17 de outubro de 2026

Personas urbanas (40)

Por Sierra

 

E pulo sobre as bolhas de champanhe que você bebe

E bailo pelo alto de sua montanha de neve

Eu sou primeiro, eu sou mais leve, eu sou mais eu

Do mesmo modo como é verdadeiro

O diamante que você me deu. Diamante verdadeiro. Caetano Veloso

 

 

 

Das pessoas que conhecemos no mundo real e que também podem estar usando filtro, como no mundo virtual. Uma das coisas mais fascinantes da vida, para mim, é conhecer gente: gente para compartilhar ideias e conhecimentos; gente para ouvir desabafos e também para ser ouvida;  gente que nos conta seus dramas, amores, frustrações e conquistas; gente que descreve metas e planos de felicidade; gente que relata perrengues e dificuldades; gente que nos abraça e nos conforta; gente que quer afeto e prazer; gente que está perdida e sem saber para onde ir; gente que fica ali ensimesmada com receio de dar início a uma conversa; gente empenhada na soberania do bem comum; gente, enfim, que está inteira neste mundo e sem medo de viver.

Não é de hoje, eu sei, a preocupação que quase todo mundo tem com o outro desconhecido, com aquele que se viu pela primeira vez, porque o noticiário diariamente nos mostra acontecimentos terríveis que fazem com que, inevitavelmente nós, por precaução e segurança, fiquemos com um pé atrás e nos recusemos a fazer qualquer saque em nossa, digamos, poupança de confiança. Isso não é de hoje e eu penso que se intensificou com a presença do mundo virtual em nosso dia a dia, principalmente nas chamadas redes sociais, onde tantas pessoas se comportam de modo a enganar quem as vê até mesmo na aparência física, recorrendo aos tais filtros e a outros recursos que, segundo elas, as tornam mais atraentes e/ou mais atrativas para quem as enxerga pela tela do telefone celular.

Claro que é uma tolice pensar que são apenas as pessoas do mundo virtual que recorrem a filtros para parecerem o que não são - e, evidentemente, eu falo aqui não somente de filtros faciais, porque, desde que o mundo é mundo, pululam por aí os mentirosos, os enganadores, os aproveitadores e toda uma fauna social numerosa e perversa que insistem em nos rodear. Daí por que continuamos fazendo de tudo para não cairmos nas mãos ou nas lábias desses espécimes. Só que acontece que, mesmo com toda a atenção e vigilância que mantemos, nós nem sempre conseguimos escapar deles, infelizmente.

Eu não vou descrever aqui para vocês as várias vezes em que fui vitimado por algumas dessas pessoas cruéis e más; o que eu quero e preciso lhes dizer aqui é que, ainda que eu tenha passado por situações desagradáveis, infelizes e que me deixaram muito para baixo e arrasado quando ocorreram - ressaltando que eu não fui vítima apenas e somente de desconhecidos, mas também de velhos e até então queridos conhecidos -, eu de alguma forma fiz o que pude para superar esses dissabores e permanecer seguro na crença de que, sim, existem pessoas de bem por aí e que nos querem bem e vice-versa, porque, se assim não fosse, muito provavelmente este mundo já teria acabado há bastante tempo.

Mas não é fácil fazer esse exercício de acreditar no outro, de depositar nele um mínimo que seja de confiança, porque nem todas as mágoas e infortúnios são superados e/ou ressignificados por cada um de nós. Hoje mesmo, quando nos encontrávamos na beira-mar de Cabo Branco, na capital paraibana, o meu que rido amigo Luiz Tavares me disse que, por causa dos tantos reveses que sofreu nas mãos de uns e outros, ele não consegue mais confiar totalmente em alguém, muito pelo contrário, ele desconfia, não acredita cegamente no que lhe falam porque tem medo de quebrar a cara novamente dando crédito a pessoas inescrupulosas, desonestas e desleais.

Não nos esqueçamos de que a desconfiança é uma via de mão dupla, é mútua: da mesma forma que você desconfia do seu interlocutor, ele pode igualmente desconfiar de você. 

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