7 de março de 2026

A sanha irrefreável dos homens contra as mulheres

Por Sierra

 

Imagem: Divulgação
Enquanto continuarmos apenas nos assombrando com as estatísticas de violências praticadas contra as mulheres, esse cenário de terror e de desumanidade não se arrefecerá por si mesmo. É preciso punir com severidade. É preciso dar um basta nisso. E isso é urgente, é para ontem

 

Não há um só dia que o noticiário passe sem revelar pelo menos um caso de crimes praticados contra as mulheres. Será que os casos de violência contra as mulheres aumentaram nos últimos anos ou o que está acontecendo é que o amplo acesso à internet e o advento das chamadas redes sociais possibilitaram que episódios que, talvez, ficassem encobertos por falta de acesso a delegacias de polícias para denunciá-los, por exemplo, passaram a ser facilmente postos em circulação para um grande público porque filmados e denunciados pelas próprias vítimas ou por terceiros que, se não se encontravam no instante da ocorrência, por outro lado, mantinham câmeras nas fachadas de suas casas e/ou estabelecimentos comerciais? Eu creio que os dois fatos caminharam juntos.

Nos últimos dias, em meio a reportagens dizendo que mais uma mulher foi assassinada e/ou agredida por seu atual ou ex-companheiro, em algum recanto deste país - e as estatísticas revelam que, na maioria das vezes, os assassinatos e agressões ocorrem nas próprias residências das vítimas -, nós tomamos conhecimento, também, da ocorrência de mais um caso de estupro - e de um estupro coletivo - que vitimou uma adolescente de 17 anos num apartamento do rico bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro. De acordo com o noticiário, a adolescente foi vítima de um crime planejado por cinco indivíduos, sendo um deles menor de idade.

Todas as vezes que casos de grande repercussão, como esse havido em Copacabana, ficam por dias na mídia, reacendem o debate sobre a questão da redução da maioridade penal. Crianças e adolescentes, segundo a letra da lei, não cometem crimes e, sim, atos infracionais; e, quando reconhecidamente considerados responsáveis por algum desses atos, a punição que lhes cabe é, geralmente, o recolhimento, por pouco tempo, em unidades de socioeducação.

Há quem diga que vigora no Brasil uma cultura de estupro; daí por que, segundo os defensores dessa tese, esse tipo de crime que, normalmente, vitima muitíssimo mais mulheres do que homens, ocorre com tamanha frequência. E a violência sexual, ao fim e ao cabo, é uma das molas propulsoras, por assim dizer, dos casos de feminicídio - não raro, uma mulher é assassinada depois de ter sido abusada sexualmente e/ou por ter resistido à ação do criminoso.

Também há quem diga que os crimes, em geral, e os crimes praticados contra as mulheres, em particular, ocorrem aos magotes em nossa sociedade porque o aparato das leis punitivas é brando demais, de modo que os criminosos e infratores agem tendo a certeza de que, caso a Justiça os alcance - e alguns processos judiciais se arrastam por anos a fio - e eles sofram condenações, dentro de poucos anos eles estarão livres e soltos nas ruas como se não carregassem os crimes mais abomináveis em seus curricula vitae. (Vou abrir um parêntese aqui só para lembrar que, recentemente, dois desembargadores julgaram que não era crime o fato de um homem de 34 anos manter um relacionamento afetivo com uma criança de 12 anos. Dias depois da repercussão desse absurdo, a imprensa começou a divulgar, também, que um dos nobres desembargadores estava sendo acusado de praticar assédio e abuso sexual contra, pelo menos, cinco pessoas, entre as quais um homem.)

Eu não creio que seja apenas a certeza da impunidade e/ou de uma punição branda que alimente a misoginia que assola os quatro cantos deste país. Para mim é muito evidente, porque ele está quase o tempo todo presente, um comportamento machista que só enxerga a mulher como um ser inferior ao homem e como um objeto sexual. E essa objetificação é que, a meu ver, explica por que somos uma sociedade tão ferreamente feminicida e misógina. A ordem do discurso imperante entre nós - e, infelizmente, ela é impregnada de um fundamento bíblico e cristão que, para muitos, ratifica a postura discriminatória de sujeição e submissão da mulher - é a de que as mulheres só existem para servir aos homens, porque Eva botou tudo a perder e ponto final.

Tão habituados nós estamos com a banalidade dos males que afligem e atacam as mulheres que a maioria dos homens nem se importa com esse estado de coisas, como se isso fosse algo comum e normal do ciclo da vida. O processo civilizatório falhou conosco; daí por que nós aceitamos e convivemos com naturalidade com tanta selvageria e desumanidade.

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