27 de dezembro de 2025

Olhares sobre a cidade ou Sobre testemunhos materiais que vão desaparecendo do cenário urbano

 Por Sierra

 

Fotos: Arquivo do Autor
Retratos de um descaso: as ruínas deste sobrado dizem muito da falta de cuidado para com a preservação de patrimônios históricos edificados que se verificam em várias cidades que detêm sítios antigos no nosso país; mesmo abrigando monumentos tombados nacionalmente, aqui e ali a cidade de Goiana não conseguiu, localmente, defender e preservar muitos dos seus prédios que estão no perímetro do centro histórico, que é muito marcado por imóveis abandonados, descaracterizações dos edifícios e pela derrubada deles para darem lugar a prédios novos e ditos modernos


Por conta de alguns interesses intelectuais e da manutenção de pesquisas com vistas à produção de textos com referenciais e materiais que digam respeito tanto à formação e história de nossas cidades como às políticas de preservação e conservação de seus patrimônios históricos edificados, eu não ando pelas urbes que detêm centros antigos sem prestar atenção em aspectos de salvaguarda desse patrimônio; e isso me deixa atento para a observação de possíveis casos de abandono de tais edificações nesses sítios urbanos.

No último dia 19 de dezembro eu fui mais uma vez a Goiana, uma das cidades mais importantes de Pernambuco no que diz respeito aos períodos colonial e imperial de nossa formação socioeconômica e cultural, para, fundamentalmente, visitar a Casa-museu Zé do Carmo e a viúva desse singular e talentoso artista, a por mim muito querida Marinalva Ferreira; e, depois dessa visita, eu fiz mais um passeio a pé pelo espaço antigo da cidade, percorrendo ruas, praças e becos para ver pessoas e monumentos, sentir cheiros, desfrutar sabores, além, claro, de reparar como aqui e ali as políticas de preservação do patrimônio histórico edificado se encontravam em ação.

Foi com uma enorme satisfação que eu testemunhei obras em andamento  no Beco do Pavão, onde um belo sobrado estava sendo restaurado pela Prefeitura Municipal, e, também, a restauração do prédio do fórum na Praça da Bandeira.


Sobrado em restauro no Beco do Pavão: exemplo a ser seguido e disseminado no perímetro histórico




O prédio do fórum, localizado na Praça da Bandeira, que estava desde há muito abandonado, também está passando por uma obra de restauro 



Não muito distante dessa praça, a Igreja de Nossa Senhora a Misericórdia, uma edificação do século XVIII que foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1938, permanecia em petição de miséria com sua fachada escurecida, sua torre sendo tomada pela chamada erva de passarinho, com sua calçada lateral deteriorada e o seu entorno tomado por vendedores ambulantes e barracas completando o cenário de horror nada condizente com a condição de um monumento nacional tombado.


Igreja de Nossa Senhora da Miserciórdia: este templo católico, tombado nacionalmente, está carecendo de um urgente processo de restauro; e não apenas isso: é preciso que a Municipalidade preserve o seu entorno que está quase todo ele tomado por vendedores ambulantes


Percorrendo outros recantos do burgo goianense eu me deparei com as ruínas do que um dia foi um imponente sobrado na esquina da Rua General Joaquim Barbosa Cordeiro de Farias com a Rua do Rio, ali, pertinho das margens do Rio Goiana, onde eu flagrei um pescador lançando uma tarrafa e apanhando muitos peixes.


Pescador se preparando para lançar sua tarrafa no Rio Goiana



Aspectos e detalhes da fachada do prédio, que ainda está de pé, como os cachorros e o gradil de sua sacada, são resquícios e sobrevivências da beleza e da imponência do sobrado que, certamente, era um dos mais vistosos de toda a cidade. 

Pensando em escrever um artigo para este meu blog sobre aquela construção abandonada, eu fiz alguns registros fotográficos dela ao mesmo tempo em que contemplava os fragmentos de seu porte elegante e lamentava aquele estado de coisas.

Encontrava-se por ali um rapaz e eu não perdi a oportunidade de indagá-lo sobre o tal sobrado.

Joab Paulo: pense numa pessoa atenciosa e simpática. Muito obrigado, camarada, pelas informações que você me prestou




Joab Paulo, 41 anos de pura simpatia, mora numa casa térrea bem defronte ao sobrado. Ele me falou da mais recente cheia do Rio Goiana, ocorrida em 2022, que atingiu a residência dele. Também disse que muitos, assim como ele, acreditam que o Imperador Dom Pedro I se hospedou naquele prédio. Contou que algumas das casas daquele trecho da Rua do Rio serviram como depósitos de sal; e que seu pai frequentou o bordel instalado justamente naquele sobrado. Na verdade, segundo Joab Paulo, num período de decadência comercial, vários dos imóveis da Rua do Rio abrigaram bares e bordéis, como o Bar do Seixo.

Ainda falando dos bordéis, o meu informante Joab Paulo disse nomes de alguns dos personagens que circulavam e tinham fama por ali, como Ivan Beira-rio, dono de bordel; e as prostitutas Tonha de Aderbal, Gonçala e Asa Branca. De acordo com ele, havia uma hierarquia dos bordéis: os que ficavam do grande sobrado para a parte mais extensa da Rua do Rio eram tidos como melhores, por causa da "qualidade" das mulheres; já os que existiam no trecho da rua do lado que fica diante da Praça Rio Branco e que leva à Ponte Governador Sérgio Loreto, eram considerados de baixo nível e conhecidos como "Pinga Pus", denominação essa que eu associei, inevitavelmente, a doenças venéreas.


As ruínas do sobrado da Rua do Rio,com seus muitos detalhes construtivos, estão lá como derradeiras testemunhas de um passado de muitas histórias









Olhando atentamente para o que ainda restava daquele imponente sobrado, eu deixei a imaginação correr solta, criando um passado que ali deve ter sido de muitas e diversas ocorrências. Em dado momento, o meu pensamento se concentrou na importância que as políticas e leis de preservação do nosso patrimônio histórico, artístico e cultural têm para salvaguardá-los com vistas à proteção de nossa memória, compreendendo que, infelizmente, nem tudo políticas e leis conseguem livrar e proteger da indiferença, da especulação imobiliária, do desprezo pelas coisas do nosso passado, da ignorância dos valores e testemunhos de nossa História e do abandono puro e simples.














Na Rua do Rio, da nobre cidade de Goiana, a fachada e as ruínas de um imponente sobrado são um testemunho eloquente da permanência entre nós da aliança da força bruta e da inexorabilidade do tempo com a insensibilidade e o descaso dos homens.

Nenhum comentário:

Postar um comentário