15 de agosto de 2026

Sobre o privilégio de ser desimportante

 Por Sierra

 

Foto: Divulgação
Mudando de conversa, hoje eu preprarei uma gostosa geleia com morangos cultivados às margens do Rio Nilo, na cidade do Cairo, no Egito, 


Assim como eu, você certamente já leu ou ouviu por aí uns e outros que fizeram o diabo para ficar famosos e conhecidos pelo grande público e, depois, passaram a reclamar da vida dizendo que não têm mais sossego e que invadem as suas privacidades.

Num tempo, como este de nosso, em que, para tentar ficar conhecido e famoso - e até endinheirado - não se precisa ser um artista talentoso e nem mesmo um jogador de futebol fora de série e, sim, fazer postagens nas redes sociais e torcer para que a cada dia elas consigam atrair mais e mais visualizações e seguidores - quanto a isso, o que se vê em números nem sempre é o que parece, porque, quem quiser e tiver grana para tanto pode muito bem comprar uma quantidade significativa de seguidores para chamar de seus -, esse papo sobre não ter privacidade soa fake e furado, porque a exibição em tais redes é praticamente uma imposição da vida atual; e quem fez a posta alguma coisa ali não espera somente ser visto: a pessoa torce para que, como diz o termo desse meio, viralize e chegue a milhões e milhões de redesocialmente dependentes como o próprio indivíduo que fez a postagem.

Sim, eu sei que isso vai de uma vaidade enorme, passa pela vontade de aparecer, faz pausa para retocar a maquiagem e o filtro que deixa a autoestima na estratosfera - a pessoa fica "se achando", alguns dizem - e, na maioria das tentativas de sair do anonimato e da grana curta, chega a uma desilusão e a uma frustração que não tem blush, batom, Dolce & Gabbana falsiê, barba desenhada e olhar de macho alfa que deem jeito, mesmo que o cenário onde as criaturas aparecem seja a coisa mais linda de se ver.

Não passei ainda pela crise existencial de ser desimportante para o grande público nas redes sociais e nem hei de passar, porque eu mesmo puxei o meu tapete e caí de cara no chão, o que foi um santo remédio para a pouca veleidade que eu carregava comigo no mundo virtual. Caí com a fuça no chão e me certifiquei da enorme dimensão da minha insignificância naquele espaço. Nada, nada como uma autocrítica diariamente exercitada e bem disposta para fazer com que enxerguemos qual é o nosso tamanho no mundo, seja nas redes sociais ou fora delas. Também não há nada, nada como a liberdade de poder escolher e decidir, de poder dizer sim ou não e de ficar ou simplesmente cair fora dali ou de onde quer que seja que nos faça sentir deslocados.

Às vezes, enquanto caminho à beira-mar da ilha onde eu moro, me pego pensando no grande privilégio que é ser desimportante: nenhum desconhecido me aborda; o telefone não toca; ignoram o que eu posto nas minhas redes sociais; o meu WhatsApp fica dias e dias sem receber mensagens; ninguém me pede opinião sobre algo que apareceu no noticiário, como a virilha da Xuxa Meneghel, a pós-graduação de mentirinha do currículo de Flávio Bolsonaro e as perversidades praticadas pela dupla Donald Trump e Benjamin Netanyahu; enfim, eu praticamente só existo para o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, vulgo IBGE, as fornecedoras de água e energia, a provedora de internet e a administradora do cartão de crédito.

Enquanto sigo mirando a imensidão do mar - o que aumenta ainda mais a minha insignificância e desimportância - eu também, por vezes, me pego refletindo a respeito de outros privilégios que eu consegui até agora, como este de poder escrever e dar vazão ao que vai dentro de mim sem precisar passar por um diretor de redação.

Hoje, pela manhã, depois de cuidar dos gatos da casa junto com meu irmão, que é extremamente importante para mim, eu preparei uma geleia com morangos vindos da milenar cidade do Cairo e que eu comprei num supermercado na cidade de Igaraçu, que está prestes a completar meio milênio de sua fundação, e considerei isso muito curioso, porque revelador de que não é só o universo virtual que nos põe em contato com outras partes do mundo.

Mas por que foi que eu falei de geleia de morango aqui, gente? O que é que tem a ver o fundo com as calças? Sei lá. Talvez o meu pensamento tenha se distraído no meio do caminho e eu simplesmente perdi o foco e a direção do que fundamentalmente eu queria dizer ou porque eu já dissera tudo o que era preciso e me lembrei da geleia de morando apenas para dar cor e sabor a essa narrativa tão insípida e, assim como eu sou para você, tão desimportante.

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