23 de maio de 2026

A preservação da memória e do legado de Naná Vasconcelos

 Por Sierra

 

Fotos: Arquivo do Autor
Foi realmente memorável a realização do seminário em homenagem a Naná Vasconcelos. Todos os que se empenharam para que o evento acontecesse estão mesmo de parabéns, inclusive, os artistas que se apresentaram dando um colorido e contagiando toda a plateia

 

Há um clichê bastante repisado que diz que "só quem está por dentro do negócio é quem realmente sabe como ele é", que equivale e que é uma variante do "só quem calça o sapato é quem sabe onde o calo aperta", que serve para explicar que fazer um julgamento apenas pelo que é visto por fora, pelo aparente não é o mesmo que avaliar tal coisa mirando-a também a partir do lado de atrás, pelos bastidores, enxergando como tudo foi feito.

Ontem, à tarde, eu fui prestigiar o acontecimento do Seminário Naná Vasconcelos: os maracatus e o Carnaval do Recife, que teve lugar na Sala Aloisio Magalhães, no campus do bairro do Derby, no Recife, da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). Resultado de uma parceria entre essa instituição e a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), que instituiu a Cátedra Naná Vasconcelos, o seminário foi uma espécie de tributo ao recifense Juvenal de Holanda Vasconcelos, o percussionista nacional e internacionalmente conhecido por Naná Vasconcelos, que faleceu em março de 2016.


Professor Moisés Santana abrindo os trabalhos

Patricia Vasconcelos, viúva de Naná, encontra-se empenhadíssima em proteger, salvaguardar e difundir o legado do marido



Porfessor Moisés Santana: salve simpatia!


Na primeira metade do seminário, que, em sua abertura contou com uma apresentação de maracatu feita por alunos da Escola de Música Naná Vasconcelos, foram divulgados, pelo professor Moisés Santana e por Patricia Vasconcelos, viúva do percussionista, os resultados parciais de uma ampla pesquisa que está em andamento na cátedra com o fito de mapear e catalogar dados da vida e da obra de Naná Vasconcelos. Ainda nessa parte do evento foi lançado o Repositório Digital Arandu UFRPE - Cátedra Naná Vasconcelos; e exibido o vídeo Naná Vasconcelos - 10 anos Doutor Honoris Causa UFRPE.


Apresentação de alunos da Escola de Música Naná Vasconcelos



Após um breve intervalo - gente, no coffee break eu comi do melhor bobó de camarão que já provei na vida: que delícia! - e antes da conversa com os membros da mesa para a segunda parte do seminário, nós assistimos a uma apresentação do caboclo de lança Mestre Lilo, que é um dos netos do saudoso e muito incensado Mestre Salustiano.


Mestre Lilo fazendo sua apresentação





Mediado pelo professor José Nilton de Almeida, falaram: Ana Paula Guedes, que integrou, durante dezesseis anos, o grupo Voz Nagô - em dado momento ela cantou um pouco: que voz linda! ; Mestre Fábio Sotero, presidente da Associação dos Maracatus Nação de Pernambuco; Mestre e babalorixá Chacon Viana; Paz Brandão, ex-gestora do Núcleo Afro da Secretaria de Cultura da Prefeitura Municipal do Recife; e a professora Claudilene Silva. Cada um deles falou de vivências artísticas e de políticas públicas culturais, recordando, aqui e ali, acontecimentos vivenciados em companhia de Naná Vasconcelos. E foi em virtude de tais falas e depoimentos que eu escrevi o que escrevi no parágrafo que iniciou este artigo, porque nem todos têm acesso ao que se passa nos bastidores de acontecimentos artísticos e culturais, sobretudo nos ligados às manifestações do que se convencionou chamar de cultura popular.

A mesa da segunda parte do seminário. Da esquerda para a direita: Fábio Sotero, Ana Paula Guedes, Claudilene Silva, José Nilton de Almeida, Mestre Chacon Viana e Paz Brandão






Alguns dos participantes da mesa, ao falarem especificamente a respeito da reunião de maracatus para a abertura do Carnaval do Recife, recordaram o empenho de Naná Vasconcelos para acabar com a rivalidade que tais grupos mantinham entre si; e esse lidar com os mestres de maracatu em suas comunidades foi algo amplamente destacado por eles, que enxergaram e compreenderam isso como algo que ia muito além de uma visita com o propósito de conhecer os locais onde os maracatus aconteciam ao longo do ano. Na avaliação de Ana Paula Guedes, a partir do momento que Naná Vasconcelos ia para as comunidades, ele dava visibilidade, por exemplo, a candomblés e a fazedores de cultura dos subúrbios do Recife. "Todo mundo tem mania de dizer que tudo que é de preto é malfeito. Então, a gente fez a coisa bem feita no Marco Zero, que é o centro do mundo, porque vai gente de tudo que é lugar pra lá", ela acrescentou.






Vídeo da cerimônia da outorga do título de Doutor Honoris Causa a Naná Vasconcelos




Hora dos comes e bebes


Quantas pessoas sabem, por exemplo, que houve e ainda hoje há resistência a respeito da presença de maracatus na noite de abertura do Carnaval, mesmo já tendo transcorrido mais de quinze anos desde a primeira vez que maracatuzeiros passaram a atuar naquela cerimônia no Bairro do Recife sob a regência de Naná Vasconcelos? É uma resistência que ganhou mais força principalmente depois, segundo Fábio Sotero, que o frevo foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Ele disse que sempre vinham questionamentos sobre a presença do maracatu naquele espaço grandioso do Carnaval; e que Naná Vasconcelos afirmava: "O maracatu não vai sair".

Quando de sua intervenção, Mestre Chacon Viana lembrou como o ilustre percussionista trabalhava para que predominasse uma harmonia entre os maracatus. Esse entendimento foi reforçado por Paz Brandão, que asseverou que a rivalidade entre os grupos era tamanha que "Ninguém ousava ir ao ensaio do outro"; ela disse ainda que Naná lutou para colocar todos em pé de igualdade, pelo menos na abertura do Carnaval.









Avaliando o papel de Naná Vasconcelos como um elemento não somente agregador como também defensor dos folguedos, Claudilene Silva destacou a importância dele para a valorização dessas expressões artísticas e culturais, principalmente as ligadas aos elementos negros da sociedade, porque, no entendimento dela, "Esta é uma cidade negra que nunca quis ser negra", disse ela se referindo ao Recife.





Para coroar um tributo e uma homenagem tão efusiva e movimentada para o inigualável Naná Vasconcelos num seminário onde tanto quanto a preservação de sua memória e do seu legado discutiu-se a permanência e a valorização da cultura popular, Mestre Chacon Viana, que já havia cantado a loa "Sou de Luanda", que ele compôs para celebrar o exímio tocador de berimbau que era Naná, nos brindou com uma apresentação da Nação Maracatu Porto Rico, que adentrou na sala e, depois, se dirigiu para o jardim daquele campus da Fundaj tornando aquele dia ainda mais inesquecível.




Nação Maracatu Porto Rico: que maravilha!



Viva a cultura popular! 

Viva os maracatus!

Viva Naná Vasconcelos!


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