Por Sierra
Tá vendo aquele edifício, moço?
Ajudei a levantar.
Foi um tempo de aflição
Era quatro condução
Duas pra ir e duas pra voltar.
Hoje depois dele pronto
Olho pra cima e fico tonto
Mas me vem um cidadão
E me diz, desconfiado
Tu tá aí admirado
Ou tá querendo roubar?
Cidadão.
Lúcio Barbosa
Os outros também somos nós.
A cultura do personalismo, do “eu sou muito mais importante e melhor do que
você” e do “com esse tipo de gente eu não me misturo” se exacerbou de tal forma
nas sociedades de vários países que há quem pense e acredite que consegue, sim,
viver apartado de corpo e alma dos "outros".
Evidentemente que esse querer se manter distante,
afastado o máximo que for possível e protegido dos "outros" não é um
sintoma que começou nos tempos de agora de condomínios de alto padrão ultramegavigiados
por seguranças armados, muros com cercas eletrificadas e câmeras ligadas 24h por
dia. Não, isso remonta há muito tempo atrás, só que, claro, dispondo de outros
meios e artefatos, como muralhas, fossos e pontes elevadiças. Tudo montado para
se proteger dos "outros", os inimigos.
Como só mudaram as formas e os meios de proteção e de
como se manter separado dos "outros" no decorrer dos séculos, podemos
considerar que o tão alardeado e incensado processo civilizatório também falhou
nesse ponto, uma vez que, como se vê, não atingiu a todos os indivíduos; e uns
e outros continuaram a ser encarados como perigosos e indesejáveis. Nossas
cidades ainda são demarcadas em partes e territórios onde de um lado impera a
riqueza e de outro a pobreza, estando esta frequentemente associada à degradação
de costumes e à criminalidade, como se todos os pobres fossem delinquentes e
todos os ricos gente honesta.
Nem sempre os "outros" estão distantes de
quem deles quer ficar separado. O muro alto, a cerca eletrificada, as
câmeras e os sistemas de segurança não os afastam por completo porque a realidade social dos
que estão, digamos, no topo da cadeia alimentar e de consumo, depende
inescapavelmente dos "outros", que constituem, no fim das contas, a
mão de obra que faz com que a ilusão de quem pensa estar à parte do restante da
sociedade, por conta de sua riqueza, se mantenha acesa.
Frequentemente nós agimos e tomamos decisões no nosso
dia a dia pensando só e somente só em atender às nossas necessidades
individuais e, no máximo, às necessidades dos nossos familiares. Talvez porque
nos ensinaram que cada um deve se virar sozinho, nos movemos, no mais das
vezes, sem defender e/ou sem considerar que o bem-estar dos "outros"
também deve ser uma pauta existencial, porque é uma completa e total ilusão
pensar que um muro alto e uma câmera ultramegasofisticada irá nos proteger
completamente do mundo lá de fora.
A ideia de que, estando do lado de cá das muralhas e
das cercas eletrificadas, estamos no melhor dos mundos, a meu ver, elimina
gradativamente a noção que existe em nós de humano e de humanidade. A pessoa
que, por exemplo, aparece exibindo sua mansão num programa de televisão
dominical não é mais gente do que aquele rapaz que diariamente você vê vendendo
uma coisa e outra no fiteiro que fica próximo ao semáforo da avenida por onde
você passa com seu carrão. Você pode até se sentir superior à babá dos seus
filhos, porque você é endinheirada, mas isso não altera o fato de que você
depende dela para tocar o seu dia a dia dentro de sua casa e para além dela.
Por que será que, muitas vezes, ficamos indiferentes
às dores e às necessidades dos "outros"? Por que continuamos a
repetir ações de irresponsabilidade e de egoísmos plenamente conscientes de que
os nossos atos prejudicarão um sem-número de indivíduos? Por que continua a
persistir em tantos de nós a crença de que, efetivamente, nós e somente nós é
que importamos e os "outros" não? Por que é que o nosso senso de justiça
e de humanidade continua sendo seletivo e excludente?
Não é de hoje que vivemos em sociedades profundamente marcadas por desigualdades econômicas, algo que indiscutivelmente sempre promoveu a crença de que existem seres humanos melhores do que outros porque medidos pelo que eles materialmente possuem e desfrutam. Nessa rotina na qual continuamos a seguir, por mais que tantos se recusem a admitir isso, o fato é que os "outros" também somos nós; cercas eletrificadas e muros altos nos separam fisicamente, mas o que nós sentimos e aquilo de que essencialmente necessitamos para sobreviver permanece sendo igual para todos, quer uns aceitem e reconheçam isso ou não.
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