Por
Sierra
Há um clichê bastante repisado que diz que
"só quem está por dentro do negócio é quem realmente sabe como ele
é", que equivale e que é uma variante do "só quem calça o sapato é
quem sabe onde o calo aperta", que serve para explicar que fazer um
julgamento apenas pelo que é visto por fora, pelo aparente não é o mesmo que
avaliar tal coisa mirando-a também a partir do lado de atrás, pelos bastidores,
enxergando como tudo foi feito.
Ontem, à tarde, eu fui prestigiar o
acontecimento do Seminário Naná Vasconcelos:
os maracatus e o Carnaval do Recife, que teve lugar na Sala Aloisio
Magalhães, no campus do bairro do Derby, no Recife, da Fundação Joaquim Nabuco
(Fundaj). Resultado de uma parceria entre essa instituição e a Universidade
Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), que instituiu a Cátedra Naná Vasconcelos,
o seminário foi uma espécie de tributo ao recifense Juvenal de Holanda
Vasconcelos, o percussionista nacional e internacionalmente conhecido por Naná
Vasconcelos, que faleceu em março de 2016.
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| Porfessor Moisés Santana: salve simpatia! |
Na primeira metade do seminário, que, em
sua abertura contou com uma apresentação de maracatu feita por alunos da Escola
de Música Naná Vasconcelos, foram divulgados, pelo professor Moisés Santana e
por Patricia Vasconcelos, viúva do percussionista, os resultados parciais de
uma ampla pesquisa que está em andamento na cátedra com o fito de mapear e catalogar
dados da vida e da obra de Naná Vasconcelos. Ainda nessa parte do evento foi
lançado o Repositório Digital Arandu UFRPE - Cátedra Naná Vasconcelos; e
exibido o vídeo Naná Vasconcelos - 10
anos Doutor Honoris Causa UFRPE.
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Apresentação de alunos da Escola de Música Naná Vasconcelos
Após um breve intervalo - gente, no coffee break eu comi do melhor bobó de
camarão que já provei na vida: que delícia! - e antes da conversa com os
membros da mesa para a segunda parte do seminário, nós assistimos a uma apresentação
do caboclo de lança Mestre Lilo, que é um dos netos do saudoso e muito
incensado Mestre Salustiano.
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Mestre Lilo fazendo sua apresentação
Mediado pelo professor José Nilton de
Almeida, falaram: Ana Paula Guedes, que integrou, durante dezesseis anos, o
grupo Voz Nagô - em dado momento ela cantou um pouco: que voz linda! ; Mestre
Fábio Sotero, presidente da Associação dos Maracatus Nação de Pernambuco;
Mestre e babalorixá Chacon Viana; Paz Brandão, ex-gestora do Núcleo Afro da
Secretaria de Cultura da Prefeitura Municipal do Recife; e a professora
Claudilene Silva. Cada um deles falou de vivências artísticas e de políticas
públicas culturais, recordando, aqui e ali, acontecimentos vivenciados em
companhia de Naná Vasconcelos. E foi em virtude de tais falas e depoimentos que
eu escrevi o que escrevi no parágrafo que iniciou este artigo, porque nem todos
têm acesso ao que se passa nos bastidores de acontecimentos artísticos e
culturais, sobretudo nos ligados às manifestações do que se convencionou chamar
de cultura popular.
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A mesa da segunda parte do seminário. Da esquerda para a direita: Fábio Sotero, Ana Paula Guedes, Claudilene Silva, José Nilton de Almeida, Mestre Chacon Viana e Paz Brandão
Alguns dos participantes da mesa, ao
falarem especificamente a respeito da reunião de maracatus para a abertura do
Carnaval do Recife, recordaram o empenho de Naná Vasconcelos para acabar com a
rivalidade que tais grupos mantinham entre si; e esse lidar com os mestres de
maracatu em suas comunidades foi algo amplamente destacado por eles, que
enxergaram e compreenderam isso como algo que ia muito além de uma visita com o
propósito de conhecer os locais onde os maracatus aconteciam ao longo do ano.
Na avaliação de Ana Paula Guedes, a partir do momento que Naná Vasconcelos ia
para as comunidades, ele dava visibilidade, por exemplo, a candomblés e a
fazedores de cultura dos subúrbios do Recife. "Todo mundo tem mania de dizer
que tudo que é de preto é malfeito. Então, a gente fez a coisa bem feita no
Marco Zero, que é o centro do mundo, porque vai gente de tudo que é lugar pra
lá", ela acrescentou.
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| Vídeo da cerimônia da outorga do título de Doutor Honoris Causa a Naná Vasconcelos |
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| Hora dos comes e bebes |
Quantas pessoas sabem, por exemplo, que
houve e ainda hoje há resistência a respeito da presença de maracatus na noite
de abertura do Carnaval, mesmo já tendo transcorrido mais de quinze anos desde
a primeira vez que maracatuzeiros passaram a atuar naquela cerimônia no Bairro
do Recife sob a regência de Naná Vasconcelos? É uma resistência que ganhou mais
força principalmente depois, segundo Fábio Sotero, que o frevo foi reconhecido
como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Ele disse que sempre vinham
questionamentos sobre a presença do maracatu naquele espaço grandioso do
Carnaval; e que Naná Vasconcelos afirmava: "O maracatu não vai sair".
Quando de sua intervenção, Mestre Chacon
Viana lembrou como o ilustre percussionista trabalhava para que predominasse
uma harmonia entre os maracatus. Esse entendimento foi reforçado por Paz
Brandão, que asseverou que a rivalidade entre os grupos era tamanha que
"Ninguém ousava ir ao ensaio do outro"; ela disse ainda que Naná
lutou para colocar todos em pé de igualdade, pelo menos na abertura do
Carnaval.
Avaliando o papel de Naná Vasconcelos como um elemento não somente agregador como também defensor dos folguedos, Claudilene Silva destacou a importância dele para a valorização dessas expressões artísticas e culturais, principalmente as ligadas aos elementos negros da sociedade, porque, no entendimento dela, "Esta é uma cidade negra que nunca quis ser negra", disse ela se referindo ao Recife.
Para coroar um tributo e uma homenagem tão
efusiva e movimentada para o inigualável Naná Vasconcelos num seminário onde
tanto quanto a preservação de sua memória e do seu legado discutiu-se a
permanência e a valorização da cultura popular, Mestre Chacon Viana, que já
havia cantado a loa "Sou de Luanda", que ele compôs para celebrar o
exímio tocador de berimbau que era Naná, nos brindou com uma apresentação da
Nação Maracatu Porto Rico, que adentrou na sala e, depois, se dirigiu para o
jardim daquele campus da Fundaj tornando aquele dia ainda mais inesquecível.
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| Nação Maracatu Porto Rico: que maravilha! |
Viva a cultura popular!
Viva os maracatus!
Viva
Naná Vasconcelos!


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