Por Sierra
Desde pelo menos os anos em que ficaram em
evidência as discussões e os protestos em torno do megaprojeto de gentrificação
do Cais José Estelita, no bairro de São José, um dos núcleos primitivos do
Recife - os outros são os bairros de Santo Antônio, Bairro do Recife e Boa
Vista -, obra essa que vinha na esteira do que se verificara no Cais de Santa
Rita, onde foram erguidos dois prédios de alto padrão que uns e outros
apelidaram de Torres Gêmeas, o espaço de ocupação urbana mais antiga do Recife,
se estendendo até o bairro de Santo Amaro, veio paulatinamente sendo tomado por
uma verticalização que parecia estar desenfreada, ao mesmo tempo em que se
observava que vários exemplares do patrimônio histórico edificado da cidade
foram deixados de lado, abandonados e entregues à própria sorte. E por que
isso?
Bem, enquanto a gentrificação avançou no
Cais de Santa Rita, no bairro de São José - lá construíram um hotel e demoliram
antigos armazéns de açúcar para levantar no terreno um centro de convenções - e
no bairro de Santo Amaro - nele foram erguidos vários edifícios nas imediações
tanta da Rua da Aurora como da Avenida Cruz Cabugá -, eu me perguntei: qual
será o destino dos velhos sobrados do Recife que se encontram, em alguns casos,
abandonados há mais de uma década?
Como eu já disse noutra ocasião, esse processo de abandono de edifícios que integram o patrimônio edificado da capital pernambucana também pode ser visto em centros históricos de capitais como o Rio de Janeiro, Salvador, Natal e João Pessoa, onde eu pude ver, in loco, acúmulos de ruínas e escombros. Mesmo políticas públicas de incentivos fiscais - tanto municipais como estaduais - para que os proprietários desses edifícios se vejam motivados a recuperá-los - recentemente eu fiquei sabendo que, em João Pessoa, a Prefeitura Municipal está abrindo mão da cobrança do Imposto de Transmissão de Bens Imóveis para quem comprar um imóvel no centro histórico - não têm conseguido livrar parte dos prédios antigos de um risco iminente de desabamento e, por conseguinte, de desaparecimento da paisagem dos lugares onde eles foram erguidos há dezenas e, às vezes, há centenas de anos.
Quem passa, por exemplo, por ruas como a
da Imperatriz e da Aurora (no bairro da Boa Vista) e a Rua 1º de Março (no
bairro de Santo Antônio) se depara com edificações que não estão nem um pouco
instagramáveis, para usarmos um neologismo derivado da rede social Instagram, onde costumeiramente são
postadas imagens de vídeos e fotografias flagrando pessoas, coisas e animais
bem bonitos. O estado de precariedade em que se encontram alguns dos sobrados
desses logradouros revela que o poder público continua sem conseguir fazer com
que os proprietários desses imóveis os restaure e revitalize; e o resultado
disso são cenários de abandono que não somente enfeam a cidade como fazem
qualquer um pensar que a Municipalidade não se importa para valer com a
preservação do que é palpável da memória urbana recifense.
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| Outro flagrante de sobrados que não estão de todo bem cuidados: estes aqui ficam na Praça Joaquim Nabuco |
Não é raro que se encontrem por aí casos
de Prefeituras Municipais que alugam imóveis para abrigar secretarias quando elas
poderiam desapropriar prédios abandonados que compõem o acervo do patrimônio
histórico edificado, restaurá-los e ocupá-los e, assim, livrá-los do risco de
ruírem ante o descaso e falta de consciência de preservação dos proprietários.
Por mais que uns e outros neguem a intenção
de abandonar completamente tais prédios para se livrarem dos custos de
restauração e de toda a carga de regras que os órgãos de preservação determinam
no trato e uso deles, o que se pode inferir, além disso, é que os seus
proprietários pretendem é remover tais edificações desses centros históricos e
erguer nos terrenos edificações outras que possam lhes render muito mais
dinheiro ou até mesmo transformar os espaços livres em estacionamentos de
carros.
Velhos e imponentes sobrados do Recife estão, há muitos anos, clamando e implorando por socorro e o poder púbico e os órgãos de preservação estão fazendo de conta que não os ouvem e que não os veem.


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