4 de julho de 2026

O centenário de Alexina Crêspo comemorado na Fundação Joaquim Nabuco

 Por Sierra

 

Fotos: Arquivo do Autor
A história de Alexina Crêspo precisa ser cada vez mais difundida para que muito mais pessoas tomem conhecimento das lutas que ela empreendeu por conquistas sociais, como a reforma agrária

 

Caso você já tenha lido um bom livro de História do Brasil, sobretudo algum que abordou o período da Ditadura Militar (1964-1985), certamente há de ter se deparado com algumas linhas descrevendo as chamadas Ligas Camponesas, que existiram no Nordeste, e lido o nome de um personagem que durante vários anos atuou como advogado dos camponeses, o pernambucano de Bom Jardim chamado Francisco Julião, que, além de advogado, foi escritor e deputado estadual e federal; e que teve os seus direitos políticos cassados nos primeiros dias do Golpe Militar, passou quase dois anos preso e, posteriormente, foi para o exílio, tendo passado quinze anos fora do país.

De Francisco Julião eu imagino que você tomou algum conhecimento. Agora e de Alexina Crêspo, uma recifense nascida no bairro de Afogados em 30 de junho de 1926, que foi casada durante vinte anos com aquele presidente de honra das Ligas Camponesas do Nordeste, atuando ao lado dele na causa da reforma agrária e para além dela, participando de movimentos sociais, políticos e femininos de forma mais radical do que o marido, razão pela qual, segundo é divulgado, ela se separou dele, em 1963, você já ouviu falar? Ela aderiu à luta armada quando os militares tomaram o poder e amordaçaram a democracia; e da clandestinidade Alexina Crêspo partiu, igualmente ao ex-esposo, para o exílio, tendo passado por Chile, Cuba e Suécia. Comprometida com os seus ideais revolucionários, ela esteve com Fidel Castro, Che Guevara, Salvador Allende e Mao Tsé-Tung.








Em companhia do artista maranhense Felipe Puxirum, cantor, compositor e instrumentista





Sabe por que você provavelmente não leu nada sobre Alexina Crêspo quando se deparou com um texto a respeito das Ligas Camponesas e de Francisco Julião? Porque durante muito tempo a nossa historiografia e mesmo as narrativas jornalísticas invisibilizaram personagens femininos, como se eles não fossem importantes e sempre tivessem permanecido fora dos acontecimentos históricos, porque as mulheres compreendem um dos grupos que a estudiosa francesa Michelle Perrot classificou de "os excluídos da História".

Na última terça-feira, dia em que Alexina Crêspo completaria cem anos, a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) promoveu, em seu campus do bairro de Casa Forte, no Recife, à noite, um evento para celebrar essa figura singular da História recente do nosso país.


A exposição em homenagem à Alexina Crêspo está imperdível. Não perca!



















Com a vereadora Cida Pedrosa






A programação que, para a minha alegria e satisfação, foi muito concorrida, teve início com a exibição de dois documentários no Cinema do Museu: "Alexina - Memórias de um exílio", de Stella Maris Saldanha e Cláudio Bezerra; e "The troubled land", de Helen Jean Rogers. Ao término das exibições, os deputados João Paulo e Túlio Gadêlha, as deputadas Rosa Amorim e Dani Portela e as vereadoras Cida Pedrosa e Kari Santos e Túlio Velho Barreto falaram um pouco sobre a importância do acontecimento daquele evento para celebrar a memória e a trajetória de Alexina Crêspo.



















Ao sairmos do cinema, nos dirigimos ao Edifício José Bonifácio - a esta altura, os representantes do Memorial das Ligas Camponesas de Sapé, na Paraíba, já haviam chegado; eles tinham se atrasado por conta de um grave acidente de trânsito que ocorrera na BR 230 - para tomarmos parte em mais dois acontecimentos daquela noite de celebração: o vernissage, a abertura da exposição "Vermelho Brasil - 100 anos de Alexina Crêspo", na Galeria Massangana, que, com a curadoria de Camila Maria Santos, Elaine Santana do Ó e Raul Calle de Paula, bisneto de Alexina, exibiu um conjunto de fotografias, recortes originais e também reproduções de jornais, cartas, documentos públicos, joias e outros pertences da homenageada e de sua família que, em parte, estava lá prestigiando o evento; e para acompanharmos, no hall de entrada daquele edifício, o lançamento do livro de Alexina Crêspo Os poemas de Apolo e outros escritos, que foi organizado por Raul Calle de Paula e que foi lançado pela Companhia Editora de Pernambuco - enquanto Raul autografava exemplares da obra, aquele espaço foi tomado pela cantoria do Coral Voz Ativa, de João Pessoa, que entoou o "Hino do camponês", uma composição de Francisco Julião e Geraldo Menucci cujo estribilho marcante diz que

A bandeira que adoramos

Não pode ser manchada

Com o sangue de uma raça

Presa ao cabo da enxada.

 

Na apresentação que escreveu para o grande livro que é História das mulheres no Brasil, (Mary Del Priore [org.]. 7ª ed. São Paulo: Contexto, 2004, p. 7), Mary Del Priore nos disse que a história das mulheres "não é só delas", é também aquela da família, da criança, do trabalho, da mídia, da literatura: "É a história do seu corpo, da sua sexualidade, da violência que sofreram e que praticaram, da sua loucura, dos seus amores e dos seus sentimentos" - à qual eu acrescento a história de suas lutas, de suas insubmissões, de sua coragem e de suas resistências.

O Coral Voz Ativa em ação





Raul Calle de Paula autografando livros



Protagonista de uma das trajetórias mais emblemáticas no campo dos movimentos sociais, da reforma agrária e das lutas em defesa de uma sociedade justa onde o bem-estar social fosse algo ao alcance de todos, Alexina Crêspo é uma personagem de nossa História recente que merecer ter o seu percurso revelado para um público cada vez mais amplo, algo que datas comemorativas, como esta de agora, de celebração do centenário do seu nascimento, proporcionam. É preciso que nós reconheçamos a importância que as mulheres tiveram e têm ao longo do nosso processo civilizatório, porque elas também foram protagonistas de acontecimentos bastante significativos do nosso passado e estiveram em várias frentes de lutas por direitos e conquistas sociais, além, claro, de terem contribuído para o engrandecimento dos universos pedagógico, artístico e cultural deste país e de alhures.

Viva Alexina Crêspo!

Viva as mulheres!

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