2 de maio de 2026

Construção e destruição: a (des) ordem de uma urbanização imperfeita

 Por Sierra

  

Foto: Arquivo do Autor
Trecho da PE-001, conhecida como Estrada do Forte Orange, na Ilha de Itamaracá, que foi cortado pela Compesa e que está até o presente momento esperando ser remendado

  

Frequentemente nós nos deparamos com cenários e situações em nossas cidades que nos suscitam inúmeras e por vezes revoltantes indagações a respeito deles. Não raro, aqui e ali, nós observamos a falta de ação e de comprometimento da Municipalidade para resolver problemas como a limpeza de um canal, a construção de uma ponte ou a pavimentação de uma rua que, sob a ótica do cidadão comum, que vivencia cotidianamente os espaços da cidade, são de fácil execução; e então ele se pergunta: por que é que até agora isso não foi feito?

Quem acompanha o NE1, um telejornal da Rede Globo Nordeste, de Pernambuco, que já se chamou NE TV, conhece e sabe da existência de um quadro muito popular que é o Calendário. E no que ele consiste? Indivíduos procuram a emissora para dizer de transtornos e deficiências estruturais de urbanização que eles encontram nos lugares onde moram, como ruas sem pavimentação, morros sem escadarias e corrimões, precariedade do abastecimento de água, irregularidade na coleta de lixo, etc. Sabendo disso, repórteres se deslocam para tais locais e ouvem moradores e, claro, pedem respostas às autoridades competentes sobre as demandas. Quando não enviam apenas uma nota de esclarecimento, as Municipalidades, por vezes, designam um funcionário para o lugar a fim de que ele dê explicações ao repórter e, por conseguinte, aos populares que se encontram ali e, claro, aos telespectadores.

Eu já acompanhei várias edições desse quadro do NE1; e, em meio a bons resultados das cobranças de soluções de problemas feitas pela população - normalmente as autoridades estipulam um prazo de resolução da demanda, que é marcado num grande calendário; transcorrido o tempo, que pode e geralmente é de meses, uma equipe do telejornal retorna ao local para averiguar se a promessa foi realmente cumprida e, diversas vezes, não o são -, alguns secretários municipais e outros representantes do prefeito não conseguem dar uma explicação satisfatória para que a questão seja solucionada; eles falam de ausência de projetos, captação de recursos, futuras parcerias com o governo estadual e federal e por aí vai.

A lembrança do quadro Calendário do telejornal NE1 me veio quando eu pensei em escrever um artigo enfocando a dificuldade que muitas Prefeituras Municipais têm para conseguir tirar do papel tanto projetos novos como ações de requalificação de estruturas já existentes, porque, como se sabe, são inúmeras as que vivem só e unicamente dos repasses do Fundo de Participação dos Municípios.

Refletindo sobre isso, eu inevitavelmente pensei também em obras que às vezes são realizadas e nos dão a impressão de que não houve estudos para tanto e nem consultas a órgãos e entidades outras que pudessem ter relação com o que seria realizado.

Muito tempo atrás eu publiquei neste blog um artigo comentando o caso da Praça Olavo Bilac, no bairro da Boa Vista, no Recife, que, pouco tempo depois de ter passado por uma ampla obra de revitalização, teve uma grande parte de seu perímetro suprimido para dar lugar à ampliação de um corredor viário. Ou seja, por falta de interlocução com o executivo estadual, a Municipalidade recifense gastou dinheiro numa obra que, na verdade, desperdiçou dinheiro público.

Milhões e milhões de reais por vezes são gastos não somente em casos de construção seguida de destruição - como ocorreu na Praça Olavo Bilac e nos canteiros centrais das faixas da BR 101 que cortam a cidade de Abreu e Lima (PE), onde a Municipalidade, primeiro, gastou uma nota para pavimentá-los com pedras portuguesas e, depois, removeu tudo para pôr no lugar piso intertravado de concreto, e em outro caso que eu vou relatar a partir do próximo parágrafo -, como também em obras inacabadas e noutras cujos resultados são contraproducentes, vide a dinheirama gasta numa muito propagandeada engorda da Praia de Ponta Negra, em Natal (RN), que resultou num completo fiasco, como atestam os tantos vídeos que têm circulado nas redes sociais.

Eis agora mais um caso de construção seguida de destruição e, por conseguinte, de desperdício do dinheiro resultante dos tantos impostos que nós pagamos. Durante muitos anos a PE-001, na Ilha de Itamaracá, uma cidade-ilha que integra a Região Metropolitana do Recife, permaneceu à espera de uma obra que pudesse acabar com os tantos buracos que marcavam um ponto e outro da rodovia que possui apenas 4,9 km de extensão e que leva a um dos maiores atrativos turísticos do lugar, que é a Fortaleza de Santa Cruz, também conhecida como Forte Orange.

Pois bem. Ao custo de R$ 22,6 milhões, a rodovia foi toda restaurada e sinalizada e passou a contar com uma ciclo faixa; e foi entregue, em março deste ano, à população itamaracaense pela governadora Raquel Lyra.

Ao que aprece, ainda antes da entrega da obra, a Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa), que possui uma lista imensa de ações dessa natureza, começou a escavar partes da rodovia restaurada para fazer manutenção de canos estourados. Já pensaram? E o pior é que a Compesa cava, abre e danifica rodovias, ruas e etc. e nem sempre trata de mandar remendar os trechos destruídos e, quando o faz, geralmente é um serviço de péssima qualidade.

Falta-nos muito em termos de planejamento urbano e de competência para bem gerir  a aplicação de recursos públicos em obras de infraestrutura. Quem passa pela PE-001 e olha atentamente para os dois lados, ao longo de todo o trajeto, facilmente se depara com os rastros de destruição deixados pela Compesa. Não é apenas lamentável que frequentemente isso ocorra; é, também, vergonhoso que tais ocorrências se deem e fiquem por isso mesmo, como se fossem uma coisinha à toa.

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