Por Sierra

Foto: Arquivo do Autor
Uma das lixeiras colocadas pela Prefeitura Municpal da Ilha de Itamaracá na Rua João Lopes de Albuquerque
Por mais eficiente e proativa que a gestão de uma
cidade possa ser no trato com a questão da coleta do lixo e da limpeza do
espaço urbano, essa tarefa, infelizmente, é diariamente sabotada por indivíduos
que, agindo de modo irresponsável e sem pensar no bem comum, depositam lixo em
tudo quanto é canto e até mesmo fora da lixeira que está disponível.
Eu moro na Ilha de Itamaracá, uma cidade que integra a
Região Metropolitana do Recife, cuja população chega a quase quadruplicar na
temporada do verão e nos feriadões, o que, inevitavelmente, acarreta a
sobrecarga da Prefeitura Municipal no que diz respeito ao recolhimento e
destinação do lixo, um problema que é permanente.
Muitos dizem que o que falta à população, em geral,
quanto ao lidar com o lixo é a educação ambiental. Por mais boa vontade que eu
tenha para com essa tese, eu não acredito 100% nela. E sabem por quê? Porque eu
duvido que, com tantas informações e imagens circulando que mostram esquinas de
ruas e rios e córregos atulhados de tudo que se possa imaginar - pneus, móveis,
latas, garrafas plásticas, etc. -, as pessoas não tenham a mínima compreensão
de que lixo, entulho, restos de construção e seja o que for que se queira botar
para fora de casa, esse descarte não pode ser feito de qualquer maneira e,
muito menos, em qualquer lugar, podendo tal ação configurar até crime
ambiental.
Ontem, o algoritmo do Instagram trouxe para mim um vídeo no qual aparecia um homem despejando
um tonel e, logo em seguida, um carro de mão cheio de lixo ao lado de uma
grande lixeira colocada ali pela Municipalidade, às margens da Avenida João
Pessoa Guerra, a principal e mais extensa da Ilha de Itamaracá. O homem, que
foi flagrado por outro que o filmava e ao mesmo tempo repudiava aquele seu ato
irresponsável - tudo leva a crer que se tratava de um caseiro dos milhares de
imóveis de veraneio que existem na ilha-cidade -, disse umas coisas que eu
não consegui ouvir e foi embora como se ele estivesse coberto de razão pelo que
fizera.
Meses atrás eu vivenciei algo que, se não diz tudo,
diz muito tanto da falta de civilidade como de compreensão do que é bem-estar
coletivo. Eu fui até um caseiro, que reside num puxadinho da propriedade do
patrão dele, e lhe pedi que parasse de lançar entulhos e fezes de cachorro na
calçada de um imóvel de veraneio que fica defronte à casa para onde eu vou me
mudar; argumentei dizendo que, além de na calçada da casa onde ele vive existir
uma lixeira, a Municipalidade colocara duas enormes nas esquinas da nossa rua.
Ele me ouviu visivelmente contrariado. E sabem o que foi que ele me disse como
arremate de que "só são folhas o que eu coloco ali" - uma mentira
enorme, aliás -? Esta pérola: "Eu vou tentar não colocar nada ali". E
sabem o que foi que aconteceu? Dias depois ele voltou a colocar entulhos na
calçada na maior cara de pau. É claro que eu não tornei a confrontá-lo, porque,
pelo que ele fez, deixou mais do que evidente para mim o tipo de cidadão que
ele é; e eu não iria pagar para ver do que mais ele era capaz para rebater a
minha postura. Refleti que o melhor a fazer seria procurar a própria Prefeitura
Municipal ou mesmo o Ministério Público quando eu começasse a morar lá, algo
que ainda não aconteceu.
Num breve e muito esclarecedor, visceral e potente
livro que lançou no início da década de 1990, Júlia Falivene Alves destacou que
uma cidade só pode ser considerada "saudável" quando "todos os
fatores ambientais que repercutem na saúde e bem-estar do cidadão estão
equilibrados nos locais onde ele vive, trabalha, circula, se locomove e tem o
seu lazer"; ela disse ainda que sanear uma cidade "implica uma série
de políticas e serviços públicos que garantam uma boa qualidade de vida para
seus habitantes", o que inclui, entre outros, a coleta e tratamento do
esgoto, dos detritos industriais, das águas das chuvas, do lixo e dos entulhos,
"em vez de apenas descarregá-los de forma agressiva e predatória em algum
ponto da natureza" (Júlia Falivene Alves. Metrópoles: cidadania e qualidade de vida. 6ª ed. São Paulo:
Editora Moderna, 1995, p. 118. A primeira edição é de 1992).
As cidades são a extensão de nossas casas; portanto, a partir do momento em que deixamos de cuidar bem desses espaços, nós contribuímos para que gradativamente ocorra também a degradação de nossas moradias, porque a cidade é um todo e não apenas uma parte.
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