Por Sierra
As minhas lembranças mais antigas dos dias de Carnaval remontam à minha infância na cidade onde eu nasci, Abreu e Lima, que fica na Região Metropolitana do Recife.
Eu tinha algum medo dos caboclos de lança que, solitários, vez por outra
passavam pelas ruas; para mim eles tinham qualquer coisa do Papa-figo e do
Homem do Saco que uns e outros diziam que levavam embora crianças
desobedientes.
Outras duas figuras carnavalescas do meu tempo de menino eram as
catirinas, homens que vestiam roupas femininas e que pintavam a cara com
carvão; e as ala ursas, que eram indivíduos que punham fantasias de ursos -
geralmente trajes brancos, como se fossem ursos polares; e urso tinha e até
hoje tem o significado de homem que se relaciona com mulheres comprometidas - e
saíam acompanhados por alguns batuqueiros parando em portas de residências e
estabelecimentos comerciais tocando e cantando uma música que dizia "Ala
ursa quer dinheiro, quem não dá é pirangueiro".
Outras recordações que me chegam é que brincávamos nas ruas. Alguns
garotos faziam as chamadas bombas d'água ou lanças de água com cano de PVC,
cabo de vassoura e solado de sandálias Havaianas: como se fossem grandes
seringas, essas bombas sugavam água e serviam para molhar foliões ou quaisquer
passantes - o maior receio de muitos era de que a água fosse suja ou que os
garotos pegassem xixi.
Por essa época uns e outros metiam talco na cabeça alheia, que era um
típico mela-mela. E Mainha, durante o tempo em que trabalhou numa fábrica de
embalagens de papel chamada Sumol, lá em Olinda, comprava para mim a camiseta
do Bloco Zebra de Olinda.
Não sei como era o Carnaval do meu tempo de criança no centro de Abreu e
Lima, porque eu não ia para lá durante o reinado de Momo; mas eu ouvia dizer
que ocorriam bailes no hoje inexistente Clube Vera Cruz, na Praça Antônio
Vitalino.
Foi já adolescente que, acompanhando filhos dos meus padrinhos, eu
conheci o Galo da Madrugada e o agito do Carnaval no sítio histórico de Olinda.
E foi ainda em minha adolescência que eu, por essa época residindo na Rua São
Gonçalo, no bairro Caetés Velho, passei a ver de perto uma escola de samba: era
o Grêmio Recreativo Escola de Samba Império do Bento, cuja sede, que também era
a residência do casal Bentinho e Márcia, ficava naquela rua: os ensaios
aconteciam aos domingos; e aquilo enchia os meus olhos e os meus ouvidos de
modo muito envolvente e encantador.
Não me recordo quando foi que, estando eu já adulto, comecei a
acompanhar os festejos de Momo indo tanto para o Recife como para Olinda,
geralmente sozinho. O que é bem nítido na minha cabeça é o início do meu
questionamento quanto ao adestramento progressivo dos foliões a partir,
principalmente, da segunda metade da década de 1990, quando eu passei a
acompanhar as transformações que foram ocorrendo no Carnaval do Recife, logo
denominado pela Municipalidade de "multicultural", que consistia -
como o é até hoje - em montar palcos em vários bairros da cidade e escalar
artistas locais e nacionais, das mais diversas manifestações culturais, para se
apresentarem neles.
Ou seja, paulatinamente a espontaneidade de quem saía para brincar o
Carnaval acompanhando uma troça ou um bloco que passava, essa coisa boa danada da
itinerância que, para mim, é a essência dessa folia, foi sequestrada e como que
reprimida pelas Prefeituras Municipais - o exemplo de organização do
Carnaval do Recife foi replicado por inúmeras cidades, inclusive, por Olinda
que, em que pese a montagem de palcos num ponto e noutro, ainda conserva o
vuco-vuco e o sobe e desce ladeira com blocos e troças que são acompanhados por
milhares de pessoas.
E o adestramento do folião foi tal que muitos deles saem para brincar o
Carnaval postados diante de um palco; ele deixou de ser folião para ser espectador;
e, por vezes, ele vai acompanhar apresentações de artistas que não têm
absolutamente nada a ver com a folia.
Remonta há várias décadas a curtição do Carnaval em clubes exclusivos,
frequentados, principalmente, por gente endinheirada que, mesmo gostando muito
dos festejos de Momo, não queria se misturar com o povão. Com o transcorrer do
tempo, em paralelo com o adestramento do folião, que deixou de sair às ruas
para acompanhar blocos e troças ou mesmo ficar se divertindo nas calçadas vendo
a banda passar e passou a ficar embasbacado diante de um palco, festas
exclusivas em espaços fechados e que custam os olhos da cara porque, para além
das atrações musicais, oferecem uma infinidade de "mimos" como open
bar, massagem, maquiagem e etc., começaram a proliferar também demarcando
territórios no espaço da folia.
Seja como for, ainda tem muito folião que continua apegado a um Carnaval que é curtido e reverenciado no calor do vai-e-vem das ruas mesmo que ele também tome parte na festa que é montada diante de um palco.

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