14 de março de 2026

As calçadas da resitência: mais um dia de intervenções artísticas e culturais na Avenida Guararapes

Por Sierra

  

Fotos: Arquivo do Autor
Componentes da paisagem cultural do centro do Recife, os sebos, que existem há décadas nas calçadas da Avenida Guararapes e no seu entorno, são sobreviventes de um tempo de mudanças tanto comportamentais como no que diz respeito ao consumo de produtos culturais e artísticos, bem como na própria dinâmica do lidar, buscar e vivenciar os espaços dos bairros centrais da capital pernambucana

 

Resistindo à ordem do discurso da Municipalidade

 

No domingo passado, Dia Internacional da Mulher, ocorreu a terceira edição deste ano da Edichão, um evento promovido pelo Coletivo Sebos do Capibaribe, que deixou de ser bimestral e passou a acontecer todo segundo domingo de cada mês, nas calçadas da Avenida Guararapes, no bairro de Santo Antônio, área central do Recife.

Inicialmente pensada para movimentar um espaço da cidade que, no decorrer dos últimos anos, foi sendo cada vez menos procurado pela população em virtude de uma série de fatores na qual entram mudanças na forma de consumir e de adquirir produtos - algo que o acontecimento da pandemia de covid-19 só dinamizou e acentuou -, a Edichão, iniciativa de sebistas que há décadas ocupam aquela área, foi gradativamente ganhando dimensão a partir do momento em que tanto quanto um acontecimento de geração de renda, ela passou a encampar, também, uma ação de resistência laboral, cultural e artística num meio urbano que exibe marcas de abandono, degradação e insegurança, algo que salta aos olhos principalmente pela quantidade de prédios abandonados nos arredores da Avenida Guararapes.


Há pessoas que frequentam os sebos do Recife há muito tempo, como é o meu caso; e há pessoas que começaram a descobrir esses points em decorrência de eventos como a Edichão e os saraus que Valmir Jordão promove na Rua da Roda









Sabe-se que há um grande projeto de gentrificação, anunciado pela gestão de João Campos, que a Prefeitura Municipal do Recife anseia pôr em prática na Avenida Guararapes e no seu entorno. Denominado de Distrito Guararapes, o tal empreendimento, segundo foi divulgado pela Municipalidade, incluirá, entre outras realizações, a transformação de algumas das edificações em moradias.

Quem tem um mínimo de conhecimento sobre processos de gentrificação sabe que, quase sempre, tais ações de requalificação urbana de áreas abandonadas e degradadas - e não podemos deixar de reconhecer que, no mais das vezes, esse abandono e essa degradação, não raro, são, também eles, propositais e planejados - costumam expulsar os mais humildes e/ou de baixa renda dos tais territórios, de modo que os espaços recuperados, revitalizados, refeitos e até transformados - vide o que fizeram no Cais José Estelita - comportem, de preferência, apenas uma parcela específica da população. Ou seja, a gentrificação normalmente opera numa orquestração de interesses econômicos que miram os mais bem postos da sociedade; e, sendo assim, essa "higienização" e esse "embelezamento" de certos espaços da cidade são revestidos de exclusão social pura e simples.


A variedade e os preços convidativos de obras que, não raro, estão desde há muito fora de catálogo, são alguns dos atrativos dos  sebos











Segundo a definição de Chris Hamnett, a gentrificação é, a um só tempo, um fenômeno econômico, social e cultural: "Ela implica não apenas uma mudança física do estoque de moradias na escala dos bairros; enfim, uma mudança econômica sobre os mercados fundiário e imobiliário" (Apud Catherine Bidou-Zachariasen. "Introdução". In Catherine Bidou-Zachariasen. De volta à cidade: dos processos de gentrificação às políticas de "revitalização" dos centros urbanos. Trad. Helena Menna Barreto Silva. São Paulo: Annablume, 2006, p. 23).

Na apresentação da obra citada, sua tradutora, que é urbanista, destacou que, no Brasil, o debate e a implementação de reabilitação de centros urbanos começou mais tarde do que em outros países; ela ressaltou também o seguinte (lembrando, leitor, que o livro foi lançado em nosso país em 2006):

O discurso atual da reabilitação mistura motivações e propostas diversas que incluem a requalificação (incluindo a recuperação do patrimônio, atração de novos tipos de atividades e moradores, melhoria ambiental, algumas vezes a "limpeza social"), o repovoamento (inclusive como contraponto à expansão urbana) e, mais recentemente, os projetos integrados que aproveitam grandes terrenos públicos junto às orlas marítimas ou fluviais [..] (Helena Menna Barreto. “Apresentação". In Catherine Bidou-Zachariasen. Op. cit., p. 13).










Sempre que posso, eu marco presença na Edichão, porque livros são para mim itens de minha cesta básica


Não faz muito tempo, ao implantar o projeto Viva Guararapes, um evento que reúne gastronomia, atividades culturais e esportivas, prestação de serviços e etc., evento esse integrante de algo maior, o chamado RECENTRO, um programa da Municipalidade que, segundo a descrição divulgada no site www.recentro.pe.gov.br, "prevê a manutenção, cuidado, intervenções físicas estruturantes e o desenvolvimento de processos sociais, culturais e econômicos necessários à transformação urbana sustentável e inclusiva do território do Centro", a Prefeitura Municipal do Recife, numa ação inteiramente desrespeitosa para com os sebistas que atuam há décadas nas calçadas da Avenida Guararapes, mandou que eles fossem retirados dali; e realocou-os para um trecho da Rua da Roda, fora do espaço de boxes ocupados há muito tempo por outros sebos. Se para realizar um evento que acontece sazonalmente a Municipalidade tratou de remover os sebistas dali - posteriormente eles puderam retornar à avenida -, imaginem o nível e o grau de exclusão social e comercial que o tal Distrito Guararapes estabelecerá quando começar a sair do papel.

(A propósito eu vou abrir um parêntese aqui para lhes contar o seguinte: no dia 3 de janeiro de 2024 o Marco Zero, um coletivo de jornalismo investigativo, publicou uma reportagem assinada por Jeniffer Oliveira que, em sua apuração dos fatos, ouviu dois conhecidos sebistas da Avenida Guararapes, Elizeu Espíndola e o veterano Oliveiros Souza - este é irmão de outro sebista, José Ítalo - e nos apresentou uma versão do ocorrido. Elizeu Espíndola, o fundador do Seborreia Recife que, em agosto de 2023, em plena Avenida Rio Branco, no Bairro do Recife, onde ocorria a 20ª edição do festival A Letra e a Voz, promovido pela Municipalidade, teve livros, que estavam expostos e à venda no chão da rua, apreendidos por fiscais da Secretaria de Controle Urbano escoltados por agentes da Guarda Municipal, disse assim àquela jornalista: "A prefeitura decidiu por inviabilizar a feira [nos dias do Viva Guararapes], quem chega aqui nem sabe que existe esse evento há 50 anos. É uma grande crítica que eu tenho sobre a maneira como essa gente tem gerido a cidade [Jeniffer Oliveira. "Seborreia, Seu Souza e a resistência dos livreiros de rua no centro do Recife". In https://marcozero.org/seborreia-seu-souza-e-a-resistencia-dos-livreiros-de-rua-no-centro-do-recife/. Acessado em 10 de março de 2026.)






Está à procura de discos de vinil, cd's, dvd's e blu-rays? Apareça e procure Elvis Rossi




Dito isso, a Edichão, inevitavelmente, adquiriu, também, um cunho e um status de resistência à ordem do discurso excludente oriunda da Municipalidade. O propósito do Coletivo Sebos do Capibaribe, ao realizar essa intervenção artística e cultural que extrapola o universo dos livros e dos sebistas que vendem cd's, dvd's e discos de vinil e abre espaço para artistas plásticos, cartofilistas, filatelistas, numismatas, atores e atrizes, cantores e cantoras que fazem apresentações, performam e comercializam e divulgam o que eles criam e produzem, é o de ser ele um grupo que se coloca como porta-voz daqueles que, de segunda à sexta-feira, ocupam parte das calçadas da Avenida Guararapes com livros, revistas, cd's, dvd's e discos de vinil movimentando um comércio que tem seu público cativo e que é um ganha-pão para eles. A ideia é que o grupo possa levar à Municipalidade o reconhecimento da existência dos sebistas naquele local bem como lutar para que o planejado projeto de gentrificação denominado Distrito Guararapes não os remova dali.

 

José Rorigues - com uma camiseta estampada com a figura do poeta Ascenso Ferreira - e o artista plástico Isac Vieira


Com Nerivaldo Guedes


Da esquerda para a direita: José Rodrigues, Glauco, Fernando Duarte e Elizeu Espíndola


Canário do Império trocando figurinhas com Fátima Soares



Com Geraldo José



O casal Fabiana Maria e Paulo Rogério



Com José Ítalo


Uma manhã festivamente movimentada

 

Agora vamos falar do evento em si, ocorrido, como eu disse no domingo passado.

Como de hábito, eu cheguei para prestigiar a Edichão logo cedo, porque, entre outros motivos, eu gosto de ver as coisas e os cenários sendo montados e organizados.

É claro que eu fiz umas comprinhas, porque isso é de lei; e também troquei figurinhas com personagens que eu já conhecia e com uns e outros que apareceram por lá para ajudar a fazer a coisa acontecer.

Foi Fátima Soares, sebista e poeta que integra o Coletivo Sebos do Capibaribe, quem abriu os trabalhos no microfone celebrando o Dia Internacional da Mulher e destacando a realização de mais uma edição da Edichão. A partir daí, em meio à exposição de cartões-postais da enorme coleção de Hélio Moura Filho, de uma mostra de livros escritos por mulheres feita por José Rodrigues e dos itens postos à venda por José Ítalo, Elizeu Espíndola, Severino Alves (o Ramos), Paulo Rogério e sua esposa Fabiana Maria, Nerivaldo Guedes, Luiz Carlos, Geraldo José e Elvis Rossi, a manhã foi passando por ali repleta de apresentações e acontecências protagonizadas por indivíduos acertadamente chamados por Elizeu Espíndola de "agentes culturais do asfalto".


Fátima Soares dando o seu recado




Da esquerda para a direita: Jessi, Fátima Soares e Valda Ribeiro


Valda Ribeiro, professora aposentada e modista de mão cheia, fez um discurso contundente e necessário: não me esqueci desta parte de sua fala: "Não adianta dar flores hoje e um soco amanhã", disse ela.


Valda Ribeiro não só sabe costurar, não, visse? Ela também sabe fazer bom uso das palavras. Que danada!



Jessi e o Grupo Abayomi mostraram do que eram capazes: cantaram e tocaram que foi uma beleza.



Jessi e o Grupo Abayomi mostraram um pouco da sintonia muito massa que eles têm
 







Ceci Medeiros. Que delicadeza! Que simplicidade! E que talento!


Leitora concentrada, Ceci Medeiros deixou um pouco os livros de lado para soltar a voz e tocar com maestria um violão




Como se fosse uma força indomada, a multiartista Daniela Câmara fez uma apresentação que foi um monólogo de protesto contra as violências que diariamente marcam a vida das mulheres.



Daniela Câmara é uma verdadeira usina de talentos. Menina, que coisa espantosa. Você é demais!






Canário do Império, senhor admirável dos ofícios que exerce, mais uma vez soltou a voz e encantou a plateia com seu violão.


Apoiador de primeira hora do Coletivo Sebos do Capibaribe, o talentoso Canário do Imperio novamente compareceu para abrilhantar mais uma edição da Edichão





Passando por ali, um maranhense dos bons chamado Felipe Puxirum pediu licença e também se apresentou com canto e declamação para todos que foram prestigiar aquele acontecimento, como o psicólogo Lúcio Brito, filho do incensado poeta Alberto da Cunha Melo.


Felipe Puxirum, obrigado por ter mostrado um pouco do seu talento para todos que foram prestigiar a Edichão. Apareça sempre que puder





Lúcio Brito, uma das caras novas que apareceram para engrossar o cordão da resistência. Bem-vindo, camarada!




Nós ainda tivemos a satisfação de receber no evento organizado pelo Coletivo Sebos do Capibaribe figuras bastante expressivas das artes plásticas pernambucanas, como Fernando Duarte e Isac Vieira. Que coisa boa tê-los ali engrossando o cordão da resistência!

A terceira edição deste ano da Edichão mostrou, mais uma vez, que uma cidade viva e socialmente inclusiva é uma cidade que também mantém a arte e a cultura em seu alicerces e em suas rotas de futuro.







Nesta e na foto seguinte, José Rodrigues organizando a mostra só com livros escritos por mulheres







Filatelista e cartofilista, Hélio Moura Filho expôs nesta Edichão dedicada ao Dia Internacional das Mulheres, cartões-postais onde só elas apareciam nas estampas






No mês que vem nós estaremos lá de novo, porque reivindicar, criticar e resistir também estão no nosso DNA.

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