Por Sierra

Fotos: Arquivo do Autor
Rua Jenipapo: temporadas de chuvas são um terror na Ilha da Itamaracá com ruas alagadas e inundações de casas
De acordo com os dados divulgados pela Agência
Pernambucana de Águas e Clima (Apac), até o meio-dia da última quarta-feira,
considerando o acumulado de 24h, choveu na Ilha de Itamaracá, onde eu moro,
162,4 mm, o volume mais alto de toda a Região Metropolitana do Recife. E todo
esse acumulado pluviométrico causou transtornos e aborrecimentos - e eu imagino
que, também, perdas materiais para algumas pessoas - em várias partes da
ilha-cidade que é marcada por um urbanismo que está longe, muitíssimo longe de
ser satisfatório.
Há muitas coisas fora do lugar na Ilha de Itamaracá em termos de urbanização e de gerenciamento da administração municipal, para ser mais claro e objetivo; um lugar que é essencialmente marcado pela falta de saneamento básico; por ocupações desordenadas; e por ruas que, sendo calçadas e pavimentadas, apresentam a mesma deficiência das que são de terra batida: não têm escoadouros de águas, sejam elas pluviais ou servidas.

Outros registros da Rua Jenipapo
E o resultado disso são extensas áreas alagadas todas as vezes que caem chuvas abundantes. E não se vê perspectiva de alteração dessa realidade porque sucessivas administrações municipais parecem ignorar o que qualquer pessoa enxerga aqui e ali nas quatro estações do ano. E, quando uma Municipalidade junta o descaso e a indiferença com a incompetência para solucionar problemas os mais comezinhos que sejam, não há mais a quem apelar.
Vou lhes dar um exemplo muito claro disso: a Municipalidade já enviou, nos últimos meses, várias equipes da limpeza urbana para capinar frentes de casas e limpar o canal estreito que corta uma parte da Rua Jenipapo, no bairro do Forte Orange. Como eu disse, mais de uma vez o pessoal trabalhou na limpeza daquele logradouro; só que o serviço foi incompleto: a sujeira toda foi reunida - em mais de uma ocasião, destaco isso - e deixada amontoada em alguns pontos ao longo da parte baixa da rua, no calçamento e ao lado do canal - se você, leitor, passar por ela agora verá que a demora está sendo tanta que o mato já cresceu sobre a sujeira, sujeira essa que só aumenta com o mau comportamento de uns espíritos de porco que, em vez de depositar o lixo no lugar habitual de recolhimento, lá na avenida principal, colocam suas sacolas plásticas e outros materiais sem préstimo sobre os montões de sujeira ajuntados pelos empregados da Prefeitura Municipal.
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| Dois registros da Rua Pau-ferro: logo ali em frente, onde aparece o calçamento de paralelepípedos, é a Rua Jenipapo |
A casa onde eu moro fica numa ruazinha feiosa, chamada Pau-ferro, à qual o calçamento de paralelepípedos não chegou e que é uma bifurcação da Rua Jenipapo. E, como ocorrera outras vezes, a alta pluviosidade provocou inundação do imóvel pertencente à minha mãe que, assim como outros moradores, confiou na falta de fiscalização da Municipalidade e ampliou a casa, reduzindo o espaço de passagem das águas da chuva e das ditas águas servidas pelo lado de trás dos imóveis, onde existe um córrego. Some-se a isso a destruição da cobertura vegetal de uma área de morro na vizinhança para a construção de casas e se tem um cenário montado para ocorrências como a que eu vivenciei novamente trasanteontem.
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| Imagens que mostram cômodos da casa tomados pela água suja: eu estou perto de me livrar deste pesadelo |
Assim como a maioria das cidades brasileiras, a Ilha de Itamaracá paga o preço da ausência de planejamento urbano sério e eficiente que seja mais do que ideias registradas em papel ou em arquivos de computador. Essa ausência de planejamento urbanístico e a incapacidade e a incompetência administrativas só fazem piorar a situação da ilha-cidade que segue apostando num futuro de redenção que nunca chega, porque, o que habitualmente aparece por lá, são forasteiros sempre muito dispostos a invadir terrenos, furtar água e energia elétrica e não pagar o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), ou seja, contribuindo tão somente para a degradação do lugar.
Na primeira vez que as águas da chuva invadiram a casa onde moro, eu senti um misto de sensações tão ruins que eu nuca me esqueci daquele dia tão desgraçado de minha vida. Felizmente eu fiz uma longa travessia, desde aquela ocorrência, e consegui juntar grana suficiente para comprar um imóvel noutra parte da ilha, parte essa que, apesar de conter em seu entorno alguns dos mesmos problemas que marcam o pedaço de chão onde resido, porque estou ainda reformando a casa que eu adquiri, não me dará o desconforto de outra inundação. E certamente foi por saber que esta será a minha última temporada de chuva na casa localizada na Rua Pau-ferro que, quando a água suja começou a tomar alguns cômodos da residência, na manhã da quarta-feira passada, o acontecimento não me abalou de maneira alguma; o que ocorreu só deu um trabalho danado para eu e meu irmão limparmos. E só.
Frequentemente nós acompanhamos notícias de pessoas que morreram vitimadas por enchentes, deslizamentos de terras e inundações provocadas pela chuva onde geralmente o urbanismo falhou ou nem existiu, como ocorreu semanas atrás em Minas Gerais. Eu estou na iminência de me mudar e de sair de um local de risco para inundações e alagamentos, situações essas que só quem já teve a casa invadida pela água da chuva sabe descrever como é ruim; e eu lamento muitíssimo que tantas outras pessoas não possam também sair de onde estão para ir morar num lugar seguro.
Como antes dos temporais, a Rua Jenipapo - e nós da Rua Pau-ferro também - permanece à espera do recolhimento dos entulhos que os empregados da Prefeitura Municipal da Ilha de Itamaracá juntaram e deixaram nela para a chuva vir e carregar de novo para dentro do canal.
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