11 de julho de 2026

Numa manhã de homenagens ao Padre Pedro de Souza Tenório, herói e mártir da Revolução Pernambucana de 1817

 Por Sierra


Fotos: Arquivo do Autor
O adro da Capela de São Paulo, localizada às margens da PE-001, próxima à Fortaleza de Santa Cruz, que a maioria das pessoas só chama de Forte Orange, foi o ponto de concentração antes do início da caminhada pela "trilha dos holandeses"


Ontem, quando eu cheguei à Academia Luciana Campos/Pixote Futsal, que fica no bairro do Pilar, a área mais urbanizada e seda da administração da Ilha de Itamaracá, uma ilha-cidade que integra a Região Metropolitana do Recife cujo território compõe um dos mais antigos espaços que foram ocupados pelos europeus quando de suas viagens pelas chamadas terras do Novo Mundo, ocupação essa que ocorreu já nas primeiras décadas do século XVI, a minha amiga Evellyn Aguiar me falou que os membros do Instituto Histórico e Geográfico da ilha-cidade organizaram  - e eu saberia depois que eles contaram com o apoio da Prefeitura Municipal - uma caminhada pela famosa "trilha dos holandeses" rumo ao bairro de Vila Velha, localidade que, num passado remoto, se chamava Vila de Nossa Senhora da Conceição, erguida num terreno elevado - conforme a lógica de ocupação dos portugueses - de onde se avistam o Canal de Santa Cruz e o mar; e que foi o lugar da ilha onde efetivamente os europeus se estabeleceram. Evellyn Aguiar me disse ainda que o evento fora concebido em homenagem ao Padre Pedro de Souza Tenório, herói e mártir da Revolução Pernambucana de 1817, que foi morto e esquartejado pela forças militares do governo - o dia de sua morte, 10 de julho, é, por lei, a Data Magna da Ilha de Itamaracá desde 2011.

A minha amiga me repassou o link para fazer a inscrição; e eu resolvi que iria tomar parte em tal celebração, marcada para acontecer na manhã de hoje, com ônibus disponíveis para o transporte dos participantes partindo do bairro de Jaguaribe para o do Forte Orange, ficando a Capela de São Paulo como ponto de concentração antes do início da caminhada.

Acordei cedinho. Preparei o meu kit de caminhante contendo água, maçã, amendoim, castanha-do-pará e água de coco. Fiz o desjejum. Aprontei-me. E saí de casa às 7h25, seguindo andando para o ponto de concentração.

Fiquei num contentamento só quando cheguei ao local e me deparei com um grupo expressivo de pessoas de todas as faixas etárias; gente que estava ali, certamente, para conhecer e saber  sobre a nossa cultura e a nossa história; um grupo enorme formado por professores, pesquisadores, estudantes, maçons, políticos e indivíduos que gostam demais da Ilha de Itamaracá. E, no meio de tantas pessoas, eu encontrei um amigo querido, Adalberto Passos, e uns conhecidos da malhação, caso de Edvaldo da Silva e Josinete Félix.

No momento em que Edvaldo Júnior, do Instituto Histórico e Geográfico da Ilha de Itamaracá (IHGII), falou para o público explicando a razão de ser da realização do evento - à fala dele se seguiu a da presidenta do IHGII, Alessandra Pantaleão - foi que eu fiquei sabendo que a celebração contava ainda com uma sessão pública da Loja Maçônica Acácia de Itamaracá e com uma apresentação do Maracatu Mosca de Fogo, ambos a serem realizados no lado direito da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, lá em Vila Velha.


Edvaldo Júnior, do IHGII, fez uma explanação antes de darmos início à caminhada



A caminhada

Eu olhei no relógio do celular: foi exatamente às 8h22 que a caminhada de cerca de 3,5 km teve início.




A rota foi, em seus começos, ocupada por várias casas e condomínios, algo que não deveria ter acontecido






O tal trecho alagado

                                                    

Muito atento aos cenários, eu observei, já nos começos do trajeto, lixo em demasia e casas construídas nas proximidades do mangue, situação essa muito comum na ilha-cidade, lugar onde sucessivas administrações municipais fecharam os olhos e/ou foram coniventes com invasões e ocupações desordenadas de terrenos, marcando a cidade com um urbanismo que muito pouco tem de racional e planejado.

Como choveu ontem à noite, nós tivemos de atravessar um trecho onde havia uma grande quantidade de água empoçada ao lado de casas que foram construídas na rota da trilha, um completo absurdo - alguns trataram de tirar seus calçados para atravessar aquele pedaço do caminho, eu não.

Um dos atrativos da chamada "trilha dos holandeses" é que o caminhante atravessa uma vasta porção de terra onde ele tem contato e observa dois ecossistemas e um bioma: o mangue, a restinga e a Mata Atlântica, algo que, muitos anos atrás, na época da faculdade, o professor Marcos Albuquerque destacou quando saímos numa aula de campo pela ilha. Entre a variedade da vegetação, cajueiros frondosos margeiam o caminho em vários trechos - uma pena que não estejamos na época de sua frutificação.


O contato com a natureza é um dos grandes atrativos da "trilha dos holandeses"















Na longa parada que fizemos defronte às ruínas da casa onde se acredita que  Padre Tenório residiu, Edvaldo Júnior fez uma explanação sobre esse personagem participante do movimento revolucionário de 1817. Tal casa, que deveria ter a sua estrutura recuperada, visto que quase todas as suas paredes ainda estão de pé, fica a cerca de 200 m do Canal de Santa Cruz; e, estando às margens daquele canal que, pelo lado sul, separa a ilha do continente, eu e várias pessoas que foram até ali verificamos uma quantidade enorme de lixo, detritos os mais diversos, possivelmente trazidos pelas correntezas, e que se fixaram no mangue, o que é outra lástima para o caminhante.


Ruínas da casa que se acredita que foi moradia do Padre Tenório, uma edificação que os órgãos de preservação do patrimônio histórico deveriam tratar de restaurar e preservar



O professor Edvaldo Júnior falando sobre Padre Tenório










Na companhia de Adalberto Passos



Lixo acumulado à beira do Canal de Santa Cruz: educação patrimonial deve andar de mãos dadas com educação ambiental 







Havia duas cercas no meio do caminho. No meio do caminho havia duas cercas

 

Lá pelas tantas nós nos deparamos, primeiro, com uma placa indicando um "novo trajeto da trilha dos holandeses". E, ao passarmos por ela, alguém disse: "Ninguém vá por aí, que isso é fake!".

Mais adiante o que nós vimos foi uma extensa cerca de arame farpado delimitando um espaço que, provavelmente, receberá uma porteira e, junto à cerca, vestidos quase todos de preto dos pés ao pescoço, cinco homens, cinco capangas do dono das terras, que pareciam estar armados, se encontravam ali de prontidão.


Uma das cercas da Fazenda Santa Rita: seu proprietário, ao que parece, quer impedir que a população deixe de ter acesso à histórica "trilha dos holandeses"


Leitor, os homensque aparecem acompanhando a passagem dos caminhantes são os capangas da Fazenda Santa Rita


Caminhando mais um pouco, já nas proximidades da cabeceira da ponte recentemente inaugurada pela governadora Raquel Lyra - além da nova ponte foi feita uma obra de pavimentação de um caminho do outro lado, já dentro da área que constitui Vila Velha, obra essa que está em fase de acabamento -, nós demos de cara com outra cerca extensa com igual espaço para porteira, como na anterior, e, preso a ela, placas também indicavam uma "nova trilha dos holandeses", como se fosse possível assim, pelo simples querer e/ou pretensão e imposição de alguém, substituir um caminho histórico que tem séculos de existência, por outro de agora, batizando-o com o mesmo nome do antigo.


A ponte que foi recentemente inaugurada pela governadora Raquel Lyra




O professor de História e ambientalista Fernando Melo, que integra o IHGII, me disse que provavelmente o dono da propriedade soube da realização do evento e pode ter pensado que nós iríamos até lá para botar as cercas abaixo. É bem possível que tenha sido isso mesmo; daí por que ele colocou os capangas para acompanhar a nossa passagem pela trilha, numa clara postura de intimidação. E ainda bem que os membros do IHGII tiveram uma compreensão ampla e precisa de que era necessário agir contra esse estado de coisas. Por conta das ações do dono da Fazenda Santa Rita que, claro, deve ter mandado derrubar árvores para fazer a "nova trilha", o pessoal do IHGII fez chegar o teor do conflito às TV's - felizmente uma equipe da TV Tribuna, com o repórter Rubens Marinho, estava lá gravando uma reportagem, algo que eu fiz questão de registrar num vídeo para divulgar em meus perfis no Instagram e no YouTube.


O repórter Rubens Marinho gravando matéria sobre o conflito envolvendo o proprietário da Fazenda Santa Rita e o livre acesso à "trilha dos holandeses"







No detalhe, as placas indicativas do "novo trajeto da trilha dos holandeses"


A fala de Fernando Melo me fez inferir que, mais do que uma homenagem ao Padre Tenório, ao planejarem a intitulada "1ª Caminhada Histórica da Ilha de Itamaracá: edição Trilha dos Holandeses", o IHGII organizara um ato de caráter político, daí por que, no texto da ficha de inscrição para o evento, está registrado: "Vamos celebrar a Data Magna do município e abraçar juntos a defesa da Trilha dos Holandeses e do sítio histórico de Vila Velha".



Vila Velha: encanto e desordem

 

Depois de atravessar a ponte eu em sentei para merendar; e fui logo interrompido no descanso, porque o pessoal começou a subir a colina e eu acabei de comer enquanto caminhava.


















Caro leitor, fazia tempo que eu não pisava ali. E o que eu vi hoje, em Vila Velha, é um sintoma do descaso e do fechar os olhos para invasões e ocupações de lugares que não deveriam de maneira alguma abrigar moradias e estabelecimentos comerciais. O entorno da Igreja de Nossa Senhora da Conceição está ocupado por vários imóveis, cada um mais inadequado que o outro, enfeando o espaço e emasculando tanto o templo religioso, situado no alto de um outeiro de onde se tem uma vista muito encantadora e deslumbrante, quanto o monte que foi registrado pelo pintor holandês Frans Post, que integrava a comitiva de Maurício de Nassau, no século XVII. Aquilo ali está um horror. E eu só penso que, pelo quadro da realidade registrada naquele espaço, a situação lá só vai piorar nesse quesito.


Igreja de Nossa Senhora da Conceição: infelizmente, deixaram que o adro do templo e parte do seu entorno fosse ocupado por várias construções






A impressão que me dá, quando chego à Vila Velha, é de aquele lugar é uma terra de ninguém, onde, em termos de ocupação, cada um faz o que quer sem que nenhum órgão de defesa do patrimônio histórico edificado e da ambiência que o abriga interfiram para coibir as malfeitorias.

 

Outras homenagens

 




Devidamente paramentados - e contando com a colaboração de um grupo de escoteiros -, membros da Loja Maçônica Acácia de Itamaracá realizaram uma sessão pública com discursos e leituras e difusão, com uma caixa de som, dos hinos de Pernambuco e da Ilha de Itamaracá e uma cantoria de Luiz Gonzaga; cerimonial esse encerrado com a colocação de uma coroa de flores no túmulo do Padre Pedro de Souza Tenório, tudo isso seguindo um roteiro detalhadamente traçado, conforme a cópia impressa do ritual que eu consegui com um dos organizadores - no roteiro os maçons contavam com a presença do prefeito do Município, algo que não ocorreu.


Membros da Loja Macônica Acácia de Itamaracá













Após isso, teve início uma curta apresentação do Maracatu Mosca de Fogo, ligado à ONG Casa Uaná e comandado pela jovem mestra Dayane: além de maracatus o grupo tocou ciranda e eu, que não sou besta, cirandei com o povo.

 


O Maracatu Mosca de Fogo em ação











A jovem mestra Dayane comandando a batucada





Memória, cultura e resistência

 

Pelo que eu pude apurar, existe um projeto de construção de um resort nas terras que compreendem a Fazenda Santa Rita, uma área marcada pela presença dos ecossistemas mangue e restinga e pelo bioma mata, no caso a Mata Atlântica, ou seja, um terreno imenso repleto de vegetação nativa que deveria ser preservado. 

Sim, é claro que tem gente defendendo a especulação imobiliária e o tal resort, apontando isso como "progresso" e "desenvolvimento" para a Ilha de Itamaracá, como se o problema dessa cidade-ilha fosse a falta, a indisponibilidade de quartos de hotéis e de pousadas, quando a realidade é bem outra. Leitor, só para você ter uma ideia, próxima à Capela de São Paulo, onde iniciamos a caminhada, existe uma Pousada Vento Leste que encerrou suas atividades já faz alguns anos, destino esse que tiveram, ainda mais recuado no tempo, o Hotel Marujo, o Hotel Caravela e o Itamaracá Hotel, e, mais recentemente, o Hotel Pousada Itamaracá. E, por ironia, olhando a partir das terras da Fazenda Santa Rita, no outro lado do Canal de Santa Cruz, no município de Igaraçu, nós podemos ver o enorme e há anos abandonado Hotel Gavoa, empreendimento que, para ser construído, requereu a derrubada de um pedaço considerável da Mata Atlântica.

Como se pretende construir um resort num destino turístico que viu serem fechados vários hotéis e pousadas ao longo de décadas? Alguém já se perguntou por que razão os estabelecimentos de hospedagem que eu mencionei ainda há pouco  fecharam as suas portas? O que efetivamente empaca e atrapalha o desenvolvimento da Ilha de Itamaracá é a falta de infraestrutura, de locais para a prática de esportes, de saneamento básico, de pavimentação de ruas, de limpeza das praias, de enfrentamento das invasões de terrenos e construções em lugares como a faixa da orla de Jaguaribe, que favelizam espaços da cidade, de abastecimento regular de água, de ordenamento urbano - é um horror o entorno do Centro de Mamíferos Aquáticos, por exemplo -, de atrações culturais, etc. A construção de um resort por si só não vai resolver os problemas da cidade-ilha onde milhares de pessoas nem sequer pagam IPTU e contas água e luz, enchem as ruas de lixo e ainda cobram o seu desenvolvimento sem contribuir com absolutamente nada para tanto.

Parte do público que integrou o grupo de caminhantes do evento de hoje era formada por professores, jornalistas - conheci lá quase toda a equipe do Jornal do Grande Recife: além de Fernando Melo, Dani Morais e Genilse Gonçalves - e estudantes, gente que parecia interessada em aprender sobre a figura do Padre Pedro de Souza Tenório e conhecer a tão falada "trilha dos holandeses", uma trilha, um caminho  que, apesar do nome, era percorrido também pelos portugueses e, antes deles, pela população nativa, pelos povos originários que habitavam a Ilha de Itamaracá no tempo anterior à chegada dos europeus àquela terra.


Com Fernando Melo, Genilse Gonçalves e...



Dani Morais, todos do Jornal do Grande Recife

Sou da opinião de que eventos como esse, do qual eu participei hoje com grande entusiasmo, despertam e/ou podem despertar o interesse em relação à preservação da natureza, a acontecimentos históricos e a personagens do nosso passado; despertar esse que, eu acredito, tem um grande potencial de influenciar indivíduos que possam contribuir para salvaguardar, proteger e defender os nossos valores históricos, artísticos, culturais e naturais fortalecendo, assim, a defesa da nossa memória e do nosso bem viver. Nenhum projeto de desenvolvimento e nenhuma proposta e ideia de progresso que promova, em conjunto, o sacrifício do meio ambiente e o sepultamento de nossa história pode ser tomado como desenvolvimento e progresso de fato, muito pelo contrário.