3 de fevereiro de 2017

A voz dissonante da América

Por Clênio Sierra de Alcântara


Foto: internet     Histrião? Falastrão? Mr. Donald Trump parece não estar nem aí para as consequências que suas determinações possam provocar nas relações dos Estados Unidos com o resto do mundo



Pelo menos como presidente, Mr. Donald Trump não está se comportando como homem de duas palavras – ao menos não até agora. Já nos seus primeiros dias como mandatário da maior potência econômica e bélica do planeta, ele deixou evidente que não está disposto a conversas fiadas que tirem de sua cabeça a execução das promessas de campanha.

Ao que parece nada será capaz de dissuadi-lo dos seus propósitos de, segundo ele, fazer os Estados Unidos great again. Ainda há pouco ele determinou o estabelecimento de restrições à entrada de estrangeiros em seu país, provocando uma onda de protestos pelo mundo afora. Mr Trump acredita piamente que impedir a entrada de muçulmanos nos Estados Unidos livrará seu país de ataques terroristas. E, deixando claro que não tolerará de forma alguma atos de desobediência dentro do seu governo, de pronto ele demitiu Sally Yates, secretária de Justiça interina, que se recusou a cumprir a ordem de barrar a entrada de imigrantes. Mr.Trump, talvez, esteja querendo transformar a Casa Branca num cenário daquele programa televisivo – O aprendiz – que ele protagonizava anos atrás, cujo bordão era: “Você está demitido!”.

Ainda é muito cedo para que se projete um horizonte sombrio para os Estados Unidos a partir desse início de governo de Mr. Trump. Contudo, não se pode negar que, caso ele ponha mesmo em prática uma política unilateralista e isolacionista, pensando que isso fará com que a nação norte-americana se torne “grande de novo”, como prega o evangelho marqueteiro dele, é de se esperar que ocorra uma reação em cadeia contrariando os seus propósitos. Não se espera que a China e os países da zona do euro, por exemplo, engulam a seco as propostas dele no campo da economia que, como tudo indica, redundará em diretrizes duramente protecionistas que, decerto, causarão impactos consideráveis em economias, como a chinesa, muito atreladas que estão à dos Estados Unidos.

Para além do campo econômico, que é o principal, sem dúvida, o novo presidente norte-americano também tem se mostrado disposto a querer comprar briga com outros países no que diz respeito às relações institucionais. O presidente mexicano Enrique Peña Nieto vem expressando o seu desconforto para com o tal anúncio de Mr. Trump de querer que o México pague o custo da construção de um muro na fronteira entre os dois países, intencionando com essa obra impedir e/ou dificultar a entrada de imigrantes ilegais em solo norte-americano; logo o México, que tem um histórico de perdas territoriais para os Estados Unidos.

Vista de relance, a determinação de Mr. Trump de barrar a entrada na pátria norte-americana de pessoas oriundas de países de maioria muçulmana, pode nos levar a crer que foi uma decisão acertada, uma vez que nações como a França e a Alemanha, que vêm mantendo políticas de acolhimento de imigrantes provenientes de lugares como a Síria, não conseguiram, mesmo assim, impedir e deter ações terroristas praticadas por indivíduos que dizem professar o muçulmanismo, o que, na prática, como dizem alguns, é manter uma política não de ação humanitária, mas de dar abrigo ao inimigo. Ocorre que, talvez, essa determinação acabe acirrando ainda mais os ânimos dos ditos simpatizantes desses grupos terroristas que, como se sabe e/ou se imagina, estão por toda parte. Por outro lado, como pensar o crescimento econômico de um país que necessita de mão de obra de imigrantes, dificultando e/ou impedindo que ela chegue?

Rediscutir a assinatura de tratados econômicos; redesenhar, por assim dizer, as esferas das relações externas; rever o papel dos imigrantes no quadro social do seu país; redimensionar o peso e a atuação do Estado para alavancar a economia, etc. São várias as esferas de atuação às quais Mr. Donald Trump, o Twitter Man, deve se lançar com eficiência para fazer valer a autoridade que os membros do Colégio Eleitoral lhe outorgaram, já que, com o grosso da população norte-americana, ele continua sem nenhum crédito e apenas sendo visto como um falastrão cuja voz soa dissonante em meio ao imenso coro dos inconformados e descontentes com a sua eleição.


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