Por Sierra

Foto: Arquivo do Autor
Talvez esteja faltando algum tipo de acompanhamento para os profissionais que se dedicam a cuidar de pessoas
Não, eu não vou falar aqui das ações
criminosas protagonizadas por três técnicos em enfermagem no Hospital Anchieta,
em Taguatinga, no Distrito Federal, que foram presos dias atrás. A pauta deste
artigo de hoje é sobre algo também absurdo, um tipo de comportamento deveras
reprovável de alguns desses profissionais, que eu já flagrei em várias
ocasiões.
Como eu até hoje não aprendi a conduzir
nem velocípede - eu não tenho habilidades com máquinas, essa é que é a verdade
-, eu recorro muitíssimo a ônibus, táxis-lotação e afins para me deslocar. E
uma das coisas que, inevitavelmente, eu ouço frequentemente nos coletivos, quando
não estou concentrado na leitura de um livro ou do noticiário da internet, é
conversa alheia; e, nessas conversas, costuma sair quase de tudo: traições,
brigas conjugais, discussões com vizinhos, apertos financeiros, perrengues com
os filhos, a bebedeira do fim de semana, insatisfação com o trabalho, paqueras,
roupas novas, viagens que se vai fazer, o aniversário de fulano, as compras no
supermercado, o capítulo da novela, etc., etc.
Certa feita - e, que eu recorde, esse foi
o primeiro flagrante de um mau comportamento em público de técnicos em
enfermagem -, voltando de manhã do trabalho, eu ouvi - e ouvi sentindo um misto
de constrangimento e raiva - três desses profissionais falando intimidades de
seus pacientes em alto e bom som para quem quisesse ouvir, como se isso fosse
uma conversa, digamos, comum e, para elas - sim, eram três mulheres -, algo que
pudesse ser dito, falado e exposto assim, às escancaras, com a maior
naturalidade do mundo. Elas comentavam até comportamentos e diziam das partes
íntimas dos pacientes que elas cuidavam. E riam. E debochavam. E tripudiavam da
situação deles. Um horror, um verdadeiro horror.
Enquanto eu ouvia aquelas falas venenosas
e moral e eticamente tão abjetas e reprováveis, duas questões de imediato me
chegaram: 1ª) será que no currículo do curso dessas técnicas em enfermagem não
houve uma disciplina em que foi tratada a indispensável e extremamente necessária
ética profissional?; 2ª) será que essas criaturas não estão se dando conta de
que aqui, dentro desse coletivo, podem estar pessoas que sejam parentes, amigos
e/ou conhecidos dos pacientes delas?
Eu já senti - e imagino que você também,
leitor -, ao longo de minha vida, em consultas médicas, alguma vergonha para
até mesmo falar sobre certos assuntos bem como para mostrar partes íntimas do
meu corpo a tais profissionais. E isso acontece porque é normal que nós
sintamos algum pudor. Eu conheço mulheres, por exemplo, que só admitem ser
consultadas por ginecologistas mulheres; e, no caso de só puderem ser atendidas
por ginecologistas homens, elas só entram na sala de consulta com seus maridos
ou companheiros. Agora, você imagine ter suas intimidades físicas e
psicológicas expostas em praça pública para quem quiser ouvi-las.
Àquele primeiro flagrante se seguiram
outros. E o mais recente ocorreu anteontem, à noite, enquanto eu voltava para
casa. Cheia de si e como se fosse a dona da razão, uma técnica em enfermagem,
que aparentava ter uns quarenta e poucos anos de idade, contava para um seu conhecido
partes do que se passava entre ela, o paciente e parentes dele, que viviam com
ele na casa. A técnica estava indo para o trabalho, que era um serviço de home care. Algumas das falas dela eu até
gravei na memória inteiramente: "Se eles não estão satisfeitos com o meu
serviço, liguem pra cooperativa e reclamem, peçam substituição. Hoje eu tô tão
boazinha. Se ela me dizer uma, vai ouvir dez". E seguiu nessa toada
durante quase toda a viagem, revelando não só insatisfação para com o serviço
e/ou com o tal paciente, bem como uma falta de preparo para lidar com os
aspectos éticos e morais da profissão dela.
Aproveitando o ensejo, eu preciso
registrar aqui outra fala dela que, a meu ver, diz muito sobre o que ela fez no
ônibus; talvez seja exatamente isso: está faltando algum tipo de acompanhamento
para esses profissionais, a fim de que eles evitem protagonizar essas cenas
lamentáveis que eu já flagrei. Ela disse assim: "Se ela acha que sabe mais
do que eu, fique no meu lugar e não dando pitaco. Eu sou profissional. Eu me
preparei muito pra fazer o que eu faço. Eu sei fazer o que faço. Eu passei boa
parte da minha vida cuidando de gente, mas só tenho eu pra cuidar de mim".
Os casos de assassinatos, ocorridos no
Hospital Anchieta e protagonizados por técnicos em enfermagem, são exemplos
extremos levados a cabo por alguns desses profissionais que não têm qualquer
empatia para com o sofrimento alheio e que verdadeira e intimamente não sabem
conjugar o verbo cuidar; e essa falta de empatia se revela de muitas maneiras,
inclusive, no que se refere ao cuidado e ao respeito a tudo que se relacione
com os pacientes, principalmente com o bem-estar e com a dignidade deles.
Insatisfações pessoais com o trabalho ou com o que quer que seja não podem ser
usadas como justificativas para maltratar, desrespeitar, humilhar, expor
intimidades e ofender a honra seja de quem for e, muito menos, daqueles que se
encontram doentes, fragilizados e indefesos nos leitos de hospitais ou na
privacidade de suas casas.
Eu compreendo que cuidar de um paciente vai muito além de trocar uma sonda, dar um banho e ministrar um medicamento a ele. Cuidar de um enfermo, meus caros, é um profundo princípio de humanidade.
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