Por Sierra
Eu sou o sol,
sou eu que brilho
pra você, meu amor.
O dia que o sol declarou o seu amor pela terra. Jorge Ben Jor
O mundo não gira em torno de você. Eu, você, todos nós certamente conhecemos pessoas que são tão cheias de si, mas tão cheias de si que pensam que tudo o que existe, existe por causa e em função delas; são aqueles tipinhos enjoados e pretensiosos que "se acham", como se costuma dizer por aí.
Ao longo dos anos eu venho obervando - e não só eu,
evidentemente -, que, com o advento e a disseminação das chamadas redes
sociais, esses tipinhos que "se acham" não apenas se multiplicaram
exponencialmente como ganharam "relevância" por causa do número de
seguidores que os seus perfis ostentam, muito embora nós saibamos que nem tudo
o que se vê nas redes sociais é o que realmente é.
Na esteira das postagens, curtidas e reproduções de
seus conteúdos, certos perfis com milhares e até milhões de seguidores escancararam
o que poderíamos chamar de cultura da individualização, cultura essa que jogou
por terra uma crença disseminada nos primórdios das redes sociais que diziam
que elas promoveriam conexões e ajuntamentos, reuniões e ligações visando ao
bem comum. Não foi exatamente isso o que se deu, porque as tais conexões e
interações virtuais entre indivíduos não reuniram somente, digamos, gente de bem
e com propósitos dignos de aplausos; e os arautos do tempo futuro não
vislumbraram a disseminação de um verme chamado fake news, a construção de espaços sombrios na internet - a deep web, por exemplo - e nem a força
imperiosa da individualização e a exacerbação do "eu sou o sol" em
perfis dessas ditas redes sociais.
A praga do "eu sou o sol" é daninha, a meu
ver, sob vários aspectos, principalmente, se considerarmos o papel de
influência negativa que muitos desses perfis acabam tendo na vida de muitas
pessoas que os seguem sem avaliar criteriosamente o que é postado por eles; e,
não sejamos ingênuos, muitos seguem os tais perfis não por falta de
discernimento e, sim, porque se identificam em gênero, número e grau com o que
é postado neles - é o tal do "ele/ela me representa". E pronto: está
fechada a questão.
Nessa dinâmica envolvendo a mistura dos mundos virtual
e real, a individualização do espaço virtual demarcou um terreno vasto e de
alcance que, em tese, é ilimitado, porque qualquer pessoa que tenha acesso às
tais redes sociais podem entrar em contato com os seus conteúdos, caso os
perfis não estejam na modalidade "conta privada". Ou seja, de qualquer
parte do mundo e lugar, o perfil pode ser visto e acionado com algum tipo de
interação.
Na vasta gama de assuntos e possibilidades
proporcionados pelos ambientes virtuais - sites de notícias, casas de apostas,
pornografia, livros digitalizados, passeios por museus e galerias, etc. -, as
redes sociais têm angariado uma quantidade gigantesca de usuários, sendo que
vários deles fizeram disso seu ganha-pão, interagindo com seus seguidores, no
mais das vezes, como garotos e garotas propaganda de uma diversidade imensa de
produtos e serviços e o que mais seja e do que se convencionou chamar de estilo
de vida que, normalmente, abarca viagens, ida a restaurantes requintados e
consumo de roupas de grife e joias, muitas joias e relógios caríssimos. E,
quanto mais o perfil agrega seguidores, o seu dono ganha status de celebridade
e começa a aparecer em tudo quanto é quanto - até nas crônicas policiais.
É claro que uma superexposição nas redes sociais
gera, para muitos, uma frustração enorme, principalmente quando o indivíduo
investiu tempo, dinheiro e disposição para ser, quem sabe, a nova celebridade
desse ambiente e a coisa não aconteceu, o seu plano de ser um novo "sol
virtual" simplesmente não vingou e ele acabou ali com não sei quantos
seguidores e uma desilusão sem tamanho.
E o que dizer daqueles que se mantêm do lado de cá,
acessando os perfis de quem se esforça para ser o centro das atenções e que
ficam o tempo todo a sonhar e desejar ter uma vida cheia de glamour e felicidade
que o moço e a moça mostram para eles? Quantas frustrações será que tais
pessoas colecionam com suas vidinhas que elas definem como medíocres e sem
alegrias? O que é que resta para elas, que não conseguem sair dessa bolha
virtual? Gastar o que elas não têm apostando nas bets que os seus influencers
favoritos anunciam para, quem sabe assim, ficarem ricos como eles? Ou
simplesmente continuarem levando suas existências como meros expectadores da vida
alheia enquanto a deles permanece quase que parada no tempo e no espaço?
Na era da proliferação desconcertante de tanta gente que "se acha", o mundo virtual vem ditando comportamentos que fazem com que, para muitos, este mundo do lado de cá, sem maquiagem, filtro, luz e enquadramento bacana de uma câmera de primeira linha figure como espaço e território malquisto e indesejado porque repleto e tomado por uma realidade como cotidianamente ela de fato é.
Nenhum comentário:
Postar um comentário