Por Sierra
O relógio estava prestes a marcar meia-noite
e, portanto, a passagem de 2025 para 2026, e eu me encontrava no WhatsApp
acompanhando o desabafo repleto de insatisfação, insegurança e incerteza de uma
minha conhecida; ela me dizia da transformação por que sua única filha vem
passando desde que se reconheceu como homem e não mais como mulher:
cortou o cabelo curto, "estilo masculino"; põe uma faixa para apertar
os seios enquanto planeja retirá-los recorrendo a uma cirurgia; já adotou outro
nome no RG; e tem levado namoradas para casa.
Eu e a minha conhecida - já fomos amantes;
e ela sabe da minha bissexualidade - temos quase a mesma idade. Ouvi-la narrar
sobre o que o seu agora filho vem passando não me inquietou de maneira alguma,
porque, como eu lhe disse, a realidade que abarca tais questões e que as põe em
evidência praticamente todos os dias não apenas na mídia, de um modo geral, bem
como nas malditas/benditas redes sociais, mostra que, apesar das demonstrações
de intolerância às quais vez por outra nós assistimos, vai se estabelecendo e
se impondo quase que como algo natural. Sim, nós continuamos a viver numa
sociedade que é extremamente violenta e massacradora de mulheres e daqueles
tidos como desviados sexuais; mas o fato é que, em que pese tudo isso, o número
de pessoas que têm recorrido não apenas à aceitação de suas sexualidades e até
a cirurgias e terapias hormonais visando à redesignação sexual e/ou
transformação física, só faz crescer; e isso vale tanto para pessoas conhecidas
e/ou famosas como para ilustres desconhecidos.
Com a experiência que eu carrego de ser
sexualmente como eu sou, que é muito repelida por uns e outros, eu tentei
acalmar a minha ex-amante dizendo que a caminhada neste mundo é muito difícil
para todos; e lhe disse ainda que amparasse, reconhecesse e fortalecesse o seu
filho, porque o apoio dos pais - o pai do garoto faleceu há poucos anos - é o
principal pilar dos filhos no mundo.
Não é sobre sexualidade o cerne deste meu
primeiro artigo para este ano que está apenas engatinhando. É sobre caminhadas.
É sobre reinício de caminhadas na estrada da vida aproveitando essa coisa boa
danada que é o recomeçar proporcionado pelos dias e meses que compõem o
calendário.
Este novo ano marcará uma outra jornada em
minha vida, porque, agora, desobrigado da labuta diária do trabalho. Pelo
critério de anos trabalhados, eu me aposentei no último dia 23 de dezembro; e o
que eu projetei, pelo menos para esses primeiros tempos de minha aposentadoria,
foi me dedicar, com maior empenho e afinco, às minhas pesquisas, leituras e
escritos, ou seja, ao fortalecimento de minha vida interior, aos meus
exercícios intelectuais que fundamental e intensamente regem o meu viver e que
me conferem um imenso prazer.
Outra mudança significativa na minha vida, que marcará o transcurso deste ano, é que, dentro de alguns meses, eu passarei a morar noutra casa, numa outra rua e num outro bairro da Ilha de Itamaracá, onde eu já resido.
Eu quero ocupar os dias dessa nova
caminhada muito certo e seguro de que o tempo vindouro continua sendo uma
incógnita para todos nós; e o que melhor nós podemos fazer, frente a isso, é
encarar a vida com força, coragem, perseverança, destemor e confiança no futuro
sem se deixar abater e fraquejar, porque, pelo menos para mim, a vida é
persistência e resiliência sempre e sempre. E eu me recuso terminantemente a me
deixar contaminar pelos discursos que encaram o envelhecimento e a velhice
apenas como algo ruim. Eu prefiro aceitar a inexorabilidade do tempo
aproveitando o que posso da vida até o fim, como quem não abre mão do último
gole de suco no fundo do copo e nem do pedacinho da fatia de um bolo muito gostoso.
Eu torço para que todos nós sigamos nesse novo recomeço, proporcionado pelo calendário, encarando a vida e os desafios que ela nos lança todos os dias, conservando o peito aberto, a postura firme para superar todos eles e alguma certeza do alcance de um regozijo que continuamente nos renove, como se fôssemos um moto-contínuo.
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