8 de agosto de 2026

Patrimônio & Descaso (IX)

 Por Sierra

 

Fotos: Arquivo do Autor
Esse conjunto de sobrados fica na Rua da Aurora, pertinho da Ponte da Boa Vista. O estado de abandono, que se arrasta há anos, me leva a crer que, infelizmente, esses prédios irão desaparecer da paisagem urbana recifense para darem lugar a sabe-se lá o quê


Desde pelo menos os anos em que ficaram em evidência as discussões e os protestos em torno do megaprojeto de gentrificação do Cais José Estelita, no bairro de São José, um dos núcleos primitivos do Recife - os outros são os bairros de Santo Antônio, Bairro do Recife e Boa Vista -, obra essa que vinha na esteira do que se verificara no Cais de Santa Rita, onde foram erguidos dois prédios de alto padrão que uns e outros apelidaram de Torres Gêmeas, o espaço de ocupação urbana mais antiga do Recife, se estendendo até o bairro de Santo Amaro, veio paulatinamente sendo tomado por uma verticalização que parecia estar desenfreada, ao mesmo tempo em que se observava que vários exemplares do patrimônio histórico edificado da cidade foram deixados de lado, abandonados e entregues à própria sorte. E por que isso?

Bem, enquanto a gentrificação avançou no Cais de Santa Rita, no bairro de São José - lá construíram um hotel e demoliram antigos armazéns de açúcar para levantar no terreno um centro de convenções - e no bairro de Santo Amaro - nele foram erguidos vários edifícios nas imediações tanta da Rua da Aurora como da Avenida Cruz Cabugá -, eu me perguntei: qual será o destino dos velhos sobrados do Recife que se encontram, em alguns casos, abandonados há mais de uma década?


Também na Rua da Aurora, só que em outro quarteirão e mais próximo ao Cinema São Luiz. Estes sobrados, como se vê na foto abaixo, são vizinhos de um que abriga o Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, administrado pela Prefeitura Municipal do Recife; eles estão abandonados há mais de dez anos




Como eu já disse noutra ocasião, esse processo de abandono de edifícios que integram o patrimônio edificado da capital pernambucana também pode ser visto em centros históricos de capitais como o Rio de Janeiro, Salvador, Natal e João Pessoa, onde eu pude ver, in loco, acúmulos de ruínas e escombros. Mesmo políticas públicas de incentivos fiscais - tanto municipais como estaduais - para que os proprietários desses edifícios se vejam motivados a recuperá-los - recentemente eu fiquei sabendo que, em João Pessoa, a Prefeitura Municipal está abrindo mão da cobrança do Imposto de Transmissão de Bens Imóveis para quem comprar um imóvel no centro histórico - não têm conseguido livrar parte dos prédios antigos de um risco iminente de desabamento e, por conseguinte, de desaparecimento da paisagem dos lugares onde eles foram erguidos há dezenas e, às vezes, há centenas de anos.

Quem passa, por exemplo, por ruas como a da Imperatriz e da Aurora (no bairro da Boa Vista) e a Rua 1º de Março (no bairro de Santo Antônio) se depara com edificações que não estão nem um pouco instagramáveis, para usarmos um neologismo derivado da rede social Instagram, onde costumeiramente são postadas imagens de vídeos e fotografias flagrando pessoas, coisas e animais bem bonitos. O estado de precariedade em que se encontram alguns dos sobrados desses logradouros revela que o poder público continua sem conseguir fazer com que os proprietários desses imóveis os restaure e revitalize; e o resultado disso são cenários de abandono que não somente enfeam a cidade como fazem qualquer um pensar que a Municipalidade não se importa para valer com a preservação do que é palpável da memória urbana recifense.


Outro flagrante de sobrados que não estão de todo bem cuidados: estes aqui ficam na Praça Joaquim Nabuco


Não é raro que se encontrem por aí casos de Prefeituras Municipais que alugam imóveis para abrigar secretarias quando elas poderiam desapropriar prédios abandonados que compõem o acervo do patrimônio histórico edificado, restaurá-los e ocupá-los e, assim, livrá-los do risco de ruírem ante o descaso e falta de consciência de preservação dos proprietários.

Por mais que uns e outros neguem a intenção de abandonar completamente tais prédios para se livrarem dos custos de restauração e de toda a carga de regras que os órgãos de preservação determinam no trato e uso deles, o que se pode inferir, além disso, é que os seus proprietários pretendem é remover tais edificações desses centros históricos e erguer nos terrenos edificações outras que possam lhes render muito mais dinheiro ou até mesmo transformar os espaços livres em estacionamentos de carros.

Velhos e imponentes sobrados do Recife estão, há muitos anos, clamando e implorando por socorro e o poder púbico e os órgãos de preservação estão fazendo de conta que não os ouvem e que não os veem.

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