28 de fevereiro de 2026

Mortes na desordem urbana

Por Sierra


Foto: Pilar Olivares/Reuters
Flagrante de um deslizamento de terra ocorrido em Juiz de Fora (MG). A ocupação desordenada de morros e encostas é uma realidade que pode ser encontrada por todo esse país afora. Sem ordenamento e planejamento urbano, infelizmente, tais ocupações seguem como partes de uma crônica de tragédias anunciadas



As notícias não param de chegar de Minas Gerais nos dando conta de que, as chuvas que têm caído em algumas cidades mineiras nos últimos dias, provocaram deslizamentos de encostas, desabamentos de casas, inundações e dezenas de mortes de pessoas.

As imagens transmitidas pelas TV's, sites de notícias e redes sociais mostram paisagens destruídas, escombros, acúmulo de lama, restos de móveis e, claro, pessoas desoladas chorando seus mortos e perdas todas enquanto militares do Corpo de Bombeiros, voluntários e a Defesa Civil trabalham arduamente em busca de sobreviventes sob a terra encharcada e o que restou das construções que a enxurrada pôs abaixo.

O que vimos acontecer, principalmente em Juiz de Fora e em Ubá, é um retrato, um microcosmo da situação que resulta do desordenamento urbano imperante neste país. Quem já visitou cidades mineiras - eu conheci algumas durante os anos de 2018 e 2019 - observou que o relevo montanhoso é marcado, em grande parte, pela ocupação de casas. Ou seja, o poder público, que tem conhecimento, que sabe que tais aglomerados de imóveis são prenúncios de tragédias como as que ocorreram nesta semana em Juiz de Fora e em Ubá, não faz nada para coibir isso, inação essa que, no mais das vezes, está intrinsecamente ligada a interesses eleitorais e/ou ao descaso puro e simples.

Um olhar atento para alguns cenários urbanos nos põe em face de quadros estarrecedores no que diz respeito à falta de infraestrutura, ocupação desordenada e uso indevido do solo. E isso engloba uma série de situações: vai desde a construção de casas em encostas, passa por ocupação de leitos de rios e córregos e chega até a obstrução, ainda que, às vezes, apenas parcial, da passagem dos cursos de água. E isso são elementos de uma crônica dolorosamente previsível: quando chover forte, provavelmente coisas muito ruins vão acontecer, porque a água vai ter de escorrer por algum lugar e, se ela encontra obstáculos no caminho, trata de abrir passagem e seguir.

O Brasil tem um histórico extenso de tragédias como as que agora estã marcando Juiz de Fora e Ubá. Muitos foram os mortos que nós já vimos sendo retirados debaixo da lama dos morros do Recife, de Salvador e das cidades serranas do Rio de Janeiro, só para ficarmos nesses três exemplos. Mesmo numa cidade que nasceu planejada, como foi o caso de Belo Horizonte, o caos da ocupação urbana desordenada se impôs, sobretudo em suas áreas de terrenos muito íngremes.

Apesar de todos esses repetidos e trágicos acontecimentos, que vemos todos os anos passarem como se fossem um filme ininterruptamente reprisado, as políticas públicas continuam como que alheias a essa dura realidade que salta aos olhos dos governantes e que, ao que parece, eles fingem não ver..


O déficit habitacional é um problema que continua se arrastando entre nós como se fosse insolúvel. As ações visando a melhorias do universo urbano, sobretudo para a diminuição das deficiências que dificultam a vida das camadas mais pobres da sociedade, não têm conseguido fazer com que, anualmente, em períodos de chuvas intensas, nós deixemos de lamentar, chorar e enterrar pessoas vitimadas pelos deslizamentos, enxurradas, desabamentos e inundações como se, tal qual a precipitação pluviométrica, tudo isso fosse algo natural.

É um fato incontestável que desastres naturais não atingem somente moradores das chamadas áreas de risco, como vimos na inundação de Porto Alegre e o caos que se instala em São Paulo toda vez que chove forte. Contudo, quem vive em casas construídas em encostas e zonas ribeirinhas é quem está convivendo com um perigo iminente, é quem está mais vulnerável e sujeito a ser vitimado por tragédias como as que nos últimos dias atingiram bairros de Juiz de Fora e de Ubá, lá em Minas Gerais.

Infelizmente, quando a chuva passar, os mortos forem enterrados e os entulhos forem retirados dos locais das tragédias, tudo voltará à normalidade pontuada pelo desencanto, pela desesperança, pelo descaso, pelo abandono, pelo sono mal dormido e pelo medo da próxima chuva forte que certamente cairá de novo.

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