19 de julho de 2013

O último que chegar a Bonito é mulher do padre

Por Clênio Sierra de Alcântara


Fotos: Ernani Neves
Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição

                       

As narrativas históricas nos informam que o território da atual Bonito, cidade localizada a cerca de 136 km do Recife, era, até o fim do século XVIII, coberto por imensas florestas; e que sua área, num período anterior, compreendia parte do célebre Quilombo dos Palmares.


Igreja de São Sebastião

Segundo o registro de Sebastião de Vasconcellos Galvão, no seu Dicionário corográfico, histórico e estatístico de Pernambuco, ao qual tanto recorro, a tradição do seu tempo contava que o motivo de a cidade chamar-se Bonito devia-se ao seguinte fato: alguns habitantes da margem do Rio Ipojuca, principalmente do povoado São José de Bezerros, iam caçar na direção da Serra dos Macacos – nome esse devido a grande quantidade de primatas que existia no lugar -; e num certo dia, descendo os caçadores a serra pelo lado oriental, ao chegarem a sua encosta, se depararam com um pequeno rio de água muito cristalina que, sob o sombrio formado por árvores frondosas, tornava o lugar bastante agradável e pitoresco: “Então um dos caçadores, talvez a quem mais encantou o quadro poetico do regato limpido que se deslisava alli, na sombra e em meio do frescor, do perfume e das bellezas, emanadas da propria região, e nascidas do seio da propria natureza, exclamou: que rio bonito!!”. Decorrido algum tempo, no empreendimento de uma nova caçada, um dos membros do grupo perguntou que direção tomariam naquele dia: “para o rio bonito – respondeu outro companheiro. E as caçadas, que se succediam, para esses homens eram o mais bello passatempo, e sempre preferidas para o Bonito, pois que, desde logo, a abreviatura, no modo de fallar, supprimiu o nome rio”. Com o correr dos anos o lugar, que era farto em animais, possuía água em abundância e terras muito apropriadas para plantações, atraiu muitos desses caçadores, que começaram a erguer moradias na localidade, promovendo o seu povoamento.
     
                      


A fundação de Bonito, ainda segundo Sebastião de Vasconcellos Galvão, ocorreu de 1796 a 1978. Em 1812 foi concluída a construção de uma capela dedicada à Nossa Senhora da Conceição – erguida numa parte elevada do terreno, posteriormente transformada na igreja matriz do município -; e apenas quatro anos depois – certamente impulsionada pela presença da edificação eclesiástica -, a povoação já era consideravelmente grande.



Um pitoresco vendedor de galinhas. O nome dessa espécie de cesto é garajau





Movimento na Av. Dr. Alberto de Oliveira



A comarca foi criada pela Resolução da Presidência, em Conselho de 20 de maio de 1833, tendo sido nomeado o Dr. Antônio Batista Gitirana como seu primeiro Juiz de Direito. Cinco anos depois ela foi suprimida pela Lei provincial nº 58, de 19 de abril de 1838, que incorporou seu termo à comarca de Santo Antão (atual Vitória de Santo Antão). A Lei provincial nº 65, de 12 de abril de 1839, criou-a vila e paróquia, sendo seu primeiro vigário o Padre Manuel de Melo Falcão Menezes. Com a Lei provincial nº 86, de maio de 1840, a comarca foi restaurada; mas ela tornou a ser suprimida, agora pela Lei provincial nº 212, de 16 de agosto de 1848, que transferiu a sede para a comarca de Caruaru, ficando Bonito sede de um dos dois municípios em que foi dividida a comarca; três anos depois ela foi restaurada pela Lei provincial nº 277, de 6 de maio de 1851, tornando-se sede da comarca pela de nº 720, de 20 de maior de 1867. por determinação dos Decretos números 687, de 1850, e 1539, de 3 de novembro de 1872, foi classificada comarca de 1ª entrância.


O casario antigo da cidade




De acordo com a Lei nº 52 (Organização dos Municípios) constituiu-se município autônomo em 16 de janeiro de 1893. E foi elevada à cidade pela Lei estadual nº 130, de 3 de junho de 1895. Na divisão administrativa de 1911, o município figura com cinco distritos: Bonito, Barra, Ilha das Flores, Bentevi e Capoeiras; enquanto nos quadros de apuração do Recenseamento Geral de 1º de setembro de 1920 aparece com esta configuração: Bonito, Barra, Ilha das Flores, Manuel Borba, Belém de Maria e são Joaquim.


Bela residência encontrada na zona rural




Na divisão administrativa do Brasil correspondente ao ano de 1933, publicada no Boletim do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, e os quadros de divisão territorial datados de 31 de dezembro de 1936 e de 31 de dezembro de 1937, o município apresenta-se composto por quatro distritos: Bonito, Barra de São João, Alto Bonito e Ilha das Flores, configuração essa que é mantida no quadro anexo ao Decreto-lei estadual nº 92, de 31 de março de 1938. Mas ainda nesse mesmo ano, por efeito do Decreto-lei nº 235, de 9 de dezembro, Bonito adquiriu do município de Palmares o distrito de Bentevi, desfalcado de parte do seu território, e perdeu para o de Cortês, do município de Amaraji, o território do extinto distrito de Ilha das Flores.


Cuidado: animais na pista







Durante o quinquênio 1939-1943, a divisão administrativa que vigorava era a que fora estabelecida pelo Decreto-lei nº 235; por ela Bonito apresentava, além do distrito sede, Bentevi, Itapecó (ex-Barra de São João) e Iuiteporã (ex-Alto Bonito). O Decreto-lei estadual nº 952, de 31 de dezembro de 1943, estabeleceu uma divisão territorial administrativo-judiciária que vigorou durante o quinquênio 1944-1948, Bonito aparecia composto pelo distrito sede e os de Bentevi, Guabiraba (ex-Itapecó) e Iuiteporã. Foi nesse quinquênio que o termo de São Joaquim passou a denominar-se Camaratuba (por efeito do Decreto-lei estadual nº 1.116, de 14 de fevereiro de 1945, a comarca de Bonito perdeu o termo de Carmaratuba [ex-São Joaquim], desmembrado para constituir a nova comarca de Camaratuba, posteriormente, São Joaquim do Monte).




Pelo adiantado da hora em que eu e o fotógrafo Ernani Neves deixamos Camocim de São Félix, cheguei à cidade de Bonito mais faminto do que um leão do Circo Vostok. Assim, nossa primeira providência na “terra das cachoeiras” foi procurar um lugar para almoçar; e acabamos comendo no simples e bom Zuca’s Restaurante.









De barriga cheia – de bucho cheio, como é comum dizer no Nordeste -, começamos a explorar de fato o território enladeirado do espaço urbano da cidade de Bonito.



Praça de São Sebastião com a igreja de mesmo nome ao fundo







Portal da cidade

Alegrou-me ver logo na entrada do município, bem próximo ao vistoso portal – e ao lado do terminal rodoviário -, um posto de informações turísticas, uma evidência de que a Municipalidade reconhece a vocação do lugar para o turismo. Fomos até ele e pegamos alguns folders.






Atravessamos a Av. Dr. Alberto de Oliveira, que concentra grande parte dos principais estabelecimentos comerciais. É nela que se encontra um antigo mercado público que, à época de nossa visita, estava sendo reformado para abrigar um muito bem-vindo centro cultural.


Antiga cadeia pública que foi transformada em biblioteca comunitária



As senhorinhas Cecília Maria e Maria do Carmo fazendo fuxico




Na Rua Esmeraldino Bandeira nos deparamos com duas senhoras, Cecília Maria e Maria do Carmo, sentadas na calçada da biblioteca comunitária – instalada no antigo prédio da cadeia pública – fazendo fuxico: não, leitor, fuxico aqui não é mexerico e intriga; trata-se de um trabalho manual feito com retalhos de tecido: faz-se pequenas e/ou grandes rodinhas franzidas que, unidas, podem dar corpo a uma infinidade de peças como roupas e bolsas e tudo o mais que a imaginação conceber. Muito simpáticas aquelas senhorinhas.














Percorremos a cidade em busca de seus prédios antigos. Chegar à Igreja de Nossa Senhora da Conceição, que é a padroeira do município, caminhando é, como diriam os católicos, pagar uma promessa, porque o terreno é íngreme. Na rua que leva à matriz são inúmeras as residências que apresentam fachadas que remontam a um passado distante, sugerindo que aquele sítio é a porção mais antiga em termos de formação urbana de Bonito.







Coluna de São Pedro



















Também fomos conhecer a Igreja de São Sebastião, a Coluna de São Pedro, o prédio-sede do executivo municipal e o vistoso sobrado que está inserido no espaço com vistas para a Praça de São Sebastião.













Bonito é nacionalmente conhecido como um lugar de clima agradável que abriga várias cachoeiras; um lugar onde a natureza impõe-se majestosa e fica o tempo todo a nos lembrar que preservação pode muito bem ser conciliada com diversão.




Embora os folders de propaganda turística distribuídos na cidade não informem, todas as cachoeiras estão localizadas em propriedades privadas que cobram, em média, R$ 3,00 por pessoa pelo acesso. Ainda no primeiro dia de estada na cidade, fomos conhecer a que é chamada de Véu de Noiva II. Ficar debaixo de uma queda d’água provoca uma sensação indescritível. Dá vontade de permanecer horas ali. Muito, muito prazeroso.


O pôr de sol deslumbrante


CIDADE DE BONITO
Capela de Monte Serrat

















Corremos a tempo de subirmos o terreno bastante elevado – motoristas: prestem muita atenção durante todo o trajeto! – onde foi erguida a Capela de Monte Serrat – lamentável o fato de vândalos riscarem as paredes e as portas da capelinha; também é de se lamentar a instalação de antenas ao lado da construção religiosa -, de onde se avista toda a parte urbanizada de Bonito e um pôr do sol deslumbrante. Além disso, a cerração, o vento frio do fim de tarde e a vastidão de terra que os olhos alcançam intensificam o encantamento.

Na noite daquele sábado de princípio de março encontramos um lugarzinho aconchegante para jantar: o Bonito Grill.




Acordamos cedo no domingo porque queríamos aproveitar ao máximo o circuito das águas. Fechamos nossa conta no Hotel Casa Grande. E pegamos a estrada.


CIDADE DE BONITO PE
A majestosa Pedra do Rodeador





Quando resolvemos percorrer o sopé da famosa Pedra do Rodeador – foi nesse lugar que, a partir de 1819, começou a se estabelecer um arraial de casas cobertas de palha ocupadas por seguidores de um sujeito chamado Silvestre que, segundo a narrativa do Comendador Francisco Benício das Chagas recolhida por Sebastião de Vasconcellos Galvão, arregimentara a pobre gente anunciando que em tempo oportuno uma santa iria lhes falar “indicando o bom caminho que o povo devia seguir”. Ainda durante a administração do governador da província Luiz do Rego Barreto, o arraial da Pedra Redonda foi destruído a ferro e fogo em plena madrugada, tendo boa parte de seus moradores morrido queimada, porque a tropa comandada pelo Ten-Cel. Madureira incendiou as habitações do arraial. Recordando o episódio, Dom Pedro I, em seu manifesto aos brasileiros, assim se exprimiu, ainda de acordo com Galvão: “Pernambucanos, lembrai-vos das fogueiras do Bonito” – demos de cara, em meio à paisagem rural, com um horrendo lixão, que foi uma das notas lamentáveis da viagem, assim como a constatação do estado de completo abandono em que se encontra o estádio de futebol da cidade e a ausência – pelo menos nas que visitamos – de placas alertando aos turistas e demais visitantes da necessidade de preservar os arredores dos cursos d’água, porque muitos deles levam comidas e bebidas e emporcalham tudo.














Rapel na Cachoeira Véu de Noiva




Eu descendo depois de me refrescar na queda d'água


Caro leitor, banhar-me na cachoeira Véu de Noiva foi, para mim, o ponto alto da exploração do território bonitense. Poucas vezes eu gozei de tanta paz na minha vida como quando eu fechei os olhos, me encostei no paredão rochoso e deixei aquela água fria e calmante cobrir por inteiro o meu corpo demoradamente. Que sensação maravilhosa!


Aqui eu estou aproveitando a Cachoeira Véu de Noiva II

Almoçamos no pequeno restaurante que existe na propriedade na qual aquela queda d’água está inserida.






                                                                






Cachoeira Paraíso



Saindo dali pegamos novamente a estrada de barro – as plantações de inhame nas encostas chamam a atenção pela uniformidade e pela presença em comunhão com a vegetação nativa -, agora para chegarmos à Cachoeira Paraíso, que também é muito bonita. (O leitor pode estranhar o pequeno volume d’água que aparece nas fotos que fizemos. Isso se deve à  severa estiagem que atingiu grande parte do estado de Pernambuco do ano passado para cá. Quando o regime de chuvas está regular as cachoeiras ficam bem mais volumosas.)


Ernani Neves aproveitando o bom do lugar



Cadê a consciência ambiental pessoal?






Aquele lá longe sou eu






Quem olhasse para a minha face no momento em que o carro tomava o caminho de volta para casa, certamente veria nela estampada aquela alegria dos rostos corados dos meninos dos desenhos de Norman Rockwell ou o riso inocente que o ilustrador Renato Silva imprimiu aos moleques do livro Cazuza, do Viriato Corrêa. Como é revigorante e boa a fadiga resultante do prazer!                                                                                                                                                                                                                                                        

7 comentários:

  1. Muito importante saber de nossa cultura e a diversidade de tantos fatos e episódio com uma visão poética formidável. Parabéns ao historiador e ao excelente fotógrafo Ernani Neves. Todos deveriam acompanhar.

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  2. Li no Livro Historia de lutas do povo brasileiro....na orelha do livro...o Autor Jose Barboza Mello natural de Bonito PE...fala que muito escalou Pedra do Rodeador.... e 1817 Bonito foi reduto da resistencia dos republicanos ....lutas...

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  3. Que linda matéria, amo minha cidade! <3 Parabéns!!

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  4. E meu sonhO conhecer BONITO OU ALTO BONITO TB MORAR

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  5. Tenho antepassados que moravam em Bonito/bem te vi em meados do século dezoito em diante tem algum historiador que possa me passar informações meu email luciab2008@hotmail .com,agradeço

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  6. hoje tem um teleférico com uma vista maravilhosa....

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  7. Tenho família em Bonito mas desconhecia esses lugares muito lindo

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