Por Sierra
Os assassinos estão livres,
nós não estamos.
O Teatro dos Vampiros. Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e Renato Russo
Não, eu não vou bancar aqui o sociólogo e nem o
especialista em segurança pública para tratar desse caso estarrecedor e
chocante que foi o espancamento e linchamento do Cláudio Rafael Landeiro
Moreira, de 37 anos, na noite do último dia 11 de agosto, em Copacabana, no Rio
de Janeiro, a cidade que, apesar dos tantos pesares, ainda é chamada de
"maravilhosa" e que, na verdade nua e crua é, como tantas outras deste
país, impiedosa, cruel, desumana e assassina, e onde, para recorrermos a uma
expressão cunhada pela filósofa alemã Hannah Arendt, impera a "banalidade
do mal". Este meu artigo o que carrega em seu bojo e finalidade é a
pretensão de render minha solidariedade e o meu afeto aos familiares desse
rapaz que acabou morrendo no dia seguinte, num hospital, devido à gravidade das
lesões provocadas por socos, chutes e pauladas.
Decerto que a criminalidade desenfreada não é um
privilégio do Rio de Janeiro; a violência marca o cotidiano de inúmeras cidades
deste país preenchendo diariamente as crônicas policiais com relatos os mais
escabrosos e aterrorizantes; realidade essa que, diga-se de passagem, não se
estabeleceu de ontem para hoje em nossa sociedade; a insegurança, a violência e
a criminalidade são pesadelos reais que nos perseguem há décadas.
Segundo o noticiário que registrou o caso ocorrido em
Copacabana - e que eu vou relatar aqui de modo muito resumido - o que houve foi
o seguinte: Cláudio Rafael Landeiro Moreira foi abordado pelo segurança de um
restaurante na Rua Barata Ribeiro, que suspeitara que a bicicleta, com a qual
ele estava, fosse fruto de um roubo; daí a pouco, nessa abordagem, apareceram
outros caras - as investigações apuraram que no grupo figuravam mais um
segurança e dois entregadores - que conduziram o rapaz para outra rua e, lá,
deram início aos atos covardes e bárbaros de espancamento e de linchamento que
resultaram na morte do jovem que saíra de casa para pedalar nos arredores.
O que leva alguém a espancar um indivíduo até a morte?
Será que é a ausência de consciência de que está praticando um crime? A
confiança de que, no final das contas, a Justiça será benevolente demais para com
ele e livrará sua cara impondo uma puniçãozinha de nada? Ou será que episódios
como esse ocorrem porque os seres humanos carregamos conosco uma maldade e uma
crueldade inatas que fazem da violência um exercício que, em menor ou maior
grau, deve ser praticado diariamente?
Li, em mais de uma matéria que abordou o crime, que
Cláudio Rafael Landeiro Moreira foi atacado, espancado, linchado e morto porque
foi "confundido com um ladrão. Então quer dizer que, se eu e você virmos
um indivíduo suspeito de ter praticado um assalto ou um furto vamos tratar não
só de detê-lo como também de tirar a vida dele? E onde é que entram as polícias
nessa história? E para que é que servem os aparatos legais do Estado que, em
tese, atuam para salvaguardar, proteger e punir a todos pela prática de
delinquências?
O filósofo e psicanalista francês Roger Dadoun
escreveu um breve e contundente ensaio no qual, recorrendo a inúmeras fontes,
incluindo a Bíblia, obra tão influente sobretudo no chamado mundo ocidental,
ele relatou seguidos casos de violência praticados pelo "homo
violens" ao longo de sua história. Dadoun acreditava que o ser humano que
ele analisou em sua narrativa era "definido, estruturado, intrínseca e
fundamentalmente pela violência". Mais adiante, no texto introdutório, ele
registrou o seguinte, recorrendo à etimologia latina da palavra violência:
"Violência"
vem do latim vis que significa
"violência", mas também "força", "vigor",
"potência"; vis designa
mais precisamente o "emprego da força", as "vias de fato",
assim como a "força das armas". Muito esclarecedor para nós é o fato
que vis serve para marcar o
"caráter essencial", a "essência" de um ser - o que
solidifica nossa hipótese da violência como essência do homem (essência bem
singular, na verdade, posto que "autodestrutiva" por vocação)
(Roger Dadoun. A violência: ensaio acerca
do "homo violens". Trad. Pilar Ferreira de Carvalho e
Carmen de Carvalho Ferreira. Rio de Janeiro: DIFEL, 1998. Por ordem de citação,
p. 8 e 10).
Quer sejamos essencialmente violentos ou não, o fato é
que a prática da violência normalmente redunda em ações criminosas - como que
ratificando o pensamento de Roger Dadoun, um dos criminosos que agiram
Copacabana disse, em depoimento à polícia, que agiu "por instinto"
-; e que existe um arcabouço legal que tipifica e enquadra os delitos.
Nós estamos seguramente atravessando o período da
história em que, em escala de bilhões, os indivíduos foram mais monitorados e
vigiados não somente por olhos humanos, como também por retinas eletrônicas,
câmeras que estão instaladas e espalhadas por tudo quanto é canto, de vias
públicas a residências passando por estabelecimentos comerciais e órgãos
públicos, como num Big Brother. Acontece que nem isso intimida a prática de
crimes: o episódio de espancamento e linchamento do Cláudio Rafael Landeiro
Moreira foi registrado por câmeras de segurança, destaque-se isso.
Descrevendo uma cadeia de vigilância montada como uma
das medidas para se conter o contágio pela peste numa cidade de fins do século
XVII, o filósofo francês Michel Foucault, numa de suas obras mais conhecidas e
celebradas, nos disse assim:
A
cidade pestilenta, atravessada inteira pela hierarquia, pela vigilância, pelo
olhar, pela documentação, a cidade imobilizada no funcionamento de um poder
extensivo que age de maneira diversa sobre todos os corpos individuais - é a
utopia da cidade perfeitamente governada (Michel
Foucault. Vigiar e punir: nascimento da
prisão. 25ª ed. Trad. Raquel Ramalhete. Petrópolis: Editora Vozes, 2002, p.
164).
O Rio de Janeiro segue não sendo uma cidade
perfeitamente governada, de modo que a utopia urbana de "cidade
maravilhosa", dia após dia, é um pouco mais corroída, corrompida,
dilapidada e destruída. A criminalidade ali não está entranhada somente nos
complexos de favelas e nos morros onde gente de bem paga um alto preço a
traficantes e milicianos para sobreviver na ausência da força e do poder do
Estado; a criminalidade avançou e lançou os seus tentáculos para os apartamentos
à beira da praia ensolarada e para os refrigerados gabinetes governamentais.
Talvez não seja o caso de refundar o Rio de Janeiro e
todo um país e, sim, o estabelecimento de uma utopia tangível e possível de ser
instituída; uma utopia urbana na qual a cidade figure como um lugar de
segurança, onde o aparato policial e judicial realmente funcione para que
delinquentes e pessoas de bem confundidas com delinquentes nãos sejam
espancados, linchados e mortos por indivíduos que barbaramente pensam que
Justiça, de fato, é a que é feita com as próprias mãos.
Adeus, Cláudio Rafael Landeiro Moreira!




.jpeg)
.jpeg)


.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)


.jpeg)
.jpeg)





.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)

.jpeg)


.jpeg)
.jpeg)



.jpeg)
.jpeg)


.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)

.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)
.jpeg)

