7 de abril de 2017

A figurinista e a stripper

Por Clênio Sierra de Alcântara



Como que vivendo numa extensa corda bamba na qual os homens as colocam, as mulheres atravessam  a existência mirando um horizonte nem sempre confortável, porque são muitas não somente as demandas que a sociedade, em geral, e os homens, em particular, cobram delas. O abismo está logo ali; e ai delas se desobedecerem os ditames que os homens estabelecem para que o convívio entre eles seja pleno e, ao modo deles, pacífico



Contudo, durante algum tempo, eu acreditei que a razão fosse outra; mas, com o passar dos anos, eu me certifiquei que residia naquela vivência a raiz do crescente, por assim dizer, repúdio, que eu permaneço sentindo com relação ao universo construído pelos homens ditos heterossexuais. Certamente – eu não tenho nenhuma dúvida quanto a isso – todos aqueles horrores pelos quais eu passei ao lado de uma mãe solteira foram os desencadeadores dessa repulsa que não sai de mim e, em grande medida, os responsáveis pela visão de mundo que eu moldei. Sim, eu não nego e nem escondo que mantenho relacionamentos heterossexuais e também homossexuais; porém, saliento bem isso, o mundo heterossexual dos homens, a postura que comumente eles mantêm para com as mulheres, a definição deles quanto ao que cabe aos dois e - para eu não me alongar mais – a própria idealização do que é, como se diz, um homem de verdade, isso, francamente, não me interessa, porque, sinceramente, me incomodam tremendamente a postura e os comentários com os quais habitualmente eles se referem a elas, como se estivessem descrevendo algo ameaçador ou lidando com um troço qualquer que vez ou outra lhes confere prazer sexual. Daí por que eu não faço nenhuma questão de manter e de me manter num círculo de amizade que seja dominado por esses “homens de verdade” – homens só me interessam quando são homossexuais e com certas restrições, porque também homossexuais conseguem ser extremamente contra as mulheres. E eu compreendo claramente que também se deva a essa repulsa aos ditos héteros, os modos autoritários e impositivos e agressivos com os quais eu por vezes trato os meus parceiros; é como se eu neles me vingasse dos maus tratos que homens afligiram à minha mãe. E, antes que algum desavisado pergunte se eu quero “curar-me” disso, peremptoriamente eu afirmo: não, eu não quero. E digo mais, com plena e firme convicção: se alguém chegasse para mim e dissesse: “Olha, tem algo sobre o seu passado que você não sabe. A sua mãe chegou a pôr você numa lata de lixo, porque não lhe queria”. Ainda assim, considerando o tudo de ruim que ela passou nas mãos de cafajestes, canalhas, aproveitadores e covardes, eu de maneira alguma a condenaria. Em realidade, minha mãe cometeu alguns desatinos na luta por nossa sobrevivência. Mas, quem é capaz de escapar completamente ileso da sanha dos homens?

Reconheçamos que, dada a obrigatoriedade do convívio com os homens, não são poucas as mulheres que aprenderam a ser ou se comportar sórdida e cruelmente no trato para com as suas iguais, tal qual eles fazem com elas. Foram inúmeras as ocasiões – minha memória guardou muitas cenas daquele passado – em que eu presenciei a maneira torpe e covarde com que minha mãe, só por ser solteira, era maltratada por outras mulheres. A tão falada “solidariedade das mulheres” existe sim, mas ela se dá, no mais das vezes, quando lhes convêm ou quando elas julgam que estão por cima, que são superiores àquelas ali, que estão jogadas na sarjeta, que se prostituem nas esquinas das ruas ou que sofrem, como noutras paragens, mutilação genital. Querem exemplo mais evidente da crueldade das mulheres para com as suas iguais do que os casos em que uma fulana contrata alguém ou faz ela mesma o trabalho sujo de difamar, torturar e até assassinar “a outra”, “a vadia”, “a destruidora de lares” que se encontrou intimamente com o marido dela e/ou estava mantendo um relacionamento com ele? Ora, por que a mulher que namora um homem casado é sempre a culpada nessas horas?

A autoridade, a perversidade, a dominação, o cabresto, o falar alto, a imposição de regras, a força bruta, a violência, a humilhação, a surra “para aprender a ser gente e a respeitar o companheiro”, a intimidação, a ameaça, o vou sair sozinho “para me divertir”, o estupro, o abandono, o assédio... Os homens se armaram de instrumentos muito contundentes para lidar com as mulheres ao longo de toda a existência humana. E essa opressão e essa frieza para manter a sujeição delas ao bel-prazer deles, de certa forma é como que uma extensão, na mulher, da mesma domesticação que, por exemplo, o homem destinou ao cão. E, talvez, seja por isso que os homens esperam o tempo todo que a eles, as mulheres sempre destinem uma obediência e uma fidelidade caninas.

Como eu disse noutra ocasião, é no mínimo ingênuo pensar que as mulheres são sempre as vítimas indefesas dos homens porque, embora sejam frequentemente atacadas por eles, elas também sabem, por si próprias, fazer uso dos mesmos instrumentos que eles manuseiam com aguda destreza. Além do que, de acordo com as conveniências, elas não se importam de ser vistas como objetos e até se vangloriam disso, vide a satisfação com que posam para as Playboys da vida e protagonizam comerciais em que aparecem quase desnudas. Mulheres não são sempre “Evas” causadoras de todas as desgraças. Mulheres não são sempre “santas” que estão ali para lançar sobre nós seus mantos protetores. A impressão que eu, como homem, tenho, é de que as mulheres vivem tentando se equilibrar na extensa corda bamba esticada sobre um abismo em que os homens as colocam, porque somos essencialmente impiedosos e egoístas, e não outra coisa.

Quase que na mesma ocasião em que o ator José Mayer ganhou as manchetes com a acusação de que assediara, como macho alfa voraz, uma figurinista da mesma Rede Globo onde ele encarnou papéis de galãs sedutores e até misógino, como foi o Tião da recentemente acabada telenovela A lei do amor, repercutiu aqui em Pernambuco um vídeo no qual aparece uma mulher fazendo striptease numa cela da Penitenciária Barreto Campelo, na Ilha de Itamaracá, sendo ovacionada e outras coisas mais por um grupo de detentos. Embora em situações diametralmente opostas financeira e, não duvido, educacionalmente, as duas mulheres encarnaram para os homens um só papel: elas foram objetificadas e vistas como algo inanimado que pode ser tocado e apalpado e tudo mais porque ele não vai esboçar nenhuma reação. Mulher esclarecida e sabedora de seus direitos, a figurinista fez saber a quem quisesse a situação por que passara, no que recebeu o apoio de meio mundo de outras mulheres, que se meteram em camisetas nas quais apareciam os dizeres “Mexeu com uma, mexeu com todas”. Que todas são essas? Quem foi que saiu em defesa da “stripper”? Quem foi que escreveu uma linhazinha que fosse nas turbulentas e raivosas redes sociais se pronunciando a favor daquela “mulherzinha” que aparecia rebolativa naquele vídeo? Ora, quem é que iria perder tempo com uma “desclassificada” como aquela, não é mesmo?

Em sociedades como a brasileira, desde crianças somos ensinados que homens e mulheres são seres completamente diferentes, quando, na realidade, nada se parece mais com um homem do que uma mulher, e vice-versa. No entanto, tudo permanece afirmando diferenças e estabelecendo conceitos de desigualdades entre eles, de modo que a sujeição da mulher em relação ao homem seja vista como uma ordem natural das coisas que não deve ser contestada. A mim me parece, no entanto, que estamos vivenciando uma era muito questionadora a respeito não somente dos papéis que cabem a um e a outro, mas também da própria equação e definição de gênero: o que é ser homem e o que é ser mulher? Que comportamento e que atitude me define como tal e tal? Por que eu devo pensar e agir como homem ou como mulher? Por que é preciso que eu me defina?

Se, como eu disse, o espírito desse nosso tempo está buscando imprimir ao diálogo entre os gêneros uma posição questionadora no que diz respeito a ser e existir e a meta pretendida, se eu compreendo bem o zeitgeist, é o alcance da desintegração do imperativo das dessemelhanças entre eles, por que, então, promove-se o estabelecimento e a implantação, por exemplo, de “vagões rosa” nos metrôs para separar as mulheres dos homens? O viés da igualdade não deveria mirar a educação dos homens para que eles respeitassem as mulheres em toda e qualquer situação, inclusive em vagões de metrôs? Não é um tanto quanto retrógrada essa suposta política de afirmação e empoderamento das mulheres?

Enquanto aqui e ali, de maneira apenas pontual, mulheres celebram pequenos avanços institucionais e sociais, nos grotões deste país e em tantos outros lugares deste planeta, milhares, milhões de outras, infelizmente, carregam o pesado fardo de ser o que são, submetidas a casamentos forçados, à escravização sexual, à anulação de si próprias tendo em vista ditames religiosos e “tradições culturais”, ao impedimento de frequentarem escolas e a inúmeras outras terríveis provações, como se suas vidas existissem dentro de uma realidade inalterável.

Não sei por que os homens insistimos em não reconhecer que está nas mulheres e não em um ser de outro lugar e dimensão, a força que fundamentalmente nos restabelece e completa.


(Artigo publicado também in Informa Garanhuns [Garanhuns], nº 8, abril de 2017, Opinião, p. 2).


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