11 de maio de 2013

Do fausto às ruínas: um passeio pela Rua das Trincheiras

Por Clênio Sierra de Alcântara


Fotos: Ernani Neves


À medida que vamos nos familiarizando com uma cidade, começamos a compreender a sua configuração; começamos a perceber o modo como os seus habitantes interagem com os seus espaços; começamos a investigar o seu passado a fim de tomar conhecimento de como se deu a sua evolução urbanística e econômica para, a partir do que foi achado, buscar entender o que encontramos no tempo de agora.









Por que esse abandono?



Uma das cidades mais antigas do país, a capital da Paraíba – ela se chamou Nossa Senhora das Neves, Filipeia de Nossa Senhora das Neves, Frederica e Parahyba do Norte, antes de atender por João Pessoa – abriga em seu sítio histórico monumentos bem representativos dentre os que foram deixados pela cultura europeia nestas terras americanas. Seu conjunto arquitetônico – civil e eclesiástico - marca os espaços do território de maneira por vezes imponente. Quem vai à parte antiga dessa urbe – à parte alta e à baixa – chega a se sentir transportado para diferentes períodos da história brasileira, porque nela podem ser encontrados elementos sígnicos de várias épocas, como as inúmeras igrejas, a Casa da Pólvora, o Hotel Globo e o Teatro Santa Roza.



Lixo e descaso para com o patrimônio são um espanto nesse logradouro
 



Em janeiro passado, percorri a Rua das Trincheiras a pé, porque, dois dias antes, indo conhecer o Padre Marcílio, na Igreja de São José Operário, no bairro de Cruz das Armas, eu passara por ali de carro e, vendo o que vi, decidi que escreveria um artigo dando o meu testemunho sobre aquele cenário. Por isso atravessei aquele logradouro andando na tarde dominical a fim de ver de muito perto aquelas paredes, aquela vegetação e aqueles entulhos.








Fileira de casas conjugadas




A Rua das Trincheiras é um museu a céu aberto. Localizada na área central da cidade, ela possui alguns exemplares, ainda bem conservados – ao menos em suas fachadas -, de moradias conjugadas que seguem um padrão: são todas iguaizinhas e, ao que parece, serviram, em décadas passadas, de residência para a parcela da população menos abonada daquele lugar. E por que digo isso? Porque essas casas não fazem frente aos palacetes, aos casarões, infelizmente em ruínas, que se encontram ali e que serviram de morada para a elite financeira da capital paraibana.












Por que a cidade está abrindo mão de seu patrimônio histórico?








Quando vi aquelas construções todas abandonadas - algumas delas foram invadidas por, suponho, moradores de rua – fiquei espantado com a quantidade num tão curto percurso. Apesar de estarem em ruínas e cobertas, aqui e ali, por uma vegetação viçosa, elas mantêm um ar garboso, testemunho do passado de fausto em que certamente viviam seus proprietários, porque não dá para imaginar outra coisa ao observá-las.



As construções também são testemunhos de um tempo





Vista da balaustrada com a horrenda fábrica de cimento ao fundo





A ausência do poder público permitiu que ocorresse essa invasão de casas na base da balaustrada


O próprio sítio onde foram erguidas essas construções suntuosas nos diz que aquele lugar realmente não era para qualquer um. A Rua das Trincheiras foi aberta num plano elevado da cidade. Para se ter ideia do que estou descrevendo, existe ali – e ela precisa ser revitalizada urgentemente, porque há rachaduras em várias das colunas que a constituem – a Balaustrada das Trincheiras. Construído em 1918, na administração do governador Francisco Camilo de Holanda – no local existe um busto dele, obra do pernambucano de Vitória de Santo Antão, Bibiano Silva -, o bonito mirante foi, décadas atrás, um cantinho de distração para alguns dos barões de açúcar  que residiam naquela rua, como os membros da família Ribeiro Coutinho, que também possuíam pelo menos uma mansão na Av. João Machado – também percorri essa via; nela igualmente existem uns casarões em ruínas -, como me fez saber Edson Nery da Fonseca, que a conheceu ciceroneado por seu grande amigo Odilon Ribeiro Coutinho. Eles buscavam o mirante a fim de regozijarem-se com o espetáculo do pôr-do-sol que se via dali.




Como pode tanto lixo? E num pondo turístico?












Cabe aqui um registro feito pelo renomado geógrafo e historiador Manuel Correia de Andrade no texto de apresentação do livro A civilização do açúcar:





[...] Na Paraíba, em pleno século XX, quando Epitácio Pessoa dominou a República, dizia-se que "quem não é Pessoa é coisa", ou até que "quem não é Coutinho é coitado".
Os cronistas narram o fausto em que viviam os senhores de engenhos em suas casas-grandes como a do Engenho Patrimônio no Recôncavo da Bahia, a do Engenho Noruega na Mata Meridional pernambucana e a de Poço Comprido na Mata Setentrional deste mesmo Estado, além dos sobrados suntuosos que construíram nas cidades, como o famoso "Sobrado Grande da Madalena" no Recife, e numerosos outros construídos em cidades como João Pessoa [...], em São Cristóvão e nas cidades baianas de Salvador e Cachoeira ( "A civilização açucareira". In: Fátima Quintas [org.]. A civilização do açúcar. Recife: Sebrae, Fundação Gilberto Freyre, 2007, p. 34).









Outrora a vista que se tinha do alto da Balaustrada das Trincheiras devia ser realmente magnífica; hoje, o que se vê é uma horrenda fábrica de cimento e casebres mal-ajambrados, invasões urbanas ocupando até mesmo o sopé do muro de arrimo sobre o qual a balaustrada foi erguida, e em quase toda a área de vegetação remanescente do vale.

Do Itinerário lírico da cidade de João Pessoa, do Jomar Morais de Souto (3ª ed. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 1978) recolhi estas passagens que citam o famoso mirante:



Daqui do alto a minha balaustrada

recolhe as notas musicais de lá,

recolhe o canto que lhe vem das rotas

de um pescador no vale Sanhauá (p. 2).



Da amurada das Trincheiras

hoje não se olha em vão;

nem os soldados do Quinze

com as negras do Batalhão.

Porque o giz daquela ilha [Ilha do Bispo da Cidade Baixa]

move-se branco lá em baixo

e dentro do cantochão.



Giz e cal dentro da Ilha,

cimento na embarcação

de uma nuvem de fumaça

solta na formação

dos mastros de uma galera

das bujarronas de então (p. 24).





Ao abrir mão de seu patrimônio as cidades abrem mão de sua história

















Abandonados por seus antigos proprietários e em vias de desabarem, os em outro tempo faustosos palacetes da Rua das Trincheiras lembram – e muito – aqueles cenários de cidades que sofreram ataques bélicos. As tantas ruínas que se acumulam nessa rua constituem elas mesmas uma paisagem desoladora, fantasmagórica. Quem percorre a Rua das Trincheiras nos dias de hoje pode chegar a pensar que os habitantes daquelas casas imensas saíram dali fugindo de um mal anunciado – deve ter sido por conta do mal que atende pelo nome de falência.



23 comentários:

  1. Parabéns pela matéria. Também fiz esse percurso a pé prá ver o estado desses casarões, me causou tristeza e muita saudades. Quando rapazinho, morava em cruz das armas e ai quase todo dia ao centro a pé, as casas, muitas delas, ainda eram habitadas.

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    1. Sabe qual é o porém? É que a grande rua das Trincheiras é apenas uma rua, uma via de passagem rápida para os apressados e alguns curiosos. Atrair turistas para essa rua e outras que existe na cidade, seria de extremo fundamento para o levantamento da economia. Só que para virar isso, é necessário não só um cidadão para dar dissertar é preciso vários. Eu mesmo sou um defensor ávido da proteção e restauração, e a revitalização do centro histórico.

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  2. Muito triste ver prédios tão bonitos deixados ao acaso e ao relento sofrendo modificações pelo tempo. Deveriam fazer uma campanha pela restauração urgente

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  3. As fotos estão lindas! Toda vez que passo nas Trincheiras sinto uma nostalgia... Adoraria saber um pouco mais das histórias que essas casas em ruínas encerram...

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  4. Acontece muito nas casas antigas de serem abandonadas até a ruína para que os donos possam vender o terreno, já que muitas dessas casas são tombadas. É uma pena, têm muitas casas lindas em vias de desaparecer aqui em João Pessoa, principalmente nessas ruas citadas, Trincheiras e João Machado...

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  5. A "história" merecia ser melhor respeitada, não acham???
    Ou será que não há mais espaços para esses casarões seculares, que escrevem em suas colunas e detalhes arquitetônicos, a memória de um povo???

    Vejo que o descaso e abandono dessas construções, ao longo dos anos, não resume-se apenas a minha terra, Alagoa Grande, mas é ainda mais grave na capital de todos os paraibanos.

    Nesse ritmo, haverá o dia em que teremos apenas grandes arranha-céus de concreto armado e nenhuma vizinhança. Onde sequer saberemos quem mora no apartamento ao lado e só falaremos com os nossos vizinhos, quando formos acionados na justiça, pelo simples fato de FAZER PIPOCA COM MILHO ALHO E O BARULHO INCOMODAR O MORADOR DO LADO.

    Não sou historiador, mas corta-me o coração ver tamanho abandono. Um registro fotográfico digno de reconhecimento.

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  6. Um retrato que muito evidencia como este país tem tratado a sua história... Uma pena! 'Eles' só pensam em voto e no poder pelo poder. Que a sociedade comece a fazer algo, enquanto ainda há tempo.
    JC - Aurora-CE.

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  7. é lamentável como nossos gestores públicos tratam a nossa memória .

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  8. MOREI UNS VINTE ANOS PERTO DAÍ E IA MUITO PASSAEAR NAS IMEDIAÇOES DA BALAUSTRADA E VENDO AS FOTOS NAO RECONHECI NADA E ME SENTI MUITO TRISTE, A GENTE MORA TANTO TEMPO NUM LUGAR SEM VÊ-LO, ESTUDEI NO GRUPO D. PEDRO II, SERÁ QUE AINDA EXISTE, ERA UMA CONSTRUÇAO MAGNÍFICA, QUANTA SAUDADE...

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  9. Essas suas últimas fotos não é a antiga escola 7 de setembro?

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  10. --
    --
    Interessante voltar no tempo!

    Andei e dirigi por essas ruas - dezenas, centenas de vezes -, de 1975 a 1985... voltaria "de visita" noutras oportunidades: 1990, 1996, 1999, 2008 e 2012.

    Ainda que o fausto desses casarios de outrora leve muitos a inevitável decadência no presente, a visão surreal dos "agora-escombros", maltrata os olhos e denigre a paisagem que, a bem da verdade, melhoraria consideravelmente nosso fraco turismo.

    Sds/David Andrade Monte
    --

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  11. ocupação artística desde já!

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  12. Parabéns pela iniciativa
    Eu particularmente sou fascinada por casas antigas e fico muito triste ao andar pelo centro histórico e ver essas construções lindíssimas devoradas pelo matagal
    Se tivesse dinheiro comprava e restaurava todas :D

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  13. Lamentável. Fiquei muito comovido com essa história. História que se repete por um Brasil sem memória. Aqui na cidade de Feira de Santana não é diferente. Os casarões que resistiram a modernidade agonizam aguardando que o tempo os derrubem ou sejam derrubados e suas áreas transformadas em estacionamento. Infelizmente essa é uma triste realidade.

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  14. SERIA MUITO INTERESSANTE FAZER UMA INVESTIGAÇÃO DESSES CASARÕES E AS PESSOAS QUE ALI HABITARAM.

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  15. Eis aí uma ótima linha de pesquisa. Vou pensar nisso também. Obrigado.

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    1. De fato o descaso com nosso patrimônio histórico é uma lástima. Felizmente, a casa que foi de meu bisavô, Flávio Ribeiro Coutinho, continua preservada, hoje como sede do Sicoob.

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  16. Como gostaríamos de ver uma restauração e preservação nessa área que é uma verdadeira aula de historia pra todos nós. Cadê o poder público? Isso é cultura, não se pode deixar perecer assim lamentavelmente.

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  18. Amo minha cidade e me entristeço em vê a nossa história em ruínas.

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  19. ...exelente trabalho fotográfico raro, diga-se de passagem, critico, apelativo tao completo a ponto de rogar á sensibilidade dos administradores uma açao imediata de restauraçao...lamentável o que acontece ema cidade histórica e rica em sua arquitetura...sejamos justo em respeito ao trabalho desenvolvido pelos orgaos responsáveis em vários predios, fachadas, casaroes... mas e que, que aquela area, representaa expançao urbana da nossa cidade, a rua das trincheiras...

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  20. Eu amei cada fotografia, é uma pena que o abandono esteja apagando a história, cm os donos desses imóveis os esqueceram?! Hj herdeiros dos donos, porém, são donos, PQ deixaram pra trás?! É uma matéria incrível!

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  21. Fotos do Colégio 7 de Setembro. Estudei aí em 1977. Sou de SP, e quando criança morei neste cidade que amo de paixão. Morei no bairro Cruz das Armas. Quanta saudade meu Deus...

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