Por Sierra

Foto: Arquivo do Autor
Às vezes, nos ônibus, nós nos deparamos com pessoas que falam como se tivessem empunhando um megafone. Misericórdia!
Uma das coisas inescapáveis na rotina de
quem utiliza ônibus para se deslocar é ouvir conversas alheias, porque tem
pessoas que, quando estão, normalmente com conhecidos, falam que só o homem da
cobra pelo tempo todo que durar a viagem. E há certas bocas de matraca que parecem
fazer questão de que suas falas sejam ouvidas por todos os passageiros, porque,
além de falarem pelos cotovelos, elas o fazem como se estivessem dispondo de um
megafone.
Quase sempre, quando eu consigo assento,
eu vou para os meus destinos lendo livros, prática essa que eu mantenho há
muitos anos. Habitualmente eu consigo me concentrar de tal maneira que ignoro
não somente conversas paralelas como também aparelhos de som e mesmo de
telefones celulares tocando músicas na maior altura. Acontece que, às vezes, o
nível de abstração está baixo e eu acabo tendo de ser tomado pelos barulhos do
ambiente.
Não posso negar que, sem qualquer
cerimônia, eu passo intencionalmente a ouvir conversas, conversas essas que,
por vezes, não ocorrem apenas entre dois indivíduos; tem conversas das quais
participam três ou mais pessoas, como a sobre a qual eu vou discorrer a partir
do parágrafo seguinte.
Eu me encontrava num ônibus, à noite,
voltando para casa e acomodado num dos assentos lá do fundo. Daí a pouco,
quatro mulheres que se conheciam começaram a falar dos seus maridos. Eu era
todo ouvidos; e me pus, no meu cantinho, a escutar o que elas tratavam. O
assunto dominante era a convivência com os cônjuges envolvendo duas questões, a
saber: a necessidade de elas trabalharem para aumentar a renda familiar; e as
diferenças que uma delas, que era evangélica, mantinha com o seu marido que,
pela descrição que ela fez, era kardecista, algo que ela abominava.
Tanto quanto as suas demonstrações de
discordância para com as crenças espirituais do marido me chamou muito a
atenção o modo ríspido e autoritário com que ela narrava a sua versão dos fatos
de seu convívio com o esposo.
Altiva, prepotente, cheia de confiança e
carregando consigo uma certeza que a religião que ela professava era a única certa
e verdadeira, a mulher não apenas abriu a boca para dizer que trabalhava
para si e não para ajudar nas despesas da casa como também se apresentava como
se fosse uma inimiga do próprio marido.
Eu fiquei espantado ouvindo as falas
daquela mulher compartilhadas com outras três, as quais ela parecia
impressionar com uma postura raivosa e, a meu ver, incompatível com o discurso
eivado de citações bíblicas às quais ela recorria para desqualificar e
desacreditar a religião do esposo dela. Ela deixava ver que vivia a azucriná-lo
por conta desse aspecto existencial do marido, porque, aos olhos dela, pela
interpretação que ela fazia da Bíblia, o seu cônjuge estava tomando parte numa
crença que, segundo as suas palavras, era maligna e demoníaca. "Está na
Bíblia, né? Eu já disse várias vezes a ele e ele não liga. Às vezes Deus me usa
para enfrentar o meu marido. E eu o enfrento, sim, porque eu não sou obrigada a
aceitar isso, não. Mas a cabeça é dele, né? Cada cabeça é um mundo. E Deus tá
vendo tudo", ela falou. "Eu sei que tem dia que o inimigo [o diabo]
parece que tá no corpo dele. Mas eu não me intimido; eu enfrento para a honra e
glória do Senhor", ela emendou.
O modo exaltado como aquela mulher
evangélica falava do próprio marido foi um assombro para mim. Uma de suas
interlocutoras, que eu conheço de longa data, firme e segura disse que
trabalhava para ajudar o esposo, "porque eu entendo que deve ser assim um casamento:
um tem de apoiar o outro, eu acho". A evangélica discordou dela afirmando:
"Pois o dinheiro que eu ganho no meu emprego é só pra mim. Ele que se vire
pra dar conta das despesas da casa", ela completou em tom de quem se cria
senhora absoluta do seu lar, um lar que, de acordo com as suas palavras, era de
difícil acesso e muito longe da avenida principal.
Apesar de eu ter, em algum momento em que ouvia a conversa, ficado pasmo com a maneira como aquela mulher, que se dizia evangélica, falava do próprio marido, eu considerei que, caso fosse realmente verdadeiro o seu relato - não é incomum que, em roda de amigos, uns e outros costumem dourar a pílula sobre ações e acontecimentos de suas vidas -, os problemas reais que ela carregava eram só dela e não do cônjuge; a meu ver, ela vivia se arrastando com o peso de seus preconceitos, frustrações e falta de compreensão dos sentimentos e entendimentos de mundo do seu companheiro.
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