18 de julho de 2026

Personas urbanas (39)

 Por Sierra

 

Tá vendo aquele edifício, moço?

Ajudei a levantar.

Foi um tempo de aflição

Era quatro condução

Duas pra ir e duas pra voltar.

Hoje depois dele pronto

Olho pra cima e fico tonto

Mas me vem um cidadão

E me diz, desconfiado

Tu tá aí admirado 

Ou tá querendo roubar?

                                           Cidadão. Lúcio Barbosa


 

Os outros também somos nós. A cultura do personalismo, do “eu sou muito mais importante e melhor do que você” e do “com esse tipo de gente eu não me misturo” se exacerbou de tal forma nas sociedades de vários países que há quem pense e acredite que consegue, sim, viver apartado de corpo e alma dos "outros".

Evidentemente que esse querer se manter distante, afastado o máximo que for possível e protegido dos "outros" não é um sintoma que começou nos tempos de agora de condomínios de alto padrão ultramegavigiados por seguranças armados, muros com cercas eletrificadas e câmeras ligadas 24h por dia. Não, isso remonta há muito tempo atrás, só que, claro, dispondo de outros meios e artefatos, como muralhas, fossos e pontes elevadiças. Tudo montado para se proteger dos "outros", os inimigos.

Como só mudaram as formas e os meios de proteção e de como se manter separado dos "outros" no decorrer dos séculos, podemos considerar que o tão alardeado e incensado processo civilizatório também falhou nesse ponto, uma vez que, como se vê, não atingiu a todos os indivíduos; e uns e outros continuaram a ser encarados como perigosos e indesejáveis. Nossas cidades ainda são demarcadas em partes e territórios onde de um lado impera a riqueza e de outro a pobreza, estando esta frequentemente associada à degradação de costumes e à criminalidade, como se todos os pobres fossem delinquentes e todos os ricos gente honesta.

Nem sempre os "outros" estão distantes de quem deles quer ficar separado.  O muro alto, a cerca eletrificada, as câmeras e os sistemas de segurança não os afastam por completo porque a realidade social dos que estão, digamos, no topo da cadeia alimentar e de consumo, depende inescapavelmente dos "outros", que constituem, no fim das contas, a mão de obra que faz com que a ilusão de quem pensa estar à parte do restante da sociedade, por conta de sua riqueza, se mantenha acesa.

Frequentemente nós agimos e tomamos decisões no nosso dia a dia pensando só e somente só em atender às nossas necessidades individuais e, no máximo, às necessidades dos nossos familiares. Talvez porque nos ensinaram que cada um deve se virar sozinho, nos movemos, no mais das vezes, sem defender e/ou sem considerar que o bem-estar dos "outros" também deve ser uma pauta existencial, porque é uma completa e total ilusão pensar que um muro alto e uma câmera ultramegasofisticada irá nos proteger completamente do mundo lá de fora.

A ideia de que, estando do lado de cá das muralhas e das cercas eletrificadas, estamos no melhor dos mundos, a meu ver, elimina gradativamente a noção que existe em nós de humano e de humanidade. A pessoa que, por exemplo, aparece exibindo sua mansão num programa de televisão dominical não é mais gente do que aquele rapaz que diariamente você vê vendendo uma coisa e outra no fiteiro que fica próximo ao semáforo da avenida por onde você passa com seu carrão. Você pode até se sentir superior à babá dos seus filhos, porque você é endinheirada, mas isso não altera o fato de que você depende dela para tocar o seu dia a dia dentro de sua casa e para além dela.

Por que será que, muitas vezes, ficamos indiferentes às dores e às necessidades dos "outros"? Por que  continuamos a repetir ações de irresponsabilidade e de egoísmos plenamente conscientes de que os nossos atos prejudicarão um sem-número de indivíduos? Por que continua a persistir em tantos de nós a crença de que, efetivamente, nós e somente nós é que importamos e os "outros" não? Por que é que o nosso senso de justiça e de humanidade continua sendo seletivo e excludente?

Não é de hoje que vivemos em sociedades profundamente marcadas por desigualdades econômicas, algo que indiscutivelmente sempre promoveu a crença de que existem seres humanos melhores do que outros porque medidos pelo que eles materialmente possuem e desfrutam. Nessa rotina na qual continuamos a seguir, por mais que tantos se recusem a admitir isso, o fato é que os "outros" também somos nós; cercas eletrificadas e muros altos nos separam fisicamente, mas o que nós sentimos e aquilo de que essencialmente necessitamos para sobreviver permanece sendo igual para todos, quer uns aceitem e reconheçam isso ou não.

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