Por Sierra
Tudo,
no mundo, existe para acabar num livro.
Stéphane Mallarmé
O
espírito se purga e a carne é gasta,
ó
cidade de luz onde me basto:
amo,
por isso, o cheiro do teu pasto
inferno
que me atrai e que me afasta.
Inscrição no Capibaribe.
Jaci Bezerra
Muitas vezes pode acontecer assim quando se quer
"inventar" uma tradição, como me fez imaginar o historiador Eric
Hobsbawm, quando eu li o clássico A
invenção das tradições, que ele organizou junto com o igualmente historiador
Terence Ranger: um indivíduo ou um grupo de pessoas dá início à realização de
certa prática, ritual ou evento, isso vai sendo repetido, no passar dos anos,
por eles e/ou por outros e, daí a pouco, eis a consolidação de uma "tradição".
Algumas tradições são institucionalizadas e têm data e registros dos seus
começos; enquanto que de outras não se sabe ao certo suas origens e delas se
conhece apenas uma parte do seu percurso. Tradições podem ser inventadas e
estabelecidas por instituições; e, diferentemente do que muitos pensam, elas
costumam, sim, sofrer alterações e mudanças ao longo do tempo perdendo
elementos, alterando alguns e mesmo acrescentando outros. O certo é que, como
nos disse o eminente historiador inglês, "Muitas vezes, 'tradições' que
parecem ou são consideradas antigas são bastante recentes, quando não são
inventadas" (Eric Hobsbawm. "Introdução: A invenção das tradições".
In Eric Hobsbawm e Terence Ranger [orgs.]. A
invenção das tradições. Trad. Celina Cardim Cavalcante. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 2012, p. 11).
A história de uma cidade pode ser contada por várias
linhas de abordagens; pode ser a partir do traçado de suas ruas, de seus
monumentos, de sua arquitetura, de seus movimentos sociais, de suas
instituições públicas, de suas teias políticas, de suas precariedades, de sua
vida cultural, etc. E, pensando numa "tradição inventada", quando
será que começaram a surgir, no Recife, os primeiros sebos, essas verdadeiras
instituições culturais que marcam presença firme no coração dessa cidade - e
para além dele, porque um coração é irrigado por muitas artérias -, notadamente
no perímetro do bairro de Santo Antônio que abrange a Rua Marquês do Recife,
avança pela Rua da Roda e abarca as calçadas da icônica Avenida Guararapes?
Disso eu ainda não sei, mas prometo que vou procurar ler alguns alfarrábios
para tomar conhecimento a esse respeito; e sou levado a acreditar que se isso
não estiver dito em livros antigos, possivelmente aparecem pistas e indícios sobre
o assunto nas páginas do mais que centenário Diario de Pernambuco, não é, mestre José Antonio Gonsalves de
Mello? Vou pesquisar.
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| O cordelista Fernando Serpa |
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| Não são apenas livro, não: a Edichão tem escultura, artes plásticas, canto, teatro, poesia e o mais que você queira acrescentar: apareça para fortalecer esse cordão multicultural |
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| José Ítalo dizendo versos de seus poetas favoritos |
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| É lindo de ver as calçadas tomadas pelos livros |
Mais
uma vez a Edichão
No mais recente 12 de julho as calçadas da Avenida
Guararapes voltaram a ser cenário - e palco também - de mais uma edição da
Edichão, depois de um hiato de três meses, em razão de vários acontecimentos e
circunstâncias, como os dias de chuvas intensas e suas consequências não só
para a capital como também para municípios da Região Metropolitana e um
acidente doméstico envolvendo Fátima Soares, que é dona do sebo Livro Aberto e
integrante do Coletivo Sebos do Capibaribe, que organiza a Edichão: ela foi
picada por uma cascavel, no final de maio, na sua casa, em Igaraçu, e ficou um
mês afastada de suas atividades.
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| Pedro Rodrigues, um homem de múltiplos habilidades e talentos |
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| O artista plástico Lúcio Mustafá |
Não é demais dizer que a venda e o comércio de livros
usados dispostos, arrumados e expostos nas calçadas, no chão da Avenida
Guararapes é uma tradição muito recifense; tradição essa que tem pelo menos
quarenta anos de existência - eu, por exemplo, comecei a ir garimpar livros,
revistas e outros itens por ali no ano de 1992. E a Edichão, que teve início em
dezembro de 2021 - nos quatro domingos daquele mês, com a denominação de
"Feira de Livro de 2ª Edichão", conforme um registro fotográfico da
época que me foi mostrado pelo sebista José Ítalo, sendo Edichão um claro
trocadilho com a palavra edição -, em que pesem os meses em que foi
participante do projeto "Viva Guararapes", concebido e mantido pela
Prefeitura Municipal do Recife e os em que passou por uma reorganização e mesmo
denominação, veio também ela a se constituir uma tradição cultural da cidade,
resistindo aos avanços do processo de gentrificação que vem pontuando, aqui e
ali, nacos do núcleo primitivo do Recife. Também não é demais recordar que
houve um período em que os sebistas que atuam na Avenida Guararapes foram
intimados pela Municipalidade a desocuparem aquele espaço, aquele pedaço de
chão, mesmo sendo algo que existia há décadas ali.
Durante vários anos o meu convívio com o comércio de
livros usados, aqui em Pernambuco e em outros estados por onde andei, se
resumia a frequentar esses espaços apenas para comprar uma publicação e outra,
como uma mera relação comercial entre um vendedor e um consumidor. Em dado
momento essa relação começou a ganhar outra dimensão e dinâmica a partir de
conversas que eu comecei a manter não somente com alguns sebistas como também
com outros indivíduos que, assim como eu, marcavam presença nesses lugares,
fossem os sebos mantidos em imóveis e boxes ou em praças públicas e calçadas.
Eu não cheguei a participar das primeiras edições da Edichão,
que reúne a maior parte dos sebistas que, de segunda-feira a sábado,
ocupam as calçadas da Avenida Guararapes, e outros que são convidados a
integrar e apoiar o evento; um evento que, além de ser mantido com o objetivo de
dinamizar o centro da capital, que foi sendo esvaziado ao longo dos anos por
uma série de transformações sociais e comportamentais e pela falta de ação do
poder público municipal com vistas a promover o retorno das pessoas e
incentivá-las a frequentar com mais assiduidade os bairros centrais do Recife, celebra
e defende a permanência e a continuidade, naquelas calçadas, de um tipo de
comércio tradicional da cidade do qual alguns dos sebistas, que ali atuam,
tiram todo o seu sustento.
Por conta de conversas mantidas com o sebista José
Ítalo, eu comecei a participar da Edichão; e eu sei que não tem sido
fácil para o Coletivo Sebos do Capibaribe realizar cada nova edição da
empreitada. E por quê? Porque paulatinamente os membros do Coletivo
transformaram o acontecimento em algo maior e mais abrangente: a Edichão deixou
de ser apenas uma feira literária e adquiriu status de um evento multicultural
- embora os livros permaneçam como fundamento dessa destemida e resistente
iniciativa - trazendo para o seu bojo a participação e a integração de
diferentes expressões artísticas, como canto, poesia, teatro e artes plásticas;
e outros elementos, como moda e colecionismo.
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| Esses quadros, feitos com colagens, são obras de Lúcio Mustafá |
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| O poeta Emerson Ahut Wató em ação |
Como eu vinha dizendo, não é fácil e nem simples fazer
a Edichão acontecer, porque isso demanda um custo; daí por que o ideal seria
que o Coletivo conseguisse angariar parceiros e patrocínios, porque nem todo
mundo se apresenta ali de maneira voluntária e gratuita, ou seja, recebe um
cachê, ainda que simbólico. São vários os custos, como a impressão de cartazes
de divulgação - desta feita o cartaz foi obra do artista José Gogaii -,
porque Coletivo entende que ela não pode ficar restrita às redes sociais;
cachês para os artistas; e a disponibilização de um café da manhã. Seria tão
bom, por exemplo, se o Coletivo conseguisse que alguma empresa disponibilizasse
pelo menos um banheiro químico, porque as pessoas que organizam e participam da
Edichão permanecem durante horas ali sem ter acesso a um banheiro.
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| Desta feita a arte do cartaz de divulgação da Edichão foi obra do artista José Gogaii |
Na edição mais recente da Edichão que ocorreu, como eu
disse, no último dia 12 de julho, as atrações musicais foram Canário do
Império, que é um verdadeiro parceiro do Coletivo; e Talyta Aquino com Paulo
Gonçalves. O cartofilista Hélio Moura Filho, um dos membros do Coletivo, expôs
parte do seu imenso acervo. José Rodrigues, um multiartista que também integra o
Coletivo, levou para lá algumas de suas mandalas confeccionadas com
cartões-postais e que muito lembram os cartemas de Aloisio Magalhães. E, além
dos sebistas Ramos, Paulo Rogério e sua esposa Fabiana Maria, Geraldo José,
Elizeu Espíndola - do Seborreia Recife -, Nerivaldo Guedes - do O Amado Livros -, Fáima Soares,
Acinha e sua esposa Diana Madalena, Abraão, Elvis Rossi - o homem dos
cd's, dvd's e vinis - e José Ítalo, marcou presença, com parte do seu acervo,
Moacir Lago, do Sebo Aldeia, do bairro homônimo lá de Camaragibe.
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| O multitalentoso Canário do Império em ação: pense num artista arretado! |
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| Acinha e sua esposa Diana Madalena |
Como a Edichão deixa sempre o microfone aberto para
quem quiser falar, cantar, declamar e até protestar e desabafar, na manhã
daquele domingo se achegaram a ele o poeta Emerson Ahut Wató; o artista plástico
Lúcio Mustafá; o designer, fotógrafo, jornalista, artista plástico e cineasta
Pedro Rodrigues; o cordelista Fernando Serpa; Fátima Soares, que além de
professora aposentada e sebista é poeta, disse mais uma vez alguns dos seus
versos; e o sebista José Ítalo, fã incondicional dos poetas Fernando Pessoa e
Carlos Pena Filho, também recorreu ao microfone para dizer poesia naquela manhã
multicultural.
Pulsando
junto com o coração do Recife
Num dos livros mais interessantes e abrangentes que eu
até hoje li sobre o Recife, Antonio Paulo Rezende disse de uma cidade como
moradia e como cenário da modernidade; de uma cidade que, como outras, foi
feita de sonhos e de desejos. Nas cidades, prosseguiu ele, "O nosso olhar
percorre suas ruas como se elas fossem 'páginas escritas', querendo adivinhar
as histórias que elas escondem, traduzir a língua difícil dos sentimentos que
construíram o seu cotidiano, seus tantos símbolos que os homens teimam em
decifrar, como se eles pudessem ter, apenas, um significado" (Antonio
Paulo Rezende. (Des) encantos modernos:
histórias da cidade do Recife na década de vinte. Recife: Secretaria de
Cultura/Fundarpe, 1997, p. 21).
Essa passagem do bonito e profundo livro de Antonio
Paulo Rezende, que foi meu professor na Universidade Federal de Pernambuco, me
fez pensar a cidade do Recife como um livro aberto, já que estamos falando de
sebos; a cidade como um livro aberto que não está terminado e que continua
sendo escrito, porque a sua história não tem fim, uma vez que, diuturnamente,
eu, você e todos aqueles que com ela se relacionam contribuem também para que
essa narrativa se alongue indefinidamente em par com as suas paisagens naturais
e artificiais e com os seus outros seres animados, inanimados e até ficcionais,
porque tudo cabe na história dos lugares.
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| José Rodrigues, sentado, batendo um papo |
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| Com as irmãs Fátima Soares e Valda |
Em que pesem todas as contradições e contrastes sociais do seu passado e do seu presente, o Recife permanece como uma cidade onde a cultura letrada é uma das referências do país: o Recife do "ciclo do caranguejo" de Josué de Castro; o Recife dos que precisavam aprender a ler para compreender o mundo, algo que poderia ser alcançado com o método de alfabetização de Paulo Freire; e o Recife "da lama e do caos" que o Movimento Manguebeat denunciaria, também era e foi o Recife que revelou ao mundo personalidades da República das Letras como um Gilberto Freyre, um Fernando Pio, um Manuel Bandeira, um Solano Trindade, um Raimundo Carrero, uma Luzilá Gonçalves Ferreira, um Manoel Correia de Andrade, um Nelson Saldanha, um Vamireh Chacon, um João Cabral de Melo Neto, entre outros, só para ficarmos no campo dos nascidos em Pernambuco que nos legaram obras escritas e para dizermos da força e do poder da leitura e dos livros de uma cidade que, em outros tempos, afora os seus vários sebos, abrigava livrarias renomadas e de saudosa memória para tanta gente, como a Livro 7, a Ramiro Costa, a Síntese, a Cultura entre outras.
Durante certo tempo, a capital pernambucana esteve na
vanguarda da difusão da leitura e da formação de bibliotecas municipais e mesmo
de bibliotecários, isso numa época em que a Biblioteconomia não era ainda um
curso muito conhecido e difundido no Brasil, que o diga o meu querido amigo
Edson Nery da Fonseca, que veio a se tornar uma referência na área, que amava
os livros com grande volúpia e que fez o seu curso no Rio de Janeiro no período
em que trabalhava com José Césio Regueira Costa na Diretoria de Documentação e
Cultura, da Prefeitura Municipal do Recife - que seria responsável pela
implantação de bibliotecas populares, como as dos bairros da Encruzilhada e de
Afogados -, como ele próprio contou em seu livro de memórias:
Não
havia bibliotecários no Recife. José Césio foi conversar sobre o problema com a
diretora da biblioteca do Departamento Administrativo do Serviço Público
(DASP), Lydia de Queiroz Sambaqui, e obteve para mim uma bolsa de estudos nos
Cursos da Biblioteca Nacional. Minha mãe preparou chorando minha mala e
embarquei para o Rio de Janeiro (Edson Nery da Fonseca. Vão-se os dias e eu fico: memórias e
evocações. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009, p. 48).
Eu falei ainda há pouco em "grande volúpia"
pelos livros e, decerto, quem conheceu o inesquecível Edson Nery da Fonseca
sabe que eu não exagerei na descrição, mesmo porque, todo bibliófilo - e agora
eu digo isso por mim - ama o objeto livro de modo que é difícil de descrever. Aproveitando
o ensejo é preciso que eu diga a vocês que, também nesse quesito, o Recife
vivenciou a experiência do Gráfico Amador, que produzia livros em pequenas
tiragens para bibliófilos, uma gente profundamente apaixonada por essa notável
criação humana.
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| Lá vai Elvis Rossi arrumar os seus discos de vinil na calçada |
Com
os livros não há quem possa
De tempos em tempos, principalmente quando surgem ditos
concorrentes da cultura livresca, uns e outros decretam o fim dos livros. Nos
dias que correm, por exemplo, aponta-se o dedo para os quase onipresentes smartphones e o acesso às chamadas redes
sociais - que, de fato, são os únicos canais de leitura de muita gente - como
responsáveis pelo declínio do livro impresso. Ocorre que, em paralelo com as
redes sociais e as discussões sobre autoria de narrativas textuais com o
advento das Inteligências Artificiais (IA's), as feiras literárias continuam
sendo um sucesso de público e vem crescendo, pelo país afora, a criação de
clubes de leitura e de bibliófilos, que recebem, mensalmente, publicações com
encadernações exclusivas; e não podemos nos esquecer dos e-books, dos PDF's que
uns e outros fazem de livros e dos audiolivros.

Antes de cantar, Talyta Aquino declamou poesia: que menina danada!
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| O sebista Ramos: muitos anos de concvívio com os livros |
Robert Darnton, um nova-iorquino bibliotecário e estudioso do livro e da leitura que lançou, entre outros, o instigante e inspirador A questão dos livros - segundo as suas próprias palavras, "uma apologia descarada em favor da palavra impressa" -, abordou a discussão acerca da "morte do livro" que profetas apocalípticos insistem em anunciar. Leiamos o que ele escreveu dezesseis anos atrás sobre isso:
A
capacidade de resistência do códice à moda antiga ilustra um princípio geral da
história da comunicação: uma mídia não toma o lugar da outra, ao menos a curto
prazo. A publicação de manuscritos floresceu por muito tempo depois da invenção
da prensa móvel por Gutenberg; os jornais não acabaram com o livro impresso; a
televisão não destruiu o rádio; a internet não fez os telespectadores
abandonarem suas tevês. Assim sendo, seria possível que mudanças tecnológicas
ofereçam uma mensagem reconfortante de continuidade, apesar da proliferação de
novas invenções?
Não.
A explosão dos modos eletrônicos de comunicação é tão revolucionária quanto a
invenção da impressão com tipos móveis. Estamos tendo tanta dificuldade em
assimilá-la quanto os leitores do século XV ao se confrontarem com textos
impressos (Robert Darnton. "Introdução". In A questão dos livros: passado, presente e
futuro. Trad. Daniel Pellizzari. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. Por
ordem de citação: páginas 7 e 14).
Não vejo como o livro possa ser substituído mesmo por
uma das mais avançadas das mais avançadas das tecnologias, como diria Caetano
Veloso, porque o livro impresso permanece sendo algo que mexe com vários de
nossos sentidos; e existem leitores que não o trocam por nenhuma outra forma de
suporte para leitura, como o Kindle.
Creio ainda que as IA's não irão substituir a escrita, digamos, natural e
humana, que reúne e condensa em si pesquisa, reflexão, criatividade,
imaginação, memória, intenção e propósito. E, assim como Alfred Alvarez, eu
acredito que "escrever é literalmente uma arte viva e também
criativa" (Alfred Alvarez. A voz do
escritor. Trad. Luiz Antonio Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2006, p. 19); escrever é não somente uma arte como também um
exercício de dizer de si e/ou de outrem para o mundo; e sempre haverá alguém
disposto a narrar sobre o que quer que seja.
Das
calçadas para a mente e vice-versa: a importância social dos sebos e da Edichão
Quando li o breve, profundo e tão influente livro Missão do bibiotecário, obra do
madrilenho José Ortega y Gasset, em especial o trecho em que ele afirmou que
imaginava "o futuro bibliotecário como um filtro que se interpõe entre a
torrente de livros e o homem" (José Ortega y Gasset. Missão do bibliotecário. Trad. Antonio Agenor Briquet de Lemos.
Brasília: Briquet de Lemos/Livros, 2006, p. 46) eu me fiz a seguinte pergunta:
"Um livreiro ou um sebista pode ser tomado como uma espécie e/ou, vá lá,
um arremedo de bibliotecário?"; e, imediatamente, avaliando que, com
algumas ressalvas, visto que eu já me deparei com sebistas que deixaram ver
que, infelizmente, eles não tinham familiaridade maior ou mais profunda
com o produto que comercializavam, no que diz respeito à leitura - e eu não
estou aqui querendo dizer que livreiros e sebistas (e mesmo os bibliotecários)
deveriam ler todos os livros que disponibilizam, o que seria impossível, dada a
quantidade de livros e dos assuntos os mais diversos que as publicações abordam
-, eu respondi que acredito que, sim, certos livreiros e sebistas podem
atuar como aquele "filtro" orteguiano entre os livros e os leitores
em potencial que os procuram; e eu escrevi isso aqui acreditando e defendendo
que o ideal seria que livreiros, sebistas e bibliotecários, caso não fossem
leitores onívoros e vorazes, dispusessem ao menos de uma cultura geral ampla
para que, assim, pudessem ser guias e filtros eficientes para o grande e
diverso público com o qual eles lidam.
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| Talyta Aquino garimpando livros |
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| Tem também literatura de cordel, sim, senhor! |
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| Edson e Rafael examinando o acervo de Ramos |
Dias atrás, nos dois perfis que mantém no Instagram, uma das famigeradas redes
sociais, o sebista Ellizeu Espíndola, que vem atuando com tenacidade na
manutenção e organização do Coletivo Sebos do Capibaribe, destacou algo em que
eu também acredito e defendo, que é a importância e o papel social dos sebos no
processo e na dinâmica da educação da população, ao disponibilizarem livros,
revistas e outras publicações que, na maioria das vezes, estão fora de
catálogo, a preços que, no geral, são bem acessíveis - vide os perfis
@seborreia_recife e @elizeu_espindola -; importância social essa vinculada à
educação e atrelada ainda a uma economia circular, porque proporciona que
publicações que poderiam parar em lixões, continuem circulando e chegando às
mãos de pessoas, sejam livros técnicos, didáticos e paradidáticos, sejam livros
que se buscam sem um interesse utilitário para uma determinada formação escolar,
universitária e profissional e, sim, pelo simples e indescritível prazer
da leitura.
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| Com Nerivaldo Guedes, do O Amado Livros |
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| Por esse precinho, meu bem, só não compra quem não quer ou quem não gosta ralmente de ler |
Os livros são professores que nunca se aposentam; passam
décadas e séculos e eles permanecem aqui, quase como se tivessem vida, como
nós, nos ensinando algo, como muito bem avaliou Elias Canetti que, numa
conferência, disse assim, recordando o tempo em que, adolescente, frequentava
uma escola em Zurique, na Suíça:
Naquela
escola aprendi o que significam bons professores. Mas o melhor professor que
tive então foi Johann Peter Hebel. Ele veio ao mundo há 220 anos. Não são
muitos os que seguem sendo professores tanto tempo depois da morte.
Ele
tem aquele dom que esperamos ver num professor: fala de maneira explícita e
fala para todos. Tem sede de saber e aprendeu muita coisa. Mas isso só se
percebe quando ele transmite uma parcela do seu conhecimento: explica de tal
maneira que ninguém mais esquece (Elias Canetti. "Hebel e
Kafka. Conferência proferida por ocasião da outorga do Prêmio Johann Peter
Hebel, a 10 de maio de 1980, em Hausen im Wiesenthal". In Sobre os escritores. Trad. Kristina
Michahelles. Org. Penka Angelova e Peter Von Matt. Rio de Janeiro: Editora José
Olympio, 2009, p. 69).
E Elias Canetti escreveu isso, gente, recordando a
leitura que ele fizera, aos 13 anos de idade, do Caixinha de tesouros, um livro que o alemão Peter Johann Hebel
lançou, em 1811, reunindo textos originalmente escritos para um almanaque
popular. E por que Franz Kafka apareceu no título da conferência? Porque Hebel
contou à plateia a ocasião em que um recitador chamado Ludwig Hardt, com quem
esteve em 1936, na cidade de Viena, lhe mostrou um exemplar do Caixinha de tesouros que ele guardava
como se fosse realmente um tesouro e do qual nunca se separava, porque não o
confiava a ninguém e que o punha debaixo do travesseiro quando ia dormir, que
pertencera ao autor de A metamorfose,
que lhe disse que aquela era "a história mais maravilhosa que há!" e
lhe presenteou com o seu exemplar com a seguinte dedicatória: "A Ludwig
Hardt, para dar uma alegria a Hebel, de Franz Kafka" (Elias Canetti. Op.
cit., respectivamente, por ordem de citação, páginas 72 e 71).
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| Elizeu Espíndola, uma grande figura que foi um dos achados que eu tive o prazer de conhecer ao me enturmar com os sebistas do centro do Recife |
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| Diálogo entre sebistas: de costas para nós aparece o Azevedo e de frente Moacir Lago |
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| Paulo Rogério e sua esposa Fabiana Maria |
A Edichão, que vem se consolidando como um acontecimento multicultural atrelado, como eu disse, a uma tradição recifense de sebistas que comercializam e disponibilizam seus acervos ao público em geral nas calçadas da Avenida Guararapes há várias décadas, é um acontecimento que, como bem enfatizou Elizeu Espíndola, promove muito mais do que o comércio circular de livros, revistas, cd's, dvd's e discos de vinil; é um evento marcado por "encontros, reencontros, conversas, sobre investigar as peculiaridades de cada título, de cada edição, contemplação, risos, amizades". É, enfim, a confirmação de que os livros podem promover encontros entre pessoas e desencadear várias atividades e iniciativas que difundem a leitura e o conhecimento tanto como elementos para uma boa formação educacional e cidadã como também como liames para a diversidade das artes e da cultura, integrando tudo aquilo que a humanidade fez de melhor ao longo de sua história até aqui.


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