Por Sierra
Durante
algum tempo eu mantive uma séria dificuldade de me lançar ao desafio da escrita
ficcional. Eu me via com limitações e até falta de imaginação, acreditando
que isso se dava por conta de minhas pesquisas e escritos sobre assuntos e
temas factuais.
Ocorreu que, enfrentando ainda alguma resistência
pessoal, eu resolvi encarar isso; e, há mais de dez anos, escrevi umas estórias
curtas, uns contos que eu acabei reunindo e publicando em livro. Depois dessa
publicação vieram outros contos; e esses eu ainda não os publiquei. E, no ano
passado, eu me desafiei a ir além das narrativas curtas com o fito de escrever
um romance. E peguei lápis, borracha e papel - sim, eu permaneço escrevendo em
folhas soltas e, só depois, é que eu me ponho a digitar no computador - e me
pus a dar início à escrita de uma estória mais longa do que as que eu até então
escrevera.
Embora eu seja muito autocrítico e
reconheça que o que eu estava redigindo não é algo admirável, ainda que tenha
algum valor, porque eu acredito na força do testemunho da escrita, eu preciso
dizer a vocês - e foi essa a razão fundamental que me levou a escrever
este artigo - que tal experiência, que segue em curso, porque eu ainda
não revisei nem burilei o texto, foi uma verdadeiramente grande descoberta para
mim. Uma grande e intensamente prazerosa descoberta.
Enquanto eu ia preenchendo as folhas, num
exercício intelectual e criativo que não tinha dia e nem hora marcadas para
acontecer, era como se tudo aquilo estivesse dentro de mim esperando somente
ser escrito. E foi essa percepção e compreensão do que estava acontecendo
comigo, enquanto escritor, que me fez ver que era realmente exata a afirmativa,
que eu lera em algum lugar, que dizia que, por vezes, ocorre de a coisa maturar
dentro de nós de tal forma que, quando nos lançamos à escrita, tudo vai vindo
com a maior naturalidade - eu ia quase dizendo facilidade e não é isso; pelo
menos para mim, escrever é um trabalho árduo -, como se fosse fruto de algo
vivido ou um déjà vu.
E tem outra verdade dita por aí que eu também
pude comprovar enquanto escrevia: acontecimentos outros, situações, nomes e uma
série de circunstâncias surgem durante a escrita além daquelas que foram
planejadas e imaginadas, porque, quando um fio é puxado, ele traz outro junto.
No processo da escrita do romance, do meu
primeiro romance, acreditem, eu já estava pensando na elaboração de outro; e
isso, ao mesmo tempo que me excitava, me incentivando para que eu terminasse
logo um para iniciar a escrita do próximo, me atrapalhava; e eu ficava dias e
dias sem escrever, como quem espera que os detritos da água barrenta se
assentem no fundo da bacia para que tudo possa ser visto com clareza de novo.
Faltava pouco, muito pouco para que eu
finalizasse a forma bruta do romance para, a partir daí, começar o outro
trabalho, que consiste em revisar, burilar, cortar, acrescentar, reavaliar,
reescrever, enfim, buscar de alguma maneira melhorar o texto, quando eu resolvi
que deveria escrever este artigo. Eu escrevi o romance com enorme entusiasmo,
acreditando no poder que as narrativas literárias costumam ter sobre nós, por
vezes nos marcando tão profundamente que se tornam referenciais no conjunto
daquilo tudo que a nossa memória individual e seletiva vai acumulando ao longo
do tempo.
Escrever como quem pretensiosamente almeja deixar um rastro de sua passagem por este mundo é algo que eu exercito diariamente. Eu disse a mim mesmo, enquanto escrevia o meu primeiro romance, que, enquanto estórias se arrumarem na minha cabeça, sejam elas curtas ou longas, eu hei de transpô-las para papel, porque, para mim - e me desculpem se eu soar um tanto quanto exagerado -, escrever é, também, um exercício de salvação.

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