21 de março de 2026

Nos caminhos da escrita ficcional

 Por Sierra


Foto: Arquivo do Autor
Sim, eu sei que existem oficinas de criação de texto ministradas, por vezes, até por escritores renomados; eu me lancei de modo intuitivo ao exercício da escrita acreditando num fundamento superbásico: para escrever algo basta simplesmente que comecemos a escrevê-lo


Durante algum tempo eu mantive uma séria dificuldade de me lançar ao desafio da escrita ficcional. Eu me via com limitações  e até falta de imaginação, acreditando que isso se dava por conta de minhas pesquisas e escritos sobre assuntos e temas factuais.

Ocorreu que, enfrentando ainda alguma resistência pessoal, eu resolvi encarar isso; e, há mais de dez anos, escrevi umas estórias curtas, uns contos que eu acabei reunindo e publicando em livro. Depois dessa publicação vieram outros contos; e esses eu ainda não os publiquei. E, no ano passado, eu me desafiei a ir além das narrativas curtas com o fito de escrever um romance. E peguei lápis, borracha e papel - sim, eu permaneço escrevendo em folhas soltas e, só depois, é que eu me ponho a digitar no computador - e me pus a dar início à escrita de uma estória mais longa do que as que eu até então escrevera.

Embora eu seja muito autocrítico e reconheça que o que eu estava redigindo não é algo admirável, ainda que tenha algum valor, porque eu acredito na força do testemunho da escrita, eu preciso dizer a vocês - e foi essa a razão fundamental que me levou a escrever este  artigo - que tal experiência, que segue em curso, porque eu ainda não revisei nem burilei o texto, foi uma verdadeiramente grande descoberta para mim. Uma grande e intensamente prazerosa descoberta.

Enquanto eu ia preenchendo as folhas, num exercício intelectual e criativo que não tinha dia e nem hora marcadas para acontecer, era como se tudo aquilo estivesse dentro de mim esperando somente ser escrito. E foi essa percepção e compreensão do que estava acontecendo comigo, enquanto escritor, que me fez ver que era realmente exata a afirmativa, que eu lera em algum lugar, que dizia que, por vezes, ocorre de a coisa maturar dentro de nós de tal forma que, quando nos lançamos à escrita, tudo vai vindo com a maior naturalidade - eu ia quase dizendo facilidade e não é isso; pelo menos para mim, escrever é um trabalho árduo -, como se fosse fruto de algo vivido ou um déjà vu.

E tem outra verdade dita por aí que eu também pude comprovar enquanto escrevia: acontecimentos outros, situações, nomes e uma série de circunstâncias surgem durante a escrita além daquelas que foram planejadas e imaginadas, porque, quando um fio é puxado, ele traz outro junto.

No processo da escrita do romance, do meu primeiro romance, acreditem, eu já estava pensando na elaboração de outro; e isso, ao mesmo tempo que me excitava, me incentivando para que eu terminasse logo um para iniciar a escrita do próximo, me atrapalhava; e eu ficava dias e dias sem escrever, como quem espera que os detritos da água barrenta se assentem no fundo da bacia para que tudo possa ser visto com clareza de novo.

Faltava pouco, muito pouco para que eu finalizasse a forma bruta do romance para, a partir daí, começar o outro trabalho, que consiste em revisar, burilar, cortar, acrescentar, reavaliar, reescrever, enfim, buscar de alguma maneira melhorar o texto, quando eu resolvi que deveria escrever este artigo. Eu escrevi o romance com enorme entusiasmo, acreditando no poder que as narrativas literárias costumam ter sobre nós, por vezes nos marcando tão profundamente que se tornam referenciais no conjunto daquilo tudo que a nossa memória individual e seletiva vai acumulando ao longo do tempo.

Escrever como quem pretensiosamente almeja deixar um rastro de sua passagem por este mundo é algo que eu exercito diariamente. Eu disse a mim mesmo, enquanto escrevia o meu primeiro romance, que, enquanto estórias se arrumarem na minha cabeça, sejam elas curtas ou longas, eu hei de transpô-las para papel, porque, para mim - e me desculpem se eu soar um tanto quanto exagerado -, escrever é, também, um exercício de salvação.

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