Por
Sierra
Para além daquele pão doce gostoso e dos
passeios que os nossos pensamentos às vezes fazem enquanto estamos dormindo, a
palavra sonho tem conotações e/ou significados diversos para todos e cada um de
nós. Muita gente, na verdade, nem recorre à palavra sonho porque, segundo
alguns, sonho remete a algo que é deveras difícil de alcançar; então, eles
preferem dizer que não têm e nem cultivam sonhos e, sim, que eles têm planos,
metas, projetos e, vá lá, desejos - todos eles bem possíveis de serem
alcançados. Já outros miram horizontes que não dependem unicamente deles para
acontecer e/ou ser realizados, como ganhar um grande prêmio na loteria, por
exemplo; ou, para quem acredita no sobrenatural, superar obstáculos, como uma
doença muito grave, contando com uma intervenção divina no seu caso.
Os sonhos têm muitos formatos, pesos,
cores, cheiros, sabores, tamanhos, sentimentos, afetos, valores; podem estar
perto ou bem distantes; aparecem vez por outra na televisão ou nas redes
sociais; são amplos e com muitos cômodos, varandas e uma piscina na parte da
frente; possuem olhos azuis, bochechas rosadas e cabelos loiros; é preciso
enfrentar uma viagem de várias horas para se chegar a eles; às vezes eles saem
para trabalhar às 5h e só retornam para seus lares depois das 20h; têm pelos e
bagunçam a casa toda; estão ali numa loja da Avenida Conde da Boa Vista; passam
todos os dias, de segunda à sexta-feira, defronte ao portão quando vão para a
faculdade; apresentam assentos de couro legítimo e atingem a velocidade de 180
km/h em menos de 15s; nunca puxam conversa com ninguém na academia; apresentam
versões com câmeras triplas e baterias ultrapotentes; gostam de curtir as
férias no sítio dos avós; são raros porque a tiragem foi de apenas quinhentos
exemplares; costumam sorrir cheios de faceirice quando se cruza com eles nas
ruas...
Estive por esses dias a pensar em sonhos -
com seus múltiplos significados - olhando para o percurso que até agora eu
atravessei na vida e questionando os porquês de, por várias razões - mudanças
de hábitos, aprendizados, correção de rota, desinteresse, dificuldades
financeiras e outras mais, conquistas que se revelaram ser bem diferente de como
foram imaginadas, perdas de entes queridos, fins de relacionamentos afetivos,
apostas e investimentos que não deram bons resultados e por aí vai -, eu ter
deixado para lá e abandonado completamente não apenas metas, projetos e
objetivos como também pessoas pelo caminho.
Decerto que, para alguns indivíduos - e
esse dever ter sido o meu caso -, os desencontros, os esforços vãos, a mudança
de sentimentos, o reavaliar o que realmente importava para si, os reveses, as
rebordosas e, principalmente, o envelhecimento trazem consigo constantes
análises que resultam em ressignificações de entendimentos que pareciam ser
inalteráveis em nós, como quem diz, "se não for isso ou se não for assim,
não serve e eu não quero". Olhando para o caminho que eu até o
presente momento trilhei, eu vejo que o que foi ficando às margens da minha
estrada se amontoaram formando uma montanha de detritos, um monturo onde estão
depositados fracassos, objetos dos quais me desfiz, projetos dos quais me
desinteressei, desilusões, pessoas com as quais deixei de me relacionar,
tesouros que eram ouro de tolo e toda sorte de quinquilharias palpáveis e impalpáveis
que estavam pesando em mim como fardos que eu me recusei terminantemente
a continuar carregando. E isso se deu também, em parte, porque outros
propósitos, outras metas, outros projetos, outros desejos e outras ideias e
reflexões tomaram o lugar daquilo que estava dentro de mim.
Não quero dizer com isso que, agora, eu
sou uma pessoa renovada por inteiro. Não, não é isso. Muito do que ontem eu fui,
hoje e até o fim dos meus dias eu continuarei sendo, porque a essência do que
eu sou permaneceu e resistiu incólume a todas as intempéries que eu já enfrentei.
Para mim, diferentemente do que dizem os versos da canção "Clube da Esquina nº 2", sonhos não só envelhecem como também morrem e desaparecem para dar lugar a outras formas de desenhar o futuro.

Nenhum comentário:
Postar um comentário