31 de agosto de 2016

A fábula do sapo que virou príncipe e da governanta incompetente e durona convertida em rainha

Por Clênio Sierra de Alcântara









O cenário político brasileiro é de tal forma contaminado pela desonestidade que o cidadão comum, aquele que não se atreve a engrossar a fileira dos salafrários, corruptos, achacadores e patifes e só participa – de maneira obrigatória, frise-se isso – das disputas eleitorais como eleitor, não desenvolveu meios de distinguir um candidato honesto – e/ou que se apresenta com, digamos, boas intenções e ficha limpa – do pilantra que quer tomar de assalto os cofres públicos; o cidadão-eleitor brasileiro não conseguiu ainda, infelizmente, desenvolver competência suficiente que o faça diferenciar um candidato canalha de marca maior do sujeito que busca entrar na vida pública intencionando imprimir a ela algum grau de ética e moralidade.

Tanto se fala em “reforma política” no Brasil e pouco ou nada se faz – ainda há pouco ocorreu um retrocesso no escopo da Lei da Ficha Limpa – que a impressão que eu tenho é de que as doutas autoridades pensam que, excetuando-se os fazedores de leis e os políticos profissionais – sim, político neste país é profissão, e profissão das mais bem remuneradas e repleta de vantagens de todo tipo -, o que sobra como componente da população é uma compacta massa ignara, estúpida e idiota cuja única obrigação é comparecer à sua seção eleitoral nas datas determinadas e registrar o seu voto, sob pena de, não fazendo isso, sofrer as consequências pela desobediência à letra da lei.

Agora me diga, leitor-eleitor, como se pode falar em “reforma política” se, por exemplo, a lei ainda hoje, depois de tudo a que assistimos e vivenciamos, permite que um indivíduo se apresente como candidato em material de campanha sem ostentar seu nome verdadeiro e até mesmo fantasiado de palhaço, como um sujeito que está disputando uma vaga de vereador este ano, em São Paulo, que atende por Atchim – para que o eleitor não tenha nenhuma dúvida de quem se trata ele esclarece: é aquele que faz dupla com Espirro -?

Hoje eu me postei diante da TV para acompanhar o derradeiro ato da peça tragicômica que há meses vinha sendo encenada no Congresso Nacional. A tragicomédia tinha um enredo tão repisado, as marcações e as falas dos personagens eram de tal maneira previsíveis e repetitivas que, desde o início, adivinhava-se qual seria o seu desfecho. Talvez tenha sido em razão disso, certamente foi em decorrência desse saber por antecipação que, ao fim e ao cabo, a tragicomédia absurdamente deixou em mim, na verdade, um tom de tristeza. Não deu para esconder uma nota de lamento e de pesar por tudo o que se viu naquele teatro e que foi transmitido em rede nacional de televisão, porque, se a narrativa teve o fim que teve, não foi o caso de comemorarmos uma suposta maturidade da democracia brasileira, pelo contrário, foi a confirmação de que, iludidos e despreparados, não temos conseguido reunir meios nem nos apropriarmos de um discernimento que nos possibilite banir da vida pública os tantos e incontáveis maus elementos que, envergando paletós e tailleurs, se firmaram como políticos desde que principiou o processo de redemocratização neste país. Pleito após pleitos nós nos sujeitamos a recolocar nas mais diferentes esferas homens e mulheres flagrados e denunciados em crimes de todo tipo. Definitivamente nós não aprendemos os ensinamentos da História; e continuamos a votar como se estivéssemos com uma arma apontada para as nossas cabeças ou com um cabresto a querer nos rasgar o pescoço.

Vista de outra forma, a conclusão do processo de impeachment da presidente Dilma Vana Rousseff, ocorrida hoje, foi o encerramento, o ponto final do capítulo de um enredo que, reconheçamos, “nunca antes na história deste país” havia sido narrado: a fábula de um sapo que virou príncipe e de tal modo ludibriou os seus súditos que conseguiu converter em rainha uma governanta incompetente que tinha fama de ser durona.

(Este artigo foi publicado como editorial do jornal Informa Garanhuns [Garanhuns], setembro de 2016, nº 2, p. 2).

Um comentário:

  1. E pior, Clênio Sierra, que essas suas palavras são um retrato da realidade. Quisera eu que fosse somente uma visão lúdica do que vemos hoje.

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