Por Sierra
Aproveite
a vida. Não se queixe. Nada consola uma velhice idiota.
Fernanda
Montenegro (1)
Nada
será como antes
A
força bruta e imperiosa do etarismo está de tal forma presente em nossa
sociedade que, por mais absurdos e por vezes desumanos e cruéis, muito cruéis
que sejam comportamentos deles advindos, não poucos de nós agimos como se isso
fosse um fato banal da nossa existência, como o nascer, crescer, procriar e
morrer. E esse entendimento que, não raro, resvala para a indiferença, para o
descaso e mesmo para a prática e cumplicidade com essa chaga social, costuma
nos pôr em face de cenas e situações tão infames e reprováveis sem que, no
entanto, reajamos contra esse estado de coisas.
Faz
quase dez anos que eu tive uma experiência bastante dolorosa com a minha avó
Maria da Conceição que, na época, estava com 89 anos de idade. O modo como
vários dos filhos dela lidaram com a sua condição de idosa que precisava de amparo,
atenção e cuidados, me marcou negativamente de tal maneira que isso ficou a
pesar na minha consciência até hoje, desde o seu falecimento, ocorrido em 2017.
Eu passei dias e dias remoendo aquelas ocorrências; e sonhava constantemente
com ela; e chorava como estou chorando agora em que me encontro rememorando
aqueles acontecimentos ruins, porque, em certa medida, eu me vejo como cúmplice
de tudo o que marcou os últimos meses de vida dela: as mudanças de casas; o não
aceitar de todo as vontades dela; as ausências de quase todos os seus filhos...
Minha avó, eu sei, me queria bem e me amava sobre todas as coisas; e pensar que
eu não soube cuidar dela como deveria é o que mais me doi e me pesa; e eu não
quero nunca me esquecer disso para que não torne a repetir o que eu fiz e nem
aceitar que ajam com outrem como eu agi para com ela.
Essa
experiência amarga, amaríssima, na verdade, me levou a encarar o avanço
da idade e a velhice propriamente dita, no terreno social como um todo, porque,
além de eu ter uma mãe por perto, eu próprio estava/estou caminhando na minha
jornada inescapável e inevitável de envelhecer numa sociedade que
fundamentalmente só valoriza e exalta a juventude, relegando os mais velhos a
uma espécie de escaninho onde eles quase não possam ser vistos. E essa
percepção só fez se acentuar ao longo dos últimos anos, tempo esse em que
experiências do meu dia a dia foram se juntando a leituras ligadas ao tema.
Largado
na rua
No
dia 8 de agosto do ano passado, quando eu me encontrava almoçando na sala de
casa e assistia ao Jornal Hoje, da Rede Globo, vi, estarrecido,
mais uma dessas notícias que de tão tristes, aterradoras e chocantes, fazem com
que nossos olhos lacrimejem: o telejornal exibiu uma breve matéria que mostrou
imagens de um carro estacionando e um idoso sendo retirado do veículo e largado
numa calçada de um dos mais movimentados mercados públicos de São Luís do
Maranhão. Até aquele momento, o telejornal não tinha mais informações sobre o
flagrante.
Depois
que eu acabei de almoçar, busquei mais detalhes daquele caso; e no G1MA,
site também pertencente ao Grupo Globo, eu li uma reportagem publicada naquele
mesmo dia; em linhas gerais, o texto, sem indicação de autoria, dizia o
seguinte: o idoso, de 77 anos, fora deixado na calçada de um estabelecimento do
Mercado Central de São Luís por volta das 6h18 daquela sexta-feira 8 de agosto,
conforme o registro de uma câmera de segurança, que mostrou um carro
estacionando, um homem descendo da carroceria - onde estava junto com uma
mulher - e sendo acompanhado pelo motorista, que também descera do veículo,
pegou o idoso, que se encontrava no banco do carona, e o levou no colo para
a calçada e foram embora. A reportagem disse ainda que, por meio de nota, a
Secretaria Municipal da Criança e Assistência Social (Semcas) informou que o
coordenador do Centro de Referência Especializada para População em Situação de
Rua fora até o local e fizera o devido atendimento ao idoso, encaminhando-o
para o Centro de Atenção Integral à Saúde do Idoso (CAISI). Ainda de acordo com
a notícia, até aquele momento não se sabia a origem do homem e nem sobre quem o
largara na calçada; e que, procurada pelo G1MA, a Polícia Civil não
informara se o caso já estava sendo investigado. (2)
Quatro
dias depois, o mesmo portal de notícias aprofundou as informações, informações
essas que tornaram o caso ainda mais absurdo e revoltante. A apuração dos
jornalistas nos deu conta de que: o homem que carregara o idoso no colo e o
largara na calçada era irmão dele; que o motorista declarou que só deu uma
carona ao grupo e que não sabia o que aconteceria; que a mulher sentada na
carroceria era cunhada do idoso; que, segundo o levantamento feito pelas
autoridades policiais, o motivo do abandono fora uma briga familiar; que
o irmão do idoso ainda não se apresentara para prestar um depoimento; que o
abandonado, o senhor Romão Duarte Brito, era natural da cidade de Alcântara,
onde a família dele também morava; e que, até aquele dia, nenhum parente
aparecera no CAISI para buscá-lo. Em entrevista à reportagem, Isabel Lopizic,
coordenadora do Centro Integrado de Apoio e Prevenção à Violência contra a
Pessoa Idosa (CIAPVI) foi categórica: "Abandono é crime, principalmente de
uma pessoa idosa, que está em uma situação de extrema vulnerabilidade como todo
mundo percebeu. Então, a gente precisa ter esse conhecimento e tentar intervir
nessa dinâmica, para que a violência deixe de existir". (3)
O
episódio ocorrido em São Luís vitimando um idoso foi só um entre dezenas,
centenas de outros que marcam homens e mulheres dessa faixa etária. Basta que
façamos uma simples pesquisa na internet para que nos deparemos com reportagens
que narram os mais diversos crimes praticados contra idosos; crimes que vão de
cárcere privado até o abandono completo e total; crimes esses que, no mais das
vezes, têm parentes das vítimas como protagonistas. (4)
O dia em que eu assisti ao filme O último azul
Naquela
tarde do dia 24 de agosto do ano passado, quando eu me dirigi ao Cinema da
Fundação, no bairro do Derby, no Recife, para assistir ao filme O
último azul, do diretor Gabriel Mascaro, eu não sabia que se tratava de uma
sessão de pré-estreia, de uma muitíssimo concorrida sessão de pré-estreia,
melhor dizendo. De modo que, quando eu cheguei lá, me deparei com uma
verdadeira multidão no corredor num clima muito efusivo e marcado pela presença
do Gabriel Mascaro e pela exibição do Urso de Prata - posicionado junto a uma
janela de onde podia se ver o icônico Rio Capibaribe -, que a produção
ganhara no Festival de Berlim, e, claro, não havia mais ingressos disponíveis.
Desapontado, eu já estava descendo a escada para ir embora quando uma mulher me
chamou e perguntou se eu conseguira
ingresso; e, ao me ouvir dizer que não, ela disse que tinha um sobrando; eu,
alegre que só um pinto no lixo, paguei a ela via PIX e lhe agradeci muito
- seu nome é Marta Jeruza - por ter me chamado e oferecido o ingresso.
Agora
era aproveitar o burburinho e esperar pelo início da exibição do filme.
Com
um principiar sombrio e aflitivo - pelo menos o foi para mim -, a narrativa me
fez mergulhar em lembranças amargas e dolorosas; e uma tristeza me tomou quase
por inteiro. Aquela distopia com um pé fincado na realidade dizia de um modo
muito cruel e desumano de tratar a velhice e os velhos; coisificar o indivíduo
por conta de sua ancianidade é algo que lateja na primeira parte de O
último azul. Inservível, imprestável, incômodo... São várias as depreciações
atribuídas aos idosos como justificativas para tirá-los literalmente de
circulação da sociedade livre e enviá-los para uma colônia, um grande asilo
estatal onde eles têm de permanecer até o fim de suas existências.
Passada
essa primeira parte pesada, tristonha e sombria, eis que, mais adiante, O
último azul nos conduz por uma solar e entusiasmadora aventura, por
uma feliz epopeia de uma liberdade ampla e sem restrições que navega nas águas
de um rio. Nossa, que coisa emocionante e encorajadora!
Ao
fim da exibição do filme - e ainda muito emocionado -, eu abracei o diretor
Gabriel Mascaro e lhe agradeci pelo que acabara de ver. E deixei o Cinema da
Fundação carregando comigo uma carga poderosa de destemor quanto ao futuro.
Retratos
da velhice ou Como ser velho numa sociedade que fundamentalmente só celebra a
juventude?
Não
há como escapar do envelhecimento. Eis um fato inalterável de nossa existência.
Envelhecemos um pouco todos os dias. E não há procedimento estético, creme e
aplicação de botox que consiga deter e barrar isso. E o modo como estamos na
vida e sobrevivemos indiscutivelmente reflete não somente em nosso corpo,
deixando, por vezes, marcas que levam muitos a dizer "Olha só, fulano
envelheceu muito antes do tempo", como também tem reflexos na maneira como
encaramos o envelhecer e a própria dinâmica existencial, porque, muito
provavelmente, não é com o mesmo olhar sobre o tempo futuro e suas
consequências que pessoas de situações socioeconômicas diametralmente opostas o
encaram.
Num
mundo tomado por uma permanente exaltação da "juventude eterna", onde
velhos endinheirados recorrem a tudo que podem para esconder e disfarçar
rugas - uns chegam ao absurdo de manipular fotos para postá-las em redes
sociais -, as estatísticas governamentais vêm divulgando que, independentemente
da classe social, a porcentagem de velhos no todo da população só vem
aumentando, resultado de uma série de fatores como acesso à medicina
preventiva, descobertas da indústria farmacêutica, a adoção de hábitos saudáveis
de alimentação, prática de exercícios físicos, etc. Em que pese a discussão
sobre o impacto que a longevidade acarretará para o sistema previdenciário e o
de saúde pública, a mim, o que realmente mais me preocupa é: como a sociedade,
historicamente tão, digamos, antivelhos, vai lidar com eles?
Muitos
anos antes de assistir ao filme O último
azul, eu tinha tido contato com três produções em vídeo que me marcaram
profundamente pelo tom deveras negativo com que abordaram o tema da velhice: no
final da minha adolescência eu vi, em casa, um episódio do seriado Família
Dinossauro [1991] intitulado de "O dia do arremesso"; anos
depois, na época da faculdade, eu assisti, em sala de aula, ao A balada
de Narayama [1983], adaptação de uma novela de Shichiro Fukuzawa feita
pelo diretor Shoei Imamura - ao ver esse drama eu deduzi que aquele episódio do
Família Dinossauro igualmente fora
uma adaptação da obra do Fukuzawa -; e, algum tempo mais adiante - se não
me falha a memória, eu o vi também no Cinema da Fundação -, assisti ao
tremendamente impactante Amor [2012], do diretor Michael
Haneke. E, devido a uma série de circunstâncias e interesses pessoais e
intelectuais, ainda antes de assistir ao filme do Gabriel Mascaro, eu li obras
diversas que, de uma maneira ou de outra, enfocaram a temática do envelhecimento
- vou dizer um pouco sobre tais leituras no parágrafos seguintes.
Um
dos livros mais instigantes que eu até hoje li na esfera de minha formação
intelectual e fundamental para as minhas práticas de pesquisador, Memória
e sociedade: lembranças de velhos, de Ecléa Bosi, abriu os meus olhos não
só para os meandros do que se convencionou chamar de história oral, bem como
para a compreensão da história individual como parte de uma história coletiva.
Ao recolher depoimentos de homens e mulheres de idade avançada e analisá-los
sob diferentes perspectivas, a autora nos pôs em face de diversas camadas
existenciais que formam o todo social com suas riquezas de singularidades
permeadas pelo transcurso do tempo na vida de cada um deles; e um dos seus
comentários a respeito de tais vozes, do que tais vozes evocaram, melhor
dizendo, é bastante pertinente sobre o que eu escrevi, lá atrás, sobre o caráter
do "inservíviel" e do "imprestável" visto em O
último azul para justificar o recolhimento dos idosos naquela
distopia; Ecleá Bosi destacou:
Curiosa é a expressão meu tempo [grifo
do autor] usada pelos que recordam. Qual é o meu tempo [grifo
do autor], se ainda estou vivo e não tomei emprestada minha época a ninguém,
pois ela me pertence tanto quanto a outros, meus coetâneos?.
(5)
No
caminho de minha formação intelectual eu tive o grande, o imenso privilégio de
conhecer e de conviver durante algum tempo com o bibliotecário, escritor e
memorialista Edson Nery da Fonseca. Conheci-o quando ele estava às vésperas de
completar 89 anos; tendo vivido tanto e ainda dotado de uma memória espantosa,
ele, pelo que eu via, não mantinha um grande interesse pelo tema da velhice; a
mim me parecia que ele evitava falar sobre isso. A primeira vez que nós
estivemos juntos foi em 2011, na casa onde ele morava, em Olinda, casa onde eu
passaria alguns dos melhores momentos da minha vida. Dois anos antes do nosso
encontro, Edson Nery da Fonseca lançara um delicioso livro de memórias, obra
que eu li com enorme entusiasmo; em Vão-se os dias e eu fico, onde
ele disse muito, mas não tudo de sua vida, já no capítulo inicial ele revelou
um desprazer para com a velhice que, em todo caso, não tirou o brilho da
narrativa; evocando a figura do seu amigo Manuel da Silveira Cardozo que,
segundo ele, lhe confessara "sentir-se mais feliz na velhice do que em
toda sua vida", o autor de Introdução à Biblioteconomia nos
disse assim:
Fiquei com inveja da alegria pós-balzaquiana de Manuel
Cardozo porque em minha velhice não me sinto tão feliz como fui na mocidade.
Peço perdão a Deus por dizer isto, porque tenho de ser agradecido por ter
sido poupado dos achaques mais comuns da terceira idade, como câncer de
próstata, diabetes, catarata, doença de Parkinson, demência etc. Mas não posso
dizer que seja, existencialmente, um velho feliz. (6)
Esse
viés evocativo de lembranças Edson Nery da Fonseca manteve noutro livro, que
foi publicado apenas um ano depois daquelas suas memórias. Em Estão
todos dormindo ele nos apresentou a alguns dos tantos amigos que teve,
como Zila Mamede, Otto Maria Carpeaux e Mauro Mota que, àquela altura "de
minha já longa existência" (7) não se encontravam mais acordados no meio
de nós e, sim, dormindo, dormindo profundamente como no poema
"Profundamente" do seu bardo preferido Manuel Bandeira.
Lendo
tais escritos do meu saudoso e querido Edson Nery da Fonseca eu me peguei
pensando que ele leu o Saber envelhecer, de Cícero, que eu
encontrei em sua biblioteca, e não tomou para si algumas das passagens que se
encontram ali e que não estão entre as que ele grifou com uma caneta de tinta
azul: "O tempo perdido jamais retorna e ninguém conhece o futuro.
Contentemo-nos com o tempo que nos é dado a viver, seja qual for!". (8)
E
ainda antes de ir assistir àquele filme do Gabriel Mascaro eu devorei outro
livro de memórias, agora o da celebradíssima e adorada atriz Fernanda
Montenegro. Em Prólogo,ato, epílogo, que ela lançou no marco de
seus 90 anos de idade, a grande dama do teatro brasileiro narrou diversas
passagens de sua trajetória, alinhavando tudo com a colaboração de Marta Góes.
Num tom e num ritmo aliciantes, Fernanda Montenegro nos disse de uma existência
cheia êxitos, sim, mas também repleta de dissabores, como normalmente é o viver
de todos e de cada um de nós; e, lá no epílogo, sentenciou, sem cerimônia e
alicerçada pela sabedoria que o tempo lhe ofertou: "Tudo vai se
harmonizando para a despedida inevitável. Inarredável. O que lamento é a vida
durar apenas o tempo de um suspiro. Mas, acordo e canto". (9)
O
que eu busquei depois do filme
Na
esteira do que eu me propus a escrever sobre a velhice, depois que eu assisti
ao O último azul, eu busquei outras fontes, outras leituras. A
força bruta e perversa à qual deram o nome de etarismo todos os dias coloca as
suas garras infames e desumanas de fora, algo que nem sempre chega às páginas e
telas do noticiário e nem aparece nas timelines
das redes sociais.
Há
pouco mais de dois anos eu experimentei uma crise de meia idade que,
felizmente, apesar dolorosa, foi muitíssimo breve. Imaginem que eu, aos 50 anos
de idade, amarguei essa coisa ruim pesando os reflexos que o transcorrer do
tempo havia deixado na parte exterior do meu corpo e como isso fizera com que,
para os olhos dos adoradores da juventude, ele deixasse de ser interessante e
atraente e passasse a ser ignorado e até repulsivo. Em vista disso, eu me disse:
"Se, aos 50 anos, eu estou pensando assim, como será que alguém, com bem
mais idade do que eu, se percebe e se enxerga no mundo e avalia como é visto
pelo olhar dos outros?".
Não
desanimei; e segui em caminhada pela estrada da vida por onde me é possível
seguir.
Todo
um universo de personagens, anônimos e conhecidos, com suas histórias de
sucessos e fracassos, perdas e ganhos, abundâncias e privações, risos e choros
povoam as páginas de duas obras que eu li mais recentemente; páginas onde
várias questões sobre a velhice - solidão, desamparo, perda de relevância
social, doenças, reclusão, aposentadoria, etc. - fazem com que o leitor de
certa forma se reconheça em pelo menos alguns deles, seja por sua própria
condição, seja porque viu neles como que o retrato de pessoas que estão muito
próximas dele, afinal, as vidas são singulares, mas em muito elas se repetem e
são iguaizinhas umas às outras.
Publicado
em 1970, na França, A velhice, de Simone de Beauvoir, é uma
narrativa que analisa o retrato da velhice no mundo ocidental numa perspectiva
existencial, social e histórica; deveras abrangente e com uma imensa riqueza de
citações, essa obra da renomada escritora francesa nada tem de suave. Muito
pelo contrário. É um relato pesado e denunciador; é um verdadeiro libelo contra
o modo com que, em geral, as sociedades dos países ocidentais trataram os seus
velhos ao longo dos tempos. Um fragmento do texto introdutório do 1º volume dá
o tom do que o leitor irá encontrar na longa e minuciosa narrativa:
Afirmam-nos que a aposentadoria constitui a época da
liberdade e dos lazeres; poetas têm enaltecido as "delícias do porto"
[a expressão é de Racan]. Mentiras deslavadas. A sociedade impõe à imensa
maioria dos velhos um padrão de vida tão miserável que a expressão "velho
e pobre" quase chega a ser pleonasmo; e vice-versa, a maior parte dos
indigentes é constituída de velhos. Os lazeres não oferecem possibilidades
novas ao aposentado: na hora em que se vê liberado dos constrangimentos,
roubam-se ao indivíduo os meios de utilizar sua liberdade. Condenam-no a
vegetar na solidão e no tédio, como um legítimo refugo. O fato de ser um
homem reduzido à condição de "sobra", de "resto", durante
os últimos quinze ou vinte anos de sua existência, comprova a falência de nossa
civilização: semelhante evidência nos deixaria interditos se considerássemos os
velhos como seres humanos, tendo às suas costas uma existência humana, e não
como cadáveres ambulantes. Aqueles que denunciam este nosso sistema mutilador
deveriam chamar a atenção para semelhante escândalo. (10)
No segundo
volume de A velhice, que é recheado
de passagens da vida de personalidades, nem tudo é amargor e pesadelo na
escrita da autora de Sob o signo da história, mas o peso da
realidade vista por ela continua ali ditando uma mirada para o mundo dos
velhos:
A sociedade só se preocupa com o indivíduo na medida
em que ele produz. Sabem-no muito bem os jovens. Sua ansiedade no momento de
abordar a vida social é simétrica à angústia dos velhos na hora de serem dela
excluídos. No ínterim, a rotina se encarrega de mascarar os problemas. O jovem
teme a máquina que o vai abocanhar e procura, de quando em quando, defender-se
a golpes de paralelepípedos; ao velho, por ela repelido, esgotado e nu, só lhe
restam os olhos para chorar. (11)
No
ano passado, a historiadora Mary Del Priore lançou Uma história da
velhice no Brasil, um livro possivelmente inspirado na obra de Simone de
Beauvoir - que é citada apenas de passagem - e que, em que pese umas pequenas
falhas de revisão - por exemplo: alguns autores diversas vezes citados, como
Mário Sette, ficaram de fora da bibliografia -, nos deu um panorama sobre o
tema da velhice ao longo da história nacional, como descrever o que era ser
velho e negro no tempo da vigência da escravidão. E como foi mergulhar e
pesquisar sobre esse assunto, que se tornou tão urgente e discutido nos últimos
anos? Ela nos disse que:
Apesar da falta de documentos, ficou claro que, no
passado, a velhice não era um privilégio. Era uma fatalidade. Não era possível
se projetar no futuro. Para muitos, a velhice foi vinculada à pobreza, à
inatividade, à quietude. E velhos foram alvo de incontáveis doenças que
varreram o Brasil. Os centros urbanos foram difusores de
males: solidão, fim de correntes de
solidariedade, endemias - como a covid-19. (12)
Como
encarar a velhice, esse inevitável da vida?
Recentemente
eu li um conjunto significativo de entrevistas que o sociólogo, antropólogo,
historiador e escritor Gilberto Freyre concedeu a vários veículos de imprensa;
em algumas, quando indagado a respeito, o autor de Casa-grande &
senzala falou com entusiasmo da velhice; ele, que viveu durante 87
anos, se manteve intelectualmente relevante até quase os seus últimos dias. Na
efeméride dos seus 70 anos de vida, uma repórter da revista O Cruzeiro lhe
perguntou se a vida começava aos 70; e ele de pronto respondeu:
Não direi tanto. Nada de exageros caricaturescos. Mas
não me sinto aos 70 - favorecido, como venho sendo, por Deus, com uma saúde que
tem enganado até médicos ilustres com relação à minha idade - desoladamente
velho. E sim - "excusez do (sic) peu!" - goetheanamente idoso.
Preciso de dizer a mim mesmo, como outrora o pregoeiro ao triunfador que devia
seguir nas ruas de Roma - "lembra-te que és mortal!", este outro
"lembra-te": "lembra-te que és velho!".
(13)
Quase
catorze anos depois - só para ficarmos com mais um exemplo -, o ilustre e renomado
autor de Dona Sinhá e o filho padre, em entrevista concedida à
revista Veja, respondeu o seguinte a Mauro Bastos, que lhe
perguntou "De que modo o senhor encara a velhice?":
Nunca me integrei no status de velho, nem nas suas
vantagens nem nas desvantagens. Nunca aceitei a denominação de mestre, e é por
isso que não formei escola. Não sou mestre de modo algum, nem quero que me
tirem esta grande liberdade que é estar sempre aprendendo, renovando-me. E acho
que Deus - eu creio na existência de um Deus, à minha maneira - me concedeu uma
série de vantagens, entre elas a de estar já numa idade avançada e sem os
achaques da velhice. Por exemplo, li muito a vida inteira e não uso óculos.
Também não uso bengala. (14)
Para
cada Gilberto Freyre que, além de prestígio e relevância intelectual na
velhice, gozava também de uma boa condição socioeconômica, algo que impacta
diretamente o enfrentamento desse estágio da vida, quantos outros existiam e
existem por aí amargurados, acamados, abandonados por seus familiares e
largados em asilos? Para cada Mário Sette, que teve uma profunda clareza de sua
condição de velho ao abordar o tema dos conflitos geracionais em seu livro de
memórias ao dizer que a "verdadeira sabedoria da velhice" lhe
convenceu da distância a se formar entre as gerações, mesmo quando as ligue os
mais sólidos e sinceros afetos", (15) há, ao nosso redor e alhures, homens
e mulheres de idade avançada sofrendo com choques geracionais num mundo em
permanente e rápidas transformações que impactam o dia a dia deles?
Num
sábado de março e noutro de abril passados, eu fui à Caixa Cultural do Recife
assistir à peça "Não me entrego, não!", escrita por Flávio Marinho.
Abordando diversas passagens da longa vida do ator Othon Bastos que, aos 92
anos de idade, a protagoniza, o espetáculo é uma ode a muito celebrada carreira
desse ator baiano e, também, ao estar na vida resistindo o quanto possível ao
transcurso do tempo com um título que é, ele mesmo, uma comprovação disso. Foi
uma espécie de catarse, para mim, estar lá, na plateia. Eu me dissera que era
necessário que eu cv v fosse assistir à
peça como parte do reunir elementos para escrever este artigo. Ri. Chorei. E
saí do teatro em duas noites de sábado carregando comigo mais alguns
aprendizados e boas doses de otimismo e encorajamento frente ao futuro incerto.
Atormentado
por certa solidão em seus dois últimos aos de vida, Jean-Jacques Rousseau,
vagando por ruas de Paris, refletiu sobre diversos aspectos da existência e a
velhice não escapou disso. Eis aqui apenas uma parte do que ele registrou na
narrativa de sua terceira caminhada:
Entramos em cena no nascimento, dela saímos na morte.
De que serve aprender a melhor conduzir o seu carro quando se está no fim? Só
resta pensar como sair dela. O estudo de um velho, se ainda tem algum a fazer,
é apenas aprender a morrer, e é justamente o que menos se faz na minha idade;
se pensa em tudo, menos nisso. Todos os velhos têm mais apego à vida que as
crianças e saem dela com maior má vontade que os jovens. Como todas as suas
obras foram pra essa mesma vida, veem a seu fim que trabalharam em vão.
(16)
O
ranço e o amargor no relato de Rousseau é algo presente em várias narrativas
sobre a velhice e a finitude, como deixou ver Simone de Beauvoir em sua obra
que abordou o tema. A realidade é incontornável. O peso dos anos transforma o
corpo e o pensar. Jorge Luis Borges nos descreveu, no conto "No Sul",
a figura de "um homem bastante velho" que "Os muitos anos
haviam-no reduzido e polido como as águas a uma pedra ou as gerações dos homens
a um refrão". (17)
Olhar-se
num espelho é um tormento para muitos, daí por que tantos endinheirados
recorrem a cosméticos, a aplicações de substâncias na epiderme e a cirurgias
plásticas num esforço financeiro custoso e vão contras as marcas deixadas pelo
tempo implacável. A poesia que é apanhada e colhida na vida também escancara o
inevitável do envelhecimento e do caminhar para o fim. Está, por exemplo, nos
versos do poeta alagoano Ângelo Monteiro: "Nem para a terra nem para o
céu/ fomos feitos./ Nem mesmo para ser lembrados./ No encontro entre a luz dos
nossos olhos/ e a imagem das coisas provisórias/ consistem nossa noite e nosso
dia"; (18) e nos do pernambucano Jomard Muniz de Britto que proclamou:
"O tempo passa,/ não nos diz NADA./ Envelhecemos./ Saibamos, quase/
maliciosos/ sentir-nos ir./ Nada fica de nada. Nada somos". (19)
O
tempo vai passando e o envelhecimento se impõe sem fazer concessões a quem quer
que seja. É bem verdade, como já foi referido aqui, que as condições socioeconômicas
de cada indivíduo têm ou podem ter impacto não somente com o lidar com esse
processo como também com o modo de encarar essa etapa da vida.
Não
envelhecemos todos da mesma maneira, isso é fato; e tanto isso é verdade que,
às vezes, nos deparamos com pessoas jovens que apresentam uma fisionomia
envelhecida demais para a idade que têm e vice-versa. E sempre há aqueles que precisam
e requerem mais cuidados e atenção do que outros na rotina do dia a dia, como
vai minuciosamente descrito num folder informativo intitulado Pessoa
idosa no lar: cuidando de quem já cuidou de nós, que eu peguei semanas
atrás numa visita que fiz ao campus de Casa Forte da Fundação Joaquim Nabuco,
no Recife, no qual se descreve uma série de ações e procedimentos que devem ser
observados no trato com pessoas idosas, como medicamentos, posições no leito, mobilidade
no banheiro, alimentação e outros pontos, sempre lembrando que devemos fazer
pela pessoa idosa "apenas o que ela não puder fazer sozinha" e que
devemos respeitar "seu tempo, sua história e sua autonomia". (20)
Sob
o prisma do etarismo, os idosos não podem sequer ter vida sexual, porque, a
respeito disso, há quem considere que o tempo deles também já passou. E não é
bem assim. Recentemente o ator Marcos Oliveira, que ficou muito conhecido pelo
personagem Beiçola, do seriado A grande família, que era exibido
pela Rede Globo, provocou uma onda de indignação nas redes sociais por causa de
uma participação dele numa publicação feita no canal da revista Veja,
no YouTube, sobre o Retiro dos Artistas, um espaço que existe há
décadas, no Rio de Janeiro; em que pese o fato de que muitas das críticas
negativas que o ator recebeu se deveu ao modo como ele falou daquela
instituição onde ele se encontrava alojado, foi nítido no teor acidamente
crítico que pousou sobre ele pelo fato de, em seu depoimento, ele ter também
falado de seus desejos sexuais, algo que ele, aos 70 anos de idade, ainda
sente. (21)
Navegantes de uma plenitude possível
Agora,
que eu cheguei à parte final desse artigo, eu recobro a lembrança das imagens e
das cenas de O último azul em que
Tereza (Denise Weinberg) e Roberta (Miriam Socarrás) navegam num rio caudaloso
gozando, na dimensão e na potência de suas velhices, na redescoberta de suas
vidas e na liberdade alcançada, a plenitude possível de uma existência que há
de ser eterna enquanto durar.
A
liberdade sempre anda de mãos dadas com a insubmissão.
Notas
1-
Apud Marina Lima em entrevista em entrevista concedida a Matheus Rocha, da
Folha de S. Paulo - "Marina Lima não quer 'velhice idiota' e canta morte
de Antonio Cicero em novo álbum" -, publicado no dia 23 de março de 2026
na TV Folha, canal do jornal no YouTube (hhttps://giro.gl/EBg4ag).
Acessado em 23 de março de 2026. A fala de Fernanda Montenegro é parte de uma mensagem
de áudio que ela encaminhou, via WhatsApp,
para Marina Lima que, por sua vez, inseriu o trecho citado do áudio na música
"Collab grunkie", uma das faixas do seu álbum Ópera grunkie.
2-
"Vídeo: idoso é deixado em calçada de estabelecimento comercial no Mercado
Central de São Luís". In G1MA https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2025/08/08/video-idoso-e-deixado-em-calcada-de-estabelecimento-comercial-no-mercado-central-de-sao-luis.ghtml.
Publicado em 8 de agosto de 2025. Acessado em 31 de março de 2026.
3-
"Homem que abandonou idoso no Mercado Central de São Luís é irmão da vítima,
afirma Polícia Civil". In G1MA https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2025/08/12/homem-que-abandonou-idoso-no-mercado-central-de-sao-luis-e-irmao-da-vitima-afirma-policia-civil.ghtml.
Publicado em 12 de agosto de 2025. Acessado em 31 de março de 2026.
4-
Eis algumas manchetes de notícias envolvendo crimes praticados contra idosos:
Bruna Ribeiro. "Idosa é resgatada de cárcere privado em Belém".
In Agência Pará https://agenciapara.com.br/noticia/60463/idosa-e-resgatada-de-carcere-privado-em-belem.
Publicado em 15 de outubro de 2024. Acessado em 31 de março de 2026;
"Filho é preso por manter pai idoso em cárcere privado e situação extrema
de abandono". In Goias.gov.br https://goias.gov.br/policiacivil/filho-e-preso-por-manter-pai-idoso-em-carcere-privado-e-situacao-extrema-de-abandono/.
Publicado em 2 de outubro de 2023. Acessado em 31 de março de 2026;
Giovanna Machado. "idosa era mantida em cárcere privado pelo marido, que é
usuário de crack". In CNN
Brasil https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/centro-oeste/ms/idosa-era-mantida-em-carcere-privado-pelo-marido-que-e-usuario-de-crack/.
Publicado em 3 de abril de 2025. Acessado em: 31 de março de 2026;
Gustavo Basso. "Denúncias de idosos abandonados sobem 26% em um ano no
Brasil". In UOL https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2025/12/02/abandono-de-pessoas-idosas-e-crime-e-aumenta-no-brasil.htm.
Publicado em 2 de dezembro de 2025. Acessado em 31 de março de 2026.
5-
Ecléa Bosi. Memória e sociedade: lembranças de velhos, p. 421.
Nessa mesma página a autora avalia como "pessimista" a afirmação de
Simone de Beauvoir de que o homem idoso se volta tão prazerosamente para o
passado, porque esse era o tempo em que ele considerava que era um indivíduo
que estava inteiro e vivo. Disse Ecléa: "Achamos pessimista a visão de
Simone, pois não se aplica todas as pessoas".
6-
Edson Nery da Fonseca. Vão-se os dias e eu fico. Por ordem de
citação pp. 15 e 16.
7-
Edson Nery da Fonseca. Estão todos dormindo. A citação aparece na
segunda orelha do livro.
8-
Marco Aurélio Cícero. Saber envelhecer e A amizade, p. 54.
9-
Fernanda Montenegro. Prólogo, ato, epílogo, p. 272.
10-
Simone de Beauvoir. A velhice - 1. A realidade incômoda, p. 11.
11-
Simone de Beauvoir. A velhice - 2. As relações com o mundo, p. 303.
12-
Mary Del Priore. Uma história da velhice no Brasil, p. 12. Na
verdade, a covid-19 foi uma pandemia não uma endemia.
13-
Estefânia Pinheiro. "Gilberto Freyre - A sinceridade dos 70 anos"
(entrevista). O Cruzeiro, 7 de abril de 1970, p. 96.
14-
Mauro Bastos. "Gilberto Freyre - O anarquista construtivo"
(entrevista). Veja, 4 de janeiro de 1984, p. 7.
15-
Mário Sette. Memórias íntimas, p. 210.
16-
Jean-Jacques Rousseau. Os devaneios do caminhante solitário, p. 28.
17-
Jorge Luis Borges. "O Sul". In Ficções, p. 154.
18-
Ângelo Monteiro. "Para que fomos feitos". In O canto da
esfinge, p. 35. Originalmente publicado no livro Os olhos da
vigília.
19-
Jomard Muniz de Britto. "Fernando Ricardo Reis Pessoa". In Atentados
poéticos, p. 29.
20-
Folder Pessoa idosa no lar: cuidando de quem já cuidou de nós.
21-
Mafê Firpo. "As angústias de Marcos Oliveira no Retiro dos Artistas: 'não
sou inútil'". Canal da revista Veja no YouTube.
Publicado no dia 23 de março de 2026. Acessado em 23 de março de 2026.
Referências
e bibliografia
-
Sites e canais do YouTube
Agência
Pará
CNN
Brasil
Folha
de S. Paulo
Goias.gov.br
G1MA
UOL
Veja
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(entrevista). Veja, São Paulo, 4 de janeiro de 1984, p. 5-7.
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Heloysa de Lima Dantas. São Paulo: Difel/Difusão Editorial S.A., 1976.
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velhice - 2. As relações com o mundo. Trad. Heloysa de Lima Dantas. São
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MONTENEGRO,
Fernanda. Prólogo, ato, epílogo: memórias. São Paulo: Companhia das
Letras, 2019.
Pessoa
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