5 de setembro de 2026

Todos nós devemos trabalhar para viver e não viver para trabalhar

 Por Sierra

 

Eu acordo pra trabalhar

Eu durmo pra trabalhar

Eu corro pra trabalhar

Eu não tenho tempo de ter

O tempo livre de ser

De nada ter que fazer.

                                   Capitão de indústria. Marcos Valle/Paulo Sergio Valle

 

Foto: Arquivo do Autor
Folha da minha carteira de trabalho: só quem enfrenta, todos os dias, os perrengues de encarar transporte público superlotado para ir tabalhar, muitas vezes em lugares muito distantes de onde mora e para ganhar no final do mês só um salário mínimo, sabe o quanto a escala 6X1 é massacrante e desumana

 

Faz pelo menos um ano que um debate do Congresso Nacional saiu dos gabinetes dos políticos atuantes em Brasília e ganhou espaço nas conversas de pessoas comuns, principalmente das que labutam brava e pesadamente de segunda-feira a sábado, não raro para receber no final do mês um salário mínimo ou pouco mais do que isso. O tema em questão é o que trata do fim da escala laboral 6X1, que significa que o indivíduo trabalha durante seis dias para poder folgar um. Ocorreu que, de uma hora para outra, uma discussão que era de caráter bastante restrito ganhou o cotidiano das massas; o cidadão tomou conhecimento dessa proposta e, claro, como não poderia deixar de ser, apoiou-a integralmente. Ora, essa, trabalhar menos e ter tempo para dar conta de outras necessidades da vida prática - ir ao médico; visitar um parente que mora distante; comparecer à escola dos filhos; pegar uma sessão de cinema; praticar atividades físicas; ler um livro; ou simplesmente descansar assistindo à sua série favorita no streaming - , eu presumo, é algo que muitos querem.

Como se desde que o mundo é mundo vigorasse a chamada Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) e existisse um e somente um regime de trabalho, a tal da infame escala 6X1, que é praticamente uma semiescravidão, principalmente, para todos aqueles que moram muito distante de seus locais de trabalho e que enfrentam, todos os dias, ônibus, metrôs e trens superlotados, o empresariado começou a se movimentar contra tal mudança da jornada de trabalho fazendo um discurso que beira o terrorismo, alegando que muita gente vai perder o emprego, porque tudo vai ficar mais pesado para o patrão o que, por tabela, significará repassar os custos de contratação de mais pessoal para os produtos e os serviços que eles ofertam para o mercado consumidor.

Historicamente sempre ouve uma gritaria e um esperneio da parte dos donos do capital contra quaisquer mudanças que significassem ganhos e proteção para os trabalhadores. No caso do Brasil, em particular, pesa, indubitavelmente, o passado de mais de três séculos da manutenção de um regime de escravidão de pessoas negras, algo que tem reflexos até hoje em nossa sociedade, como deixam ver as ações dos fiscais do Ministério do Trabalho que, de vez em quando, resgatam grupos de indivíduos que estavam "trabalhando" em condições análogas à escravidão e mulheres mantidas, durante décadas, "trabalhando" como empregadas domésticas sem ter direito nem sequer ao salário. Daí por que o levante das forças empresariais objetivando barrar a aprovação, no Congresso Nacional, do fim da escala 6X1: só para ficarmos em dois exemplos: a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (ABRASEL) pagou anúncios contra a aprovação da proposta; e Luciano Hang, dono das lojas Havan, apareceu, num vídeo, falando negativamente para um grupo de funcionários dele sobre algo que será tão bom para a classe trabalhadora.

Especialistas no assunto vêm dizendo que a aprovação do fim da escala 6X1 provocará uma série de mudanças no mercado de trabalho; isso é um fato; e não é necessário ser  um especialista para vislumbrar mudanças. Ocorre que mudanças, alterações e modificações no mundo do trabalho vêm ocorrendo, em alguma medida, ao longo do tempo, em especial nas duas últimas décadas, com a automação e a robotização cada vez maior da indústria e o avanço acelerado das plataformas de serviços digitais para os mais variados fins, como transações bancárias que podem ser realizadas pelo computador ou por um smartphone e que resultaram no fechamento de agências bancárias físicas e demissão de funcionários. Ou seja, as mudanças permeiam as relações patrão/empregado desde há muito e isso deve continuar acontecendo, sobretudo agora que está se disseminando o uso da Inteligência Artificial (IA) em uma miríade de atividades; e, paralelo a isso, diversos setores estão sofrendo com a escassez de mão de obra. 

Com tudo isso acontecendo, parte do empresariado está sendo obrigado a encarar o fato de que tem muita gente que não quer ficar pesa a um regime de trabalho que ocupa a maior parte do seu tempo de vida e que, ainda por cima, lhe rende um salário que não permite sequer que alguém consiga atender a contento as suas necessidades básicas, que dirá usufruir de pequenos e grandes prazeres como viajar nas férias.

Tenho certeza de que você, leitor, viu e/ou leu por aí um ou mais empresários e políticos defensores de interesses privados - não se esqueça de que muitos políticos e seus parentes são donos ou sócios de empresas - falando contra o fim da escala 6X1. Esse pessoal, de maneira geral, só pensa em como aumentar seus lucros, muitas vezes, recorrendo a subsídios, renúncias fiscais e a empréstimos com juros camaradas disponibilizados pelo Governo - e o Governo somos cada um de nós que pagamos impostos - para expandir seus negócios. Agora, na hora de beneficiar o trabalhador, o peão, a mão de obra, o funcionário, o empregado - não aceito a postura de quem chama  empregado de "colaborador" -, o burro de carga, enfim, tratam de se opor tenazmente, porque, na mente deles, só eles podem usufruir do bom e do melhor da vida, enquanto que o empregado tem mais é que levantar as mãos para o céu e agradecer por estar num trabalho de carteira assinada.

Eu já fui um celetista; e guardo desse período recordações muito ruins: eu morava em Abreu e Lima e acordava bem cedinho para andar alguns quilômetros até o ponto de ônibus; eu tinha de embarcar em dois coletivos para chegar à Zona Sul do Recife, onde ficava a livraria e papelaria onde eu trabalhava; eu saía muito cedo de casa e chegava tarde, na volta; aos sábados, o expediente era até às 13h; aquela era uma rotina massacrante para mim; e os domingos pareciam que corriam e passavam muito mais rápidos do que os outros dias da semana, vindo logo a dureza de recomeçar tudo de novo na segunda-feira com a marmita na bolsa e toda a frustração do mundo na cabeça, porque pequeno e mínimo mesmo era só o meu salário.

Eu espero que o Congresso Nacional aprove o fim da escala 6X1 e que, na esteira disso, dessa mudança para melhor, mais e mais pessoas possam, de alguma maneira e medida, usufruir do bom da vida, bom esse que cada um define à sua maneira, porque todos nós devemos trabalhar para viver e não viver para trabalhar.

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