25 de janeiro de 2026

Um mau comportamento de certos técnicos em enfermagem

 Por Sierra

 

Foto: Arquivo do Autor
Talvez esteja faltando algum tipo de acompanhamento para os profissionais que se dedicam a cuidar de pessoas


Não, eu não vou falar aqui das ações criminosas protagonizadas por três técnicos em enfermagem no Hospital Anchieta, em Taguatinga, no Distrito Federal, que foram presos dias atrás. A pauta deste artigo de hoje é sobre algo também absurdo, um tipo de comportamento deveras reprovável de alguns desses profissionais, que eu já flagrei em várias ocasiões.

Como eu até hoje não aprendi a conduzir nem velocípede - eu não tenho habilidades com máquinas, essa é que é a verdade -, eu recorro muitíssimo a ônibus, táxis-lotação e afins para me deslocar. E uma das coisas que, inevitavelmente, eu ouço frequentemente nos coletivos, quando não estou concentrado na leitura de um livro ou do noticiário da internet, é conversa alheia; e, nessas conversas, costuma sair quase de tudo: traições, brigas conjugais, discussões com vizinhos, apertos financeiros, perrengues com os filhos, a bebedeira do fim de semana, insatisfação com o trabalho, paqueras, roupas novas, viagens que se vai fazer, o aniversário de fulano, as compras no supermercado, o capítulo da novela, etc., etc.

Certa feita - e, que eu recorde, esse foi o primeiro flagrante de um mau comportamento em público de técnicos em enfermagem -, voltando de manhã do trabalho, eu ouvi - e ouvi sentindo um misto de constrangimento e raiva - três desses profissionais falando intimidades de seus pacientes em alto e bom som para quem quisesse ouvir, como se isso fosse uma conversa, digamos, comum e, para elas - sim, eram três mulheres -, algo que pudesse ser dito, falado e exposto assim, às escancaras, com a maior naturalidade do mundo. Elas comentavam até comportamentos e diziam das partes íntimas dos pacientes que elas cuidavam. E riam. E debochavam. E tripudiavam da situação deles. Um horror, um verdadeiro horror.

Enquanto eu ouvia aquelas falas venenosas e moral e eticamente tão abjetas e reprováveis, duas questões de imediato me chegaram: 1ª) será que no currículo do curso dessas técnicas em enfermagem não houve uma disciplina em que foi tratada a indispensável e extremamente necessária ética profissional?; 2ª) será que essas criaturas não estão se dando conta de que aqui, dentro desse coletivo, podem estar pessoas que sejam parentes, amigos e/ou conhecidos dos pacientes delas?

Eu já senti - e imagino que você também, leitor -, ao longo de minha vida, em consultas médicas, alguma vergonha para até mesmo falar sobre certos assuntos bem como para mostrar partes íntimas do meu corpo a tais profissionais. E isso acontece porque é normal que nós sintamos algum pudor. Eu conheço mulheres, por exemplo, que só admitem ser consultadas por ginecologistas mulheres; e, no caso de só puderem ser atendidas por ginecologistas homens, elas só entram na sala de consulta com seus maridos ou companheiros. Agora, você imagine ter suas intimidades físicas e psicológicas expostas em praça pública para quem quiser ouvi-las.

Àquele primeiro flagrante se seguiram outros. E o mais recente ocorreu anteontem, à noite, enquanto eu voltava para casa. Cheia de si e como se fosse a dona da razão, uma técnica em enfermagem, que aparentava ter uns quarenta e poucos anos de idade, contava para um seu conhecido partes do que se passava entre ela, o paciente e parentes dele, que viviam com ele na casa. A técnica estava indo para o trabalho, que era um serviço de home care. Algumas das falas dela eu até gravei na memória inteiramente: "Se eles não estão satisfeitos com o meu serviço, liguem pra cooperativa e reclamem, peçam substituição. Hoje eu tô tão boazinha. Se ela me dizer uma, vai ouvir dez". E seguiu nessa toada durante quase toda a viagem, revelando não só insatisfação para com o serviço e/ou com o tal paciente, bem como uma falta de preparo para lidar com os aspectos éticos e morais da profissão dela. 

Aproveitando o ensejo, eu preciso registrar aqui outra fala dela que, a meu ver, diz muito sobre o que ela fez no ônibus; talvez seja exatamente isso: está faltando algum tipo de acompanhamento para esses profissionais, a fim de que eles evitem protagonizar essas cenas lamentáveis que eu já flagrei. Ela disse assim: "Se ela acha que sabe mais do que eu, fique no meu lugar e não dando pitaco. Eu sou profissional. Eu me preparei muito pra fazer o que eu faço. Eu sei fazer o que faço. Eu passei boa parte da minha vida cuidando de gente, mas só tenho eu pra cuidar de mim".

Os casos de assassinatos, ocorridos no Hospital Anchieta e protagonizados por técnicos em enfermagem, são exemplos extremos levados a cabo por alguns desses profissionais que não têm qualquer empatia para com o sofrimento alheio e que verdadeira e intimamente não sabem conjugar o verbo cuidar; e essa falta de empatia se revela de muitas maneiras, inclusive, no que se refere ao cuidado e ao respeito a tudo que se relacione com os pacientes, principalmente com o bem-estar e com a dignidade deles. Insatisfações pessoais com o trabalho ou com o que quer que seja não podem ser usadas como justificativas para maltratar, desrespeitar, humilhar, expor intimidades e ofender a honra seja de quem for e, muito menos, daqueles que se encontram doentes, fragilizados e indefesos nos leitos de hospitais ou na privacidade de suas casas.

Eu compreendo que cuidar de um paciente vai muito além de trocar uma sonda, dar um banho e ministrar um medicamento a ele. Cuidar de um enfermo, meus caros, é um profundo princípio de humanidade. 

17 de janeiro de 2026

Feiras livres ( 20)

 Por Sierra

 

Fotos: Arquivo do Autor
Fazia tempo que eu não tinha batido perna por uma feira livre tão grande como a da cidade de Itabaiana. Deu-me saudade do tempo em que a feira livre minha cidade natal acontecia na Praça Antônio Vitalino e era uma das grandes atrações de lá


Centro (Itabaiana – SE). Dada a enorme fama que a feira livre de Itabaiana possui – cidade que dista a cerca de 54 km de Aracaju –, foi com grande expectativa que eu me vi tomado para ir conhecê-la quando, na tarde do dia 22 de novembro de 2019, eu me hospedei na pousada Nossa Senhora Aparecida.

Informado de que os dias da feira eram as quartas-feiras e principalmente os sábados, quando “a feira é maior”, eu tratei  de ir conhecer o seu local de ocorrência ainda naquela tarde. Fui vendo e acompanhando desde a sexta-feira, dia da minha chegada, os movimentos na área comercial.












A feira livre de Itabaiana ainda conserva uma característica que grande parte – talvez a maioria – das feiras livres nordestinas perdeu: ela é montada e desmontada; os dois pátios que a abrigam, bem como as ruas que os interligam, são ocupados e desocupados pelos feirantes à medida que o dia avança e a feira vai chegando ao fim. Esse monta e desmonta é um dos aspectos que mais me fascinam nas feiras livres desde criança. A mim sempre me pareceu curioso e algo com o seu quê de mágico ver um espaço enorme tomado de bancos, mercadorias e gente e, daí a pouco, o terreno se apresentar completamente vazio, como se tudo aquilo que os olhos viram e os ouvidos escutaram não tivesse acontecido. Eu experimentei essa sensação muitas vezes em minha cidade natal, Abreu e Lima, quando era criança; e esse encantamento é algo que eu nunca esqueci e que permanece exercendo ainda sobre mim um enorme fascínio.









Na tarde da sexta-feira eu vi os espaços dos pátios começando a receber os bancos dos feirantes; e o desenho dessa ocupação é por si mesmo curioso: cada um vai ocupando o espaço que lhe corresponde no terreno; e a ocupação vai ganhando forma e volume.

Um dos indicativos da pujança da feira livre itabaianense é que existem ali – e vale dizer que os pátios e as ruas que são ocupadas pelos feirantes estão inseridos no centro comercial da cidade, onde existem lojas, armarinhos, farmácias, escritórios, consultórios, supermercados, etc. – três mercados públicos: os dois mais antigos comercializam apenas carnes; e o de construção mais recente, onde são comercializados produtos como feijão, farinha de mandioca, queijos e doces, castanha de caju, temperos, frutas e verduras – eu notei que o espaço também serve como depósito de mercadorias, porque vi ali sacas de batata-doce e cebola, por exemplo; talvez não seja um depósito e sim um espaço que comercializa mercadorias somente no atacado.








Veio o sábado. E em mim era grande a ansiedade de ir logo bater perna pela feira e fazer mais registros fotográficos. Quem gosta de feiras livres sabe bem e imagina que sentimentos me tomavam naquela manhã ensolarada.

Ainda da varandinha do meu quarto eu pude ver uma aglomeração junto ao Estádio Etelvino Mendonça, o Mendonção, que já se chamou Estádio Presidente Emílio Garrastazu Médici. Ao sair da pousada a minha curiosidade me levou a ir ver do que se tratava aquela movimentação. Era nada mais nada menos do que a “feira do troca”, uma verdadeira “instituição” das feiras livres nordestinas. Curioso era que ela ocorresse ali, em local tão afastado da feira livre  propriamente dita. E o que é que poderia ser encontrado nela? Bem, como típica “feira do troca” – apesar do nome, além do troca-troca, do escambo, produtos também são vendidos nelas -, naquela eu encontrei calçados, roupas, brinquedos, eletroeletrônicos e uma infinidade de coisas, tudo ou quase tudo usado, como é de costume e reza a cartilha da “instituição”.










Saindo dali eu segui, enfim, para ir conhecer a feira livre de Itabaiana num dia em que ela acontece de maneira mais pulsante e movimentada.

Caro leitor, a feira livre de Itabaiana é um verdadeiro espetáculo para quem aprecia esse tipo de acontecimento socioeconômico. Ela é enorme e bastante espaçosa. Encontra-se nela quase que de um tudo: frutas, verduras e legumes; temperos e ervas; roupas, calçados e utensílios domésticos; peixes e crustáceos; e comidas prontas a valer.








Os bancos dos feirantes eram, na sua maioria, feitos de ferro e madeira e cobertos com lona plástica. E ocupavam os dois pátios e várias ruas, como que se derramando por eles e tomando todos os espaços. E eu andando e olhando para tudo; e, aqui e ali, parando para fazer registros fotográficos e anotações na minha caderneta.












Em dado momento eu senti um aperto no coração e certa apreensão ao ver um senhor vendendo pequenas aves já tratadas numa bacia. Curioso, eu lhe perguntei que ave ou aves eram aquelas; e ele me disse que eram rolinhas; e quando ele me falou que custava R$ 0,50 a unidade foi que eu me senti ainda mais abalado. E me lembrei da música “Fogo-pagou”, do Rivaldo Serrano de Andrade que foi celebrizada por Luiz Gonzaga e que diz assim: “Teve pena da rolinha que o menino matou/Mas depois que torrou a bichinha e comeu com farinha, gostou”.

Apesar da enormidade da feira eu não vi uma grande multidão circulando por ela. Como um ex-feirante eu sei que há certos dias do mês em que não ocorre grande fluxo de gente porque isso tem também e principalmente a ver com as datas de pagamentos de salários, que habitualmente se dão no fim ou no início dos meses. Não havia, aos meus olhos, muitas pessoas por ali; e com um sol quente da gota e de rachar o quengo, perto do meio-dia a feira deu uma esvaziada. O calor estava demais.









Manuê, canjica, tapioca e outras comidas deliciosas




Parei para comer no Restaurante da Carminha. Paguei R$ 13,00 por uma das comidas mais sem gosto que eu comi na vida. Talvez a comida fosse boa e eu não estivesse realmente com fome, porque, como se diz por aí, a fome é o melhor tempero. Enfim, foi assim.

De volta ao burburinho da feira livre eu comprei castanha de caju e manuê, também chamado em alguns lugares de pé de moleque, que é feito com massa de mandioca, coco e açúcar e não sei mais o quê e é cozido envolto em folha de bananeira sobre uma chapa quente - pelo menos era assim que a minha saudosa avó Maria da Conceição preparava essa iguaria num fogareiro de carvão.












Num ponto e outro eu vi charretes e caminhonetes adaptadas para transportar pessoas sentadas na carroceria; certamente as pessoas que elas traziam e levavam vinham de longe para fazer a feira. Também vi circulando por ali carregadores de frete; alguns dos carros deles eram feitos com carcaça de geladeiras.






























Nos arredores da feira livre passou um carro de som anunciando o falecimento de uma mulher chamada Maria Rosa. Quem seria essa Maria Rosa cujos parentes faziam questão que a cidade ficasse sabendo de sua morte? Eu não sei. O que eu sei é que, por sua dimensão , a feira livre é, sem sombra de dúvida, um grande acontecimento socioeconômico da cidade de Itabaiana.