20 de dezembro de 2012

Caminhando em Pedras de Fogo



Por Clênio Sierra de Alcântara


Distando a cerca de 67 km de João Pessoa, a cidade de Pedras de Fogo, pode-se dizer, tem sua história muito atrelada à vizinha Itambé. De acordo com Sebastião de Vasconcellos Galvão, em seu Dicionário corográfico, histórico e estatístico de Pernambuco – e ele nos informa isso citando Baptista Caetano -, o nome Itambé é vocábulo indígena e significa pedra afiada, pedra de amolar, pedra áspera, “designação que o povo, na parte do povoado que pertence á Parahyba, traduziu como Pedra de Fogo”. É o mesmo Galvão que nos informa ainda que em território itambeense encontram-se grandes pedras calcárias, “o que determinou o nome da cidade parahybana – Pedras de Fogo”.



Com a decadência do povoado conhecido por Desterro, que remonta ao século XVII, pois foi criado a partir de uma grande porção de terra doada pelo capitão-general André Vidal de Negreiros, um dos heróis da Restauração Pernambucana, em dezembro de 1680, e onde foi erguida uma capela que tinha por orago Nossa Senhora do Desterro, conta-se que parte de seus habitantes fixou-se próximo a Pedras de Fogo, que se originara de uma feira de gado, porque era o fim da estrada das boiadas que demandavam o Piauí, incentivando o seu crescimento. Por conta de uma série de divergências de ordem interna e externa que impediam o pleno desenvolvimento de Pedras de Fogo, diz-se que seus moradores pediram ao Governo Federal que a incorporasse à então vila de Itambé e depois fosse determinado à qual província pertencia, se à da Paraíba ou à de Pernambuco, o núcleo formado pelas duas povoações.



Pela lei provincial nº 10, de 6 de agosto de 1860, Pedras de Fogo foi elevada à categoria de vila, passando a figurar como município desmembrado do de Pilar, tendo sua instalação ocorrida em 29 de janeiro do ano seguinte. Coriolano Medeiros, em seu Dicionário corográfico do Estado da Paraíba, informa que a lei provincial nº 720, de 20 de maio de 1867, criando o município, deu ao lugar a categoria de vila. Ocorreu que, vinte e nove anos depois ele foi extinto, em consequência da lei estadual nº 40, de 7 de março de 1896, que transferiu a sua sede para a povoação de Cruz do Espírito Santo, ali instalada em 8 de abril desse ano. Com essa transferência, com essa junção, o território passou a ser designado apenas como Espírito Santo. Entretanto, a lei estadual nº 125, de 7 de novembro de 1898, restabeleceu a vila de Pedras de Fogo, restaurando o município de igual nome.




Nas divisões territoriais de 31 de dezembro de 1936 e de 31 de dezembro de 1937, o município de Espírito Santo, que fora anexado ao de Pedras de Fogo, aparece como distrito-sede desse município, sendo este termo judiciário da comarca de Santa Rita. Mas já no ano seguinte, com a lei estadual nº 1010, de 30 de março de 1938, o termo judiciário e o município de Pedras de Fogo passaram novamente a constituir um só território com o nome de Espírito Santo. E foi com a lei estadual nº 895, de 11 de março de 1953, que Pedras de Fogo voltou a figurar como município, tendo o seu território desmembrado do de Cruz do Espírito Santo.


O espaço central de Pedras de Fogo encontra-se com o de Itambé numa via larga que, dividida ao meio por uma demarcação no calçamento, separa o território itambeense do pedra-foguense.





Impressiona o porte imponente da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, que começou a ser erguida em 1860 e foi inaugurada em janeiro de 1865. Ela está situada na área fronteiriça com Itambé; e é o edifico mais vistoso de todo aquele espaço.

Uma das coisas que mais me chamou a atenção nas ruas que percorri desse município foi o fato de pouco se ver de antigo nas fachadas das casas. Pareceu-me até que por ali passou alguma vaga que levou consigo aqueles desenhos que dão um aspecto todo particular às cidades interioranas do Nordeste.








Como acontece na maioria dos centros urbanos – creio que isso deva ser uma constante no mundo todo -, os arredores de Pedras de Fogo também revelam seu tom melancólico. Nos subúrbios as cidades exibem o potencial de suas deficiências para não dizer misérias: as ruas que não são calçadas; o lixo acumulado em maior volume; o esgoto correndo a céu aberto...














Mas foi também num bairro afastado do centro desse município que eu encontrei algo que não via desde o meu tempo de menino na cidade onde nasci: casas de farinha. Resolvi entrar numa para tentar reviver a descoberta de outra época. Ao entrar ali em princípio eu causei certo desconforto em parte dos funcionários que, erroneamente, pensavam que eu ali estava para lhes importunar e atrapalhar seus serviços como um fiscal intruso. acalmados os ânimos me pus a percorrer aquele lugar incrível. mulheres descascando mandioca de um lado; homens nexendo a farinha que estava sendo torrada de outro... E o cheiro que ela exalava? Que cheiro bom danado!







Em seu Onje alé: receitas de matriz africana em Pernambuco, o antropólogo Raul Lody nos diz que a mandioca, em especial a farinha que dela se faz, foi uma das moedas mais usadas no tráfico de escravos, juntamente com a cachaça e a rapadura; e que nesse escambo, tais produtos alimentares chegaram à Africa, implantando novos consumos e usos culinários; e completou: "Desses encontros surgem novos pratos e, em ambas as costas - na África e no Brasil, destacam-se as farofas e os pirões".




 


Enquanto permaneci na casa de farinha pensei na questão do desemparo com que pequenos produtores dos mais variados gêneros alimentícios sofrem. É um fato que formas tradicionais de fabricação de alimentos estão desaparecendo no Brasil porque aos pequenos produtores muitas vezes são impostas exigências de toda ordem - fiscal, sanitária, trabalhista, etc. - que, sem o paoio dos órgãos públicos e/ou privados, eles não conseguem cumprir. Sabe-se que vêm desses pequenos produtores boa parte do que chega à mesa da população que mora longe dos grandes centros urbanos - e até destes . E no entanto eles são, não raro, vitimados por políticas públicas que tiram deles quaisquer possibilidades de manter o pequeno negócio funcionando. É uma lógica perversa que só atende aos interesses das grandes corporações que não admitem ter concorrentes, mesmo que esse concorrente detenha uma parcela ínfima da preferência ínfima do consumidor.

Bom, eu que não sou bobo nem nada, deixei o establecimento carregando mais de cinco quilos de uma farinha cheirosa, gostosa e ainda quentinha.











Nessa minha jornada de encontros com cidades eu tenho conseguido perceber quão fora da realidade são os discursos que insistem em pregar, quase cegamente, formas “ecologicamente corretas” de se viver, quando há tantos indivíduos que, em muitos recantos deste país, estão lutando para sobreviver.







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