21 de fevereiro de 2026

Personas urbanas (37)

 Por Sierra

 

Vou seguindo pela vida

me esquecendo de você.

Eu não quero mais a morte

tenho muito que viver.

Vou querer amar de novo

e se não der não vou sofrer.

Já não sonho, hoje faço

com meu braço o meu viver

 

                                                Travessia. Fernando Brant/Milton Nascimento

 

 

Protelando mudanças. Quantas e quantas vezes você se pegou dizendo a si mesmo ou falando para um amigo ou parente que você estava pensando em mudar isso e aquilo em sua vida e essa mudança nunca acontece porque, seja simples, seja mais, digamos, complexa e/ou exija um esforço grande e duradouro, você, dia após dia, protela o início da virada, da transformação, da mudança e da correção de rumo?

Numa viagem que eu fiz recentemente à capital paraibana, conheci alguém que me abriu parte do livro de sua vida e me deixou entrar em contato com acontecimentos bons e ruins, como, aliás, são os capítulos da história de todas as pessoas; e, a respeito dos males, digo, de parte dos males que haviam ocorrido, ele julgou ser fruto de repetidas escolhas ruins que fizera. Segundo o seu relato, que eu ouvi muito atentamente, ele seguia e se mantinha como que preso a um padrão - principalmente no que diz respeito a relacionamentos afetivos -; ele me disse ainda que estava fazendo algum esforço para se livrar disso, modificando algumas ações e comportamentos de sua vida prática e cotidiana. Só que, entre o discurso e o agir, esse alguém deixou muito evidente para mim que o tal planejamento para a almejada mudança continuaria no plano das ideias e elucubrações e, portanto, longe da realidade.

Avaliando o comportamento daquela pessoa e olhando para mim mesmo eu, que não sou estudioso disso e só estou falando e tocando nesse assunto como forma de ampliação do meu autoconhecimento e do meu estar no mundo, me perguntei: por que será que, às vezes, nos fazemos promessas de mudanças interiores que, possivelmente, acarretarão mudanças exteriores em nosso viver e nem sempre as colocamos em andamento e não damos o primeiro passo e nem apertamos o botão do start para, finalmente, fazer a coisa começar a acontecer? E por que é que, não raro, muito mais persistente e vigorosa em nós é a força da protelação?

É fato que acontece de nos propormos a promover mudanças, digamos, muito radicais e/ou muito amplas que não podem ser realizadas de uma hora para outra, que exigem tempo e dinheiro para ser concretizadas e que não dependem apenas de nós. Por outro lado, ocorre que muitos de nós protelamos algo simples como, por exemplo, começar a manter uma rotina regular de prática de exercícios  físicos; prática essa que, diferentemente do que muitos pensam, não precisa necessariamente estar ligada à matrícula em uma academia de musculação ou de natação ou a algo que os valha.

A situação da pessoa que leu para mim trechos do livro da vida dela me deixou ver que a sua situação tende a se manter a mesma e até se agravar, caso persista nela uma ação protelatória que, por experiência própria, eu imagino que está intrinsecamente ligada à autossabotagem e ao autoengano. E essa prática de ficar sempre adiando o que deve e precisa ser feito, porque, do contrário, vai continuar nos prejudicando interna e externamente, é um exercício de autodestruição.

E por quê? Ora, não faz sentido dizer que se quer deixar de beber e você frequentar festas todos os fins de semana. Não me parece ser coerente você me falar que pretende deixar de consumir drogas se você trocou uma mais potente por outra que considera menos nociva. Não tem lógica você afirmar que não quer mais se relacionar com "certo tipo de pessoa", se você fica sempre procurando, noutros indivíduos, a figura daquele alguém que lhe feriu emocionalmente. Por fim, como é que você diz que está disposto a mudar de alguma forma o seu estar no mundo se determina que só tem interesse, por exemplo, por indivíduos com aparência atlética?

Em janeiro passado eu completei 52 anos de idade. Desde há muito eu larguei na beira da estrada da vida a mala de ilusões que eu vinha carregando, porque, além de pesada, ela só me fazia mal. Sim, eu falei de circunstâncias boas e ruins de minha vida para aquela pessoa que é quase dez anos mais nova do que eu; não procurei convencê-la de nada, porque cada um é que sabe de si; o que eu deixei bem claro para ela é que eu não tenho disposição nem interesse - ou pelo menos não tive até agora - para ser refém do autoengano, da autossabotagem e da autodestruição. 

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