Por Sierra
Por conta de alguns interesses
intelectuais e da manutenção de pesquisas com vistas à produção de textos com
referenciais e materiais que digam respeito tanto à formação e história de
nossas cidades como às políticas de preservação e conservação de seus patrimônios
históricos edificados, eu não ando pelas urbes que detêm centros antigos sem
prestar atenção em aspectos de salvaguarda desse patrimônio; e isso me deixa
atento para a observação de possíveis casos de abandono de tais edificações
nesses sítios urbanos.
No último dia 19 de dezembro eu fui mais
uma vez a Goiana, uma das cidades mais importantes de Pernambuco no que diz
respeito aos períodos colonial e imperial de nossa formação socioeconômica e
cultural, para, fundamentalmente, visitar a Casa-museu Zé do Carmo e a viúva desse
singular e talentoso artista, a por mim muito querida Marinalva Ferreira; e, depois
dessa visita, eu fiz mais um passeio a pé pelo espaço antigo da cidade,
percorrendo ruas, praças e becos para ver pessoas e monumentos, sentir cheiros,
desfrutar sabores, além, claro, de reparar como aqui e ali as políticas de
preservação do patrimônio histórico edificado se encontravam em ação.
Foi com uma enorme satisfação que eu
testemunhei obras em andamento no Beco do Pavão, onde um belo sobrado
estava sendo restaurado pela Prefeitura Municipal, e, também, a restauração do
prédio do fórum na Praça da Bandeira.
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| Sobrado em restauro no Beco do Pavão: exemplo a ser seguido e disseminado no perímetro histórico |
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| O prédio do fórum, localizado na Praça da Bandeira, que estava desde há muito abandonado, também está passando por uma obra de restauro |
Não muito distante dessa praça, a Igreja
de Nossa Senhora a Misericórdia, uma edificação do século XVIII que foi tombada
pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1938,
permanecia em petição de miséria com sua fachada escurecida, sua torre sendo
tomada pela chamada erva de passarinho, com sua calçada lateral deteriorada e o
seu entorno tomado por vendedores ambulantes e barracas completando o cenário
de horror nada condizente com a condição de um monumento nacional tombado.
Percorrendo outros recantos do burgo
goianense eu me deparei com as ruínas do que um dia foi um imponente sobrado na
esquina da Rua General Joaquim Barbosa Cordeiro de Farias com a Rua do Rio,
ali, pertinho das margens do Rio Goiana, onde eu flagrei um pescador lançando
uma tarrafa e apanhando muitos peixes.
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| Pescador se preparando para lançar sua tarrafa no Rio Goiana |
Aspectos e detalhes da fachada do prédio,
que ainda está de pé, como os cachorros e o gradil de sua sacada, são
resquícios e sobrevivências da beleza e da imponência do sobrado que,
certamente, era um dos mais vistosos de toda a cidade.
Pensando em escrever um artigo para este
meu blog sobre aquela construção abandonada, eu fiz alguns registros
fotográficos dela ao mesmo tempo em que contemplava os fragmentos de seu porte
elegante e lamentava aquele estado de coisas.
Encontrava-se por ali um rapaz e eu não
perdi a oportunidade de indagá-lo sobre o tal sobrado.
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Joab Paulo: pense numa pessoa atenciosa e simpática. Muito obrigado, camarada, pelas informações que você me prestou
Joab Paulo, 41 anos de pura simpatia, mora
numa casa térrea bem defronte ao sobrado. Ele me falou da mais recente cheia do
Rio Goiana, ocorrida em 2022, que atingiu a residência dele. Também disse que
muitos, assim como ele, acreditam que o Imperador Dom Pedro I se hospedou
naquele prédio. Contou que algumas das casas daquele trecho da Rua do Rio
serviram como depósitos de sal; e que seu pai frequentou o bordel instalado
justamente naquele sobrado. Na verdade, segundo Joab Paulo, num período de
decadência comercial, vários dos imóveis da Rua do Rio abrigaram bares e
bordéis, como o Bar do Seixo.
Ainda falando dos bordéis, o meu
informante Joab Paulo disse nomes de alguns dos personagens que circulavam e
tinham fama por ali, como Ivan Beira-rio, dono de bordel; e as prostitutas
Tonha de Aderbal, Gonçala e Asa Branca. De acordo com ele, havia uma hierarquia
dos bordéis: os que ficavam do grande sobrado para a parte mais extensa da Rua
do Rio eram tidos como melhores, por causa da "qualidade" das
mulheres; já os que existiam no trecho da rua do lado que fica diante da Praça
Rio Branco e que leva à Ponte Governador Sérgio Loreto, eram considerados de
baixo nível e conhecidos como "Pinga Pus", denominação essa que eu
associei, inevitavelmente, a doenças venéreas.

As ruínas do sobrado da Rua do Rio,com seus muitos detalhes construtivos, estão lá como derradeiras testemunhas de um passado de muitas histórias
Olhando atentamente para o que ainda
restava daquele imponente sobrado, eu deixei a imaginação correr solta, criando
um passado que ali deve ter sido de muitas e diversas ocorrências. Em dado
momento, o meu pensamento se concentrou na importância que as políticas e leis
de preservação do nosso patrimônio histórico, artístico e cultural têm para salvaguardá-los
com vistas à proteção de nossa memória, compreendendo que, infelizmente, nem
tudo políticas e leis conseguem livrar e proteger da indiferença, da
especulação imobiliária, do desprezo pelas coisas do nosso passado, da
ignorância dos valores e testemunhos de nossa História e do abandono puro e
simples.
Na Rua do Rio, da nobre cidade de Goiana, a fachada e as ruínas de um imponente sobrado são um testemunho eloquente da permanência entre nós da aliança da força bruta e da inexorabilidade do tempo com a insensibilidade e o descaso dos homens.

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