25 de julho de 2026

Como a Edichão está ressignificando uma tradição muito recifense de venda de livros em calçadas

Por Sierra

 

Tudo, no mundo, existe para acabar num livro.

                                                               Stéphane Mallarmé

 

O espírito se purga e a carne é gasta,

ó cidade de luz onde me basto:

amo, por isso, o cheiro do teu pasto

inferno que me atrai e que me afasta.

                                                              Inscrição no Capibaribe. Jaci Bezerra

 

 

Fotos: Arquivo do Autor
Domingo de manhã ensolarado; as calçadas da Avenida Guararapes serviram mais  uma vez de cenário e palco para a Edichão, um evento que se integrou ao espaço multicultural da capital pernambucana

 

Muitas vezes pode acontecer assim quando se quer "inventar" uma tradição, como me fez imaginar o historiador Eric Hobsbawm, quando eu li o clássico A invenção das tradições, que ele organizou junto com o igualmente historiador Terence Ranger: um indivíduo ou um grupo de pessoas dá início à realização de certa prática, ritual ou evento, isso vai sendo repetido, no passar dos anos, por eles e/ou por outros e, daí a pouco, eis a consolidação de uma "tradição". Algumas tradições são institucionalizadas e têm data e registros dos seus começos; enquanto que de outras não se sabe ao certo suas origens e delas se conhece apenas uma parte do seu percurso. Tradições podem ser inventadas e estabelecidas por instituições; e, diferentemente do que muitos pensam, elas costumam, sim, sofrer alterações e mudanças ao longo do tempo perdendo elementos, alterando alguns e mesmo acrescentando outros. O certo é que, como nos disse o eminente historiador inglês, "Muitas vezes, 'tradições' que parecem ou são consideradas antigas são bastante recentes, quando não são inventadas" (Eric Hobsbawm. "Introdução: A invenção das tradições". In Eric Hobsbawm e Terence Ranger [orgs.]. A invenção das tradições. Trad. Celina Cardim Cavalcante. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012, p. 11).

A história de uma cidade pode ser contada por várias linhas de abordagens; pode ser a partir do traçado de suas ruas, de seus monumentos, de sua arquitetura, de seus movimentos sociais, de suas instituições públicas, de suas teias políticas, de suas precariedades, de sua vida cultural, etc. E, pensando numa "tradição inventada", quando será que começaram a surgir, no Recife, os primeiros sebos, essas verdadeiras instituições culturais que marcam presença firme no coração dessa cidade - e para além dele, porque um coração é irrigado por muitas artérias -, notadamente no perímetro do bairro de Santo Antônio que abrange a Rua Marquês do Recife, avança pela Rua da Roda e abarca as calçadas da icônica Avenida Guararapes? Disso eu ainda não sei, mas prometo que vou procurar ler alguns alfarrábios para tomar conhecimento a esse respeito; e sou levado a acreditar que se isso não estiver dito em livros antigos, possivelmente aparecem pistas e indícios sobre o assunto nas páginas do mais que centenário Diario de Pernambuco, não é, mestre José Antonio Gonsalves de Mello? Vou pesquisar.

 

O cordelista Fernando Serpa



Não são apenas livro, não: a Edichão tem escultura, artes plásticas, canto, teatro, poesia e o mais que você queira acrescentar: apareça para fortalecer esse cordão multicultural



José Ítalo dizendo versos de seus poetas favoritos


É lindo de ver as calçadas tomadas pelos livros



Mais uma vez a Edichão

 

No mais recente 12 de julho as calçadas da Avenida Guararapes voltaram a ser cenário - e palco também - de mais uma edição da Edichão, depois de um hiato de três meses, em razão de vários acontecimentos e circunstâncias, como os dias de chuvas intensas e suas consequências não só para a capital como também para municípios da Região Metropolitana e um acidente doméstico envolvendo Fátima Soares, que é dona do sebo Livro Aberto e integrante do Coletivo Sebos do Capibaribe, que organiza a Edichão: ela foi picada por uma cascavel, no final de maio, na sua casa, em Igaraçu, e ficou um mês afastada de suas atividades.






Pedro Rodrigues, um homem de múltiplos habilidades e talentos




O artista plástico Lúcio Mustafá


Não é demais dizer que a venda e o comércio de livros usados dispostos, arrumados e expostos nas calçadas, no chão da Avenida Guararapes é uma tradição muito recifense; tradição essa que tem pelo menos quarenta anos de existência - eu, por exemplo, comecei a ir garimpar livros, revistas e outros itens por ali no ano de 1992. E a Edichão, que teve início em dezembro de 2021 - nos quatro domingos daquele mês, com a denominação de "Feira de Livro de 2ª Edichão", conforme um registro fotográfico da época que me foi mostrado pelo sebista José Ítalo, sendo Edichão um claro trocadilho com a palavra edição -, em que pesem os meses em que foi participante do projeto "Viva Guararapes", concebido e mantido pela Prefeitura Municipal do Recife e os em que passou por uma reorganização e mesmo denominação, veio também ela a se constituir uma tradição cultural da cidade, resistindo aos avanços do processo de gentrificação que vem pontuando, aqui e ali, nacos do núcleo primitivo do Recife. Também não é demais recordar que houve um período em que os sebistas que atuam na Avenida Guararapes foram intimados pela Municipalidade a desocuparem aquele espaço, aquele pedaço de chão, mesmo sendo algo que existia há décadas ali.

Durante vários anos o meu convívio com o comércio de livros usados, aqui em Pernambuco e em outros estados por onde andei, se resumia a frequentar esses espaços apenas para comprar uma publicação e outra, como uma mera relação comercial entre um vendedor e um consumidor. Em dado momento essa relação começou a ganhar outra dimensão e dinâmica a partir de conversas que eu comecei a manter não somente com alguns sebistas como também com outros indivíduos que, assim como eu, marcavam presença nesses lugares, fossem os sebos mantidos em imóveis e boxes ou em praças públicas e calçadas.

Eu não cheguei a participar das primeiras edições da Edichão, que reúne a maior parte dos sebistas que, de segunda-feira a  sábado, ocupam as calçadas da Avenida Guararapes, e outros que são convidados a integrar e apoiar o evento; um evento que, além de ser mantido com o objetivo de dinamizar o centro da capital, que foi sendo esvaziado ao longo dos anos por uma série de transformações sociais e comportamentais e pela falta de ação do poder público municipal com vistas a promover o retorno das pessoas e incentivá-las a frequentar com mais assiduidade os bairros centrais do Recife, celebra e defende a permanência e a continuidade, naquelas calçadas, de um tipo de comércio tradicional da cidade do qual alguns dos sebistas, que ali atuam, tiram todo o seu sustento.

Por conta de conversas mantidas com o sebista José Ítalo, eu comecei a participar da Edichão; e eu sei que não tem sido fácil  para o Coletivo Sebos do Capibaribe realizar cada nova edição da empreitada. E por quê? Porque paulatinamente os membros do Coletivo transformaram o acontecimento em algo maior e mais abrangente: a Edichão deixou de ser apenas uma feira literária e adquiriu status de um evento multicultural - embora os livros permaneçam como fundamento dessa destemida e resistente iniciativa - trazendo para o seu bojo a participação e a integração de diferentes expressões artísticas, como canto, poesia, teatro e artes plásticas; e outros elementos, como moda e colecionismo.


Esses quadros, feitos com colagens, são obras de Lúcio Mustafá








O poeta Emerson Ahut Wató em ação


Como eu vinha dizendo, não é fácil e nem simples fazer a Edichão acontecer, porque isso demanda um custo; daí por que o ideal seria que o Coletivo conseguisse angariar parceiros e patrocínios, porque nem todo mundo se apresenta ali de maneira voluntária e gratuita, ou seja, recebe um cachê, ainda que simbólico. São vários os custos, como a impressão de cartazes de divulgação - desta feita o cartaz foi obra do artista José Gogaii -, porque  Coletivo entende que ela não pode ficar restrita às redes sociais; cachês para os artistas; e a disponibilização de um café da manhã. Seria tão bom, por exemplo, se o Coletivo conseguisse que alguma empresa disponibilizasse pelo menos um banheiro químico, porque as pessoas que organizam e participam da Edichão permanecem durante horas ali sem ter acesso a um banheiro.


Desta feita a arte do cartaz de divulgação da Edichão foi obra do artista José Gogaii


Na edição mais recente da Edichão que ocorreu, como eu disse, no último dia 12 de julho, as atrações musicais foram Canário do Império, que é um verdadeiro parceiro do Coletivo; e Talyta Aquino com Paulo Gonçalves. O cartofilista Hélio Moura Filho, um dos membros do Coletivo, expôs parte do seu imenso acervo. José Rodrigues, um multiartista que também integra o Coletivo, levou para lá algumas de suas mandalas confeccionadas com cartões-postais e que muito lembram os cartemas de Aloisio Magalhães. E, além dos sebistas Ramos, Paulo Rogério e sua esposa Fabiana Maria, Geraldo José, Elizeu Espíndola - do Seborreia Recife -, Nerivaldo Guedes - do O Amado Livros -, Fáima Soares, Acinha e sua esposa Diana Madalena, Abraão,  Elvis Rossi - o homem dos cd's, dvd's e vinis - e José Ítalo, marcou presença, com parte do seu acervo, Moacir Lago, do Sebo Aldeia, do bairro homônimo lá de Camaragibe.


O multitalentoso Canário do Império em ação: pense num artista arretado!



Acinha e sua esposa Diana Madalena










Como a Edichão deixa sempre o microfone aberto para quem quiser falar, cantar, declamar e até protestar e desabafar, na manhã daquele domingo se achegaram a ele o poeta Emerson Ahut Wató; o artista plástico Lúcio Mustafá; o designer, fotógrafo, jornalista, artista plástico e cineasta Pedro Rodrigues; o cordelista Fernando Serpa; Fátima Soares, que além de professora aposentada e sebista é poeta, disse mais uma vez alguns dos seus versos; e o sebista José Ítalo, fã incondicional dos poetas Fernando Pessoa e Carlos Pena Filho, também recorreu ao microfone para dizer poesia naquela manhã multicultural.

 

Pulsando junto com o coração do Recife

 

Num dos livros mais interessantes e abrangentes que eu até hoje li sobre o Recife, Antonio Paulo Rezende disse de uma cidade como moradia e como cenário da modernidade; de uma cidade que, como outras, foi feita de sonhos e de desejos. Nas cidades, prosseguiu ele, "O nosso olhar percorre suas ruas como se elas fossem 'páginas escritas', querendo adivinhar as histórias que elas escondem, traduzir a língua difícil dos sentimentos que construíram o seu cotidiano, seus tantos símbolos que os homens teimam em decifrar, como se eles pudessem ter, apenas, um significado" (Antonio Paulo Rezende. (Des) encantos modernos: histórias da cidade do Recife na década de vinte. Recife: Secretaria de Cultura/Fundarpe, 1997, p. 21).

Essa passagem do bonito e profundo livro de Antonio Paulo Rezende, que foi meu professor na Universidade Federal de Pernambuco, me fez pensar a cidade do Recife como um livro aberto, já que estamos falando de sebos; a cidade como um livro aberto que não está terminado e que continua sendo escrito, porque a sua história não tem fim, uma vez que, diuturnamente, eu, você e todos aqueles que com ela se relacionam contribuem também para que essa narrativa se alongue indefinidamente em par com as suas paisagens naturais e artificiais e com os seus outros seres animados, inanimados e até ficcionais, porque tudo cabe na história dos lugares.




José Rodrigues, sentado, batendo um papo




Com as irmãs Fátima Soares e Valda





Em que pesem todas as contradições e contrastes sociais do seu passado e do seu presente, o Recife permanece como uma cidade onde a cultura letrada é uma das referências do país: o Recife do "ciclo do caranguejo" de Josué de Castro; o Recife dos que precisavam aprender a ler para compreender o mundo, algo que poderia ser alcançado com o método de alfabetização de Paulo Freire;  e o Recife "da lama e do caos" que o Movimento Manguebeat denunciaria, também era e foi o Recife que revelou ao mundo personalidades da República das Letras como um Gilberto Freyre, um Fernando Pio, um Manuel Bandeira, um Solano Trindade, um Raimundo Carrero, uma Luzilá Gonçalves Ferreira, um Manoel Correia de Andrade, um Nelson Saldanha, um Vamireh Chacon, um João Cabral de Melo Neto, entre outros, só para ficarmos no campo dos nascidos em Pernambuco que nos legaram obras escritas e para dizermos da força e do poder da leitura e dos livros de uma cidade que, em outros tempos, afora os seus vários sebos, abrigava livrarias renomadas e de saudosa memória para tanta gente, como a Livro 7, a Ramiro Costa, a Síntese, a Cultura entre outras.

Durante certo tempo, a capital pernambucana esteve na vanguarda da difusão da leitura e da formação de bibliotecas municipais e mesmo de bibliotecários, isso numa época em que a Biblioteconomia não era ainda um curso muito conhecido e difundido no Brasil, que o diga o meu querido amigo Edson Nery da Fonseca, que veio a se tornar uma referência na área, que amava os livros com grande volúpia e que fez o seu curso no Rio de Janeiro no período em que trabalhava com José Césio Regueira Costa na Diretoria de Documentação e Cultura, da Prefeitura Municipal do Recife - que seria responsável pela implantação de bibliotecas populares, como as dos bairros da Encruzilhada e de Afogados -, como ele próprio contou em seu livro de memórias:

Não havia bibliotecários no Recife. José Césio foi conversar sobre o problema com a diretora da biblioteca do Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), Lydia de Queiroz Sambaqui, e obteve para mim uma bolsa de estudos nos Cursos da Biblioteca Nacional. Minha mãe preparou chorando minha mala e embarquei para o Rio de Janeiro (Edson Nery da Fonseca. Vão-se os dias e eu fico: memórias e evocações. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009, p. 48).

Eu falei ainda há pouco em "grande volúpia" pelos livros e, decerto, quem conheceu o inesquecível Edson Nery da Fonseca sabe que eu não exagerei na descrição, mesmo porque, todo bibliófilo - e agora eu digo isso por mim - ama o objeto livro de modo que é difícil de descrever. Aproveitando o ensejo é preciso que eu diga a vocês que, também nesse quesito, o Recife vivenciou a experiência do Gráfico Amador, que produzia livros em pequenas tiragens para bibliófilos, uma gente profundamente apaixonada por essa notável criação humana.






Lá vai Elvis Rossi arrumar os seus discos de vinil na calçada




 

Com os livros não há quem possa

 

De tempos em tempos, principalmente quando surgem ditos concorrentes da cultura livresca, uns e outros decretam o fim dos livros. Nos dias que correm, por exemplo, aponta-se o dedo para os quase onipresentes smartphones e o acesso às chamadas redes sociais - que, de fato, são os únicos canais de leitura de muita gente - como responsáveis pelo declínio do livro impresso. Ocorre que, em paralelo com as redes sociais e as discussões sobre autoria de narrativas textuais com o advento das Inteligências Artificiais (IA's), as feiras literárias continuam sendo um sucesso de público e vem crescendo, pelo país afora, a criação de clubes de leitura e de bibliófilos, que recebem, mensalmente, publicações com encadernações exclusivas; e não podemos nos esquecer dos e-books, dos PDF's que uns e outros fazem de livros e dos audiolivros.


Antes de cantar, Talyta Aquino declamou poesia: que menina danada!



O sebista Ramos: muitos anos de concvívio com os livros


Robert Darnton, um nova-iorquino bibliotecário e estudioso do livro e da leitura que lançou, entre outros, o instigante e inspirador A questão dos livros - segundo as suas próprias palavras, "uma apologia descarada em favor da palavra impressa" -, abordou a discussão acerca da "morte do livro" que profetas apocalípticos insistem em anunciar. Leiamos o que ele escreveu dezesseis anos atrás sobre isso:

A capacidade de resistência do códice à moda antiga ilustra um princípio geral da história da comunicação: uma mídia não toma o lugar da outra, ao menos a curto prazo. A publicação de manuscritos floresceu por muito tempo depois da invenção da prensa móvel por Gutenberg; os jornais não acabaram com o livro impresso; a televisão não destruiu o rádio; a internet não fez os telespectadores abandonarem suas tevês. Assim sendo, seria possível que mudanças tecnológicas ofereçam uma mensagem reconfortante de continuidade, apesar da proliferação de novas invenções?

Não. A explosão dos modos eletrônicos de comunicação é tão revolucionária quanto a invenção da impressão com tipos móveis. Estamos tendo tanta dificuldade em assimilá-la quanto os leitores do século XV ao se confrontarem com textos impressos (Robert Darnton. "Introdução". In A questão dos livros: passado, presente e futuro. Trad. Daniel Pellizzari. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. Por ordem de citação: páginas 7 e 14).

Não vejo como o livro possa ser substituído mesmo por uma das mais avançadas das mais avançadas das tecnologias, como diria Caetano Veloso, porque o livro impresso permanece sendo algo que mexe com vários de nossos sentidos; e existem leitores que não o trocam por nenhuma outra forma de suporte para leitura, como o Kindle. Creio ainda que as IA's não irão substituir a escrita, digamos, natural e humana, que reúne e condensa em si pesquisa, reflexão, criatividade, imaginação, memória, intenção e propósito. E, assim como Alfred Alvarez, eu acredito que "escrever é literalmente uma arte viva e também criativa" (Alfred Alvarez. A voz do escritor. Trad. Luiz Antonio Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006, p. 19); escrever é não somente uma arte como também um exercício de dizer de si e/ou de outrem para o mundo; e sempre haverá alguém disposto a narrar sobre o que quer que seja.

 









Das calçadas para a mente e vice-versa: a importância social dos sebos e da Edichão

 

Quando li o breve, profundo e tão influente livro Missão do bibiotecário, obra do madrilenho José Ortega y Gasset, em especial o trecho em que ele afirmou que imaginava "o futuro bibliotecário como um filtro que se interpõe entre a torrente de livros e o homem" (José Ortega y Gasset. Missão do bibliotecário. Trad. Antonio Agenor Briquet de Lemos. Brasília: Briquet de Lemos/Livros, 2006, p. 46) eu me fiz a seguinte pergunta: "Um livreiro ou um sebista pode ser tomado como uma espécie e/ou, vá lá, um arremedo de bibliotecário?"; e, imediatamente, avaliando que, com algumas ressalvas, visto que eu já me deparei com sebistas que deixaram ver que, infelizmente, eles não tinham  familiaridade maior ou mais profunda com o produto que comercializavam, no que diz respeito à leitura - e eu não estou aqui querendo dizer que livreiros e sebistas (e mesmo os bibliotecários) deveriam ler todos os livros que disponibilizam, o que seria impossível, dada a quantidade de livros e dos assuntos os mais diversos que as publicações abordam -, eu respondi que acredito  que, sim, certos livreiros e sebistas podem atuar como aquele "filtro" orteguiano entre os livros e os leitores em potencial que os procuram; e eu escrevi isso aqui acreditando e defendendo que o ideal seria que livreiros, sebistas e bibliotecários, caso não fossem leitores onívoros e vorazes, dispusessem ao menos de uma cultura geral ampla para que, assim, pudessem ser guias e filtros eficientes para o grande e diverso público com o qual eles lidam.




Talyta Aquino garimpando livros


Tem também literatura de cordel, sim, senhor!





 Edson e Rafael examinando o acervo de Ramos




Dias atrás, nos dois perfis que mantém no Instagram, uma das famigeradas redes sociais, o sebista Ellizeu Espíndola, que vem atuando com tenacidade na manutenção e organização do Coletivo Sebos do Capibaribe, destacou algo em que eu também acredito e defendo, que é a importância e o papel social dos sebos no processo e na dinâmica da educação da população, ao disponibilizarem livros, revistas e outras publicações que, na maioria das vezes, estão fora de catálogo, a preços que, no geral, são bem acessíveis - vide os perfis @seborreia_recife e @elizeu_espindola -; importância social essa vinculada à educação e atrelada ainda a uma economia circular, porque proporciona que publicações que poderiam parar em lixões, continuem circulando e chegando às mãos de pessoas, sejam livros técnicos, didáticos e paradidáticos, sejam livros que se buscam sem um interesse utilitário para uma determinada formação escolar, universitária e  profissional e, sim, pelo simples e indescritível prazer da leitura.


Com Nerivaldo Guedes, do O Amado Livros





Por esse precinho, meu bem, só não compra quem não quer ou quem não gosta ralmente de ler


Os livros são professores que nunca se aposentam; passam décadas e séculos e eles permanecem aqui, quase como se tivessem vida, como nós, nos ensinando algo, como muito bem avaliou Elias Canetti que, numa conferência, disse assim, recordando o tempo em que, adolescente, frequentava uma escola em Zurique, na Suíça:

Naquela escola aprendi o que significam bons professores. Mas o melhor professor que tive então foi Johann Peter Hebel. Ele veio ao mundo há 220 anos. Não são muitos os que seguem sendo professores tanto tempo depois da morte.

Ele tem aquele dom que esperamos ver num professor: fala de maneira explícita e fala para todos. Tem sede de saber e aprendeu muita coisa. Mas isso só se percebe quando ele transmite uma parcela do seu conhecimento: explica de tal maneira que ninguém mais esquece (Elias Canetti. "Hebel e Kafka. Conferência proferida por ocasião da outorga do Prêmio Johann Peter Hebel, a 10 de maio de 1980, em Hausen im Wiesenthal". In Sobre os escritores. Trad. Kristina Michahelles. Org. Penka Angelova e Peter Von Matt. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2009, p. 69).

E Elias Canetti escreveu isso, gente, recordando a leitura que ele fizera, aos 13 anos de idade, do Caixinha de tesouros, um livro que o alemão Peter Johann Hebel lançou, em 1811, reunindo textos originalmente escritos para um almanaque popular. E por que Franz Kafka apareceu no título da conferência? Porque Hebel contou à plateia a ocasião em que um recitador chamado Ludwig Hardt, com quem esteve em 1936, na cidade de Viena, lhe mostrou um exemplar do Caixinha de tesouros que ele guardava como se fosse realmente um tesouro e do qual nunca se separava, porque não o confiava a ninguém e que o punha debaixo do travesseiro quando ia dormir, que pertencera ao autor de A metamorfose, que lhe disse que aquela era "a história mais maravilhosa que há!" e lhe presenteou com o seu exemplar com a seguinte dedicatória: "A Ludwig Hardt, para dar uma alegria a Hebel, de Franz Kafka" (Elias Canetti. Op. cit., respectivamente, por ordem de citação, páginas 72 e 71).

Elizeu Espíndola, uma grande figura que foi um dos achados que eu tive o prazer de conhecer ao me enturmar com os sebistas do centro do Recife




Diálogo entre sebistas: de costas para nós aparece o Azevedo e de frente Moacir Lago





Paulo Rogério e sua esposa Fabiana Maria


A Edichão, que vem se consolidando como um acontecimento multicultural atrelado, como eu disse, a uma tradição recifense de sebistas que comercializam e disponibilizam seus acervos ao público em geral nas calçadas da Avenida Guararapes há várias décadas, é um acontecimento que, como bem enfatizou Elizeu Espíndola, promove muito mais do que o comércio circular de livros, revistas, cd's, dvd's e discos de vinil; é um evento marcado por "encontros, reencontros, conversas, sobre investigar as peculiaridades de cada título, de cada edição, contemplação, risos, amizades". É, enfim, a confirmação de que os livros podem promover encontros entre pessoas e desencadear várias atividades e iniciativas que difundem a leitura e o conhecimento tanto como elementos para uma boa formação educacional e cidadã como também como liames para a diversidade das artes e da cultura, integrando tudo aquilo que a humanidade fez de melhor ao longo de sua história até aqui.


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