Por
Sierra
Muito antigamente
Pelo menos uma linha da historiografia que trata dos
começos da História de Alagoas situa Penedo, cidade localizada às margens
do Rio São Francisco e que dista a cerca de 147 km de Maceió, como o terceiro
foco e centro de expansão do povoamento do território alagoano, sendo o
primeiro o que foi assentado ao norte, tomando Porto Calvo como o núcleo de
irradiação, e o segundo o que figura no centro do litoral e que se desenvolveu
em torno das lagoas que deram nome ao povoado inicial: Alagoas ou Alagoa do Sul
e Alagoa do Norte.
O nome Penedo, dado ao núcleo de povoamento, veio do
fato de ele ter sido erguido sobre uma grande rocha às vistas daquele que seria
chamado de Rio da Integração Nacional. De acordo com o narrador do verbete
sobre a cidade contido na Enciclopédia
dos Municípios Brasileiros, o lugar ficou também conhecido como São
Francisco e Vila do Rio São Francisco.
E quanto à fundação de Penedo, como e quando ocorreu?
Abordando esse aspecto aquele arguto narrador informou que são várias as
explicações históricas a esse respeito; e recorrendo a fontes diversas, ele nos
disse que, segundo uns, o devassamento do território teve ligação com as
primeiras penetrações de exploração do Rio São Francisco. Tomás Espíndola, por
exemplo, apontou o ano de 1522 como a data da primeira incursão bandeirante
pela região. Já outros têm como certo que a fundação ocorreu com a passagem de
Duarte Coelho Pereira, primeiro donatário da Capitania de Pernambuco. Disse-nos
a respeito o nosso narrador-guia:
Segundo
crônicas, aquele 1º donatário, no segundo quartel do século XVI, chegando ao
São Francisco, navegou algumas léguas acima, até a primeira elevação existente
em suas margens. Aí numa rocheira (nome perpetuado, como designativo duma parte
da localidade), fundou a povoação. O Cônego Teotônio Ribeiro, estudioso da
história de Penedo, assim se expressa: "10-10-1545 - Transpõe pela
primeira vez a barra do São Francisco, Duarte Coelho Pereira, deixando iniciado
um povoamento para traz da rocheira do penedo" ("Penedo - AL". In Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. Rio de Janeiro: Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística, vol. XIX, p. 124).
Como foi dito, existem outras versões, outras abordagens que buscaram as origens da então povoação penedense. Próspero Jeová, citado pelo narrador da Enciclopédia, marcou 1555 como data de iniciação do povoado; ele alegou que Duarte Coelho Pereira morrera em Olinda em 7 de agosto de 1554. Outros estudiosos, como João Alberto Ribeiro, acreditam que foi Duarte Coelho de Albuquerque, filho do primeiro donatário, que iniciou o povoado quando, em 1560, penetrou o Rio Opara - denominação indígena dada ao Rio São Francisco. E outros, como Diégues Júnior e Adalberto Marroquim, registraram que não restava dúvida de que Penedo teve origem num arraial fortificado, porque a sua excelente posição geográfica e fatos posteriores - como as lutas contra os flamengos - corroboraram isso.
E por falar nos flamengos, que é como alguns chamam os
holandeses, a passagem deles pela povoação é um dos grandes capítulos da rica
História de Penedo.
Por ser considerado um caminho único e natural para a
Bahia, então sede do Governo Geral do Brasil, Penedo foi lugar cobiçado pelos
invasores holandeses que, já tendo se estabelecido em Pernambuco, foram
avançando para outras áreas do país. As narrativas nos dão conta que eles
estabeleceram-se em Penedo a partir de 27 de março de 1637, tendo construído
fortificação, o Forte Maurício - diz-se que ele ficava próximo ao atual
Convento dos Franciscanos -; e permaneceram ali até 19 de setembro de 1645,
quando foram expulsos por Valentim da Rocha Pita, com auxílio vindo da Bahia.
Gaspar Barlaeus relatou sobre a presença do Conde
Maurício de Nassau, quando da incursão dos holandeses por aquelas terras.
Leiamos um trecho de sua narrativa:
Em
chegando Maurício a Penedo, vilazinha às margens do São Francisco, a seis
léguas do mar, julgou o lugar idôneo para fazer progressos no território
inimigo. Mandou construir ali o forte que lhe tem o nome e outro junto à barra
do rio. O inimigo e os moradores da vila recolheram-se ao Sergipe del Rei,
distante 24 léguas do rio de São Francisco. O estuário dele tem quasi (sic) a
largura do Mosa próximo ao porto de Delft na Holanda. As águas correm muito
agitadas. Mandou-se então aos habitantes da margem austral que, com todo o seu
gado, passassem para a margem setentrional, afim (sic) de não ir ali o inimigo
abastecer-se, como antes já acontecera (Gaspar Barlaeus. História
dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil. Trad.
Cláudio Brandão. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1980, p. 43).
| Seria maravilhoso se todo o sítio histórico passasse por esse sistema de colocação da fiação elétrica por debaixo da terra, porque a poluição visual causada pelos fios é enorme |
| A cidade encantada vista de dentro do Velho Chico: gosto demais desse lugar |
De acordo com o narrador da Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, confirmando o título de
"muito nobre, sempre leal e valorosa", Penedo se associou também à
luta contra o Quilombo dos Palmares bem como tomou parte na Revolução
Pernambucana de 1817, conhecida como Confederação do Equador: "Aderindo
primeiramente aos revoltosos, voltou Penedo a jurar fidelidade à realeza.
Forças de Penedo juntaram-se ao Marechal Joaquim Melo Leite Cogominho de
Lacerda, quando aquele militar transpôs o rio São Francisco" (Enciclopédia dos Municípios Brasileiros.
Op. cit., p. 125).
Numa obra que foi escrita em fins do século XVIII,
Luiz dos Santos Vilhena registrou algumas linhas sobre a a então "Villa do
Penedo". Vejamos:
Subindo
da barra deste rio [São Francisco] pela margem do sul na distancia pouco mais
ou menos de sico legoas fica Villa Nova de Sergipe d'El Rey, quando na margem
do Norte algumas legoas asima fica a Villa do Penedo, e antes de chegar a ella
se encontra a Ilha grande com duas legoas de comprido e mais de meia de largo.
Dista a villa do Penedo vinte e oito legoas da Villa de Lagoas, cabeça de
Commarca. O trafico principal do Penedo são gados, de que no seu destricto ha
de 250 a 300 fazendas entre grandes e pequenas, alem do que ha grande
abundancia de algodoens, e alguns Engenhos de assucar, se bem que de menos
consideração. Os fogos que ha no Penedo poderão chegar a seis mil
comprehendendo as Freguesias do Porto da Folha, e Agoas Bellas. Para o interior
do continente he o terreno mais montuoso do que proximo á costa, e
principalmente nas vizinhanças do Rio de S. Francisco [...] (Luiz dos Santos Vilhena. Recopilação de notícias soteropolitanas e brasílicas. Carta
vigésima segunda. Livro II. Ano de 1802. Bahia: Imprensa Official do Estado,
1921, p. 804).
Em sua Corografia
brasílica aparecida em 1817, o padre Manuel Aires de Casal fez alguns apontamentos
sobre a vila ribeirinha:
Penedo,
vila considerável, populosa, e comerciante, parte em plano ao longo do Rio São
Francisco, que a danifica com as grandes cheias, parte em alto da extremidade
duma lomba, que vem de longe, e é a primeira terra levantada, que se encontra
sobre a margem setentrional, subindo rio acima. Além da matriz, dedicada a N.
Senhora do Rosário, tem uma ermida da mesma invocação, outra de N. Senhora da
Corrente, outra de S. Gonçalo do Amarante, outra de S. Gonçalo Garcia, e um
convento de franciscanos, cuja cerca inútil ocupa o melhor sítio da povoação.
Tem cadeira régia de Latim, e uma boa casa para aposentadoria do Ouvidor. Até
poucos anos há, (sic) as casas eram de pau-a-pique, e mesquinhas; hoje tem
muitas de pedra com dois e três andares, bom risco, e portados duma casta de
pedra de amolar. Em oitocentos e seis tinha esta vila trezentos vizinhos, pela
maior parte europeus, e açoritas; sendo ainda raros os patrícios, que soubessem
conservar as legítimas, e menos os que as aumentavam. O rio tem aqui um quarto
de légua de largura; a maré três pés no plenilúnio. A maior cheia, de que há
memória, subiu vinte pés daqui à boca do rio (Manuel Aires de Casal. Corografia brasílica ou Relação histórico-geográfica do Reino do Brasil.
Belo Horizonte: Editora Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São
Paulo, 1976, p. 265. Em nota de rodapé, que é a de número 13, o padre registrou
isto: "O rol dos Confessados tinha onze mil quinhentos e quatro, inclusos
os do termo").
Quem também nos legou um relato sobre Penedo foi o
naturalista escocês George Gardner, que percorreu uma vasta porção deste país
durante os anos de 1836 até 1841. Ele passou por Penedo em 1838, onde
permaneceu durante vários dias; e, entre outros registros que fez daquele
lugar, ele anotou o seguinte:
A Vila do
Penedo, assim chamada por estar situada numa elevada ponta rochosa, à margem
norte do rio [São Francisco], dista cerca de trinta milhas de sua foz. A rocha
em que se ergue é de arenito de textura fina e cor amarelada, cujo leito
inclina de leste para oeste. As ruas são irregulares, mas as casas muito
sólidas, tendo as principais dois andares e, na maioria, construídas de pedra
da mesma qualidade da rocha em que a cidade se assenta.
Conta
cerca de 4.000 habitantes, em maioria gente muito pobre. Há nada menos de seus
grandes igrejas solidamente construídas, a uma das quais está ligado um
convento de frades franciscanos, chamado Nossa Senhora da Corrente e que tem
apenas três irmãos. Na comarca ou distrito de Penedo, as principais culturas
são de açúcar e algodão e a maior parte das plantações se faz na margem do rio,
abaixo da cidade. Colhem-se mandioca, feijão e arroz em quantidade
apreciável, mas só para consumo interno. Antigamente também se criava algum
gado no interior do distrito; mas esta fonte de renda cessou em consequência
das secas, às vezes excessiva, e também por causa do carrapato, praga não raro
tão grande que um criador perde todo o seu gado numa só estação.
Penedo,
que foi cidade florescente sob a dinastia portuguesa, agora se acha em rápida
decadência. O seguinte recenseamento de toda a comarca, feito no ano de 1837 e
que devo à bondade do Juiz de Direito, merece menção para mostrar a proporção
das diferentes raças entre si nesta parte do país:
Brancos
.......................................................................................
22.045
Mulatos
livres
..............................................................................
32.694
Mulatos
escravos
.........................................................................
4.531
Pretos
livres
.................................................................................
10.113
Pretos
escravos
...........................................................................
10.876
Índios
nativos
...............................................................................
2.331
Total 82.590
(George Gardner. Viagem
ao interior do Brasil, principalmente nas províncias do Norte e nos distritos
do ouro e do diamante durante os anos de 1836-1841. Trad. Milton Amado.
Belo Horizonte: Editora Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São
Paulo, 1975, p. 65-66).
Muito embora George Gardner afirme que Penedo fora uma
"cidade florescente", era evidente que, se ela perdera algum brilho,
por assim dizer, depois que houve o decreto da independência do Brasil,
ocorrido em 7 de setembro de 1822, continuava gozando de grande prestígio
dentro do país ao longo do século XIX, como atestam as visitas de estudiosos,
como ele, e até do próprio monarca Dom Pedro II, em 1859. Vamos ver como foi
isso.
| Um dos detalhes que me chamaram a atenção no sítio histórico da cidade do Penedo foi a criatividade e o charme das placas de identificação dos estabelecimentos que existem nele |
| Já visitei Penedo três vezes e, em todoas elas, encontrei a calçada deste imóvel desse jeito. Será que que está rolando alguma ação na Justiça contra isso? |
Dom Pedro II, o monarca intelectual, manteve um diário de viagem durante suas visitas às chamadas províncias do Norte. Ele, que também gostava de desenhar, ilustrou, aqui e ali, as folhas que ia preenchendo com imagens descritivas de paisagens e de animais, por exemplo, como que reforçando os testemunhos dos seus escritos.
As descrições sobre Penedo começaram a aparecer no
diário nas anotações feitas no dia 14 de outubro. Leiamos como ele descreveu a
sua chegada àquele lugar:
Desembarquei
no Penedo à 1 e 7' havendo muito entusiasmo e estando prontos dois desembarques
com os respectivos arcos, um à custa do comércio e outro dos artistas, que
também arremedaram um fortim de onde atiravam bombas. O te-déum teve lugar na
igreja do Convento dos Franciscanos a qual tem sobre a porta a data de 1739,
lendo[-se] sobre a porta à direita, debaixo do peristilo do templo, a de 1708.
O pregador franciscano maçou-nos, tendo aliás escolhido tema inadequado, em que
o salmista diz "flumina plaudite manu" [Os rios aplaudam com a mão],
e a música muito longa, alternando com cantochão dos padres, arranhou-nos os
ouvidos [...] (Dom Pedro II. Viagens pelo Brasil: Bahia, Sergipe,
Alagoas, 1859-1860. 2ª ed. Rio de Janeiro: Bom Texto; Letras &
Expressões, 2003, p. 105-106).
Além de ser um observador muito arguto e detalhista, o
imperador Dom Pedro II primava por anotar em seus diários desde coisas e
situações para uns tidas como muito comezinhas, bem como ele se mostrava
interessado com questões sociais, como educação escolar e preparo dos professores,
e com a qualidade da água que era consumida pela população, só para ficarmos
nesses dois exemplos. De modo que, ler os diários que ele nos legou, é entrar
em contato, também, com um acervo de enorme importância como material de
pesquisa para os mais diversos estudos e abordagens.
E como foi que ele viu Penedo enquanto cenário urbano?
O que foi que ele registrou da paisagem edificada daquela localidade? O imperador
visitou a feira livre, a Casa de Câmara e Cadeia, algumas igrejas e fábricas,
apreciou muito as vistas do Rio São Francisco e registrou isto no seu diário:
Os dois desembarcadouros assim como as
casas da cidade, que me disse o presidente da Câmara Municipal ter de 6.000 a
7.000 almas [sic]. Há muitas casas boas, e algumas de três andares, e decerto
muito maior [?] que a da Valença, quando a visitei. O local é muito bonito e
creio que devera estar aqui a capital da província [...] (Dom Pedro II. Op.
cit., p. 107).
Ainda naquele movimentado 1859, Penedo recebeu a
visita de outro viajante curioso e incansável, o alemão Robert Avé-Lallemant,
que também era dado a escrever e nos legou muitos registros de suas andanças
por este país afora. Depois de ter passado a Sexta-feira Santa em Maceió, e
navegar e andar por um lugar e outro, eis que o destemido e muito bom
observador Robert Avé-Lallemant montou num cavalo e cavalgou durante três dias
para chegar ao seu almejado destino. E, pelo que ele deixou registrado, é de se
imaginar que as possíveis agruras e dificuldades que ele enfrentou durante a
longa cavalgada valeram a pena.
Tendo chegado à noite a Penedo, ele foi acolhido
amistosamente na casa do Comandante da Guarda Nacional, o Sr. Pinheiro, para
quem levara uma carta de recomendação. E, na manhã seguinte, diante do encanto
com a paisagem fluvial, Robert Avé-Lallemant, que costumava ser quase sempre
bastante severo em suas avaliações dos lugares, coisas e aspectos
socioeconômicos por onde passava, fez as seguintes observações:
Penedo, à
margem do S. Francisco, é uma bonita cidade, já bastante velha, o que se pode
ver pelas quatro ou cinco igrejas e convento de franciscanos, que estava
destinada a grandes coisas e que realmente exerceu maior importância do que
hoje. Faz lembrar um pouco Olinda; portugueses e holandeses também se bateram
por causa de Penedo, até que, sob o domínio brasileiro, chegou à atual situação
de lástima, sem ter feito progresso considerável. A parte principal da cidade
fica num alto, onde se eleva a matriz, um belo edifício com duas torres, que se
avistam de longe, de bonito efeito. Algumas ruas descem de lá para o rio,
formando a ligação com o bairro comercial na Praia do Comércio, onde se veem
muitas casas bonitas e até mesmo esplêndidas, em parte assobradadas , e muito
boas lojas. Alguns brigues e escunas e numerosas canoas são significativas da
atividade desse trecho da margem em comunicação direta com o
mar, do qual as embarcações só distam 6 léguas.
Depois de fazer essa descrição do lugar, o alemão,
logo em seguida, emendou sua avaliação sobre Penedo nestes termos:
Embora
não lhe falte a navegação fluvial, embora ultimamente a já mencionada linha de
vapores da Bahia ponha a cidade de Penedo em rápida comunicação com Maceió e
Bahia e a supra mais do que suficientemente de artigos manufaturados na Europa,
Penedo é um lugar bastante morto. Seus oito a dez mil habitantes encontram-se
na mesma situação duvidosa que todo o Brasil; o número de braços escravos
diminui e falta habilidade para organizar, formar ambiente, assegurar direitos
e valorizar o trabalho livre (Robert
Avé-Lallemant. Viagens pelas províncias
da Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe: 1859. Trad. Eduardo de Lima
Castro. Belo Horizonte: Editora Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de
São Paulo, 1980. Ambas as citações aparecem na p. 301. Na página seguinte, o
ilustre viajante disse que "o rio é tudo para Penedo, tanto que não se conhece
estrada da cidade para as localidades vizinhas, nem o menor interesse pelas
terras adjacentes").
O fato do Penedo aparecer e figurar em várias páginas de livros e obras de viajantes e visitantes das mais diversas formações e campos de atuação corroboram a importância que o lugar desfrutava no decorrer dos séculos desde que o seu território passou a ser efetivamente ocupado por outras gentes vindas de fora que compreenderam que aquele terreno, aquele espaço às margens do Rio São Francisco era realmente um sítio providencial para as ambições comerciais dos que queriam explorar economicamente a região.
O nosso incansável narrador e guia da Enciclopédia dos Municípios Brasileiros registrou
no verbete que era desconhecida a data exata da criação da freguesia que tinha
por orago Nossa Senhora do Rosário, porém, acreditava-se que teria sido em
1615, conforme anotado na página 125 daquela publicação, página essa na qual eu
colhi todas as informações para o parágrafo que eu iniciarei após este.
No dia 12 de abril de 1636 a vila foi criada com o
nome de São Francisco. O seu extenso território abrangia os atuais municípios
de Penedo, Igreja Nova, Porto Real do Colégio, Traipu, Pão de Açúcar, Piranhas,
Água Branca, Mata Grande, Santana do Ipanema, Piassabussu e parte de Anadia e
de LImoeiro de Anadia. Tempos depois, em datas diversas, foram desmembradas de
seu território diretamente as vilas de Traipu (1835), Porto Real do Colégio
(1876), Piassabussu (1882) e Igreja Nova (1890). Pela Lei nº 3, de 18 de abril
de 1842, a vila foi elevada à categoria de cidade conservando o título de
"muito nobre, sempre leal e valorosa". Conforme os registros, até
1833 ela fez parte da comarca de Alagoas, ocasião em que foi criada a sua
comarca, compreendendo os termos das vilas de Penedo, Poxim e Anadia. Dois anos
depois foi-lhe acrescentado o termo da vila de Traipu, que somente foi
instalado depois de uma lei de 1838. Ainda teve o de Mata Grande, em 1837, suprimido
em 1846 e restaurado seis anos depois. Já em 1838 perdeu os termos de Poxim e
Anadia, que passaram a compor a comarca de Anadia. Em 1854 perdeu o termo
de Mata Grande, que passou a ser comarca. Teve ainda o de Santana do Ipanema em
1875, que foi erigida vila, e, no ano seguinte, perdeu-o, quando passou para
Mata Grande. No quadro geral de mudanças, em 1876 perdeu Traipu, que passou
para a comarca de Pão de Açúcar, e teve Porto Real do Colégio feito vila. Em
1889, ano da Proclamação da República, teve São Braz criada vila, desmembrada
de Porto Real do Colégio. Teve Igreja Nova em 1890, que passou a ser uma vila.
No ano de 1952 perdeu os termos de Igreja Nova e Piassabussu, que foram
transferidos para as comarcas dos mesmos nomes pela Lei nº 1674, de 11 de
novembro daquele ano. E assim, de acordo com o quadro da divisão administrativa
em vigor no tempo da escrita do verbete da Enciclopédia
dos Municípios Brasileiros e fixado pela Lei nº 1785, de 5 de abril de
1954, o município era composto de um único distrito - o de Penedo.
No século XX
Será agora em companhia de outros narradores,
sobretudo do ilustre defensor do seu torrão natal, Francisco Alberto Sales, um
penedense que amou, cuidou e lutou pela preservação de Penedo - foi dele, por
exemplo, a iniciativa de fundar uma instituição cultural acertadamente chamada
de Casa do Penedo, um espaço de memória localizado, como não poderia deixar de
ser, no centro histórico da cidade - quase que como uma profissão de fé.
No alvorecer do século XX, Penedo vai atravessar a
chamada belle époque acompanhando o
pulsar de um tempo em que "mudança", "transformação",
"progresso" e "modernização" foram as palavras de ordem em
grande parte do mundo, principalmente nos cenários urbanos. Um tempo em que
espaços de várias cidades foram modificados para, digamos, se adequar, de
alguma foram, ao que o Barão Haussmann propusera para Paris e que o Rio de
Janeiro, sob o comando do prefeito Pereira Passos, tratara de emular e, claro,
servir como modelo para o resto do país. Um tempo de certezas e cenografias
urbanas no qual tudo ou quase tudo revelava um mundo novo: e "Era essa
face brilhante do teatro da modernidade que o Brasil pretendia acompanhar, já
que não era possível tomar a dianteira" (Angela Marques da Costa e Lilia
Moritz Schwarcz. 1890-1914: no tempo das
certezas. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 25).
No roteiro saudoso e sentimental da sua preciosa e
amada Penedo, Francisco Alberto Sales, à maneira, digamos assim, do que mestre
Gilberto Freyre fez de arruares pelo Recife e por Olinda, ele reuniu imagens e
coligiu fragmentos de textos para nos contar parte da história da cidade ao
longo dos séculos, apanhando, aqui e ali, impressões e falares alheios e dando
ele mesmo os seus testemunhos sobre o que viu e conheceu. Tanto quanto um
roteiro sentimental o seu livro é um pungente canto de lamento a propósito de transformações
daninhas pelas quais o núcleo antigo da cidade passou e um inventário de
perdas.
No capítulo específico sobre a belle époque, tempo esse em que, segundo apurou Jeová Franklin, a
intimidade com as notas musicais, em par com o domínio do idioma francês, era
condição indispensável para o alcance de destaque social, dizia-se que "Em
cada sobrado existia um piano, a ponto de se falar na existência, em Penedo, de
250 desses aristocráticos instrumentos, por volta dos anos 40, quando a população
da cidade não chegava a 15 mil habitantes" (Penedo. Texto de Jeová Franklin e fotos de José Luiz da Silva.
Fortaleza: Banco do Nordeste do Brasil/ Departamento de Assessoria/Divisão de
Relações Públicas, 1978, p. 45), Francisco Alberto Sales nos conduziu por ruas
e praças apontando o esplendor daquela época presente em sobrados e outras
edificações vistosas como o Chalé dos Loureiros, que foi erguido pelo
engenheiro Joaquim A. Loureiro, responsável pelas obras de implantação do
serviço de abastecimento de água da cidade. Disse-nos o patrono da Casa do
Penedo:
Quando de
sua edificação, era um prédio de vanguarda, tanto no estilo quanto na
tecnologia utilizada. Os prédios assemelhados existentes no Brasil datam, via de
regra, das três primeiras décadas do século XX. Arquitetonicamente, este chalé
insere-se no ecletismo. É uma residência urbana de influência francesa [...] (Francisco Alberto Sales. Arruando para o forte. Recife: Bagaço, 2003, p. 105-106).
Nas mais de 170 páginas que constituem o roteiro
sentimental de sua amada Penedo, o incansável Francisco Alberto Sales
atravessou recantos pitorescos da cidade desfiando um rosário de nostalgia e de
desencanto com o muito que foi perdido e/ou modificado nesse seu pedacinho de
chão na vastidão de um mundo tão imenso. Na descrição de imagens e
acontecimentos, o memorialista nos ofertou um repositório do muito que, dentro
de si, ele carregava de Penedo, uma urbe que, em sua pena, como lembrou o poeta
Lêdo Ivo, "ora dorme com os seus segredos e silêncios, mistérios e
ilusões, cal e pedra, vidro e madeira, e ora acorda e fala e canta e se move
entre sóis e sonhos, nuvens e estrelas" (Lêdo Ivo. "Prefácio".
In Francisco Alberto Sales. Op. cit., p. 14).
Passado o tempo da belle
époque, Penedo seguiu seu destino como um dos principais municípios
alagoanos, tanto em importância econômica quanto turística, porque depositária
de um centro histórico que figura entre os mais representativos do país.
No decorrer do século XX, a cidade de Penedo vai
travar um grande embate com as tramas e os ímpetos da modernidade e do
progresso para tentar preservar os testemunhos do tempo materializados no seu
rico patrimônio histórico edificado, algo que continuará seguindo no transcurso
desta centúria na qual agora estamos. E foi para essa cidade tão plástica e
senhora do Rio São Francisco que eu me dirigi com uma imensa vontade de estar
nela, com aquela ânsia muito própria de quem busca conhecer um lugar para dele
se inteirar e carregar dentro de si e para todo sempre, nem que seja uma nesga
de sua fortuna existencial.
A cidade de Penedo, o Rio São Francisco e eu
O meu, digo melhor, os meus interesses sobre as
antigas cidades desta nossa terra, interesses não só pelo que nelas são
testemunhos de seu passado mais longínquo, mas também pelo que nelas circulam
como ideias e manifestações artísticas e culturais, paisagens, pessoas,
cheiros, sons e sabores, me levaram três vezes a Penedo, como eu vou começar a
lhes contar a partir do parágrafo seguinte.
Tive o privilégio de ir visitar Penedo em três longas
viagens que fiz voltando de Salvador para a minha terra.
Na primeira dessas viagens, da qual eu não tenho
sequer um registro imagético, porque o fotógrafo que me acompanhava rompeu
comigo e não me repassou nada do que ele guardara, eu fui chegando a Penedo de
carro, percorrendo sua área rural. Vi canaviais. Algumas moradias na beira da
estrada. E pessoas tocando os seus destinos.
À medida que eu entrava no espaço urbano propriamente
dito, naquele fim tarde do dia 23 de outubro de 2013, eu fui vendo que o seu
sítio histórico era vivo e pulsante com comércio, moradias e instituições
eclesiásticas e civis dando um tom de efervescência para aquele território tão
atrativo.
Buscamos hospedagem. E ficamos na Pousada Estilo, que tinha
os fundos voltados para o Rio São Francisco, um terraço de onde se descortinava
uma bela paisagem. Propriedade de José Gomes do Santos, a Pousada Estilo estava
instalada num sobradão bastante representativo da arquitetura da cidade antiga.
Natural da sergipana Brejo Grande e apaixonado por cinema, José Gomes dos
Santos, que mantinha no térreo da pousada uma loja de materiais esportivos e
que morava em Penedo já há quarenta anos, nos falou de um tempo em que, nas
águas do Velho Chico, era fácil encontrar botos, surubim, barcos e iates
grandes. "Acabou-se tudo com o assoreamento. E eu acho que com a
transposição só vai piorar".
No dia seguinte foi que com maior disposição eu e Ernani
Neves nos pusemos a percorrer e explorar para valer o centro histórico. Observei
com maior atenção que fiação e postes enfeavam os ambientes das ruas num
contraste com a beleza do casario antigo.
Anos depois eu aprenderia com o arquiteto e historiador José Luiz Mota Menezes que, segundo a sua avaliação e considerando que o território de Alagoas fez parte, durante muitos anos, dos domínios de Pernambuco, só adquirindo autonomia no século XIX, "Os feitos artísticos da arquitetura, da pintura e de outras manifestações culturais, por longo espaço de tempo, se situavam em uma mesma esfera de acontecimentos. Não existem diferenças fundamentais entre o feito artisticamente em Penedo, Alagoas e a produção artística de uma Olinda, em Pernambuco. Certas diferenças existentes resultam naturalmente dos diversos artistas que trabalhavam na capitania desde seus primeiros dias". E prosseguiu o renomado pesquisador alagoano de Pilar dizendo que, em seus aspectos gerais, as vilas e povoados dos três primeiros séculos da história do Nordeste não apresentavam diferenças tão acentuadas em relação ao, digamos, modelo europeu - ele chegou a dizer "Olinda era uma Lisboa pequena", de modo que, neles, "dominavam o perfil no horizonte as igrejas com suas sineiras, figuras-símbolos da religião dos portugueses: a católica. Depois, vinham as casas dos mais abastados. Por fim, o casario de brancas paredes pintadas à cal, da mesma maneira como se fazia nas aldeias lusitanas. Um casario que serpenteava nas colinas, chegando a praças, unindo, no circular de gente, igrejas e capelas. Ao redor, o canavial manchava de verde a paisagem onde por mais de três séculos rangeram as rodas dos carros puxados por juntas de bois. Um telurismo nada infiel àquele das terras lusas" (José Luiz Mota Menezes. "Um Nordeste cultural e artístico". In Alagoas memorável - patrimônio arquitetônico. Textos de Cármen Lúcia Dantas, Douglas Apratto Tenório e José Luiz Mota Menezes. s. l. Instituto Arnon de Melo, 2011, por ordem de citação páginas 13, 17 e 17).
Percorrendo aquelas ruas e ladeiras prenhes de
histórias eu fui me deixando ser tomado por aquela atmosfera tão convidativa
para um flâneur. Mas eu não estava ali
flanando. Eu fora até lá para olhar atentamente para os cenários com olhos mais
de perscrutação do que de contemplação.
E andei, andei. Passei pelo oratório da forca, onde o
condenado passava sua última noite.
No grande conjunto de imóveis que integram o perímetro
do sítio histórico, eu pude ver que, em sua imensa maioria, eles estavam bem conservados;
também observei que várias das fachadas foram completamente modificadas,
perdendo o charme e o encanto que certamente elas possuíam, como algumas
edificações da Rua Dom Jonas Batinga.
Dirigimo-nos para a Rocheira, a formação do relevo, o
rochedo, o penedo que acabou dando nome à cidade, local onde, segundo as
narrativas históricas, ocorreram combates contra os holandeses. Por ali eu
observei que as luminárias dos pequenos mirantes estavam quebradas; e que
alguns dos bares que margeavam o grande rio eram choupanas horríveis.
Andamos, andamos...
Paramos para entrar e conhecermos o ateliê de Tadeu
dos Bonecos, que nos recebeu com imensa simpatia. Tadeu Gomes, disse ter
nascido ter na sergipana Neópolis no ano de1963 - ele aparentava ser mais jovem
do que os anos que dizia ter. Ele nos contou ainda que passou a infância no
Recife; e que saía na Orquestra do Piu, no Carnaval, ao som de frevos.
Instalado na Rua Tenente Mariano, o artista plástico, que confeccionava bonecos
com materiais como papel e isopor, nos disse ainda: "Chega gente aqui do
Governo, mas não me ajuda. Eu não quero que chegue gente aqui e me dê R$
5.000,00. Eu queria que divulgassem meu nome, meu trabalho, minha arte".
Deixando a boa companhia do Tadeu Gomes, nós nos dirigimos para a Praça Marechal Deodoro, que abrigava a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, o Cine Penedo, que se encontrava sem funcionar, e um conjunto de imóveis que compõem um dos espaços mais atraentes da cidade.
Uma das coisas que chamaram a minha atenção no sítio
histórico penedense, naquela minha primeira visita, foi a disposição de
tabuletas de propaganda nas fachadas dos imóveis: elas eram discretas, cumpriam
o seu papel de informar a natureza comercial e/ou institucional dos imóveis e
não causavam poluição visual.
Na Praça Jácome Calheiros, onde eu me deparei com um
coreto bem simples - talvez, ele não fosse mais o original -, se encontravam o
Colégio Imaculada Conceição e a Rádio São Francisco. Eu também vi ali uma casa
abandonada, o que me causou tristeza, como, aliás, sempre me entristece, quando
me deparo com isso em centros históricos, porque me fazem lamentar e pensar
que, seja por qual razão for, nem todos os proprietários dos imóveis das zonas
de preservação tratam de bem cuidar deles.
| Um dos imóveis que eu encontrei abandonado na cidade: por que issso, gente?! |
| Lixo espalhado em alguns pontos das ruas é algo imperdoável num sítio histórico tão expressivo e, em geral, tão bem preservado |
| Outro imóvel imponente em em estado de abandono |
| Imóvel passando por um ação de recuperação de sua fachada |
| Ao que parece, esse imóvel ocupou o lugar de uma edificação antiga que já existiu nesse terreno |
| As platibandas e os detalhes de fachadas de vários imóveis do centro histórico de Penedo são de encher os olhos, principalmente quando tais imóveis estão com a pintura novinha em folha |
| Não entendi nada: é uma travessa que tem um portão? |
Tomamos o rumo da longa e larga Avenida Getúlio Vargas, a antiga Rua do Cajueiro Grande, cenário que abriga palacetes como o Chalé dos Loureiros que, segundo uma placa posta ali, iria ser restaurado para abrigar o Museu do Rio São Francisco.
Adentramos na Rua João Pessoa, onde nos deparamos com
uma casa em ruínas. E dali seguimos para a área da feira livre. O grande
Mercado Público estava fechado para reforma. A feira livre, que ficava pertinho
do casario do sítio histórico e integrava a área comercial da cidade, ocupava
várias ruas com seus bancos de madeira.
Da feira livre nós passamos para a Avenida Floriano
Peixoto, que constitui um dos cenários mais conhecidos e turisticamente
divulgados do Penedo, por abrigar alguns dos seus patrimônios históricos
edificados mais significativos, como a Igreja de São Gonçalo Garcia e o Teatro
Sete de Setembro.
Depois de almoçarmos num dos restaurantes populares
localizados na orla do rio - R$ 1,90 cada 100 g de comida -, às 15h em ponto
nós embarcamos na lancha Midiane,
rumo a Neópolis, pagando R$ 2,00 cada um.
Durante a travessia eu troquei figurinhas com José
Ferreira Braz, então com 66 anos e proprietário da Pousada Braz Familiar.
"O nível do rio era muito elevado, cobria essas ilhas. Com as barragens
diminuiu muito, ele disse destacando que exercera as profissões de caminhoneiro
e de pescador. E olhando para aquela mansidão falou: "Cristo andou sobre
as águas". E eu, sem esconder o meu ateísmo, falei com certo tom de
pilhéria: "Só ele. Se o senhor não souber nadar, morre afogado".
Andamos por ruas e praças de Neópolis, admirando suas
igrejas e contemplando suas coleção de prédios arruinados e abandonados.
Outro depoimento eu colhi antes da volta para o
Penedo. Luzia dos Santos, de 66 anos, que já cultivara arroz, me disse que
aprendera a ler com os irmãos sob a luz de um candeeiro; e que foi para a casa
de uma tia, moradora de Penedo para mudar de vida, tendo começado a trabalhar
como doméstica. A respeito do rio ela falou: "Pra quem conheceu ele cheio,
ver ele assim é muita tristeza", lamentou a sergipana de Pacatuba.
Como sempre acontece comigo, aquela viagem estava me
enchendo de uma rica bagagem de vivências e de experiências. A tarde ia caindo
e a imagem de Penedo, na outra margem do Velho Chico, era um deslumbre para os
meus olhos.
Às 17h nós embarcamos na lancha Rosa Lécia/Rainha do Sertão. Ficamos a conversar com José Veto, um
alagoano bonachão de Junquiero, caminhoneiro e fornecedor de cana-de-açúcar,
que fez questão de pagar as nossas passagens. "A última cheia foi em 93. A
água batia na ponte de Propriá", ele recordou enquanto seguíamos na travessia
do Rio São Francisco.
| O contraste entre a fachada do piso superior e a do térreo é tão gritante que, pela fotografia, nós podemos iamginar o quanto de detalhes construtivos foram removidos desse sobrado tão imponente |
Na já aqui citada publicação feita pelo Banco do Nordeste do Brasil sobre Penedo, Jeová Franklin nos disse da relação muito próxima e íntima do homem vivente naquele meio com o rio; segundo as suas palavras "A cultura está mais viva do que nunca num passeio pelo rio, numa canoa comprida, de duas velas que, em luta com o vento, às vezes formam um delta, ou dois triângulos superpostos, ou apenas uma linha a riscar o céu, quase sempre sem nuvens" (Penedo. Op. cit., p. 53). Decerto que eu precisaria ter mantido um contato mais demorado e atento com a vida que se processava ali tendo o Rio São Francisco como elemento primordial da dinâmica existencial cotidiana para ter uma compreensão maior da relação que toda aquela gente mantém para com ele todos os dias. Mas o que eu vivenciei me deu um mínimo de compreensão de que a importância daquele curso d'água para a população é incomensurável, porque ela vai além do trabalho, do turismo, da pesca, do ir e vir, do banho, da navegação e se entranha pela alma como uma necessidade existencial, porque o Velho Chico está na vida daqueles homens e daquelas mulheres como se fosse um ente querido que se quer abraçar, ver, sentir e ter por perto durante todo o tempo que for possível.
No dia seguinte, lá fomos nós novamente bater perna e
nos fartar um pouco mais de Penedo. E nesse dia nós começamos a aventura do
conhecimento naquele ligar visitando a Associação Comercial onde estava
ocorrendo uma exposição sobre a ocupação holandesa da cidade, com reproduções
de vários quadros. Quem nos recebeu lá foi o penedense José Cordeiro, o popular
Pelé, que se apresentou para nós como cantor e compositor.
Dali nós seguimos para a Casa do Penedo, obra do
admirável Francisco Alberto Sales. Pagamos R$ 3,00 pelo ingresso; e, na
companhia do monitor Thiago Araújo, nós começamos a percorrer os espaços
daquela instituição cultural criada para a salvaguarda, preservação e difusão
da memória de Penedo. Foi tão bom ter estado ali.
Arruando, arruando, passamos pelo grande Mercado
Público, pela majestosa Igreja de Nossa Senhora da Corrente, o templo que olha
para o Velho Chico e que o poeta alagoano
Lêdo Ivo descreveu em versos do livro Finisterra:
Só Deus e
os morcegos habitam
a Igreja
de Nossa Senhora da Corrente.
O
espírito invisível paira entre os altares
roídos
e o vento de Penedo
cega
lentamente os olhos dos santos
que os
turistas e antiquários não conseguiram roubar.
Deus é
barroco. Deus é como os morcegos:
voando à
noite entre os espaços estrelados
procura
chupar o sangue dos homens
que
enegrecem o dia com os seus pecados [...] (Lêdo Ivo. "Nossa Senhora da Corrente". In Finisterra. Rio de Janeiro: Livraria
José Olympio Editora, 1972, p. 23).
Ao lado da Igreja de Nossa Senhora da Corrente está
outra edificação prenhe de muitas histórias, que é o Paço Imperial, que foi
convertido em um museu que cobrava um ingresso de R$ 3,00 e determinava que o
visitante não fotografasse nada. O chamado Museu do Paço Imperial foi
idealizado por Raimundo Marinho - havia um memorial em sua homenagem, no
térreo do sobrado -, que foi prefeito da cidade durante três mandatos. O
Paço Imperial, localizado às margens do Velho Chico, abrigou o Imperador Dom
Pedro II, quando ele esteve visitando o formoso lugar.
Uma das coisas que mais me causaram descontentamento enquanto passeava pela orla urbanizada de Penedo foi a presença de um posto de combustível ali, sem falar dos próprios quiosques, que fazem feia figura para quem olha o casario a partir do rio. Além de feio eu considerei aquilo ali muito inadequado, sobretudo porque dá azo para que ocorra um movimento grande de veículos automotivos numa área ocupada por edificações - é preciso destacar isso - que foram erguidas num tempo em que eles não existiam, de modo que a presença de veículos por ali, principalmente de caminhões, pode abalar as estruturas prediais. E essa minha visão sobre aquele cenário eu fui encontrar, depois, nas páginas do livro do Francisco Alberto Sales, uma clara confirmação de que eu não fora o único a enxergar aquilo lá. Em sua obra, o guardião de parte da memória de Penedo nos disse assim:
Os
quiosques dos artesãos e os bares são, no entanto, uma agressão bem mais
caricata àquela imposta pelos dois postos de gasolina. Estes não ferem somente
o aspecto estético do sítio. Antes, favorecem o tráfego de veículos pesados no
local, abalando as frágeis estruturas das construção (sic) da cidade, o que
pode levar o patrimônio a ruir desastradamente. E como se essa ameaça nada
fosse. Quiosques e postos conferem à principal artéria da cidade um aspecto
degradante, desagradável, um projeto de favelização em curso (Francisco Alberto Sales. Op. cit., p. 44-45).
Outro aspecto negativo que eu flagrei na orla
penedense foi o descaso para com o descarte irregular de lixo aqui e ali, às
margens do rio, na calçada e nos bueiros. Fala-se tanto na degradação do Velho
Chico e não se alinha um pensamento com uma ação de educação ambiental para
moradores e visitantes da cidade.
Falando com algum brilho nos olhos de sua paixão pela
sétima arte, José Gomes dos Santos nos contou do tempo em que exibia filmes em
várias cidades com sua máquina de projeção de 16 mm. Ele, que foi pescador,
vice-prefeito de Brejo Grande, alfaiate e vereador, disse que saía com um
alto-falante anunciando a exibição das películas. José Gomes dos Santos aparece
no vídeo documentário "Tão perto e tão distante", realizado por uma
oficina de introdução audiovisual em 2012; no dvd, que ele me deu de presente e
ao qual eu assisti tempos depois, esse sergipano muito gente boa comentou sobre
a situação do Rio São Francisco no que diz respeito à pesca:
Todo
mundo se admirava desse rio. Hoje, através da barragem, essas barragens que é o
progresso do país, né? acabou com o nosso rio. Mas aqui, quando eu cheguei,
tinha navio, boto, aqueles boto, entendeu? Navegação. Era uma maravilha. Então,
hoje, o que acontece? O Rio São Francisco não tem mais entrada de navio, tá
aterrado. É essa a situação do nosso rio. Acabou. E continua piorando a
situação. Hoje mesmo eu fui pra feira, uma feirinha aqui, que lá a gente
encontrava muito camorim, pescada grandes, entendeu? E não tem mais nada. É
tambaqui.
O São
Francisco é importante pra todo mundo. O Rio São Francisco aqui, antigamente,
todo mundo ganhava dinheiro. Quem fosse pescar, bastava pescar um dia. Era
suficiente. Dava pra se alimentar a semana toda. Hoje tá difícil. Você vê: o
pessoal vai pra pescar e não encontra mais nada pra se alimentar. Então, não é
só pra mim que o Rio São Francisco é importante. É o pra gente, todas as
gerações. E se não tiver uma ajuda pra que esse rio venha florescer, tá difícil
pra todo mundo. Cada dia que se passa, a dificuldade é grande.
O rio?
Bom, é como eu tô falando. Tá faltando tudo. Água de mau qualidade, entendeu? É
suja. O rio tá, cada dia que se passa, tá assoreando, entendeu? A situação é
difícil pra todo mundo. Pescador hoje não tem mais peixe. Vai pescar, não
existe mais. Você chega na feira hoje só tem esses tambaqui, tilápia. Hoje eu
tive na feira, hoje, tava chegando é candunga. Eu vi aquele negoço preto e pra
mim era barro. Cheguei lá: "Moça, o qu'é isso?". "Isso aqui é
candunga". Candunga é um peixinho que não cresce, que vive na lama,
entendeu? Os pescadores, as pessoas, as senhoras leva pra feira pra vender o
candunga. Nunca se ouviu falar em comer candunga. Vocês não conhecem o que é candunga?
É um peixinho bem miudinho, pretinho. Conhece o candunga? Pela primeira vez,
hoje, eu fui na feirinha, eu vi uma porção de uns. O pessoal vendendo uns
balaio (José Gomes dos Santos. Depoimento. In Tão perto e tão distante. Documentário.
Direção geral: Erick Silva. Curta Penedo. Oficina de Introdução ao Audiovisual.
Ministério da Cultura/Fundação Nacional de Artes, 2012. O dvd traz ainda o
documentário "Ação e reação", que também teve a direção geral de
Erick Silva e reuniu outros depoimentos sobre o Rio São Francisco).
De dentro do rio, olhando a fisionomia da Penedo
antiga, eu cheguei a pensar num país grandioso e me emocionei. E quando, perto
das 13h, eu comecei a deixar o chão penedense carregando um pesadelo pessoal
que, eu nem imaginava, iria mudar completamente parte do rumo da minha vida,
atravessei aquele trecho esburacado da rodovia temendo que, num processo de
autofagia urbana, a cidade nova abrisse sua boca enorme para devorar e destruir
a cidade antiga.
| O silêncio do abandono nos diz muito da falta de zelo em alguns pontos do centro histórico de Penedo |
| Antiga Rua do Banho, depois, chamada de Rua das Lavadeiras: por que esse espaço não é devidamente preservado? |
| Mais um imóvel em petição de miséria |
| O Chalé dos Loureiros |
| Casarão abandonado: parte da memória urbana de Penedo está sendo deixada de lado |
Outra visita a Penedo, agora, sozinho
Não gosto de viajar para cidades históricas em
temporada de fim de ano, porque eu não aprecio as ditas decorações natalinas
tomando as fachadas dos casarios e as ruas. Mas era o tempo que eu tinha.
E assim foi que, na minha segunda visita a Penedo, eu
cheguei a essa cidade, vindo de Aracaju e passando por Neópolis, no dia 18 de
dezembro de 2017 - cheguei atravessando o Velho Chico na lancha Lidian pagando R$ 3,50.
Ainda em Neópolis um José dos Santos, de 42 anos, me
contou que o nível do rio baixara mais nos últimos quatro anos. Começara a
dragagem em trechos assoreados havia uma semana. "Não estão tirando a
areia. A draga solta no rio mesmo", ele completou. Outro, do qual não anotei
o nome, disse: "Aqui havia muito peixe".
Voltar a Penedo inevitavelmente me fez recordar da
visita que fizera a ele e os caminhos, pessoas e lugares que conhecera. E, como
eu sou de repetir coisas das quais gostei, eu busquei a mesma Pousada Estilo,
pegando o quarto 9 desta vez - observei que a calçada do imóvel vizinho à
pousada continuava sem reparo.
E por falar em calçadas, eu notei, nas andanças do dia
da minha chegada, que algumas delas - e meios-fios também - haviam sido
renovadas.
Num contraste com a restauração recente do Teatro Sete
de Setembro e as obras iniciais de recuperação do Chalé dos Loureiros, um
sobrado localizado na Avenida Nilo Peçanha figurava como testemunha de um
infeliz abandono, assim como alguns outros imóveis da Rua João Pessoa.
No dia seguinte lá fui eu bater perna por ruas e
ladeiras a fim de me reencontrar com a Penedo que eu guardara firmemente
comigo.
Percorrendo os arredores da feira livre, eu estive no
Mercado Público, que fora reaberto e ocupado por boxes de comércio variado.
Meus olhos - e nem eu - gostaram do que viram por ali.
Não tive ânsias de me demorar em Penedo nesta minha
segunda ida para lá. Não sei exatamente por quê. Talvez a ausência de Ernani
Neves pesasse em meu pensamento e em meu coração como algo que, de certa
maneira, me levava a não querer permanecer ali por muito tempo. Ao lado disso,
tinha também a sensação de cansaço e enfado.
José Gomes dos Santos, o bonachão proprietário da
Pousada Estilo me falou de uma ânsia e de uma esperança de progresso e de
desenvolvimento para Penedo que, segundo
ele, chegaria, não fosse a roubalheira dos políticos: "Eu gosto demais
desta Penedo. É pena que as coisas não melhorem por aqui. Mas vai melhorar. Eu
acredito nisso. O Iphan tem muito dinheiro. E ele vai fazer muita coisa, você vai
ver".
Fui deixando Penedo, rumo a Marechal Deodoro,
carregando a fala do José Gomes dos Santos no pensamento.
Mais um encontro com Penedo
No dia 24 de novembro de 2019 eu cheguei pela terceira vez a Penedo pelo Rio São Francisco, porque viera novamente de Aracaju e desembarcara em Neópolis. A travessia do rio me fizera ver que o volume de água aumentara; e havia muitos aguapés.
Não bastassem o posto de combustível e os quiosques instalados na orla, a Prefeitura Municipal de Penedo considerou perfeitamente apropriado permitir que food trucks se instalassem por ali também, tornando aquele espaço da cidade antiga um verdadeiro horror, sobretudo para quem a enxerga a partir do rio.
Almocei ali mesmo na orla, no Restaurante do Gordo. E dali eu segui em busca de hospedagem na Pousada Estilo. Quando cheguei lá eu tomei conhecimento de que ela estava sob nova direção e passara a se chamar Pousada Bela Vista; e não havia quartos disponíveis. É que a cidade estava prestes a promover a abertura de um festival de cinema.
Andei um pouquinho e consegui um quarto, o de número 5, na Pousada Central num Largo de São Gonçalo revitalizado. E tratei logo de organizar a minha bagagem para de pronto voltar a rever a cidade.
Visitei uma casa de artesanato que não existia quando eu estivera em Penedo dois anos antes. Mike, o responsável pelo vistoso e espaçoso estabelecimento instalado junto ao Paço Imperial, me contou que investira R$ 120.000,00 para dar uma geral no prédio onde, segundo ele, existira uma empresa de beneficiamento de arroz. Ele me disse ainda que o tal imóvel, que era alugado, tinha valor de mercado, para venda, de dois milhões de reais.
Continuei caminhando pela cidade. E me deparei com o cinema ainda abandonado, um completo absurdo para um lugar histórico que, a partir do dia seguinte e se estendendo até 1º de dezembro, sediaria um festival de audiovisual.
Andando pela orla eu vi muita gente tomando banho no rio. Que coisa boa!
Outra alegria para os meus olhos foi ver que a Igreja de Nossa Senhora da Corrente fora restaurada.
Ainda na noite daquele dia da minha chegada eu avistei na orla um dos personagens mais conhecidos e vistosos da paisagem urbana penedense: Nazo. Ele estava todo montado e com botas brilhantes.
Na manhã do dia seguinte eu passei na Barbearia Azul, do Luiz Carlos, então com 53 anos de idade e 28 anos atuando na profissão que aprendeu com um seu tio.
Cabelo cortado, lá fui eu andar pelo bairro de Santo Antônio, que já foi chamado de Barro Vermelho e que, segundo me disseram, fora um reduto de negros.
Fazendo contraste com um Beco do Banheiro (o lugar também é chamado de Rua do Banho e Rua das Lavadeiras), no qual imóveis permaneciam abandonados há vários anos, na base da Rocheira, no sentido do bairro de Santo Antônio, a orla estava sendo revitalizada.
Felizmente eu encontrei Penedo passando e tendo passado por ações de revitalização de alguns dos seus espaços; obras essas que trataram de embutir a fiação elétrica pelo menos no Largo de São Gonçalo e na orla.
Prestigiei a cerimônia de abertura do festival de cinema, na verdade, um denominado circuito. Na solenidade, ocorrida numa estrutura montada na orla, na falta de cinemas na cidade, que já teve mais de um espaço de exibição - o Luiz Carlos me dissera que existiu um cinema muito concorrido no térreo do Hotel São Francisco -, o professor Sérgio Onofre ficou emocionado ao lembrar que aquele fora um ano de resistência a um Governo Federal que fizera contingência para a educação e ataques à cultura.
Morrendo de sono, eu não fiquei para assistir ao filme da abertura do circuito, além do que, não me interessei para vê-lo - era alta noite e imaginem vocês que colocaram para abrir o evento um filme infantil da Turma da Mônica. E voltei à pousada já decidido a partir no dia seguinte.
Na minha despedida da terceira viagem feita a Penedo, uma cidade de muitos encantos, eu fui carregando comigo aquela vontade de acreditar que algumas pessoas continuariam ali lutando, junto com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), para preservar a riqueza histórica, material e imaterial, daquele burgo tão importante para memória urbana alagoana e brasileira. Entristeci ao tomar conhecimento de que o Francisco Alberto Sales, um dos seus maiores e mais ativos defensores, falecera; e desejei que outros como ele permanecessem firmes e fortes atuando para proteger a velha e boa Penedo da fúria dos arautos do progresso que são incultos e desapegados dos testemunhos do passado.
| O supermegaultrafashion Nazo, um dos peronagens mais populares de Penedo: lamento muito não terfeito mais registros fotográficos dele e nem termos conversado |
Enquanto seguia para a rodoviária topei com o Nazo na rua. Ele, que é a representação de um furor de liberdade e de exaltação da vida, encheu meus olhos de alguma alegria. Parei-o; e ele posou para que eu o fotografasse, fotografia essa que foi um dos suvenires que eu trouxe daquela viagem.
(Todas as imagens que aparecem nesta postagem foram feitas na viagem realizada em 2019).