Por Sierra
Ontem, quando eu cheguei à Academia Luciana Campos/Pixote Futsal, que fica no bairro do Pilar, a área mais urbanizada e seda da administração da Ilha de Itamaracá, uma ilha-cidade que integra a Região Metropolitana do Recife cujo território compõe um dos mais antigos espaços que foram ocupados pelos europeus quando de suas viagens pelas chamadas terras do Novo Mundo, ocupação essa que ocorreu já nas primeiras décadas do século XVI, a minha amiga Evellyn Aguiar me falou que os membros do Instituto Histórico e Geográfico da ilha-cidade organizaram - e eu saberia depois que eles contaram com o apoio da Prefeitura Municipal - uma caminhada pela famosa "trilha dos holandeses" rumo ao bairro de Vila Velha, localidade que, num passado remoto, se chamava Vila de Nossa Senhora da Conceição, erguida num terreno elevado - conforme a lógica de ocupação dos portugueses - de onde se avistam o Canal de Santa Cruz e o mar; e que foi o lugar da ilha onde efetivamente os europeus se estabeleceram. Evellyn Aguiar me disse ainda que o evento fora concebido em homenagem ao Padre Pedro de Souza Tenório, herói e mártir da Revolução Pernambucana de 1817, que foi morto e esquartejado pela forças militares do governo - o dia de sua morte, 10 de julho, é, por lei, a Data Magna da Ilha de Itamaracá desde 2011.
A minha amiga me repassou o link para fazer a inscrição; e eu resolvi que iria tomar parte em
tal celebração, marcada para acontecer na manhã de hoje, com ônibus disponíveis
para o transporte dos participantes partindo do bairro de Jaguaribe para o do
Forte Orange, ficando a Capela de São Paulo como ponto de concentração antes do
início da caminhada.
Acordei cedinho. Preparei o meu kit de caminhante
contendo água, maçã, amendoim, castanha-do-pará e água de coco. Fiz o desjejum.
Aprontei-me. E saí de casa às 7h25, seguindo andando para o ponto de
concentração.
Fiquei num contentamento só quando cheguei ao local e
me deparei com um grupo expressivo de pessoas de todas as faixas etárias; gente
que estava ali, certamente, para conhecer e saber sobre a nossa cultura e
a nossa história; um grupo enorme formado por professores, pesquisadores,
estudantes, maçons, políticos e indivíduos que gostam demais da Ilha de
Itamaracá. E, no meio de tantas pessoas, eu encontrei um amigo querido,
Adalberto Passos, e uns conhecidos da malhação, caso de Edvaldo da Silva e
Josinete Félix.
No momento em que Edvaldo Júnior, do Instituto Histórico
e Geográfico da Ilha de Itamaracá (IHGII), falou para o público explicando a
razão de ser da realização do evento - à fala dele se seguiu a da presidenta do
IHGII, Alessandra Pantaleão - foi que eu fiquei sabendo que a celebração
contava ainda com uma sessão pública da Loja Maçônica Acácia de Itamaracá e com
uma apresentação do Maracatu Mosca de Fogo, ambos a serem realizados no lado
direito da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, lá em Vila Velha.
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Edvaldo Júnior, do IHGII, fez uma explanação antes de darmos início à caminhada
A caminhada
Eu olhei no relógio do celular: foi exatamente às 8h22
que a caminhada de cerca de 3,5 km teve início.
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| A rota foi, em seus começos, ocupada por várias casas e condomínios, algo que não deveria ter acontecido |
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| O tal trecho alagado |
Muito atento aos cenários, eu observei, já nos começos do trajeto, lixo em demasia e casas construídas nas proximidades do mangue, situação essa muito comum na ilha-cidade, lugar onde sucessivas administrações municipais fecharam os olhos e/ou foram coniventes com invasões e ocupações desordenadas de terrenos, marcando a cidade com um urbanismo que muito pouco tem de racional e planejado.
Como choveu ontem à noite, nós tivemos de atravessar
um trecho onde havia uma grande quantidade de água empoçada ao lado de casas que
foram construídas na rota da trilha, um completo absurdo - alguns trataram de
tirar seus calçados para atravessar aquele pedaço do caminho, eu não.
Um dos atrativos da chamada "trilha dos
holandeses" é que o caminhante atravessa uma vasta porção de terra onde
ele tem contato e observa dois ecossistemas e um bioma: o mangue, a restinga e
a Mata Atlântica, algo que, muitos anos atrás, na época da faculdade, o
professor Marcos Albuquerque destacou quando saímos numa aula de campo pela
ilha. Entre a variedade da vegetação, cajueiros frondosos margeiam o caminho em
vários trechos - uma pena que não estejamos na época de sua frutificação.

O contato com a natureza é um dos grandes atrativos da "trilha dos holandeses"
Na longa parada que fizemos defronte às ruínas da casa
onde se acredita que Padre Tenório residiu, Edvaldo Júnior fez uma explanação
sobre esse personagem participante do movimento revolucionário de 1817. Tal
casa, que deveria ter a sua estrutura recuperada, visto que quase todas as suas
paredes ainda estão de pé, fica a cerca de 200 m do Canal de Santa Cruz; e,
estando às margens daquele canal que, pelo lado sul, separa a ilha do
continente, eu e várias pessoas que foram até ali verificamos uma quantidade
enorme de lixo, detritos os mais diversos, possivelmente trazidos pelas
correntezas, e que se fixaram no mangue, o que é outra lástima para o
caminhante.
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Ruínas da casa que se acredita que foi moradia do Padre Tenório, uma edificação que os órgãos de preservação do patrimônio histórico deveriam tratar de restaurar e preservar
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| Lixo acumulado à beira do Canal de Santa Cruz: educação patrimonial deve andar de mãos dadas com educação ambiental |
Havia duas cercas no meio do caminho. No meio do
caminho havia duas cercas
Lá pelas tantas nós nos deparamos, primeiro, com uma
placa indicando um "novo trajeto da trilha dos holandeses". E, ao
passarmos por ela, alguém disse: "Ninguém vá por aí, que isso é fake!".
Mais adiante o que nós vimos foi uma extensa cerca de
arame farpado delimitando um espaço que, provavelmente, receberá uma porteira
e, junto à cerca, vestidos quase todos de preto dos pés ao pescoço, cinco
homens, cinco capangas do dono das terras, que pareciam estar armados, se
encontravam ali de prontidão.
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Uma das cercas da Fazenda Santa Rita: seu proprietário, ao que parece, quer impedir que a população deixe de ter acesso à histórica "trilha dos holandeses"
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Leitor, os homensque aparecem acompanhando a passagem dos caminhantes são os capangas da Fazenda Santa Rita
Caminhando mais um pouco, já nas proximidades da
cabeceira da ponte recentemente inaugurada pela governadora Raquel Lyra - além
da nova ponte foi feita uma obra de pavimentação de um caminho do outro lado,
já dentro da área que constitui Vila Velha, obra essa que está em fase de
acabamento -, nós demos de cara com outra cerca extensa com igual espaço para porteira,
como na anterior, e, preso a ela, placas também indicavam uma "nova trilha
dos holandeses", como se fosse possível assim, pelo simples querer e/ou
pretensão e imposição de alguém, substituir um caminho histórico que tem
séculos de existência, por outro de agora, batizando-o com o mesmo nome do
antigo.
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A ponte que foi recentemente inaugurada pela governadora Raquel Lyra
O professor de História e ambientalista Fernando Melo, que integra o IHGII, me disse que provavelmente o dono da propriedade soube da realização do evento e pode ter pensado que nós iríamos até lá para botar as cercas abaixo. É bem possível que tenha sido isso mesmo; daí por que ele colocou os capangas para acompanhar a nossa passagem pela trilha, numa clara postura de intimidação. E ainda bem que os membros do IHGII tiveram uma compreensão ampla e precisa de que era necessário agir contra esse estado de coisas. Por conta das ações do dono da Fazenda Santa Rita que, claro, deve ter mandado derrubar árvores para fazer a "nova trilha", o pessoal do IHGII fez chegar o teor do conflito às TV's - felizmente uma equipe da TV Tribuna, com o repórter Rubens Marinho, estava lá gravando uma reportagem, algo que eu fiz questão de registrar num vídeo para divulgar em meus perfis no Instagram e no YouTube.
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O repórter Rubens Marinho gravando matéria sobre o conflito envolvendo o proprietário da Fazenda Santa Rita e o livre acesso à "trilha dos holandeses"
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| No detalhe, as placas indicativas do "novo trajeto da trilha dos holandeses" |
A fala de Fernando Melo me fez inferir que, mais do
que uma homenagem ao Padre Tenório, ao planejarem a intitulada "1ª
Caminhada Histórica da Ilha de Itamaracá: edição Trilha dos Holandeses", o
IHGII organizara um ato de caráter político, daí por que, no texto da ficha de
inscrição para o evento, está registrado: "Vamos celebrar a Data Magna do
município e abraçar juntos a defesa da Trilha dos Holandeses e do sítio
histórico de Vila Velha".
Vila Velha: encanto e desordem
Depois de atravessar a ponte eu em sentei para
merendar; e fui logo interrompido no descanso, porque o pessoal começou a subir
a colina e eu acabei de comer enquanto caminhava.
Caro leitor, fazia tempo que eu não pisava ali. E o
que eu vi hoje, em Vila Velha, é um sintoma do descaso e do fechar os olhos
para invasões e ocupações de lugares que não deveriam de maneira alguma abrigar
moradias e estabelecimentos comerciais. O entorno da Igreja de Nossa Senhora da
Conceição está ocupado por vários imóveis, cada um mais inadequado que o outro,
enfeando o espaço e emasculando tanto o templo religioso, situado no alto de um
outeiro de onde se tem uma vista muito encantadora e deslumbrante, quanto o
monte que foi registrado pelo pintor holandês Frans Post, que integrava a
comitiva de Maurício de Nassau, no século XVII. Aquilo ali está um horror. E eu
só penso que, pelo quadro da realidade registrada naquele espaço, a situação lá
só vai piorar nesse quesito.

Igreja de Nossa Senhora da Conceição: infelizmente, deixaram que o adro do templo e parte do seu entorno fosse ocupado por várias construções
A impressão que me dá, quando chego à Vila Velha, é de
aquele lugar é uma terra de ninguém, onde, em termos de ocupação, cada um faz o
que quer sem que nenhum órgão de defesa do patrimônio histórico edificado e da
ambiência que o abriga interfiram para coibir as malfeitorias.
Outras homenagens
Devidamente paramentados - e contando com a colaboração de um grupo de escoteiros -, membros da Loja Maçônica Acácia de Itamaracá realizaram uma sessão pública com discursos e leituras e difusão, com uma caixa de som, dos hinos de Pernambuco e da Ilha de Itamaracá e uma cantoria de Luiz Gonzaga; cerimonial esse encerrado com a colocação de uma coroa de flores no túmulo do Padre Pedro de Souza Tenório, tudo isso seguindo um roteiro detalhadamente traçado, conforme a cópia impressa do ritual que eu consegui com um dos organizadores - no roteiro os maçons contavam com a presença do prefeito do Município, algo que não ocorreu.
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| Membros da Loja Macônica Acácia de Itamaracá |
Após isso, teve início uma curta apresentação do
Maracatu Mosca de Fogo, ligado à ONG Casa Uaná e comandado pela jovem mestra
Dayane: além de maracatus o grupo tocou ciranda e eu, que não sou besta,
cirandei com o povo.
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O Maracatu Mosca de Fogo em ação
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| A jovem mestra Dayane comandando a batucada |
Memória, cultura e resistência
Pelo que eu pude apurar, existe um projeto de construção
de um resort nas terras que compreendem a Fazenda Santa Rita, uma área marcada
pela presença dos ecossistemas mangue e restinga e pelo bioma mata, no caso a
Mata Atlântica, ou seja, um terreno imenso repleto de vegetação nativa que
deveria ser preservado.
Sim, é claro que tem gente defendendo a especulação
imobiliária e o tal resort, apontando isso como "progresso" e
"desenvolvimento" para a Ilha de Itamaracá, como se o problema dessa
cidade-ilha fosse a falta, a indisponibilidade de quartos de hotéis e de
pousadas, quando a realidade é bem outra. Leitor, só para você ter uma ideia,
próxima à Capela de São Paulo, onde iniciamos a caminhada, existe uma Pousada
Vento Leste que encerrou suas atividades já faz alguns anos, destino esse que
tiveram, ainda mais recuado no tempo, o Hotel Marujo, o Hotel Caravela e o
Itamaracá Hotel, e, mais recentemente, o Hotel Pousada Itamaracá. E, por
ironia, olhando a partir das terras da Fazenda Santa Rita, no outro lado do
Canal de Santa Cruz, no município de Igaraçu, nós podemos ver o enorme e há
anos abandonado Hotel Gavoa, empreendimento que, para ser construído, requereu
a derrubada de um pedaço considerável da Mata Atlântica.
Como se pretende construir um resort num destino
turístico que viu serem fechados vários hotéis e pousadas ao longo de décadas?
Alguém já se perguntou por que razão os estabelecimentos de hospedagem que eu
mencionei ainda há pouco fecharam as suas portas? O que efetivamente
empaca e atrapalha o desenvolvimento da Ilha de Itamaracá é a falta de
infraestrutura, de locais para a prática de esportes, de saneamento básico, de
pavimentação de ruas, de limpeza das praias, de enfrentamento das invasões de
terrenos e construções em lugares como a faixa da orla de Jaguaribe, que
favelizam espaços da cidade, de abastecimento regular de água, de ordenamento
urbano - é um horror o entorno do Centro de Mamíferos Aquáticos, por exemplo -,
de atrações culturais, etc. A construção de um resort por si só não vai
resolver os problemas da cidade-ilha onde milhares de pessoas nem sequer pagam
IPTU e contas água e luz, enchem as ruas de lixo e ainda cobram o seu
desenvolvimento sem contribuir com absolutamente nada para tanto.
Parte do público que integrou o grupo de caminhantes
do evento de hoje era formada por professores, jornalistas - conheci lá quase
toda a equipe do Jornal do Grande Recife: além de Fernando Melo,
Dani Morais e Genilse Gonçalves - e estudantes, gente que parecia interessada
em aprender sobre a figura do Padre Pedro de Souza Tenório e conhecer a tão
falada "trilha dos holandeses", uma trilha, um caminho que,
apesar do nome, era percorrido também pelos portugueses e, antes deles, pela
população nativa, pelos povos originários que habitavam a Ilha de Itamaracá no
tempo anterior à chegada dos europeus àquela terra.
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Com Fernando Melo, Genilse Gonçalves e...
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| Dani Morais, todos do Jornal do Grande Recife |
Sou da opinião de que eventos como esse, do qual eu participei hoje com grande entusiasmo, despertam e/ou podem despertar o interesse em relação à preservação da natureza, a acontecimentos históricos e a personagens do nosso passado; despertar esse que, eu acredito, tem um grande potencial de influenciar indivíduos que possam contribuir para salvaguardar, proteger e defender os nossos valores históricos, artísticos, culturais e naturais fortalecendo, assim, a defesa da nossa memória e do nosso bem viver. Nenhum projeto de desenvolvimento e nenhuma proposta e ideia de progresso que promova, em conjunto, o sacrifício do meio ambiente e o sepultamento de nossa história pode ser tomado como desenvolvimento e progresso de fato, muito pelo contrário.

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