Por Sierra
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Fotos: Arquivo do Autor
Sessão de abertura do seminário: uma pena que o evento não tenha atraído um grande público, porque continua sendo urgente a defesa dos princípios democráticos
Um dos capítulos mais tenebrosos e desumanos de nossa
história recente, o Golpe Mlitar de 1964 e os seus desdobramentos e reflexos
foram, em parte, examinados, na última quinta-feira, num seminário promovido
pelo Núcleo de Educação, Cultura, Inclusão, Meio Ambiente e Diversidade em
Direitos Humanos (NECIMADH), da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), no campus de
Casa Forte, no Recife.
Com o tema "Estado, democracia e direitos humanos
no Brasil dos anos 60", o evento aconteceu em dois turnos, manhã e tarde;
e teve lugar na Sala Calouste Gulbenkian, um espaço que eu comecei a frequentar
há quase trinta anos, ainda na época da faculdade, e do qual eu guardo ótimas
recordações.
Depois de sermos embalados por Marcondes Oliveira que,
com voz e violão, apresentou as canções "Tempos modernos" (Lulu
Santos), "Tanto amar" (Chico Buarque) e "Canta coração"
(Geraldo Azevedo e Carlos Fernando), fazendo, digamos, uma pré-abertura, nós
acompanhamos a composição da mesa - a presidenta da Fundaj, professora Márcia
Angela Aguiar, não compareceu pela manhã por conta de um compromisso em
Brasília; e foi representada por José Amaro Barbosa, chefe de gabinete da
presidência da casa - e, logo em seguida, sob a mediação da historiadora Rita
de Cássia Barbosa de Araújo, da Fundaj, assistimos à palestra do
professor, pesquisador e ativista de direitos humanos Manoel Moraes.
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| Manoel Moraes e Rita de Cássia Barbosa de Araújo |
Com uma fala muito clara e precisa, Manoel Moraes fez um extenso recorte temporal para nos dizer como, desde o Brasil Colonial, com o massacre de povos originários, este país convive com os desrespeito aos direitos humanos. Com uma abordagem muito ampla, o palestrante recordou fatos e personagens como: Miguel Arraes; o Engenho Galileia, Francisco Julião; o Movimento de Cultura Popular; Gregório Bezerra; a Doutrina Monroe; a Aliança para o progresso; Pelópidas Silveira; Paulo Freire; Josué de Castro; o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES); o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD); as Comissões da Verdade; o professor Denis Bernardes; as políticas de reparação, individuais e coletivas para os perseguidos pela Ditadura Militar; etc. Foi uma explanação muito rica, abrangente e brilhante sob vários aspectos; e que foi seguida por de perguntas feitas por uma plateia que, lamentavelmente, não era numerosa - faltou gente para acompanhar e participar de um evento tão importante como esse.
No meio da pequena plateia se encontrava Jéssica
Morris, filha do pastor metodista Frederick Morris, que foi preso e torturado
durante os chamados Anos de Chumbo.
Após um intervalo para o almoço, o seminário foi
retomado e com um público ainda menor.
Na mesa redonda intitulada "O golpe civil-militar
e as repercussões para a educação brasileira" falaram Clodoaldo Meneguello
Cardoso e Maria Nazaré Tavares Zenaide, ele da Universidade Estadual Paulista,
campus de Bauru, e ela da Universidade Federal da Paraíba, ambos mediados por
Edna Silva, da Fundaj.

Da esquerda para a direita: Maria Nazaré, Clodoaldo Meneguello e Edna Silva
Com uma serenidade toda sua, o professor Clodoaldo Mneguello enfaticamente destacou que "O golpe abortou um projeto de democracia social e reformista". Ele disse ainda que a ideia de liberdade não deve ser pensada como algo individual e, sim, dentro de uma coletividade, porque, segundo ele, não se pode falar do individual sem falar do social e vice-versa.
Em sua explanação, a professora Maria Nazaré, entre
outros pontos, destacou que João Goulart era um empecilho para o projeto de
hegemonia norte-americana no Brasil; e que a discussão em torno das chamadas
"escolas sem partido" é uma afronta à pluralidade e à diversidade de
ideias registradas pela Constituição do país.
Anteontem, 16 de abril, em pleno Dia Nacional de
Lembrança do Holocausto, a Fundação Joaquim Nabuco que, no dizer de Rita de
Cássia Barbosa de Araújo, "Está sempre revolvendo a questão do
Golpe", promoveu um seminário no qual foram explanados e debatidos
assuntos referentes à Ditadura Militar cujos reflexos são sentidos até hoje,
principalmente quando, no cenário político, pululam figuras e personagens que
defendem a decretação de outro estado de exceção neste país e que celebram
torturadores e falam contra os direitos humanos.
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| A presidente da Fundaj, Márcia Angela Aguiar, compareceu à tarde ao evento |
Antes de terminar eu quero registrar aqui uma fala do
patrono da Educação brasileira que Aída Monteiro, coordenadora do NECIMADH,
trouxe à baila na sessão de abertura do seminário, ao exibir a participação
dele numa edição do Programa Livre,
do Serginho Groisman: "Tomemos um tal gosto pela liberdade, um tal gosto
pela presença no mundo, pela pergunta, pela criatividade, pela ação, pela
denúncia, pelo anúncio que jamais seja possível, no Brasil, a gente voltar
àquela experiência do pesado silêncio sobre nós".
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| Jéssica Morris |
Que estas palavras de mestre Paulo Freire continuem ecoando em nossos ouvidos, como alerta, para que não mais permitamos que os inimigos da democracia pisoteiem as leis e promovam as mais cruéis desumanidades contra todos aqueles que se recusam a aceitar toda e qualquer arbitrariedade usurpadora do livre pensar e do direito de ir e vir.



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