14 de fevereiro de 2026

O folião adestrado

Por Sierra

 

Fotos: Arquivo do Autor
No dia 13 de fevereiro saiu, na Ilha de Itamaracá, onde eu moro, esse Bloco da Educação. A festa do folião que sai às ruas para curtir está acabando em vários lugares. Armam-se palcos e convoca-se os foliões para ficarem na frente deles


As minhas lembranças mais antigas dos dias de Carnaval remontam à minha infância na cidade onde eu nasci, Abreu e Lima, que fica na Região Metropolitana do Recife.

Eu tinha algum medo dos caboclos de lança que, solitários, vez por outra passavam pelas ruas; para mim eles tinham qualquer coisa do Papa-figo e do Homem do Saco que uns e outros diziam que levavam embora crianças desobedientes.




Outras duas figuras carnavalescas do meu tempo de menino eram as catirinas, homens que vestiam roupas femininas e que pintavam a cara com carvão; e as ala ursas, que eram indivíduos que punham fantasias de ursos - geralmente trajes brancos, como se fossem ursos polares; e urso tinha e até hoje tem o significado de homem que se relaciona com mulheres comprometidas - e saíam acompanhados por alguns batuqueiros parando em portas de residências e estabelecimentos comerciais tocando e cantando uma música que dizia "Ala ursa quer dinheiro, quem não dá é pirangueiro".



Outras recordações que me chegam é que brincávamos nas ruas. Alguns garotos faziam as chamadas bombas d'água ou lanças de água com cano de PVC, cabo de vassoura e solado de sandálias Havaianas: como se fossem grandes seringas, essas bombas sugavam água e serviam para molhar foliões ou quaisquer passantes - o maior receio de muitos era de que a água fosse suja ou que os garotos pegassem xixi.



Por essa época uns e outros metiam talco na cabeça alheia, que era um típico mela-mela. E Mainha, durante o tempo em que trabalhou numa fábrica de embalagens de papel chamada Sumol, lá em Olinda, comprava para mim a camiseta do Bloco Zebra de Olinda.

Não sei como era o Carnaval do meu tempo de criança no centro de Abreu e Lima, porque eu não ia para lá durante o reinado de Momo; mas eu ouvia dizer que ocorriam bailes no hoje inexistente Clube Vera Cruz, na Praça Antônio Vitalino.

Foi já adolescente que, acompanhando filhos dos meus padrinhos, eu conheci o Galo da Madrugada e o agito do Carnaval no sítio histórico de Olinda. E foi ainda em minha adolescência que eu, por essa época residindo na Rua São Gonçalo, no bairro Caetés Velho, passei a ver de perto uma escola de samba: era o Grêmio Recreativo Escola de Samba Império do Bento, cuja sede, que também era a residência do casal Bentinho e Márcia, ficava naquela rua: os ensaios aconteciam aos domingos; e aquilo enchia os meus olhos e os meus ouvidos de modo muito envolvente e encantador.



Não me recordo quando foi que, estando eu já adulto, comecei a acompanhar os festejos de Momo indo tanto para o Recife como para Olinda, geralmente sozinho. O que é bem nítido na minha cabeça é o início do meu questionamento quanto ao adestramento progressivo dos foliões a partir, principalmente, da segunda metade da década de 1990, quando eu passei a acompanhar as transformações que foram ocorrendo no Carnaval do Recife, logo denominado pela Municipalidade de "multicultural", que consistia - como o é até hoje - em montar palcos em vários bairros da cidade e escalar artistas locais e nacionais, das mais diversas manifestações culturais, para se apresentarem neles.

Ou seja, paulatinamente a espontaneidade de quem saía para brincar o Carnaval acompanhando uma troça ou um bloco que passava, essa coisa boa danada da itinerância que, para mim, é a essência dessa folia, foi sequestrada e como que reprimida pelas Prefeituras Municipais  - o exemplo de organização do Carnaval do Recife foi replicado por inúmeras cidades, inclusive, por Olinda que, em que pese a montagem de palcos num ponto e noutro, ainda conserva o vuco-vuco e o sobe e desce ladeira com blocos e troças que são acompanhados por milhares de pessoas.

E o adestramento do folião foi tal que muitos deles saem para brincar o Carnaval postados diante de um palco; ele deixou de ser folião para ser espectador; e, por vezes, ele vai acompanhar apresentações de artistas que não têm absolutamente nada a ver com a folia.








Remonta há várias décadas a curtição do Carnaval em clubes exclusivos, frequentados, principalmente, por gente endinheirada que, mesmo gostando muito dos festejos de Momo, não queria se misturar com o povão. Com o transcorrer do tempo, em paralelo com o adestramento do folião, que deixou de sair às ruas para acompanhar blocos e troças ou mesmo ficar se divertindo nas calçadas vendo a banda passar e passou a ficar embasbacado diante de um palco, festas exclusivas em espaços fechados e que custam os olhos da cara porque, para além das atrações musicais, oferecem uma infinidade de "mimos" como open bar, massagem, maquiagem e etc., começaram a proliferar também demarcando territórios no espaço da folia.

Seja como for, ainda tem muito folião que continua apegado a um Carnaval que é curtido e reverenciado no calor do vai-e-vem das ruas mesmo que ele também tome parte na festa que é montada diante de um palco.

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