16 de maio de 2026

O último azul: etarismo, opressão e redenção ou De como tentam impor data de validade nas pessoas ou O triunfo da velhice insubmissa

Por Sierra

 

Aproveite a vida. Não se queixe. Nada consola uma velhice idiota.

                                                                                     Fernanda Montenegro (1)

 


Imagem: DeositPhotos
Não existe juventude eterna; o que, de fato, existe é o transcurso da vida que se vai escapapando de nós dia após dia. Envelhecer é algo inevitável. Prepararmo-nos para todas as etapas da vida é a grande sabedoria do existir. Não fechemos os olhos e não ignoremos as crueldades todas que são cometidas contra os idosos. O etarismo é um dos grandes males deste nosso tempo



Nada será como antes

 

A força bruta e imperiosa do etarismo está de tal forma presente em nossa sociedade que, por mais absurdos e por vezes desumanos e cruéis, muito cruéis que sejam comportamentos deles advindos, não poucos de nós agimos como se isso fosse um fato banal da nossa existência, como o nascer, crescer, procriar e morrer. E esse entendimento que, não raro, resvala para a indiferença, para o descaso e mesmo para a prática e cumplicidade com essa chaga social, costuma nos pôr em face de cenas e situações tão infames e reprováveis sem que, no entanto, reajamos contra esse estado de coisas.

Faz quase dez anos que eu tive uma experiência bastante dolorosa com a minha avó Maria da Conceição que, na época, estava com 89 anos de idade. O modo como vários dos filhos dela lidaram com a sua condição de idosa que precisava de amparo, atenção e cuidados, me marcou negativamente de tal maneira que isso ficou a pesar na minha consciência até hoje, desde o seu falecimento, ocorrido em 2017. Eu passei dias e dias remoendo aquelas ocorrências; e sonhava constantemente com ela; e chorava como estou chorando agora em que me encontro rememorando aqueles acontecimentos ruins, porque, em certa medida, eu me vejo como cúmplice de tudo o que marcou os últimos meses de vida dela: as mudanças de casas; o não aceitar de todo as vontades dela; as ausências de quase todos os seus filhos... Minha avó, eu sei, me queria bem e me amava sobre todas as coisas; e pensar que eu não soube cuidar dela como deveria é o que mais me doi e me pesa; e eu não quero nunca me esquecer disso para que não torne a repetir o que eu fiz e nem aceitar que ajam com outrem como eu agi para com ela.

Essa experiência amarga, amaríssima, na verdade, me levou a encarar o avanço  da idade e a velhice propriamente dita, no terreno social como um todo, porque, além de eu ter uma mãe por perto, eu próprio estava/estou caminhando na minha jornada inescapável e inevitável de envelhecer numa sociedade que fundamentalmente só valoriza e exalta a juventude, relegando os mais velhos a uma espécie de escaninho onde eles quase não possam ser vistos. E essa percepção só fez se acentuar ao longo dos últimos anos, tempo esse em que experiências do meu dia a dia foram se juntando a leituras ligadas ao tema.

 

Largado na rua

 

No dia 8 de agosto do ano passado, quando eu me encontrava almoçando na sala de casa e assistia ao Jornal Hoje, da Rede Globo, vi, estarrecido, mais uma dessas notícias que de tão tristes, aterradoras e chocantes, fazem com que nossos olhos lacrimejem: o telejornal exibiu uma breve matéria que mostrou imagens de um carro estacionando e um idoso sendo retirado do veículo e largado numa calçada de um dos mais movimentados mercados públicos de São Luís do Maranhão. Até aquele momento, o telejornal não tinha mais informações sobre o flagrante.

Depois que eu acabei de almoçar, busquei mais detalhes daquele caso; e no G1MA, site também pertencente ao Grupo Globo, eu li uma reportagem publicada naquele mesmo dia; em linhas gerais, o texto, sem indicação de autoria, dizia o seguinte: o idoso, de 77 anos, fora deixado na calçada de um estabelecimento do Mercado Central de São Luís por volta das 6h18 daquela sexta-feira 8 de agosto, conforme o registro de uma câmera de segurança, que mostrou um carro estacionando, um homem descendo da carroceria - onde estava junto com uma mulher - e sendo acompanhado pelo motorista, que também descera do veículo, pegou o idoso, que se encontrava no banco do carona, e  o levou no colo para a calçada e foram embora. A reportagem disse ainda que, por meio de nota, a Secretaria Municipal da Criança e Assistência Social (Semcas) informou que o coordenador do Centro de Referência Especializada para População em Situação de Rua fora até o local e fizera o devido atendimento ao idoso, encaminhando-o para o Centro de Atenção Integral à Saúde do Idoso (CAISI). Ainda de acordo com a notícia, até aquele momento não se sabia a origem do homem e nem sobre quem o largara na calçada; e que, procurada pelo G1MA, a Polícia Civil não informara se o caso já estava sendo investigado. (2)

Quatro dias depois, o mesmo portal de notícias aprofundou as informações, informações essas que tornaram o caso ainda mais absurdo e revoltante. A apuração dos jornalistas nos deu conta de que: o homem que carregara o idoso no colo e o largara na calçada era irmão dele; que o motorista declarou que só deu uma carona ao grupo e que não sabia o que aconteceria; que a mulher sentada na carroceria era cunhada do idoso; que, segundo o levantamento feito pelas autoridades policiais, o motivo do abandono  fora uma briga familiar; que o irmão do idoso ainda não se apresentara para prestar um depoimento; que o abandonado, o senhor Romão Duarte Brito, era natural da cidade de Alcântara, onde a família dele também morava; e que, até aquele dia, nenhum parente aparecera no CAISI para buscá-lo. Em entrevista à reportagem, Isabel Lopizic, coordenadora do Centro Integrado de Apoio e Prevenção à Violência contra a Pessoa Idosa (CIAPVI) foi categórica: "Abandono é crime, principalmente de uma pessoa idosa, que está em uma situação de extrema vulnerabilidade como todo mundo percebeu. Então, a gente precisa ter esse conhecimento e tentar intervir nessa dinâmica, para que a violência deixe de existir". (3)

O episódio ocorrido em São Luís vitimando um idoso foi só um entre dezenas, centenas de outros que marcam homens e mulheres dessa faixa etária. Basta que façamos uma simples pesquisa na internet para que nos deparemos com reportagens que narram os mais diversos crimes praticados contra idosos; crimes que vão de cárcere privado até o abandono completo e total; crimes esses que, no mais das vezes, têm parentes das vítimas como protagonistas. (4)

 

O dia em que eu assisti ao filme O último azul

 

Naquela tarde do dia 24 de agosto do ano passado, quando eu me dirigi ao Cinema da Fundação, no bairro do Derby, no Recife, para assistir ao filme O último azul, do diretor Gabriel Mascaro, eu não sabia que se tratava de uma sessão de pré-estreia, de uma muitíssimo concorrida sessão de pré-estreia, melhor dizendo. De modo que, quando eu cheguei lá, me deparei com uma verdadeira multidão no corredor num clima muito efusivo e marcado pela presença do Gabriel Mascaro e pela exibição do Urso de Prata - posicionado junto a uma janela de onde podia se ver o icônico Rio Capibaribe -, que  a produção ganhara no Festival de Berlim, e, claro, não havia mais ingressos disponíveis. Desapontado, eu já estava descendo a escada para ir embora quando uma mulher me chamou e perguntou se eu  conseguira ingresso; e, ao me ouvir dizer que não, ela disse que tinha um sobrando; eu, alegre que só um pinto no lixo, paguei a ela via PIX e lhe agradeci muito  - seu nome é Marta Jeruza - por ter me chamado e oferecido o ingresso.

Agora era aproveitar o burburinho e esperar pelo início da exibição do filme.

Com um principiar sombrio e aflitivo - pelo menos o foi para mim -, a narrativa me fez mergulhar em lembranças amargas e dolorosas; e uma tristeza me tomou quase por inteiro. Aquela distopia com um pé fincado na realidade dizia de um modo muito cruel e desumano de tratar a velhice e os velhos; coisificar o indivíduo por conta de sua ancianidade é algo que lateja na primeira parte de O último azul. Inservível, imprestável, incômodo... São várias as depreciações atribuídas aos idosos como justificativas para tirá-los literalmente de circulação da sociedade livre e enviá-los para uma colônia, um grande asilo estatal onde eles têm de permanecer até o fim de suas existências.

Passada essa primeira parte pesada, tristonha e sombria, eis que, mais adiante, O último azul nos conduz por uma solar e entusiasmadora aventura, por uma feliz epopeia de uma liberdade ampla e sem restrições que navega nas águas de um rio. Nossa, que coisa emocionante e encorajadora!

Ao fim da exibição do filme - e ainda muito emocionado -, eu abracei o diretor Gabriel Mascaro e lhe agradeci pelo que acabara de ver. E deixei o Cinema da Fundação carregando comigo uma carga poderosa de destemor quanto ao futuro.

 

Retratos da velhice ou Como ser velho numa sociedade que fundamentalmente só celebra a juventude?   

 

Não há como escapar do envelhecimento. Eis um fato inalterável de nossa existência. Envelhecemos um pouco todos os dias. E não há procedimento estético, creme e aplicação de botox que consiga deter e barrar isso. E o modo como estamos na vida e sobrevivemos indiscutivelmente reflete não somente em nosso corpo, deixando, por vezes, marcas que levam muitos a dizer "Olha só, fulano envelheceu muito antes do tempo", como também tem reflexos na maneira como encaramos o envelhecer e a própria dinâmica existencial, porque, muito provavelmente, não é com o mesmo olhar sobre o tempo futuro e suas consequências que pessoas de situações socioeconômicas diametralmente opostas o encaram.     

Num mundo tomado por uma permanente exaltação da "juventude eterna", onde velhos endinheirados recorrem a tudo que podem para esconder e disfarçar rugas  - uns chegam ao absurdo de manipular fotos para postá-las em redes sociais -, as estatísticas governamentais vêm divulgando que, independentemente da classe social, a porcentagem de velhos no todo da população só vem aumentando, resultado de uma série de fatores como acesso à medicina preventiva, descobertas da indústria farmacêutica, a adoção de hábitos saudáveis de alimentação, prática de exercícios físicos, etc. Em que pese a discussão sobre o impacto que a longevidade acarretará para o sistema previdenciário e o de saúde pública, a mim, o que realmente mais me preocupa é: como a sociedade, historicamente tão, digamos, antivelhos, vai lidar com eles?

Muitos anos antes de assistir ao filme O último azul, eu tinha tido contato com três produções em vídeo que me marcaram profundamente pelo tom deveras negativo com que abordaram o tema da velhice: no final da minha adolescência eu vi, em casa, um episódio do seriado Família Dinossauro [1991] intitulado de "O dia do arremesso"; anos depois, na época da faculdade, eu assisti, em sala de aula, ao A balada de Narayama [1983], adaptação de uma novela de Shichiro Fukuzawa feita pelo diretor Shoei Imamura - ao ver esse drama eu deduzi que aquele episódio do Família Dinossauro igualmente fora uma adaptação da obra do Fukuzawa -;  e, algum tempo mais adiante - se não me falha a memória, eu o vi também no Cinema da Fundação -, assisti ao tremendamente impactante Amor [2012], do diretor Michael Haneke. E, devido a uma série de circunstâncias e interesses pessoais e intelectuais, ainda antes de assistir ao filme do Gabriel Mascaro, eu li obras diversas que, de uma maneira ou de outra, enfocaram a temática do envelhecimento - vou dizer um pouco sobre tais leituras no parágrafos seguintes.

Um dos livros mais instigantes que eu até hoje li na esfera de minha formação intelectual e fundamental para as minhas práticas de pesquisador, Memória e sociedade: lembranças de velhos, de Ecléa Bosi, abriu os meus olhos não só para os meandros do que se convencionou chamar de história oral, bem como para a compreensão da história individual como parte de uma história coletiva. Ao recolher depoimentos de homens e mulheres de idade avançada e analisá-los sob diferentes perspectivas, a autora nos pôs em face de diversas camadas existenciais que formam o todo social com suas riquezas de singularidades permeadas pelo transcurso do tempo na vida de cada um deles; e um dos seus comentários a respeito de tais vozes, do que tais vozes evocaram, melhor dizendo, é bastante pertinente sobre o que eu escrevi, lá atrás, sobre o caráter do "inservíviel" e do "imprestável" visto em O último azul para justificar o recolhimento dos idosos naquela distopia; Ecleá Bosi destacou:

Curiosa é a expressão meu tempo [grifo do autor] usada pelos que recordam. Qual é o meu tempo [grifo do autor], se ainda estou vivo e não tomei emprestada minha época a ninguém, pois ela me pertence tanto quanto a outros, meus coetâneos?. (5)

No caminho de minha formação intelectual eu tive o grande, o imenso privilégio de conhecer e de conviver durante algum tempo com o bibliotecário, escritor e memorialista Edson Nery da Fonseca. Conheci-o quando ele estava às vésperas de completar 89 anos; tendo vivido tanto e ainda dotado de uma memória espantosa, ele, pelo que eu via, não mantinha um grande interesse pelo tema da velhice; a mim me parecia que ele evitava falar sobre isso. A primeira vez que nós estivemos juntos foi em 2011, na casa onde ele morava, em Olinda, casa onde eu passaria alguns dos melhores momentos da minha vida. Dois anos antes do nosso encontro, Edson Nery da Fonseca lançara um delicioso livro de memórias, obra que eu li com enorme entusiasmo; em Vão-se os dias e eu fico, onde ele disse muito, mas não tudo de sua vida, já no capítulo inicial ele revelou um desprazer para com a velhice que, em todo caso, não tirou o brilho da narrativa; evocando a figura do seu amigo Manuel da Silveira Cardozo que, segundo ele, lhe confessara "sentir-se mais feliz na velhice do que em toda sua vida", o autor de Introdução à Biblioteconomia nos disse assim:

Fiquei com inveja da alegria pós-balzaquiana de Manuel Cardozo porque em minha velhice não me sinto tão feliz como fui na mocidade. Peço perdão a Deus por dizer isto, porque tenho de ser agradecido por ter sido  poupado dos achaques mais comuns da terceira idade, como câncer de próstata, diabetes, catarata, doença de Parkinson, demência etc. Mas não posso dizer que seja, existencialmente, um velho feliz. (6)

Esse viés evocativo de lembranças Edson Nery da Fonseca manteve noutro livro, que foi publicado apenas um ano depois daquelas suas memórias. Em Estão todos dormindo ele nos apresentou a alguns dos tantos amigos que teve, como Zila Mamede, Otto Maria Carpeaux e Mauro Mota que, àquela altura "de minha já longa existência" (7) não se encontravam mais acordados no meio de nós e, sim, dormindo, dormindo profundamente como no poema "Profundamente" do seu bardo preferido Manuel Bandeira.

Lendo tais escritos do meu saudoso e querido Edson Nery da Fonseca eu me peguei pensando que ele leu o Saber envelhecer, de Cícero, que eu encontrei em sua biblioteca, e não tomou para si algumas das passagens que se encontram ali e que não estão entre as que ele grifou com uma caneta de tinta azul: "O tempo perdido jamais retorna e ninguém conhece o futuro. Contentemo-nos com o tempo que nos é dado a viver, seja qual for!". (8)

E ainda antes de ir assistir àquele filme do Gabriel Mascaro eu devorei outro livro de memórias, agora o da celebradíssima e adorada atriz Fernanda Montenegro. Em Prólogo,ato, epílogo, que ela lançou no marco de seus 90 anos de idade, a grande dama do teatro brasileiro narrou diversas passagens de sua trajetória, alinhavando tudo com a colaboração de Marta Góes. Num tom e num ritmo aliciantes, Fernanda Montenegro nos disse de uma existência cheia êxitos, sim, mas também repleta de dissabores, como normalmente é o viver de todos e de cada um de nós; e, lá no epílogo, sentenciou, sem cerimônia e alicerçada pela sabedoria que o tempo lhe ofertou: "Tudo vai se harmonizando para a despedida inevitável. Inarredável. O que lamento é a vida durar apenas o tempo de um suspiro. Mas, acordo e canto". (9)

 

O que eu busquei depois do filme

 

Na esteira do que eu me propus a escrever sobre a velhice, depois que eu assisti ao O último azul, eu busquei outras fontes, outras leituras. A força bruta e perversa à qual deram o nome de etarismo todos os dias coloca as suas garras infames e desumanas de fora, algo que nem sempre chega às páginas e telas do noticiário e nem aparece nas timelines das redes sociais.

Há pouco mais de dois anos eu experimentei uma crise de meia idade que, felizmente, apesar dolorosa, foi muitíssimo breve. Imaginem que eu, aos 50 anos de idade, amarguei essa coisa ruim pesando os reflexos que o transcorrer do tempo havia deixado na parte exterior do meu corpo e como isso fizera com que, para os olhos dos adoradores da juventude, ele deixasse de ser interessante e atraente e passasse a ser ignorado e até repulsivo. Em vista disso, eu me disse: "Se, aos 50 anos, eu estou pensando assim, como será que alguém, com bem mais idade do que eu, se percebe e se enxerga no mundo e avalia como é visto pelo olhar dos outros?".

Não desanimei; e segui em caminhada pela estrada da vida por onde me é possível seguir.

Todo um universo de personagens, anônimos e conhecidos, com suas histórias de sucessos e fracassos, perdas e ganhos, abundâncias e privações, risos e choros povoam as páginas de duas obras que eu li mais recentemente; páginas onde várias questões sobre a velhice - solidão, desamparo, perda de relevância social, doenças, reclusão, aposentadoria, etc. - fazem com que o leitor de certa forma se reconheça em pelo menos alguns deles, seja por sua própria condição, seja porque viu neles como que o retrato de pessoas que estão muito próximas dele, afinal, as vidas são singulares, mas em muito elas se repetem e são iguaizinhas umas às outras.

Publicado em 1970, na França, A velhice, de Simone de Beauvoir, é uma narrativa que analisa o retrato da velhice no mundo ocidental numa perspectiva existencial, social e histórica; deveras abrangente e com uma imensa riqueza de citações, essa obra da renomada escritora francesa nada tem de suave. Muito pelo contrário. É um relato pesado e denunciador; é um verdadeiro libelo contra o modo com que, em geral, as sociedades dos países ocidentais trataram os seus velhos ao longo dos tempos. Um fragmento do texto introdutório do 1º volume dá o tom do que o leitor irá encontrar na longa e minuciosa narrativa:

Afirmam-nos que a aposentadoria constitui a época da liberdade e dos lazeres; poetas têm enaltecido as "delícias do porto" [a expressão é de Racan].  Mentiras deslavadas. A sociedade impõe à imensa maioria dos velhos um padrão de vida tão miserável que a expressão "velho e pobre" quase chega a ser pleonasmo; e vice-versa, a maior parte dos indigentes é constituída de velhos. Os lazeres não oferecem possibilidades novas ao aposentado: na hora em que se vê liberado dos constrangimentos, roubam-se ao indivíduo os meios de utilizar sua liberdade. Condenam-no a vegetar na solidão e no tédio, como um legítimo refugo. O fato  de ser um homem reduzido à condição de "sobra", de "resto", durante os últimos quinze ou vinte anos de sua existência, comprova a falência de nossa civilização: semelhante evidência nos deixaria interditos se considerássemos os velhos como seres humanos, tendo às suas costas uma existência humana, e não como cadáveres ambulantes. Aqueles que denunciam este nosso sistema mutilador deveriam chamar a atenção para semelhante escândalo. (10)

No segundo volume de A velhice, que é recheado de passagens da vida de personalidades, nem tudo é amargor e pesadelo na escrita da autora de Sob o signo da história, mas o peso da realidade vista por ela continua ali ditando  uma mirada para o mundo dos velhos:

A sociedade só se preocupa com o indivíduo na medida em que ele produz. Sabem-no muito bem os jovens. Sua ansiedade no momento de abordar a vida social é simétrica à angústia dos velhos na hora de serem dela excluídos. No ínterim, a rotina se encarrega de mascarar os problemas. O jovem teme a máquina que o vai abocanhar e procura, de quando em quando, defender-se a golpes de paralelepípedos; ao velho, por ela repelido, esgotado e nu, só lhe restam os olhos para chorar. (11)

 

No ano passado, a historiadora Mary Del Priore lançou Uma história da velhice no Brasil, um livro possivelmente inspirado na obra de Simone de Beauvoir - que é citada apenas de passagem - e que, em que pese umas pequenas falhas de revisão - por exemplo: alguns autores diversas vezes citados, como Mário Sette, ficaram de fora da bibliografia -, nos deu um panorama sobre o tema da velhice ao longo da história nacional, como descrever o que era ser velho e negro no tempo da vigência da escravidão. E como foi mergulhar e pesquisar sobre esse assunto, que se tornou tão urgente e discutido nos últimos anos? Ela nos disse que:

Apesar da falta de documentos, ficou claro que, no passado, a velhice não era um privilégio. Era uma fatalidade. Não era possível se projetar no futuro. Para muitos, a velhice foi vinculada à pobreza, à inatividade, à quietude. E velhos foram alvo de incontáveis doenças que varreram o Brasil. Os centros urbanos foram difusores de males: solidão, fim de correntes de solidariedade, endemias - como a covid-19. (12)

 

Como encarar a velhice, esse inevitável da vida?

 

Recentemente eu li um conjunto significativo de entrevistas que o sociólogo, antropólogo, historiador e escritor Gilberto Freyre concedeu a vários veículos de imprensa; em algumas, quando indagado a respeito, o autor de Casa-grande & senzala falou com entusiasmo da velhice; ele, que viveu durante 87 anos, se manteve intelectualmente relevante até quase os seus últimos dias. Na efeméride dos seus 70 anos de vida, uma repórter da revista O Cruzeiro lhe perguntou se a vida começava aos 70; e ele de pronto respondeu:

Não direi tanto. Nada de exageros caricaturescos. Mas não me sinto aos 70 - favorecido, como venho sendo, por Deus, com uma saúde que tem enganado até médicos ilustres com relação à minha idade - desoladamente velho. E sim - "excusez do (sic) peu!" - goetheanamente idoso. Preciso de dizer a mim mesmo, como outrora o pregoeiro ao triunfador que devia seguir nas ruas de Roma - "lembra-te que és mortal!", este outro "lembra-te": "lembra-te que és velho!". (13)

Quase catorze anos depois - só para ficarmos com mais um exemplo -, o ilustre e renomado autor de Dona Sinhá e o filho padre, em entrevista concedida à revista Veja, respondeu o seguinte a Mauro Bastos, que lhe perguntou "De que modo o senhor encara a velhice?":

Nunca me integrei no status de velho, nem nas suas vantagens nem nas desvantagens. Nunca aceitei a denominação de mestre, e é por isso que não formei escola. Não sou mestre de modo algum, nem quero que me tirem esta grande liberdade que é estar sempre aprendendo, renovando-me. E acho que Deus - eu creio na existência de um Deus, à minha maneira - me concedeu uma série de vantagens, entre elas a de estar já numa idade avançada e sem os achaques da velhice. Por exemplo, li muito a vida inteira e não uso óculos. Também não uso bengala. (14)

Para cada Gilberto Freyre que, além de prestígio e relevância intelectual na velhice, gozava também de uma boa condição socioeconômica, algo que impacta diretamente o enfrentamento desse estágio da vida, quantos outros existiam e existem por aí amargurados, acamados, abandonados por seus familiares e largados em asilos? Para cada Mário Sette, que teve uma profunda clareza de sua condição de velho ao abordar o tema dos conflitos geracionais em seu livro de memórias ao dizer que a "verdadeira sabedoria da velhice" lhe convenceu da distância a se formar entre as gerações, mesmo quando as ligue os mais sólidos e sinceros afetos", (15) há, ao nosso redor e alhures, homens e mulheres de idade avançada sofrendo com choques geracionais num mundo em permanente e rápidas transformações que impactam o dia a dia deles?

Num sábado de março e noutro de abril passados, eu fui à Caixa Cultural do Recife assistir à peça "Não me entrego, não!", escrita por Flávio Marinho. Abordando diversas passagens da longa vida do ator Othon Bastos que, aos 92 anos de idade, a protagoniza, o espetáculo é uma ode a muito celebrada carreira desse ator baiano e, também, ao estar na vida resistindo o quanto possível ao transcurso do tempo com um título que é, ele mesmo, uma comprovação disso. Foi uma espécie de catarse, para mim, estar lá, na plateia. Eu me dissera que era necessário que eu cv  v fosse assistir à peça como parte do reunir elementos para escrever este artigo. Ri. Chorei. E saí do teatro em duas noites de sábado carregando comigo mais alguns aprendizados e boas doses de otimismo e encorajamento frente ao futuro incerto.

Atormentado por certa solidão em seus dois últimos aos de vida, Jean-Jacques Rousseau, vagando por ruas de Paris, refletiu sobre diversos aspectos da existência e a velhice não escapou disso. Eis aqui apenas uma parte do que ele registrou na narrativa de sua terceira caminhada:

Entramos em cena no nascimento, dela saímos na morte. De que serve aprender a melhor conduzir o seu carro quando se está no fim? Só resta pensar como sair dela. O estudo de um velho, se ainda tem algum a fazer, é apenas aprender a morrer, e é justamente o que menos se faz na minha idade; se pensa em tudo, menos nisso. Todos os velhos têm mais apego à vida que as crianças e saem dela com maior má vontade que os jovens. Como todas as suas obras foram pra essa mesma vida, veem a seu fim que trabalharam em vão. (16)

O ranço e o amargor no relato de Rousseau é algo presente em várias narrativas sobre a velhice e a finitude, como deixou ver Simone de Beauvoir em sua obra que abordou o tema. A realidade é incontornável. O peso dos anos transforma o corpo e o pensar. Jorge Luis Borges nos descreveu, no conto "No Sul", a figura de "um homem bastante velho" que "Os muitos anos haviam-no reduzido e polido como as águas a uma pedra ou as gerações dos homens a um refrão". (17)

Olhar-se num espelho é um tormento para muitos, daí por que tantos endinheirados recorrem a cosméticos, a aplicações de substâncias na epiderme e a cirurgias plásticas num esforço financeiro custoso e vão contras as marcas deixadas pelo tempo implacável. A poesia que é apanhada e colhida na vida também escancara o inevitável do envelhecimento e do caminhar para o fim. Está, por exemplo, nos versos do poeta alagoano Ângelo Monteiro: "Nem para a terra nem para o céu/ fomos feitos./ Nem mesmo para ser lembrados./ No encontro entre a luz dos nossos olhos/ e a imagem das coisas provisórias/ consistem nossa noite e nosso dia"; (18) e nos do pernambucano Jomard Muniz de Britto que proclamou: "O tempo passa,/ não nos diz NADA./ Envelhecemos./ Saibamos, quase/ maliciosos/ sentir-nos ir./ Nada fica de nada. Nada somos". (19)

O tempo vai passando e o envelhecimento se impõe sem fazer concessões a quem quer que seja. É bem verdade, como já foi referido aqui, que as condições socioeconômicas de cada indivíduo têm ou podem ter impacto não somente com o lidar com esse processo como também com o modo de encarar essa etapa da vida.

Não envelhecemos todos da mesma maneira, isso é fato; e tanto isso é verdade que, às vezes, nos deparamos com pessoas jovens que apresentam uma fisionomia envelhecida demais para a idade que têm e vice-versa. E sempre há aqueles que precisam e requerem mais cuidados e atenção do que outros na rotina do dia a dia, como vai minuciosamente descrito num folder informativo intitulado Pessoa idosa no lar: cuidando de quem já cuidou de nós, que eu peguei semanas atrás numa visita que fiz ao campus de Casa Forte da Fundação Joaquim Nabuco, no Recife, no qual se descreve uma série de ações e procedimentos que devem ser observados no trato com pessoas idosas, como medicamentos, posições no leito, mobilidade no banheiro, alimentação e outros pontos, sempre lembrando que devemos fazer pela pessoa idosa "apenas o que ela não puder fazer sozinha" e que devemos respeitar "seu tempo, sua história e sua autonomia". (20)

Sob o prisma do etarismo, os idosos não podem sequer ter vida sexual, porque, a respeito disso, há quem considere que o tempo deles também já passou. E não é bem assim. Recentemente o ator Marcos Oliveira, que ficou muito conhecido pelo personagem Beiçola, do seriado A grande família, que era exibido pela Rede Globo, provocou uma onda de indignação nas redes sociais por causa de uma participação dele numa publicação feita no canal da revista Veja, no YouTube, sobre o Retiro dos Artistas, um espaço que existe há décadas, no Rio de Janeiro; em que pese o fato de que muitas das críticas negativas que o ator recebeu se deveu ao modo como ele falou daquela instituição onde ele se encontrava alojado, foi nítido no teor acidamente crítico que pousou sobre ele pelo fato de, em seu depoimento, ele ter também falado de seus desejos sexuais, algo que ele, aos 70 anos de idade, ainda sente. (21)

 

Navegantes de uma plenitude possível

 

Agora, que eu cheguei à parte final desse artigo, eu recobro a lembrança das imagens e das cenas de O último azul em que Tereza (Denise Weinberg) e Roberta (Miriam Socarrás) navegam num rio caudaloso gozando, na dimensão e na potência de suas velhices, na redescoberta de suas vidas e na liberdade alcançada, a plenitude possível de uma existência que há de ser eterna enquanto durar.

A liberdade sempre anda de mãos dadas com a insubmissão.

 

 

 

Notas 

 

1- Apud Marina Lima em entrevista em entrevista concedida a Matheus Rocha, da Folha de S. Paulo - "Marina Lima não quer 'velhice idiota' e canta morte de Antonio Cicero em novo álbum" -, publicado no dia 23 de março de 2026 na TV Folha, canal do jornal no YouTube (hhttps://giro.gl/EBg4ag). Acessado em 23 de março de 2026. A fala de Fernanda Montenegro é parte de uma mensagem de áudio que ela encaminhou, via WhatsApp, para Marina Lima que, por sua vez, inseriu o trecho citado do áudio na música "Collab grunkie", uma das faixas do seu álbum Ópera grunkie.

2- "Vídeo: idoso é deixado em calçada de estabelecimento comercial no Mercado Central de São Luís". In G1MA https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2025/08/08/video-idoso-e-deixado-em-calcada-de-estabelecimento-comercial-no-mercado-central-de-sao-luis.ghtml. Publicado em 8 de agosto de 2025.  Acessado em 31 de março de 2026.

3- "Homem que abandonou idoso no Mercado Central de São Luís é irmão da vítima, afirma Polícia Civil". In G1MA https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2025/08/12/homem-que-abandonou-idoso-no-mercado-central-de-sao-luis-e-irmao-da-vitima-afirma-policia-civil.ghtml. Publicado em 12 de agosto de 2025. Acessado em 31 de março de 2026.

4- Eis algumas manchetes de notícias envolvendo crimes praticados contra idosos: Bruna Ribeiro. "Idosa é resgatada de cárcere privado em Belém". In Agência Pará https://agenciapara.com.br/noticia/60463/idosa-e-resgatada-de-carcere-privado-em-belem. Publicado em 15 de outubro de 2024. Acessado em 31 de março de 2026; "Filho é preso por manter pai idoso em cárcere privado e situação extrema de abandono". In Goias.gov.br https://goias.gov.br/policiacivil/filho-e-preso-por-manter-pai-idoso-em-carcere-privado-e-situacao-extrema-de-abandono/. Publicado em 2 de outubro de 2023.  Acessado em 31 de março de 2026; Giovanna Machado. "idosa era mantida em cárcere privado pelo marido, que é usuário de crack". In CNN Brasil https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/centro-oeste/ms/idosa-era-mantida-em-carcere-privado-pelo-marido-que-e-usuario-de-crack/. Publicado em 3 de abril de 2025. Acessado em: 31 de março de 2026; Gustavo Basso. "Denúncias de idosos abandonados sobem 26% em um ano no Brasil". In UOL https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2025/12/02/abandono-de-pessoas-idosas-e-crime-e-aumenta-no-brasil.htm. Publicado em 2 de dezembro de 2025. Acessado em 31 de março de 2026.

5- Ecléa Bosi. Memória e sociedade: lembranças de velhos, p. 421. Nessa mesma página a autora avalia como "pessimista" a afirmação de Simone de Beauvoir de que o homem idoso se volta tão prazerosamente para o passado, porque esse era o tempo em que ele considerava que era um indivíduo que estava inteiro e vivo. Disse Ecléa: "Achamos pessimista a visão de Simone, pois não se aplica  todas as pessoas".

6- Edson Nery da Fonseca. Vão-se os dias e eu fico. Por ordem de citação pp. 15 e 16.

7- Edson Nery da Fonseca. Estão todos dormindo. A citação aparece na segunda orelha do livro.

8- Marco Aurélio Cícero. Saber envelhecer e A amizade, p. 54.

9- Fernanda Montenegro. Prólogo, ato, epílogo, p. 272.

10- Simone de Beauvoir. A velhice - 1. A realidade incômoda, p. 11.

11- Simone de Beauvoir. A velhice - 2. As relações com o mundo, p. 303.

12- Mary Del Priore. Uma história da velhice no Brasil, p. 12. Na verdade, a covid-19 foi uma pandemia não uma endemia.

13- Estefânia Pinheiro. "Gilberto Freyre - A sinceridade dos 70 anos" (entrevista). O Cruzeiro, 7 de abril de 1970, p. 96.

14- Mauro Bastos. "Gilberto Freyre - O anarquista construtivo" (entrevista). Veja, 4 de janeiro de 1984, p. 7.

15- Mário Sette. Memórias íntimas, p. 210.

16- Jean-Jacques Rousseau. Os devaneios do caminhante solitário, p. 28.

17- Jorge Luis Borges. "O Sul". In Ficções, p. 154.

18- Ângelo Monteiro. "Para que fomos feitos". In O canto da esfinge, p. 35. Originalmente publicado no livro Os olhos da vigília.

19-  Jomard Muniz de Britto. "Fernando Ricardo Reis Pessoa". In Atentados poéticos, p. 29.

20- Folder Pessoa idosa no lar: cuidando de quem já cuidou de nós.

21- Mafê Firpo. "As angústias de Marcos Oliveira no Retiro dos Artistas: 'não sou inútil'". Canal da revista Veja no YouTube. Publicado no dia 23 de março de 2026. Acessado em 23 de março de 2026.

 

Referências e bibliografia

 

- Sites e canais do YouTube

Agência Pará

CNN Brasil

Folha de S. Paulo

Goias.gov.br

G1MA

UOL

Veja

 

- Livros, periódicos e folder

BASTOS, Mauro. "Gilberto Freyre - O anarquista construtivo" (entrevista). Veja, São Paulo, 4 de janeiro de 1984, p. 5-7.

BEAUVOIR, Simone de. A velhice - 1. A realidade incômoda. 2ª ed. Trad. Heloysa de Lima Dantas. São Paulo: Difel/Difusão Editorial S.A., 1976.

______. A velhice - 2. As relações com o mundo. Trad. Heloysa de Lima Dantas. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1970.

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. 3ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

BORGES, Jorge Luis. Ficções. Trad. Carlos Nejar. Porto Alegre: Editora Globo, 1976.

BRITTO, Jomard Muniz de. Atentados poéticos. Recife: Bagaço, 2002.

CÍCERO, Marco Túlio. Saber envelhecer e A amizade. Trad. Paulo Neves. Porto Alegre: L&PM, 1997.

FOSNECA, Edson Nery da. Estão todos dormindo. Recife: CEPE, 2010.

______. Vão-se os dias e eu fico: memórias. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009.

MONTEIRO, Ângelo. O canto da esfinge: antologia poética. Seleção e apresentação de Bernardo Souto. Recife: Tarcísio Pereira Editor; Olinda: Luci Artes Gráficas, 2013.

MONTENEGRO, Fernanda. Prólogo, ato, epílogo: memórias. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

Pessoa idosa no lar: cuidando de quem já cuidou de nós (folder). s. l. Governo de Pernambuco/Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Prevenção à Violência/Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Idosa de Pernambuco, s. d.

PINHEIRO, Estefânia. "Gilberto Freyre - A sinceridade dos 70 anos" (entrevista). O Cruzeiro, 7 de abril de 1970, p. 94-96.

PRIORE, Mary Del. Uma história da velhice no Brasil. São Paulo: Vestígio, 2025.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Os devaneios do caminhante solitário. Trad. Julia da Rosa Simões. Porto Alegre: L&PM, 2009.

SETTE, Mário. Memórias íntimas: caminhos de um coração. Recife; Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1980.

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