22 de agosto de 2026

Cláudio Rafel Landeiro Moreira, 37 anos, espancado, linchado e morto em Copacabana, no Rio de Janeiro ou Quando a barbárie é a força dominante que conduz a manada

 Por Sierra


Os assassinos estão livres,

nós não estamos

              O Teatro dos Vampiros. Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e Renato Russo



Imagem (reprodução do LinkedIn)
A barbaridade do crime que vitimou Claúdio Rafael Landeiro Moreira nos diz muita coisa, uma delas é a falência de um Estado que "premia" criminosos e assassinos com relaxamentos de prisões, prisões domiciliares, saidinhas e reduções de pena

 

Não, eu não vou bancar aqui o sociólogo e nem o especialista em segurança pública para tratar desse caso estarrecedor e chocante que foi o espancamento e linchamento do Cláudio Rafael Landeiro Moreira, de 37 anos, na noite do último dia 11 de agosto, em Copacabana, no Rio de Janeiro, a cidade que, apesar dos tantos pesares, ainda é chamada de "maravilhosa" e que, na verdade nua e crua é, como tantas outras deste país, impiedosa, cruel, desumana e assassina, e onde, para recorrermos a uma expressão cunhada pela filósofa alemã Hannah Arendt, impera a "banalidade do mal". Este meu artigo o que carrega em seu bojo e finalidade é a pretensão de render minha solidariedade e o meu afeto aos familiares desse rapaz que acabou morrendo no dia seguinte, num hospital, devido à gravidade das lesões provocadas por socos, chutes e pauladas.

Decerto que a criminalidade desenfreada não é um privilégio do Rio de Janeiro; a violência marca o cotidiano de inúmeras cidades deste país preenchendo diariamente as crônicas policiais com relatos os mais escabrosos e aterrorizantes; realidade essa que, diga-se de passagem, não se estabeleceu de ontem para hoje em nossa sociedade; a insegurança, a violência e a criminalidade são pesadelos reais que nos perseguem há décadas.

Segundo o noticiário que registrou o caso ocorrido em Copacabana - e que eu vou relatar aqui de modo muito resumido - o que houve foi o seguinte: Cláudio Rafael Landeiro Moreira foi abordado pelo segurança de um restaurante na Rua Barata Ribeiro, que suspeitara que a bicicleta, com a qual ele estava, fosse fruto de um roubo; daí a pouco, nessa abordagem, apareceram outros caras - as investigações apuraram que no grupo figuravam mais um segurança e dois entregadores - que conduziram o rapaz para outra rua e, lá, deram início aos atos covardes e bárbaros de espancamento e de linchamento que resultaram na morte do jovem que saíra de casa para pedalar nos arredores.

O que leva alguém a espancar um indivíduo até a morte? Será que é a ausência de consciência de que está praticando um crime? A confiança de que, no final das contas, a Justiça será benevolente demais para com ele e livrará sua cara impondo uma puniçãozinha de nada? Ou será que episódios como esse ocorrem porque os seres humanos carregamos conosco uma maldade e uma crueldade inatas que fazem da violência um exercício que, em menor ou maior grau, deve ser praticado diariamente?

Li, em mais de uma matéria que abordou o crime, que Cláudio Rafael Landeiro Moreira foi atacado, espancado, linchado e morto porque foi "confundido com um ladrão. Então quer dizer que, se eu e você virmos um indivíduo suspeito de ter praticado um assalto ou um furto vamos tratar não só de detê-lo como também de tirar a vida dele? E onde é que entram as polícias nessa história? E para que é que servem os aparatos legais do Estado que, em tese, atuam para salvaguardar, proteger e punir a todos pela prática de delinquências?

O filósofo e psicanalista francês Roger Dadoun escreveu um breve e contundente ensaio no qual, recorrendo a inúmeras fontes, incluindo a Bíblia, obra tão influente sobretudo no chamado mundo ocidental, ele relatou seguidos casos de violência praticados pelo "homo violens" ao longo de sua história. Dadoun acreditava que o ser humano que ele analisou em sua narrativa era "definido, estruturado, intrínseca e fundamentalmente pela violência". Mais adiante, no texto introdutório, ele registrou o seguinte, recorrendo à etimologia latina da palavra violência:

"Violência" vem do latim vis que significa "violência", mas também "força", "vigor", "potência"; vis designa mais precisamente o "emprego da força", as "vias de fato", assim como a "força das armas". Muito esclarecedor para nós é o fato que vis serve para marcar o "caráter essencial", a "essência" de um ser - o que solidifica nossa hipótese da violência como essência do homem (essência bem singular, na verdade, posto que "autodestrutiva" por vocação) (Roger Dadoun. A violência: ensaio acerca do "homo violens".  Trad. Pilar Ferreira de Carvalho e Carmen de Carvalho Ferreira. Rio de Janeiro: DIFEL, 1998. Por ordem de citação, p. 8 e 10).

Quer sejamos essencialmente violentos ou não, o fato é que a prática da violência normalmente redunda em ações criminosas - como que ratificando o pensamento de Roger Dadoun, um dos criminosos que agiram Copacabana disse, em depoimento à polícia, que agiu "por instinto" -;  e que existe um arcabouço legal que tipifica e enquadra os delitos.

Nós estamos seguramente atravessando o período da história em que, em escala de bilhões, os indivíduos foram mais monitorados e vigiados não somente por olhos humanos, como também por retinas eletrônicas, câmeras que estão instaladas e espalhadas por tudo quanto é canto, de vias públicas a residências passando por estabelecimentos comerciais e órgãos públicos, como num Big Brother. Acontece que nem isso intimida a prática de crimes: o episódio de espancamento e linchamento do Cláudio Rafael Landeiro Moreira foi registrado por câmeras de segurança, destaque-se isso.

Descrevendo uma cadeia de vigilância montada como uma das medidas para se conter o contágio pela peste numa cidade de fins do século XVII, o filósofo francês Michel Foucault, numa de suas obras mais conhecidas e celebradas, nos disse assim:

A cidade pestilenta, atravessada inteira pela hierarquia, pela vigilância, pelo olhar, pela documentação, a cidade imobilizada no funcionamento de um poder extensivo que age de maneira diversa sobre todos os corpos individuais - é a utopia da cidade perfeitamente governada (Michel Foucault. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 25ª ed. Trad. Raquel Ramalhete. Petrópolis: Editora Vozes, 2002, p. 164).

O Rio de Janeiro segue não sendo uma cidade perfeitamente governada, de modo que a utopia urbana de "cidade maravilhosa", dia após dia, é um pouco mais corroída, corrompida, dilapidada e destruída. A criminalidade ali não está entranhada somente nos complexos de favelas e nos morros onde gente de bem paga um alto preço a traficantes e milicianos para sobreviver na ausência da força e do poder do Estado; a criminalidade avançou e lançou os seus tentáculos para os apartamentos à beira da praia ensolarada e para os refrigerados gabinetes governamentais.

Talvez não seja o caso de refundar o Rio de Janeiro e todo um país e, sim, o estabelecimento de uma utopia tangível e possível de ser instituída; uma utopia urbana na qual a cidade figure como um lugar de segurança, onde o aparato policial e judicial realmente funcione para que delinquentes e pessoas de bem confundidas com delinquentes nãos sejam espancados, linchados e mortos por indivíduos que barbaramente pensam que Justiça, de fato, é a que é feita com as próprias mãos.

Adeus, Cláudio Rafael Landeiro Moreira!

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