31 de janeiro de 2026

Vasculhando brechós (1)

 Por Sierra


Fotos: Arquivo do Autor
Com um acervo gigante e muito variado, o Brechó Fábio Rodrigues - é ele mesmo que está sorridente no portão - é, sem sombra de dúvidas, digno de figurar na lista de pontos para se conhecer na capital paraibana 


Brechó Fábio Rodrigues. Não sei quantas  vezes eu, saindo da Rua Índio Piragibe e atravessando a Praça Venâncio Neiva, na parte do centro histórico de João Pessoa situada na chamada Cidade Alta - a Cidade Baixa, que é onde efetivamente aquela urbe começou no século XVI, é o bairro do Varadouro - mirava as janelas de um brechó instalado  numa casa antiga da Avenida General Osório e sempre adiava a minha visita àquele espaço, visita essa que, caso fosse acontecer, porque isso eu já decidira, daria ensejo para que eu iniciasse uma nova série em meu blog.

No último dia 7 de janeiro o meu namoro à distância do Brechó Fábio Rodrigues acabou porque, em companhia  do meu amigo Luiz Tavares, eu resolvi ir conhecer aquele espaço que há tempos mexia com a  minha imaginação e excitava o meu intelecto curioso e irrequieto.

Naquela manhã de muito calor, quem nos recepcionou no Brechó Fábio Rodrigues foi uma muito simpática e atenciosa Walquíria Ribeiro, que me repassou várias informações sobre o estabelecimento. E, assim que eu entrei naquele lugar, a primeira sensação que me chegou e me tomou foi a de estar num espaço de quase magia, mergulhado que eu fiquei num mundo particular repleto e ocupado por uma infinidade de objetos, um verdadeiro bric-à-brac distribuído por todos os cômodos e disposto em estantes, armários, cabides, preso em pregos, pendurado no telhado e mesmo acomodado no chão. É uma arrumação que, inevitavelmente, prende e aguça olhos curiosos como os meus que têm ânsia de tudo querer ver e apreender.

 










Por que o nome brechó?

 

A ideia muito difundida de brechós para o público em geral, que não tem familiaridade com eles, é ligada a estabelecimentos que comercializam essencial e principalmente roupas de segunda mão e, vá lá, calçados e acessórios, sobretudo itens femininos.




O Brechó Fábio Rodrigues possui um mix de itens que é simplesmente espantoso e encantador


E como surgiram os brechós? Eu fui dar uma pesquisada na internet e verifiquei que o seu surgimento ocorreu na Europa, muito provavelmente a partir dos chamados mercados de pulgas franceses. E por que o nome brechó? Aí é outra história - e uma história um tanto quanto controversa e nebulosa. 











A versão mais repisada nos diz que, no Rio de Janeiro do século XIX, existia um comerciante português - alguns dizem que ele era francês - chamado Belchior que trabalhava com produtos usados; e que, a partir da corruptela de seu nome, começou a circular o termo brechó. Será que foi assim mesmo? Bem, eu não sei. O que eu sei é que o Bruxo do Cosme Velho, Machado de Assis, nos disse assim, num trecho do conto "Ideias de canário", publicado originalmente pela Gazeta de Notícias em 15 de novembro de 1895, descrevendo um estabelecimento repleto de quinquilharias e coisas usadas que, pelo menos no Rio de Janeiro, era conhecido como "loja de belchior", que foi visitada por um certo Macedo, que nela encontrou um canário que, segundo ele, era falante:

A loja era escura, atulhada das coisas velhas, tortas, rotas, enxovalhadas, enferrujadas que de ordinário se acham em tais casas, tudo naquela meia desordem própria do negócio. Essa mistura, posto que banal, era interessante. Panelas sem tampa, tampas sem panela, botões, sapatos, fechaduras, uma saia preta, chapéus de palha e de pelo, caixilhos, binóculos, meias casacas, um florete, um cão empalhado, um par de chinelas, luvas, vasos sem nome, dragonas, uma bolsa de veludo, dois cabides, um bodoque, um termômetro, cadeiras, um retrato litografado pelo finado Sisson, um gamão, duas máscaras de arame para o carnaval (sic) que há de vir, tudo isso e o mais que não vi ou não me ficou na memória, enchia a loja nas imediações da porta, encostado, pendurado ou exposto em caixas de vidro, igualmente velhas. Lá para dentro, havia outras coisas mais e muitas, e do mesmo aspecto, dominando os objetos grandes, uns por cima dos outros, perdidos na escuridão (Machado de Assis. "Ideias de canário". In Várias histórias. Obra completa em quatro volumes. Organização de Aluizio Leite, Ana Lima Cecilio e Heloisa Jahn. Vol.II. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 2008, p. 567).                                                                                                                                          







Eu adorei a ambientação, a disposição dos objetos e atmosfera desse lugar que, certamente, eu visitarei mais vezes



                                                                         

Não é curiosa essa descrição? Em vista disso eu resolvi folhear o meu velho e bom Aurélio que está sempre e sempre à disposição para consultas no meu birô de trabalho, e busquei o verbete belchior. Ei-lo:


belchior (xiór) sm. Bras. 1. Mercado de objetos velhos e usados. [Cf. brechó.] 2. Alfarrabista.                                                                                                                                                       

E brechó? Leiamos outro verbete desse mestre de todos nós: 


brechó sm. Bras. Loja de objetos velhos e usados. [Cf. belchior (1).] (Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Minidicionário da Língua Portuguesa. 3ª ed. Coordenação de Marina Baird Ferreira e Margarida dos Anjos. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1993, respectivamente p. 71 e 83).   


Em razão disso, eu acredito que foi igualmente uma dessas "lojas de belchior" que o meu adorado João do Rio  mencionou num artigo publicado em 1905. Leiam vocês e avaliem a descrição: "Se o Brasil é a terra da poesia, a sua grande cidade é o armazém, o ferro-velho, a aduana, o belchior, o grande empório das formas poéticas [...]” (João do Rio. "A musa das ruas". In A alma encantadora das ruas. Raúl Antelo org. . São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 377. O organizador nos informou, em nota de rodapé, que o artigo foi publicado originalmente no número 8 do segundo ano da revista Kosmos, de agosto de 1905, com o título "A Musa urbana").                                                                                                                                                                                                                                                                      Alguém já disse e eu concordo plenamente: querendo, nós aprendemos até morrer. A digressão foi um tanto quanto longa, não foi? Mas eu duvido que você, leitor, não tenha gostado dela.


Walquíria Ribeiro, uma ótima cicerone










Agora vamos lá. Onde foi que eu parei mesmo? Ah, sim, eu vinha dizendo que, normalmente, o grande público tem ideia que brechó é um lugar onde se buscam unicamente roupas, calcados e acessórios. Aí, você entra num brechó fabuloso como Brechó Fábio Rodrigues e fica bestificado diante de tantos e diversos objetos: tem brinquedos, muitos brinquedos; discos de vinil; alguns poucos livros e revistas; artigos de decoração; além, claro, de muitas roupas, calçados e acessórios.  

Eu levei um bom tempo ali dentro daquela casa antiga mirando e fotografando uma e outra  coisa com vista a ilustrar este artigo inaugural sobre brechós que eu planejara iniciar aqui no blog. E já ia me despedir da Walquíria Ribeiro quando, como se estivesse saindo de um portal de outra dimensão, apareceu o proprietário do brechó, Fábio Rodrigues, ele próprio uma figura muito magnética e interessante. E foi um encontro e tanto no calor aconchegante de um bom abraço. E nos pusemos a conversar. 

Fábio Rodrigues, de 43 anos de idade, é um manauara com aparência de viking de boutique  e radicado há um tempão em João Pessoa, que está, desde 1999, à frente do negócio de brechó, atividade essa que, segundo ele, sua mãe Maria de Lourdes já mantinha quando ele ainda era criança. A personalidade vibrante de Fábio Rodrigues, que pode nos fazer pensar que ele é ligado numa tomada de 500 volts ou que ele é mantido à custa de uma poderosa bateria de lítio, talvez explique por que ele não conseguiu concluir os cursos de Artes Visuais e Biblioteconomia que chegou a iniciar.






Gente, esse Fofão, só ele, me levou a um mergulho em minha infância. E eu ainda vi ali tantas coisas que me fizeram resgatar memórias e lembranças maravilhosas. E pensar que eu adiei tanto a minha ida ao Brechó Fábio Rodrigues






Com entusiasmo e brilho nos olhos típicos de quem faz aquilo de que gosta e de modo muito aguerrido e determinado, Fábio Rodrigues me disse das suas viagens e andanças para garimpar peças, andanças essas que o leva, inclusive, até às chamadas feiras do troca ou do troca-troca, verdadeiras instituições muito populares que têm lugar em feiras livres nordestinas. Já as viagens de garimpagens de peças não são restritas a cidades brasileiras; vez por outra ele embarca rumo a outros países em busca de verdadeiros tesouros para incrementar o seu brechó, que tem uma alta rotatividade de itens. Ele me confidenciou que planeja adquirir um motorhome para rodar por este país afora tanto garimpando como vendendo peças.                                                                                                     

Pode-se dizer que o forte do Brechó Fábio Rodrigues são roupas, calçados e acessórios? Sim; e também brinquedos. Só que a moda, no que diz respeito a roupas, pela movimentação que eu vi ali, é o grande chamariz do seu negócio que, diga-se de passagem, já ilustrou páginas das revistas Vogue e Elle.

Seguindo a visão de roupa "como comunicação, como meio de marcar posição, reforçar costumes e valores" - à qual eu acrescentaria a marcacão de um dado momento da História das sociedades - destacada pelo estilista Alexandre Herchcovitch (Alexandre Hercovitch. Cartas a um jovem estilista: a moda como profissão. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007, p. 11-12), eu compreendi a relevância que esse segmento tem para o Brechó Fábio Rodrigues - e, eu imagino, para outros brechós, o que explica o fato de muitos deles só trabalharem com roupas, calçados e acessórios. Não se trata somente de ilustrar editoriais de moda; segundo me disse o próprio Fábio Rodrigues, o seu estabelecimento é bastante procurado por pessoas que, normalmente, entendem do riscado, tanto como consumidores, principalmente de peças vintage de marcas famosas ou não, como por diretores de arte de filmes e espetáculos teatrais; e ainda tem aqueles que alugam roupas e acessórios para bailes à fantasia, festas temáticas e afins. Ou seja, são várias as possibilidades.

 

Brechó é só um brechó?

 

Quando eu entrei no Brechó Fábio Rodrigues me veio à mente uma miríade de avaliações sobre aquele espaço. Pensei nos chamados gabinetes de curiosidades, que foram os precursores dos museus; e refleti sobre o transcurso do tempo na alma dos objetos, avaliando os caracteres de uso e desuso e também de testemunhos de uma época, o que me trouxe à lembrança fases da minha infância, das minhas pesquisas e um artigo do historiador Marcelo Rede, lido anos atrás, no qual ele disse que "os objetos perpassam contextos culturais diversos e sucessivos, sofrendo reinserções que alteram sua biografia e fazem deles uma rica fonte de informação sobre a dinâmica da sociedade" (Marcelo Rede. "História a partir das coisas: tendências recentes nos estudos de cultura material”. Anais do Museu Paulista: História e cultura material. São Paulo: Nova série. Vol. 4, jan/dez. 1996, p. 276).
















Outra reflexão que me chegou, enquanto eu me encontrava ali envolvido por tantos objetos, foi ver aquele brechó mantido num imóvel histórico na segunda rua mais antiga da capital paraibana - a atual Avenida General Osório é a primitiva Rua Nova que aparece nas crônicas históricas - como um espaço de memória. Mas isso ele não poderia ser, porque, quase tudo que estava exposto ali - algumas das peças eram só de caráter decorativo -, se encontrava à  venda, estava à espera de um cenógrafo, de um diretor de arte, de alguém descolado e cool que adora andar por aí trajando peças vintage e, quiçá, à espera de colecionadores. Ou seja, o que estava em exibição ali não se encontrava imbuído de um caráter de preservação que normalmente é visto em espaços museais, embora dispusesse de inúmeros itens que poderiam figurar em acervos de museus.   

                                                                                                                                                      Lembram que eu lhes disse que o forte do Brechó Fábio Rodrigues são roupas, calçados, acessórios e brinquedos? E por que tantos e tantos brinquedos?                                                                                                       

Ao comentar com Fábio Rodrigues que eu ficara impressionado com tamanha quantidade de brinquedos que estava vendo ali, ele me disse que já fora um colecionador justamente de brinquedos.











Como bem sabe quem entende de colecionismo ou quem já colecionou algo, colecionar é um exercício que, por vezes, beira o irracional, porque mexe o tempo todo com nossos mecanismos de satisfação e de prazer; e sem falar da ansiedade por querer mais e mais itens para fazer o acervo crescer. Maurice Rheims escreveu que "O gosto pela coleção é uma espécie de jogo passional" (Apud Jean Baudrillard. In O sistema dos objetos. Trad. Zulmira Ribeiro Tavares. São Paulo: Editora Perspectiva, 1973, p. 95). E eu vi que, em Fábio Rodrigues, esse jogo em parte permanece; percorrendo a casa que ele construiu por trás do brechó "dialogando com o imóvel antigo", conforme a recomendação expressa dos órgãos de proteção do patrimônio histórico edificado - e que ele divide com alguns cães e gatos -, eu pude conferir o cuidado e o zelo com que ele conserva vários e vários brinquedos do seu acervo pessoal, deixando à mostra que ele não se desvencilhou de todo dessa sua paixão.  

 

 Ponto de partida    


                                                                                                                                                      Fazendo, agora, uma avaliação geral da visita que eu fiz ao Brechó Fábio Rodrigues com vistas a, como eu disse, dar início a uma série neste meu blog, eu penso que a minha escolha foi certeira. Certeira porque eu desfrutei de um duplo e grande privilégio: entrei e explorei um brechó que é incrível; e tive um encontro desses que são inesquecíveis, ao conhecer o Fábio Rodrigues, que me deu muito prazer e que me fez um bem danado.                                                                                            


Em muito boa companhia: Obrigado, Fábio Rodrigues, pela recepção calorosa e pelos suvenires todos


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