Por
Sierra
Depois de ter passado por uma grande obra de restauro
que durou mais de um ano, o antigo prédio-sede do poder executivo estadual
paraibano, o chamado Palácio da Redenção, localizado no começo da Rua Duque de
Caxias e defronte para a Praça João Pessoa - a lateral direita do imóvel é
voltada para a Praça Venâncio Neiva, que muitos conhecem como Pavilhão do Chá;
e os fundos se voltam para a Avenida General Osório -, no perímetro histórico
da capital situado na Cidade Alta, passou a abrigar a mais nova e imponente
instituição museal da Paraíba. E eu, que vira toda a pompa e circunstância do
evento de inauguração pelas redes sociais, tratei de ir ver tudo pessoalmente e
bem de perto a fim de conhecer, prestigiar e celebrar esse grande
acontecimento.
A minha primeira tentativa de conhecer o Museu de
História da Paraíba ocorreu na manhã do último dia 7 de janeiro. E foi
frustrante. E por quê? Quando eu cheguei lá, acompanhado do meu amigo Luiz
Tavares, tomei conhecimento de que, além de as visitas só serem guiadas, elas só
aconteciam em quatro horários: 9h, 11h, 13h e 15h. E só haviam vagas para o
terceiro e quarto horários. Eu dei brabo com as recepcionistas que, claro, nada
tinham a ver com o que eu julguei ser uma medida restritiva e limitadora, ainda
mais numa alta estação de verão e num período de férias escolares, quando esses
espaços costumam ser mais procurados. Mesmo considerando que caberia aos
visitantes buscar informações sobre horário de visitação e tal, antes de seguir
para lá, eu avaliei que aquela definição de horários e a obrigatoriedade de visitação
guiada não eram adequadas. Cheguei a dar o nome para a visita das 15 e não
retornei, porque eu resolvi aproveitar outros lugares da cidade, bater perna
pelo sito histórico, algo que eu adoro fazer.
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| No salão térreo, ou hall de entrada, aguardando o início da visitação guiada, que não deu para todos que a queriam |
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| Um dos vários grupos que chegaram para visitar o museu e deram a viagem perdida, porque não tinham mais vagas no horário das 15h, o último do dia |
Dois dias depois eu, que estava pelos arredores,
resolvi voltar ao Museu de História da Paraíba para, mais uma vez, tentar
conhecê-lo por dentro, agora na visita guiada das 15h.
Quando eu cheguei lá, às 14h20, já encontrei muitas
pessoas no salão térreo. Chegando à recepção foi que eu fiquei sabendo que o
total de visitantes, por horário, era de 50 indivíduos; e que haviam, para a
turma das 15h, excepcionalmente aberto mais 10 vagas - gente, eu fui o último
da lista.
Eu, felizmente, consegui uma vaga para última visitação daquele dia, mas várias, dezenas de pessoas foram até lá e deram a viagem perdida e, claro, ficaram visivelmente frustradas. Troquei figurinhas com algumas delas. Umas eram turistas vindos de outros estados; e outras eram moradoras da própria João Pessoa. Assim como acontecera comigo dois dias antes - e em que pese a presença quase suprema das redes sociais em nosso cotidiano -, elas também foram até lá sem saber de horários e de visitas obrigatoriamente guiadas, algo que algumas delas consideraram completamente absurdo e com toda razão.
A visita em si
Para evitar possíveis penetras, no hall de entrada foi
feita a leitura dos sessenta nomes que haviam sido anotados na lista. Além
disso, todos que estavam ali receberam orientações de como iria acontecer a
visitação guiada pelo Sgt PM Frederico Alexandre e de como deveríamos nos
comportar nos ambientes do prédio para evitar dispersão.
Primitivamente parte integrante de um complexo construtivo
da Companhia de Jesus, que era constituído por um convento, um colégio e por
uma igreja que teve como primeiro orago São Gonçalo e, depois, Nossa Senhora da
Conceição – igreja essa que foi mandada demolir pelo então governador João
Pessoa para dar lugar a um jardim, uma das ações mais absurdas praticadas
contra o patrimônio histórico edificado da capital paraibana; espaço esse que
atualmente encerra o mausoléu do próprio João Pessoa -, o prédio recebeu
diferentes nomes e usos e passou por várias alterações ao longo dos tempos
desde que os jesuítas foram expulsos dos territórios dominados pela Coroa
Portuguesa pelo Marquês de Pombal, em 1759.
A propósito das mudanças de nomes dessa edificação,
vale a pena conferir esta passagem de uma narrativa do historiador Humberto
Nóbrega:
Ao tempo
do Brasil-colônia chamavam-no de Casa das Secções do Governo da Capitania, ou
simplesmente Casa do Governo, ou Palácio do Governador.
Essas
denominações são encontradas em muitos documentos antigos [...]
No
Império, passou a ser denominada Palácio da Presidência ou Palácio do Governo
da Presidência. E,
implantada a República, Palácio do Governo.
Palácio
da Redenção - seu nome atual é designativo que surgiu na Revolução de 1930.
Deve-se à poetisa Rita Miranda que logo após a vitória do movimento, então
considerado redentor, o propôs como uma homenagem ao presidente João Pessoa
[...] (Humberto Nóbrega. "Um prédio de
convento a palácio". In Wellington Aguiar e José Octávio [orgs.]. Uma cidade de quatro séculos: evolução e
roteiro. João Pessoa: Governo do Estado da Paraíba, 1985, p. 149).
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| O prédio e os detalhes da arquitetura são de encher os olhos |
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| Nesta e na foto seguinte, painéis fixados no quarto onde se diz que Ariano Suassuna nasceu: projeto museal muito simples |
Não tanto pelo acervo - que é basicamente constituído por peças de mobiliário; quadros; objetos de decoração; fotografias; reproduções de documentos, jornais e pinturas antigos; e utensílios domésticos, componentes de um serviço de jantar - e sim pelo prédio imponente e repleto de detalhes arquitetônicos, o Museu de
História da Paraíba encheu meus olhos e me alegrou deveras, porque eu sou um
entusiasta e defensor das políticas públicas e particulares que visem à
proteção e salvaguarda de exemplares do nosso patrimônio histórico edificado; e
ver isso numa cidade como João Pessoa, onde vários sobrados e casas térreas
estão abandonados e em ruínas há muitos anos no centro histórico, é digno de
louvor e ainda mais quando se avalia que, além de ter sido inteiramente
restaurado e revitalizado, o então Palácio da Redenção passou a abrigar um
museu, o que demanda outros usos, outra dinâmica de ocupação e outras medidas
que busquem manter uma conservação predial e de acervo ainda mais rigorosa e
constante, porque passou agora a ser visitada por um público que, digamos, quer
ver a casa sempre arrumada.
Além do seu acervo próprio, constituído basicamente
por móveis e objetos de decoração, pinturas e fotografias, como já foi dito, o Museu de História da Paraíba
dispõe de espaços para exposições temporárias; e, quando da minha visita,
mantinha em uma das salas alguns quadros do acervo do Museu de Arte Assis
Chateaubriand, de Campina Grande, com telas de nomes como Pedro Américo, Anita
Malfatti, Ismael Nery, Santa Rosa, Cândido Portinari e Di Cavalcanti.
Uma das coisas que me dão prazer quando visito museus,
galerias de arte e afins é o ser guiado por monitores bem preparados que nos
enchem de informações tanto sobre o espaço em si como sobre o acervo, porque eu
também defendo que tais instituições culturais têm e/ou deveriam ter um papel
importante na formação e educação do público, sobretudo com públicos que não
têm familiaridade com tais espaços.
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| Painel com fotos de igrejas de todos os municípios paraibanos: representatividade da história paraibana pode ser bem mais do que apenas isso |
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| Fotos mostrando as várias etapas da revitalização do prédio: que bom que tudo foi feito com esmero! |
Considerando tudo isso que eu registrei no parágrafo
anterior, eu vou fazer agora duas observações a respeito de minha visita ao
mais novo e imponente museu de João Pessoa. A primeira diz respeito à visita
guiada; em termos de conhecimento e de bem falar, o Sgt PM Frederico Alexandre
passou no teste com louvor: dinâmico, divertido e bem-humorado, ele conduziu
com maestria a tarefa que lhe cabia. A ressalva que eu fiz foi quanto ao tempo
de duração da monitoria; no dia da minha visita ela se prolongou por duas longas
horas; e se você considerar que o acervo não é muito atraente - quer dizer, não
foi para mim - e que, no grupo guiado, havia crianças e idosos, ficar ouvindo
alguém falar durante duas horas se torna cansativo e o cansaço acaba gerando
desinteresse de alguns indivíduos do grupo pelo que está sendo dito, como
ocorreu, principalmente por parte das crianças.
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| Sgt PM Frederico Alexandre em ação como guia |
A minha segunda ressalva foi direcionada ao acervo da instituição. Para um denominado Museu de História da Paraíba ele apresenta um acervo pobre. Eu não vi ali um conjunto representativo da Paraíba em si. Ora, colocar fotografias de igrejas de todos os municípios e painéis eletrônicos que mostram personalidades paraibanas é muito simplório e pouco representativo do estado como um todo. E o que dizer da ocupação do quarto no qual se diz que mestre Ariano Suassuna nasceu, no tempo em que João Suassuna, seu pai, era presidente da Paraíba, cargo equivalente ao de governador? Aquilo lá, como foi concebido e exposto, está digno de figurar em semináios e feiras de ciências escolares e não em um museu desse nível e porte. Eu penso e defendo que o governo da Paraíba deve angariar esforços para conseguir montar um acervo que, além de rico e atrativo, diga da Paraíba para além dos inícios da capital, no século XVI, e da Revolução de 1930, temas tão abordados pelo Museu da Cidade de João Pessoa, por exemplo.
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| O Sgt PM Frederico Alexandre, o guia do dia da minha visita: muita informação na ponta língua |
No mais, eu só posso e quero é louvar a grande iniciativa do governador João Azevêdo em transformar o Palácio da Redenção nesse belo Museu de História da Paraíba.

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