na maior altura. Acontece que, às vezes, o nível de abstração está baixo e eu acabo tendo de ser tomado pelos barulhos do ambiente.

Não posso negar que, sem qualquer cerimônia, eu passo intencionalmente a ouvir conversas, conversas essas que, por vezes, não ocorrem apenas entre dois indivíduos; tem conversas das quais participam três ou mais pessoas, como a sobre a qual eu vou discorrer a partir do parágrafo seguinte.

Eu me encontrava num ônibus, à noite, voltando para casa e acomodado num dos assentos lá do fundo. Daí a pouco, quatro mulheres que se conheciam começaram a falar dos seus maridos. Eu era todo ouvidos; e me pus, no meu cantinho, a escutar o que elas tratavam. O assunto dominante era a convivência com os cônjuges envolvendo duas questões, a saber: a necessidade de elas trabalharem para aumentar a renda familiar; e as diferenças que uma delas, que era evangélica, mantinha com o seu marido que, pela descrição que ela fez, era kardecista, algo que ela abominava.

Tanto quanto as suas demonstrações de discordância para com as crenças espirituais do marido me chamou muito a atenção o modo ríspido e autoritário com que ela narrava a sua versão dos fatos de seu convívio com o esposo.

Altiva, prepotente, cheia de confiança e carregando consigo uma certeza que a religião que ela professava era a única certa e verdadeira, a mulher não apenas abriu a boca para dizer que trabalhava  para si e não para ajudar nas despesas da casa como também se apresentava como se fosse uma inimiga do próprio marido.

Eu fiquei espantado ouvindo as falas daquela mulher compartilhadas com outras três, as quais ela parecia impressionar com uma postura raivosa e, a meu ver, incompatível com o discurso eivado de citações bíblicas às quais ela recorria para desqualificar e desacreditar a religião do esposo dela. Ela deixava ver que vivia a azucriná-lo por conta desse aspecto existencial do marido, porque, aos olhos dela, pela interpretação que ela fazia da Bíblia, o seu cônjuge estava tomando parte numa crença que, segundo as suas palavras, era maligna e demoníaca. "Está na Bíblia, né? Eu já disse várias vezes a ele e ele não liga. Às vezes Deus me usa para enfrentar o meu marido. E eu o enfrento, sim, porque eu não sou obrigada a aceitar isso, não. Mas a cabeça é dele, né? Cada cabeça é um mundo. E Deus tá vendo tudo", ela falou. "Eu sei que tem dia que o inimigo [o diabo] parece que tá no corpo dele. Mas eu não me intimido; eu enfrento para a honra e glória do Senhor", ela emendou.

O modo exaltado como aquela mulher evangélica falava do próprio marido foi um assombro para mim. Uma de suas interlocutoras, que eu conheço de longa data, firme e segura disse que trabalhava para ajudar o esposo, "porque eu entendo que deve ser assim um casamento: um tem de apoiar o outro, eu acho". A evangélica discordou dela afirmando: "Pois o dinheiro que eu ganho no meu emprego é só pra mim. Ele que se vire pra dar conta das despesas da casa", ela completou em tom de quem se cria senhora absoluta do seu lar, um lar que, de acordo com as suas palavras, era de difícil acesso e muito longe da avenida principal.

Apesar de eu ter, em algum momento em que ouvia a conversa, ficado pasmo com a maneira como aquela mulher, que se dizia evangélica, falava do próprio marido, eu considerei que, caso fosse realmente verdadeiro o seu relato - não é incomum que, em roda de amigos, uns e outros costumem dourar a pílula sobre ações e acontecimentos de suas vidas -, os problemas reais que ela carregava eram só dela e não do cônjuge; a meu ver, ela vivia se arrastando com o peso de seus preconceitos, frustrações e falta de compreensão dos sentimentos e entendimentos de mundo do seu companheiro.

13 de junho de 2026

Quanto mais doces, melhor: Gilberto Freyre e algumas delícias feitas com açúcar

Por Sierra

  

Fotos: Arquivo do Autor
A partir de uma obra inovadora e repleta de gostosuras, a Fundação Gilberto Freyre montou uma exposição no Shopping Plaza

  

Quem tem familiaridade e conhece a vasta obra do pernambucano Gilberto Freyre sabe que, em alguns dos seus estudos, ele foi pioneiro em várias frentes, como o uso de jornais e de álbuns de fotografias de famílias como fontes de pesquisa.

Em 1939 um desses pioneirismos do autor de Mucambos do Nordeste veio a lume com a publicação do livro Açúcar - na época a palavra ainda era escrita com dois S -, o que serviu como mais munição para os críticos dele o atacarem, porque não se admitia que um estudioso sério pudesse escrever um livro recheado de receitas de bolos e doces; e ainda mais escrito por um homem, visto que o cozinhar e o anotar receitas, para muitos, "era coisa só de mulher".



Nesta e na foto seguinte, reproduções de ilustrações feitas pelo pernambucano Manoel Bandeira, artista que muito colaborou com Gilberto Freyre




É preciso que se diga que o interesse freyreano pela alimentação, em geral, e pelos bolos e pela doçaria, em particular, remonta a um tempo bem anterior tanto à publicação de sua obra mais comentada e celebrada, que é Casa-grande & senzala (1933) e do próprio Açúcar (1939). Num dos artigos da série numerada e sem título que publicou no Diario de Pernambuco na década de 1920, Gilberto Freyre abordou o assunto ao imaginar como deveria ser um típico e tradicional restaurante, café ou confeitaria do Recife:

Imagino bem como seria semelhante café: uns papagaios em gaiolas de latas, coco verde à vontade pelo chão - não se serve coco verde nos cafés do Recife! - uma fartura de vinho de jenipapo, folhas de canela aromatizando o ar com seu pungente cheiro tropical. À noite, menestréis - cantadores! - cantando ao violão trovas de desafio; num canto uma dessas pretalhonas vastas e boas, assando castanhas ou fazendo pamonha. Ao seu lado, quitutes e doces, ingenuamente enfeitados com flores de papel recortado, anunciando uma culinária e uma confeitaria que constituem talvez a única arte que verdadeiramente nos honra. Isso, sim, seria uma delícia de café (Gilberto Freyre. "26". In Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor: 1918-1926. Organizado por José Antônio Gonsalves de Mello. Vol. I. São Paulo: Instituição Brasileira de Difusão Cultural; Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1979, p. 322. Originalmente o artigo foi publicado na edição do Diario de Pernambuco do dia 14 de outubro de 1923).






Decerto que hoje seria muito improvável ver num café tanto "papagaios em gaiolas" como "pretalhonas vastas e boas" num canto; contudo, a descrição de uma identidade local e a defesa do caráter regional de comida aparecem ali e é algo que vale até para os dias atuais, indo na contramão da padronização alimentar vindas com as alienígenas redes de fast food. A ênfase nesse assunto, ainda na década de 1920, foi reforçada por Gilberto Freyre e alguns dos seus amigos, como Odilon Nestor e Amaury de Medeiros, e seu, Alfredo Freyre, quando da fundação, na capital pernambucana, do Centro Regionalista do Nordeste, em abril de 1924, e, dois anos depois, com a realização, também no Recife, do 1º Congresso Brasileiro de Regionalismo, evento esse sobre o qual Gilberto Freyre escreveu o muito controverso Manifesto Regionalista de 1926, publicado em 1952, obra essa que foi durante anos atacada pelo modernista Joaquim Inojosa, que afirmava que em 1926 não houve declaração de manifesto nenhum.

No trato e no permanente estudo da chamada "civilização do açúcar" nordestina, Gilberto Freyre acreditava numa "sociologia do açúcar"; e isso ele abordou numa conferência havida dentro do programa do curso "Sociologia do açúcar", ministrado durante os meses de outubro e novembro de 1970 no Museu do Açúcar, que existia na época e que foi, posteriormente, incorporado ao Museu do Homem do Nordeste, da Fundação Joaquim Nabuco. Disse-nos o autor de Aventura e rotina:

Se não há - pode haver e, ao meu ver, estaria já em formação - uma sociologia do açúcar, como pode haver, ou já haveria em potencial, uma sociologia do trigo, outra do vinho, ainda outra da mandioca. Todo produto que seja, sob critério antropológico, a base de um complexo sociocultural de vida e de convivência humana, é susceptível de servir de objeto a uma sociologia especializada no seu estudo (Gilberto Freyre. "A contribuição brasileira para uma sociologia do açúcar". In Sociologia do açúcar. Recife: Instituto do Açúcar e do Álcool/Museu do Açúcar, 1971, p. 9).


Vista panorâmica do espaço da exposição: faltaram cor e alegria à composição do cenário, elementos que poderiam torná-lo mais atraente






No muito que escreveu sobre o tema da comida e dos doces vê-se que Gilberto Freyre era um apreciador da boa mesa nordestina mesmo sendo ele um homem cosmopolita e muito viajado, que conheceu diferentes cozinhas, formas de comer e hábitos alimentares ao redor do mundo. E no livro Açúcar ele, que disse saber que o açúcar é um produto que pode ser extraído de várias plantas, sendo que, no Brasil - e não apenas aqui -, foi com a manufatura do açúcar de cana que ele se tornou efetivamente presente na alimentação humana, revelou a sua relação com a temática das comidas adocicadas:

Bolos e doces, coisas de doçaria, de pastelaria e de cozinha, estão entre as que o autor vem considerando mais atraentes do ponto de vista pictórico e não apenas gastronômico; do artístico e não apenas do sociológico - o sociológico sob que passou a vê-los e até a estudá-los desde que se tornou estudante de sociologia e de ciências afins (Gilberto Freyre. Açúcar: uma sociologia do doce, com receitas de bolos e doces do Nordeste do Brasil . 5ª ed. São Paulo: Global, 2007, p. 24).


Exemplar da edição príncipe do livro Açúcar


Dentro do complexo dos engenhos de cana-de-açúcar, a doçaria impregnou as dependências das casas-grandes com cheiros e sabores que eram verdadeiros manjares dos deuses. O alagoano Manuel Diégues Júnior, autor de um estudo bastante conhecido sobre os engenhos nos quais se extraía da cana o tal elemento, chegou mesmo a dizer que, "Onde o açúcar se espalhou em utilização, servindo proveitosamente e criando como que uma arte culinária no Brasil, no Nordeste sobretudo", foi - ele destacou - "no preparo de doces e bolos"; nos doces de caju, de mangaba, de maracujá, de jenipapo, bolos e sequilhos de vários tipos, "muitos deles criações especiais, trazendo tradicionalmente o nome da família que o ideou, tal o bolo Souza Leão" ou o nome da engenho onde a iguaria foi criada, como o bolo Suspiros, do Engenho Noruega (Manuel Diégues Júnior. O engenho de açúcar no Nordeste. Documentário da Vida Rural nº 1. Rio de Janeiro: Ministério da Agricultura/Serviço de Informação Agrícola, 1962, p. 55).

 

Cheiros  e sabores que inspiram 

 

Tomando esse universo e principalmente a obra Açúcar como fundamento e inspiração, a Fundação Gilberto Freyre, em parceria com o Shopping Plaza, localizado no bairro de Casa Forte, no Recife - não é demais dizer que as terras ou grande parte das terras que deram origem a esse bairro compreendiam um dos mais antigos e importantes engenhos de cana-de-açúcar pernambucanos, o Engenho Casa Forte -, montou, no piso L4 daquele centro de compras e lazer, a exposição "Açúcar: sabores, cheiros e memórias", que eu fui prestigiar na última quarta-feira.

Montada num cenário todo ele feito de madeira como se fosse uma casa sem telhado e sem algumas de suas paredes, a princípio eu avaliei que a exposição, cuja curadoria coube a Jamille Barbosa, que é diretora executiva da Fundação Gilberto Freyre, estava muito simples e acanhadinha, mesmo considerando o local onde ela fora instalada. Daí a pouco eu avaliei também que, por se tratar de bolos e doces e, ainda por cima, estarmos em pleno mês das festas juninas com suas várias comidas repletas de açúcar - pamonha, canjica, mungunzá, bolo pé-de-moleque, bolo de milho, etc. – e seu muito colorido, sobretudo das vestimentas os integrantes das quadrilhas, faltou cor ao cenário, deixando-o muito pouco atraente. Por outro lado, eu, como conhecedor da obra freyreana, considerei que, em todo o caso, ela apresentava para o público os elementos essenciais que aquele estudo de Gilberto Freyre - junto, claro, com o tal Manifesto Regionalista de 1926 - abordou e propôs.


Nesta foto e na seguinte, livros de culinária do acervo de Gilberto Freyre




Na sisudez bicolor do cenário, o público entra em contato com utensílios domésticos que eram muito comuns, pelo menos em casas humildes daqui de Pernambuco, como abanador de palha, colheres de pau, raladores feitos de madeira, flandres e aço; também com fôrmas de bolos de vários formatos; trechos da obra Açúcar reproduzidos nas "paredes"; recipientes contendo alguns tipos de doces; a receita de bolinhos de milho; reproduções de desenhos feitos pelo artista plástico pernambucano Manoel Bandeira para ilustrar aquela obra pioneira do Mestre de Apipucos; um exemplar da 1ª edição de Açúcar; etc. O que está exposto ali é como que um resumo do espírito e finalidade do livro; a exposição que, ao meu ver, falhou, digamos assim, pelo aspecto sisudo e bicolor do cenário, acertou, por assim dizer, no quesito didático.

Nas palavras do antropólogo Raul Lody, que há muitos anos pesquisa e escreve sobre alimentação, o açúcar é uma iguaria por si mesmo; e, mais do que isso, quando em combinação com outros elementos e especiarias dando forma a doces:

Os doces acompanham a vida, as trajetórias individuais de sociedades; construíram identidades, compondo com arquitetura, pinturas, esculturas, músicas, danças, indumentárias; acervos patrimoniais de valor e que singularizam o homem nordestino (Raul Lody. "Comidas do Nordeste". In Caminhos do açúcar: ecologia, gastronomia, moda, religiosidade e roteiros turísticos a partir de Gilberto Freyre Rio de Janeiro: Topbooks Editora, 2011, p. 183).



Evocando e celebrando um estudioso de grande quilate, uma obra pioneira e toda uma tradição culinária muito pernambucana e nordestina, a exposição "Açúcar: sabores, cheiros e memórias", que está em cartaz no Shopping Plaza promove e apresenta Gilberto Freyre a um público que, talvez, não saiba que, além dos clássicos Casa-grande & senzala, Sobrados e mucambos e Ordem e progresso, ele escreveu também o delicioso e inovador livro Açúcar.