Por Sierra
E pulo sobre as bolhas de champanhe que você bebe
E bailo pelo alto de sua montanha de neve
Eu sou primeiro, eu sou mais leve, eu sou mais eu
Do mesmo modo como é verdadeiro
O diamante que você me deu. Diamante
verdadeiro. Caetano Veloso
Das pessoas que conhecemos no mundo real e que também
podem estar usando filtro, como no mundo virtual. Uma das
coisas mais fascinantes da vida, para mim, é conhecer gente: gente para
compartilhar ideias e conhecimentos; gente para ouvir desabafos e também para
ser ouvida; gente que nos conta seus dramas, amores, frustrações e
conquistas; gente que descreve metas e planos de felicidade; gente que relata
perrengues e dificuldades; gente que nos abraça e nos conforta; gente que quer
afeto e prazer; gente que está perdida e sem saber para onde ir; gente que fica
ali ensimesmada com receio de dar início a uma conversa; gente empenhada na
soberania do bem comum; gente, enfim, que está inteira neste mundo e sem medo
de viver.
Não é de hoje, eu sei, a preocupação que quase todo
mundo tem com o outro desconhecido, com aquele que se viu pela primeira vez,
porque o noticiário diariamente nos mostra acontecimentos terríveis que fazem
com que, inevitavelmente nós, por precaução e segurança, fiquemos com um pé
atrás e nos recusemos a fazer qualquer saque em nossa, digamos, poupança de
confiança. Isso não é de hoje e eu penso que se intensificou com a presença do
mundo virtual em nosso dia a dia, principalmente nas chamadas redes sociais,
onde tantas pessoas se comportam de modo a enganar quem as vê até mesmo na
aparência física, recorrendo aos tais filtros e a outros recursos que, segundo
elas, as tornam mais atraentes e/ou mais atrativas para quem as enxerga pela
tela do telefone celular.
Claro que é uma tolice pensar que são apenas as
pessoas do mundo virtual que recorrem a filtros para parecerem o que não são -
e, evidentemente, eu falo aqui não somente de filtros faciais, porque, desde
que o mundo é mundo, pululam por aí os mentirosos, os enganadores, os
aproveitadores e toda uma fauna social numerosa e perversa que insistem em nos
rodear. Daí por que continuamos fazendo de tudo para não cairmos nas mãos ou
nas lábias desses espécimes. Só que acontece que, mesmo com toda a atenção e
vigilância que mantemos, nós nem sempre conseguimos escapar deles,
infelizmente.
Eu não vou descrever aqui para vocês as várias vezes
em que fui vitimado por algumas dessas pessoas cruéis e más; o que eu quero e
preciso lhes dizer aqui é que, ainda que eu tenha passado por situações
desagradáveis, infelizes e que me deixaram muito para baixo e arrasado quando
ocorreram - ressaltando que eu não fui vítima apenas e somente de
desconhecidos, mas também de velhos e até então queridos conhecidos -, eu de
alguma forma fiz o que pude para superar esses dissabores e permanecer seguro
na crença de que, sim, existem pessoas de bem por aí e que nos querem bem e
vice-versa, porque, se assim não fosse, muito provavelmente este mundo já teria
acabado há bastante tempo.
Mas não é fácil fazer esse exercício de acreditar no
outro, de depositar nele um mínimo que seja de confiança, porque nem todas as
mágoas e infortúnios são superados e/ou ressignificados por cada um de nós.
Hoje mesmo, quando nos encontrávamos na beira-mar de Cabo Branco, na capital
paraibana, o meu que rido amigo Luiz Tavares me disse que, por causa dos tantos
reveses que sofreu nas mãos de uns e outros, ele não consegue mais confiar
totalmente em alguém, muito pelo contrário, ele desconfia, não acredita
cegamente no que lhe falam porque tem medo de quebrar a cara novamente dando
crédito a pessoas inescrupulosas, desonestas e desleais.
Não nos esqueçamos de que a desconfiança é uma via de mão dupla, é mútua: da mesma forma que você desconfia do seu interlocutor, ele pode igualmente desconfiar de você.
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