Por Sierra
Morando num subúrbio sem ter tido contato com livros, fontes do noticiário e mesmo com pessoas que pudessem me dar um mínimo de esclarecimento que fosse sobre a dinâmica da vida no âmbito da política - a escola não supria isso, mesmo porque, praticamente toda a minha infância escolar foi vivenciada durante a Ditadura Militar -, eu atravessei a adolescência e até entrei na fase adulta carregando o fardo pesado da alienação. No que dizia respeito a questões da vida prática eu tinha plena consciência dela, porque, como filho de uma mão solteira pobre e sem recursos, ela e eu e, depois, meu irmão, que só chegou ao mundo quando eu completara 11 anos de idade, atravessamos muitos maus bocados, experiências essas que me marcaram profundamente; e que seguem comigo, em minhas memórias, como marcas de um tempo deveras ruim.
O ingresso na faculdade começou a definhar
a minha alienação; e, a partir dali, foi que eu realmente principiei a enxergar
o mundo com lentes ampliadas que me deram, se não a medida exata, uma
compreensão bem maior da realidade, que era algo que eu absolutamente não
tinha. E o fato de precisar conciliar trabalho com estudos e toda sorte de
dificuldades que, a princípio, o alcance de um emprego não conseguiu sanar,
talvez, tenha feito com que o querer saber e o querer se livrar de uma vez por
todas do meu eu alienado se avolumassem em mim, me dando um nível de compreensão
suficiente para despertar a minha consciência mirando os arredores do lugar
onde eu vivia - e alhures - de outra maneira.
Possivelmente pelo fato de tanto ouvir
frases como "todo político é ladrão" e "fulano rouba, mas
faz", eu passei anos saindo de casa para ir à seção eleitoral anular o meu
voto, posicionamento esse que, adiante, eu tomei como uma das maiores estupidez
que eu cometi na minha vida.
A partir do momento em que eu me pus a
entender que todos e cada um de nós somos seres políticos, eu me vi
naturalmente identificado com o espectro político baseado e lastreado pelo
pensamento de esquerda; e, sendo assim, a figura de Luiz Inácio Lula da Silva
despontou como o porta-voz das ânsias de transformações sociais com as quais eu
mais me identificava.
Quando não se tem letramento e nem
compreensão das engrenagens, das movimentações, dos grupos ideológicos e de
interesses, da política e do tecido social que constituem a sociedade em que
vivemos e nem do que é denominado de consciência de classe, não é raro que
assumamos posturas e defendamos lógicas de dominação que, vistas ligeiramente,
parecem que são ideais e perfeitas. Por exemplo: houve um tempo em que eu acreditava
piamente na defesa da meritocracia tão anunciada e defendida pela direita, como
se todos, na escala social, estivessem no mesmo nível educacional para competir
de igual para igual entre si, fosse por uma vaga de emprego ou por uma
matrícula numa universidade pública.
Tendo me feito como cidadão consciente de
seus deveres e obrigações como membro de uma sociedade e ciente do que o Estado
deveria oferecer à população em geral, seguindo os ditames da Constituição, dia
após dia eu fui me abastecendo de mais informações e esclarecimentos, de
maneira que os pleitos eleitorais passaram a ser encarados como momentos de
suma importância e de reflexão sobre que tipo de progresso e de desenvolvimento
social eu defendia e esperava ver sendo implantado e conduzido neste país.
É claro que, nesse percurso pessoal, a
primeira eleição do Lula foi um desses acontecimentos inesquecíveis que dão uma
injeção de ânimo e de esperança e que nos fazem acreditar que a vida pode ser transformada
com as realizações políticas dos governantes. Aí veio a ocorrência do que se
chamou de Mensalão, algo que abalou profundamente as minhas crenças e apostas
no Partido dos Trabalhadores (PT). E isso foi algo terrível para mim, como uma
quebra de confiança entre amigos que nada mais consegue superar. Desacreditei
de Lula, do PT e da ala esquerdista vendo tudo como parte de um todo político
que era podre e corrupto. E, como se isso já não fosse o suficiente, veio o
comboio da Operação Lava Jato revelando mais entranhas do jogo do poder
político e tentáculos de corruptos e de corruptores com suas fomes insaciáveis
para devorar o dinheiro e os recursos públicos. Foi outro baque: depois da
queda, o coice, como diz a frase feita. E Lula e vários outros acabaram presos.
Minha desilusão para com a esquerda se
agigantou ao mesmo tempo em que surgia um demônio direitista ganhando espaço no
cenário eleitoral em âmbito nacional: Jair Bolsonaro, que passara décadas como
um parasita quase invisível a olho nu, na Câmara dos Deputados, ganhou status
de "salvador da pátria" - tal qual ocorrera com o igualmente de
triste lembrança Fernando Collor - na onda do antilulopetismo que inundou o
país com o auxílio da grande mídia. O que sucedeu a isso foi a eleição
presidencial de Jair Bolsonaro, cujo mandato foi marcado por uma pandemia mortífera
e por sucessivas demonstrações, por parte do ocupante do Palácio do Planalto,
de que ele não tinha capacidade alguma de ser presidente da República, porque,
desprovido de um senso mínimo de civilidade, como deixaram ver sucessivos
discursos misóginos e homofóbicos, desprezo para com o meio ambiente e o pouco
caso para com a mortandade causada pela covid-19, dentre outras aberrações.
A essa altura o chamado bolsonarismo
contaminara - é essa a palavra apropriada e certa para designar o que ocorreu -
milhões de brasileiros que se identificaram com a personalidade abjeta e desprezível
de Jair Bolsonaro e dos filhos dele. Por esse tempo nós também ficamos sabendo
qual era o nível de desonestidade daqueles que tinham comandado a tão louvada e
celebrada Operação Lava Jato, o que foi outro choque de realidade, porque
figuras como Sergio Moro e Deltan Dallagnol se revelaram uns inescrupulosos de
primeira hora e tanto que disputaram pleitos eleitorais: aquele como senador e
este como deputado federal, que acabou tendo o mandato cassado. Não fosse a
Vaza Jato, possivelmente nós estaríamos até hoje acreditando em autoridades do
judiciário e do Ministério Público que, apresentando-se como baluartes da
ética, da moralidade e da honestidade, praticavam indecências nos bastidores dos
processos, pisoteando as leis que elas diziam defender. E todo o enredo maligno
que fora iniciado já ali, nos movimentos que resultaram no impeachment da
presidenta Dilma Rousseff, ficou claro como um ensolarado dia de verão.
A experiência maldita do mandato de Jair
Bolsonaro na presidência da República com tudo o que ele trouxe a reboque -
polarização política, ataques ao processo eleitoral, defesa do regime militar
instalado em 1964 neste país, louvação a torturadores, maquinação de um golpe
de Estado, plano de assassinato de autoridades e etc. - fez com que eu abrisse
bem os olhos para enxergar a realidade nua e crua do panorama político nacional
e compreendesse, definitivamente e sem pestanejar, que, mesmo com seus erros,
tropeços e malfeitorias, o único espaço que me cabia defender e atuar como
cidadão e agente político, seja pela minha história de vida, seja pelas minhas
convicções, seja pelas ideias de justiça social que me movem, seja, enfim, pelo
meu entendimento de mundo, era/é o terreno progressista, seja com o PT, seja
com qualquer outro partido que levante e empunhe firmemente a bandeira do
verdadeiro desenvolvimento da sociedade, que fundamentalmente passa pelo acesso
à educação de qualidade, em todos os seus níveis, e, também, pelo alcance de moradia
digna, ambiente de pleno emprego e saúde e segurança públicas igualmente
funcionando a contento.
Nos tempos de minha desilusão com o
lulopetismo eu escrevi textos para este blog atacando e colocando Lula e
Bolsonaro no mesmo tabuleiro, desejando que ambos sumissem do cenário político.
Escrevi, publiquei e deixei aqui até hoje, não apaguei e nem vou apagar para
que quem lê-los saiba como eu estava pensando nas ocasiões em que os escrevi.
Este 2026 é mais um ano de eleições
gerais; a polarização continua em alta voltagem; e, no que depender de mim, a
extrema direita será derrotada novamente para o bem de todos e de cada um de
nós.

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