6 de junho de 2026

Será mesmo que os sonhos não envelhecem?

Por Sierra

 

 

Foto: Joshua Earle
Quando a vida parecer estar esgotada, é hora de retraçar rotas, se desfazer de fardos que não fazem mais sentido algum carregar e se abastecer de outros projetos, metas, desejos e propósitos

 

Para além daquele pão doce gostoso e dos passeios que os nossos pensamentos às vezes fazem enquanto estamos dormindo, a palavra sonho tem conotações e/ou significados diversos para todos e cada um de nós. Muita gente, na verdade, nem recorre à palavra sonho porque, segundo alguns, sonho remete a algo que é deveras difícil de alcançar; então, eles preferem dizer que não têm e nem cultivam sonhos e, sim, que eles têm planos, metas, projetos e, vá lá, desejos - todos eles bem possíveis de serem alcançados. Já outros miram horizontes que não dependem unicamente deles para acontecer e/ou ser realizados, como ganhar um grande prêmio na loteria, por exemplo; ou, para quem acredita no sobrenatural, superar obstáculos, como uma doença muito grave, contando com uma intervenção divina no seu caso.

Os sonhos têm muitos formatos, pesos, cores, cheiros, sabores, tamanhos, sentimentos, afetos, valores; podem estar perto ou bem distantes; aparecem vez por outra na televisão ou nas redes sociais; são amplos e com muitos cômodos, varandas e uma piscina na parte da frente; possuem olhos azuis, bochechas rosadas e cabelos loiros; é preciso enfrentar uma viagem de várias horas para se chegar a eles; às vezes eles saem para trabalhar às 5h e só retornam para seus lares depois das 20h; têm pelos e bagunçam a casa toda; estão ali numa loja da Avenida Conde da Boa Vista; passam todos os dias, de segunda à sexta-feira, defronte ao portão quando vão para a faculdade; apresentam assentos de couro legítimo e atingem a velocidade de 180 km/h em menos de 15s; nunca puxam conversa com ninguém na academia; apresentam versões com câmeras triplas e baterias ultrapotentes; gostam de curtir as férias no sítio dos avós; são raros porque a tiragem foi de apenas quinhentos exemplares; costumam sorrir cheios de faceirice quando se cruza com eles nas ruas...

Estive por esses dias a pensar em sonhos - com seus múltiplos significados - olhando para o percurso que até agora eu atravessei na vida e questionando os porquês de, por várias razões - mudanças de hábitos, aprendizados, correção de rota, desinteresse, dificuldades financeiras e outras mais, conquistas que se revelaram ser bem diferente de como foram imaginadas, perdas de entes queridos, fins de relacionamentos afetivos, apostas e investimentos que não deram bons resultados e por aí vai -, eu ter deixado para lá e abandonado completamente não apenas metas, projetos e objetivos como também pessoas pelo caminho.

Decerto que, para alguns indivíduos - e esse dever ter sido o meu caso -, os desencontros, os esforços vãos, a mudança de sentimentos, o reavaliar o que realmente importava para si, os reveses, as rebordosas e, principalmente, o envelhecimento trazem consigo constantes análises que resultam em ressignificações de entendimentos que pareciam ser inalteráveis em nós, como quem diz, "se não for isso ou se não for assim, não serve e eu não quero".  Olhando para o caminho que eu até o presente momento trilhei, eu vejo que o que foi ficando às margens da minha estrada se amontoaram formando uma montanha de detritos, um monturo onde estão depositados fracassos, objetos dos quais me desfiz, projetos dos quais me desinteressei, desilusões, pessoas com as quais deixei de me relacionar, tesouros que eram ouro de tolo e toda sorte de quinquilharias palpáveis e impalpáveis que estavam pesando em mim como fardos que eu me recusei  terminantemente a continuar carregando. E isso se deu também, em parte, porque outros propósitos, outras metas, outros projetos, outros desejos e outras ideias e reflexões tomaram o lugar daquilo que estava dentro de mim.

Não quero dizer com isso que, agora, eu sou uma pessoa renovada por inteiro. Não, não é isso. Muito do que ontem eu fui, hoje e até o fim dos meus dias eu continuarei sendo, porque a essência do que eu sou permaneceu e resistiu incólume a todas as intempéries que eu já enfrentei.

Para mim, diferentemente do que dizem os versos da canção "Clube da Esquina nº 2", sonhos não só envelhecem como também morrem e desaparecem para dar lugar a outras formas de desenhar o futuro.

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