Por
Sierra
Resistindo à ordem do discurso da Municipalidade
No domingo passado, Dia Internacional da Mulher,
ocorreu a terceira edição deste ano da Edichão, um evento promovido
pelo Coletivo Sebos do Capibaribe, que deixou de ser bimestral e passou a
acontecer todo segundo domingo de cada mês, nas calçadas da Avenida Guararapes,
no bairro de Santo Antônio, área central do Recife.
Inicialmente pensada para movimentar um espaço da
cidade que, no decorrer dos últimos anos, foi sendo cada vez menos procurado
pela população em virtude de uma série de fatores na qual entram mudanças na
forma de consumir e de adquirir produtos - algo que o acontecimento da pandemia
de covid-19 só dinamizou e acentuou -, a Edichão, iniciativa de
sebistas que há décadas ocupam aquela área, foi gradativamente ganhando
dimensão a partir do momento em que tanto quanto um acontecimento de geração de
renda, ela passou a encampar, também, uma ação de resistência laboral, cultural
e artística num meio urbano que exibe marcas de abandono, degradação e
insegurança, algo que salta aos olhos principalmente pela quantidade de prédios
abandonados nos arredores da Avenida Guararapes.
Sabe-se que há um grande projeto de gentrificação,
anunciado pela gestão de João Campos, que a Prefeitura Municipal do Recife
anseia pôr em prática na Avenida Guararapes e no seu entorno. Denominado
de Distrito Guararapes, o tal empreendimento, segundo foi divulgado
pela Municipalidade, incluirá, entre outras realizações, a transformação de
algumas das edificações em moradias.
Quem tem um mínimo de conhecimento sobre processos de
gentrificação sabe que, quase sempre, tais ações de requalificação urbana de
áreas abandonadas e degradadas - e não podemos deixar de reconhecer que, no
mais das vezes, esse abandono e essa degradação, não raro, são, também eles,
propositais e planejados - costumam expulsar os mais humildes e/ou de baixa
renda dos tais territórios, de modo que os espaços recuperados, revitalizados,
refeitos e até transformados - vide o que fizeram no Cais José Estelita -
comportem, de preferência, apenas uma parcela específica da população. Ou seja,
a gentrificação normalmente opera numa orquestração de interesses econômicos
que miram os mais bem postos da sociedade; e, sendo assim, essa
"higienização" e esse "embelezamento" de certos espaços da
cidade são revestidos de exclusão social pura e simples.
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| A variedade e os preços convidativos de obras que, não raro, estão desde há muito fora de catálogo, são alguns dos atrativos dos sebos |
Segundo a definição de Chris Hamnett, a gentrificação
é, a um só tempo, um fenômeno econômico, social e cultural: "Ela implica
não apenas uma mudança física do estoque de moradias na escala dos bairros;
enfim, uma mudança econômica sobre os mercados fundiário e imobiliário"
(Apud Catherine Bidou-Zachariasen. "Introdução". In Catherine Bidou-Zachariasen. De
volta à cidade: dos processos de gentrificação às políticas de
"revitalização" dos centros urbanos. Trad. Helena Menna Barreto
Silva. São Paulo: Annablume, 2006, p. 23).
Na apresentação da obra citada, sua tradutora, que é
urbanista, destacou que, no Brasil, o debate e a implementação de reabilitação
de centros urbanos começou mais tarde do que em outros países; ela ressaltou também
o seguinte (lembrando, leitor, que o livro foi lançado em nosso país em 2006):
O discurso atual da reabilitação mistura motivações e
propostas diversas que incluem a requalificação (incluindo a recuperação do
patrimônio, atração de novos tipos de atividades e moradores, melhoria
ambiental, algumas vezes a "limpeza social"), o repovoamento
(inclusive como contraponto à expansão urbana) e, mais recentemente, os
projetos integrados que aproveitam grandes terrenos públicos junto às orlas
marítimas ou fluviais [..] (Helena
Menna Barreto. “Apresentação". In Catherine Bidou-Zachariasen. Op. cit.,
p. 13).
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| Sempre que posso, eu marco presença na Edichão, porque livros são para mim itens de minha cesta básica |
Não faz muito tempo, ao implantar o projeto Viva
Guararapes, um evento que reúne gastronomia, atividades culturais e
esportivas, prestação de serviços e etc., evento esse integrante de algo maior,
o chamado RECENTRO, um programa da Municipalidade que, segundo a
descrição divulgada no site www.recentro.pe.gov.br, "prevê a manutenção,
cuidado, intervenções físicas estruturantes e o desenvolvimento de processos
sociais, culturais e econômicos necessários à transformação urbana sustentável
e inclusiva do território do Centro", a Prefeitura Municipal do Recife,
numa ação inteiramente desrespeitosa para com os sebistas que atuam há décadas
nas calçadas da Avenida Guararapes, mandou que eles fossem retirados dali; e
realocou-os para um trecho da Rua da Roda, fora do espaço de boxes ocupados há
muito tempo por outros sebos. Se para realizar um evento que acontece sazonalmente
a Municipalidade tratou de remover os sebistas dali - posteriormente eles
puderam retornar à avenida -, imaginem o nível e o grau de exclusão social e
comercial que o tal Distrito Guararapes estabelecerá quando
começar a sair do papel.
(A propósito eu vou abrir um parêntese aqui para lhes
contar o seguinte: no dia 3 de janeiro de 2024 o Marco Zero, um
coletivo de jornalismo investigativo, publicou uma reportagem assinada por
Jeniffer Oliveira que, em sua apuração dos fatos, ouviu dois conhecidos
sebistas da Avenida Guararapes, Elizeu Espíndola e o veterano Oliveiros Souza -
este é irmão de outro sebista, José Ítalo - e nos apresentou uma versão do
ocorrido. Elizeu Espíndola, o fundador do Seborreia
Recife que, em agosto de 2023, em plena Avenida Rio Branco, no Bairro do
Recife, onde ocorria a 20ª edição do festival A Letra e a Voz,
promovido pela Municipalidade, teve livros, que estavam expostos e à venda no
chão da rua, apreendidos por fiscais da Secretaria de Controle Urbano
escoltados por agentes da Guarda Municipal, disse assim àquela jornalista:
"A prefeitura decidiu por inviabilizar a feira [nos dias do Viva
Guararapes], quem chega aqui nem sabe que existe esse evento há 50 anos. É uma
grande crítica que eu tenho sobre a maneira como essa gente tem gerido a cidade
[Jeniffer Oliveira. "Seborreia, Seu Souza e a resistência dos livreiros de
rua no centro do Recife". In https://marcozero.org/seborreia-seu-souza-e-a-resistencia-dos-livreiros-de-rua-no-centro-do-recife/.
Acessado em 10 de março de 2026.)
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| Está à procura de discos de vinil, cd's, dvd's e blu-rays? Apareça e procure Elvis Rossi |
Dito isso, a Edichão, inevitavelmente, adquiriu,
também, um cunho e um status de resistência à ordem do discurso excludente
oriunda da Municipalidade. O propósito do Coletivo Sebos do Capibaribe, ao realizar
essa intervenção artística e cultural que extrapola o universo dos livros e dos
sebistas que vendem cd's, dvd's e discos de vinil e abre espaço para artistas
plásticos, cartofilistas, filatelistas, numismatas, atores e atrizes, cantores
e cantoras que fazem apresentações, performam e comercializam e divulgam o que
eles criam e produzem, é o de ser ele um grupo que se coloca como porta-voz
daqueles que, de segunda à sexta-feira, ocupam parte das calçadas da Avenida
Guararapes com livros, revistas, cd's, dvd's e discos de vinil movimentando um
comércio que tem seu público cativo e que é um ganha-pão para eles. A ideia é
que o grupo possa levar à Municipalidade o reconhecimento da existência dos
sebistas naquele local bem como lutar para que o planejado projeto de gentrificação denominado
Distrito Guararapes não os remova dali.
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| José Rorigues - com uma camiseta estampada com a figura do poeta Ascenso Ferreira - e o artista plástico Isac Vieira |
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| Com Nerivaldo Guedes |
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| Da esquerda para a direita: José Rodrigues, Glauco, Fernando Duarte e Elizeu Espíndola |
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| Canário do Império trocando figurinhas com Fátima Soares |
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| Com Geraldo José |
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| O casal Fabiana Maria e Paulo Rogério |
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| Com José Ítalo |
Uma manhã festivamente movimentada
Agora vamos falar do evento em si, ocorrido, como eu
disse no domingo passado.
Como de hábito, eu cheguei para prestigiar a Edichão logo
cedo, porque, entre outros motivos, eu gosto de ver as coisas e os cenários
sendo montados e organizados.
É claro que eu fiz umas comprinhas, porque isso é de lei;
e também troquei figurinhas com personagens que eu já conhecia e com uns e
outros que apareceram por lá para ajudar a fazer a coisa acontecer.
Foi Fátima Soares, sebista e poeta que integra o
Coletivo Sebos do Capibaribe, quem abriu os trabalhos no microfone celebrando o
Dia Internacional da Mulher e destacando a realização de mais uma edição da Edichão. A partir daí, em meio à
exposição de cartões-postais da enorme coleção de Hélio Moura Filho, de uma
mostra de livros escritos por mulheres feita por José Rodrigues e dos itens
postos à venda por José Ítalo, Elizeu Espíndola, Severino Alves (o Ramos),
Paulo Rogério e sua esposa Fabiana Maria, Nerivaldo Guedes, Luiz Carlos,
Geraldo José e Elvis Rossi, a manhã foi passando por ali repleta de
apresentações e acontecências protagonizadas por indivíduos acertadamente
chamados por Elizeu Espíndola de "agentes culturais do asfalto".

Fátima Soares dando o seu recado
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| Da esquerda para a direita: Jessi, Fátima Soares e Valda Ribeiro |
Valda Ribeiro, professora aposentada e modista de mão
cheia, fez um discurso contundente e necessário: não me esqueci desta parte de
sua fala: "Não adianta dar flores hoje e um soco amanhã", disse ela.

Valda Ribeiro não só sabe costurar, não, visse? Ela também sabe fazer bom uso das palavras. Que danada!
Jessi e o Grupo Abayomi mostraram do que eram capazes:
cantaram e tocaram que foi uma beleza.

Jessi e o Grupo Abayomi mostraram um pouco da sintonia muito massa que eles têm
Ceci Medeiros. Que delicadeza! Que simplicidade! E que talento!

Leitora concentrada, Ceci Medeiros deixou um pouco os livros de lado para soltar a voz e tocar com maestria um violão
Como se fosse uma força indomada, a multiartista
Daniela Câmara fez uma apresentação que foi um monólogo de protesto contra as
violências que diariamente marcam a vida das mulheres.

Daniela Câmara é uma verdadeira usina de talentos. Menina, que coisa espantosa. Você é demais!
Canário do Império, senhor admirável dos ofícios que exerce, mais uma vez soltou a voz e encantou a plateia com seu violão.
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| Apoiador de primeira hora do Coletivo Sebos do Capibaribe, o talentoso Canário do Imperio novamente compareceu para abrilhantar mais uma edição da Edichão |
Passando por ali, um maranhense dos bons chamado Felipe Puxirum pediu licença e também se apresentou com canto e declamação para todos que foram prestigiar aquele acontecimento, como o psicólogo Lúcio Brito, filho do incensado poeta Alberto da Cunha Melo.
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| Felipe Puxirum, obrigado por ter mostrado um pouco do seu talento para todos que foram prestigiar a Edichão. Apareça sempre que puder |
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| Lúcio Brito, uma das caras novas que apareceram para engrossar o cordão da resistência. Bem-vindo, camarada! |
Nós ainda tivemos a satisfação de receber no evento
organizado pelo Coletivo Sebos do Capibaribe figuras bastante expressivas das
artes plásticas pernambucanas, como Fernando Duarte e Isac Vieira. Que coisa
boa tê-los ali engrossando o cordão da resistência!
A terceira edição deste ano da Edichão mostrou,
mais uma vez, que uma cidade viva e socialmente inclusiva é uma cidade que
também mantém a arte e a cultura em seu alicerces e em suas rotas de futuro.
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| Nesta e na foto seguinte, José Rodrigues organizando a mostra só com livros escritos por mulheres |
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| Filatelista e cartofilista, Hélio Moura Filho expôs nesta Edichão dedicada ao Dia Internacional das Mulheres, cartões-postais onde só elas apareciam nas estampas |
No mês que vem nós estaremos lá de novo, porque reivindicar, criticar e resistir também estão no nosso DNA.

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