Por Sierra

Imagem: Getty Images
Não adianta tentar se desprender do passado, porque os nossos rastros não são sempre apagados como as pegadas que deixamos na beira da praia
Normalmente nós nos referimos ao passado
como um professor que nos deu muitas e muitas lições; lições essas, no mais das
vezes, ministradas, quase em sua totalidade, em aulas práticas. Daí por que uns
e outros dizem que, caso nos esqueçamos das lições do passado, fatalmente
haveremos de repetir erros que praticamos.
Quantas e quantas vezes cada um de nós não
se pegou pensando numa decisão que tomou e nas consequências dela advindas?
Quantos de nós já paramos para recordar alguma passagem de nossas vidas e dissemos
a nós mesmos que jamais e em hipótese alguma repetiríamos aquele erro?
Há quem diga que é preciso que nos
esqueçamos do passado, o que é, para mim, uma das frases mais estúpidas que
circulam por aí como verdade inquestionável e absoluta. Ninguém, repito, ninguém
se desvencilha inteiramente do seu passado, simplesmente porque isso é
impossível. E por quê? Ora, porque nós somos a continuação do que fomos; ou
seja, o passado em nós continua seja em que medida for; ainda que, porventura,
tenhamos alcançado um bom desenvolvimento intelectual e/ou logrado uma melhor
condição socioeconômica, o passado, seja ele individual ou como consciência
coletiva, está o tempo todo conosco e dele nós não podemos nunca nos
desvencilhar, porque, mesmo que, hipoteticamente, percamos a consciência
e nossa memória se dissolva e se apague, nossas pegadas e nossos rastros,
nossos documentos e registros e as transmissões orais daqueles com os quais
direta ou indiretamente convivemos, manterão a chama do nosso passado - e a
chama de alguns é tão potente que, mesmo quando certos indivíduos morrem, ela
continua a flamejar.
Na madrugada da última quinta-feira eu
despertei por conta de um sonho ruim. Enquanto preparava o meu desjejum, eu
fiquei me recordando do pesadelo; e isso me levou a mergulhar em certas
vivências do meu passado que o transcurso do tempo, as experiências e os
aprendizados que eu tive posteriormente e que me possibilitaram reavaliar e reinterpretar
tudo aquilo me fizeram compreender que aquelas ações e aqueles comportamentos
que eu protagonizei e/ou daqueles dos quais de alguma maneira eu fui cúmplice,
foram/são totalmente repulsivos e execráveis. No meu entender, a ocorrência
daquele sonho ruim está ligada a inquietações e perturbações minhas que a
passagem do tempo não conseguiu domar e/ou acalmar; de modo que tais
ocorrências havidas no meu passado distante estão tão presentes em mim quanto
ocorrências recentes; e se, por um lado e em alguma medida, elas me enojam e me
causam repulsa, por outro, todos os dias elas me alertam, chamam a minha
atenção e me dizem que eu nunca e jamais deverei repeti-las e nem aceitá-las,
ainda que elas venham a ser protagonizadas por outrem.
Neste meu ofício de escrever, todos os
dias eu me deparo com lembranças que as circunstâncias de hoje fazem com que eu
as pese e confira a elas outra gramatura e dimensão, seja para o lado bom, seja
para o lado ruim. E faço isso sem me culpar, reprovar ou salvar, buscando
compreender circunstâncias, motivações, falta de ensinamentos e mesmo a vileza
e o mau-caratismo puro e simples que estiveram e/ou ainda estão dentro de mim.
Eu acredito que o passado não é apenas um professor severo do tipo que empunha uma palmatória para nos castigar por todo e qualquer erro que cometermos em relação às lições que ele nos deu. Além de professor, o passado é um cobrador diligente e incansável com o qual, definitivamente, é impossível acertar as contas, porque a nossa dívida para com ele nunca acaba.
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