Por Clênio Sierra de Alcântara
Fotos: Arquivo do Autor Essa bala nem foi convidada e apareceu lá em casa. Veio com uma conversa troncha de que estava perdida e por isso foi bater ali |
Ilha de Itamaracá, PE,
sexta-feira, 15 de outubro de 2020. Começo de noite na Rua Jenipapo, popularmente
conhecida como Rua da Bica. Um prolongamento desse logradouro recebe o nome de
Rua Pau-ferro; e é nela onde eu moro há mais de uma década. Marcada há muitos
anos pela circulação e pelo consumo de drogas nela e em suas adjacências, a Rua
da Bica, não é de hoje, vem sendo campo de ação de drogados e de vendedores de
entorpecentes.
Naquele dia,
desentendimentos e/ou acerto de contas entre traficantes e usuários - foi o que
me contaram - resultaram em disparos de arma de fogo. Um dos projetis atingiu o
portão maior da minha casa e ficou no meio do terreiro. Não havia ninguém ali
no momento, felizmente. Como se diz por aí, dos males o menor; afinal, um rombo
num portão pode ser tapado, mas uma vida que é terminada ao ser atingida por
uma bala não pode ser substituída e nem reposta; afinal, gente é gente e não objeto,
embora para muita gente, gente valha menos do que qualquer objeto.
A realidade de balas
perdidas que consomem vidas e dilaceram famílias é uma tragédia nacional cujo
epicentro parece ser o Rio de Janeiro, lugar onde a bandidagem é quem dita as
regras numa sociedade belicosa e o Estado a tudo assiste sem conseguir esboçar
um eficiente e decisivo combate a esse estado de coisas. Seja em confronto
entre si pelo controle de áreas dominadas pelo tráfico de drogas e pela ação de
milicianos, seja em ações de confronto entre bandidos e policiais, as ditas
balas perdidas já tiraram a vida de dezenove indivíduos somente até o dia 24
deste mês na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, segundo a plataforma Fogo Cruzado, sendo que o número de
pessoas atingidas por essas ditas balas perdidas já passa dos cem casos.
Numa sociedade que enxerga a
Justiça como inoperante e/ou pouco eficiente e punitiva, viceja uma crença de
que todo e qualquer cidadão deveria e/ou poderia portar uma arma de fogo para
se proteger da ação de bandidos. Nessa lógica beligerante, nessa utopia da mão
armada, vigora o entendimento de que a criminalidade deve ser combatida com
troca de tiros entre o cidadão de bem e o criminoso, para que aquele elimine
este da face da Terra, que o tire de circulação, porque, como dizem por aí, “bandido
bom é bandido morto”. E dane-se Ministério Público. E dane-se Supremo Tribunal
Federal. E dane-se júri popular. E dane-se carceragem. E dane-se Justiça. E danem-se
tudo e todos.
Uma corrida armamentista
está em pleno curso neste país, incentivada que permanece sendo pelo atual
mandatário desta desgraçada nação, desta pátria de delinquentes onde a escalada
da criminalidade segue em sentido ascendente, porque absolutamente não há uma
política eficaz de combate às ações dos criminosos, vide o que se verifica no
Rio de Janeiro.
A banalidade com que vidas
são ceifadas por disparos de armas de fogo no Brasil diz muitíssimo da
incapacidade do Estado de promover uma cultura de paz; ação essa que poderia
ser feita e que agora definitivamente foi para as cucuias, visto que, ao
incentivar que todo e qualquer cidadão tenha um revólver para chamar de seu, o
senhor Jair Bolsonaro enterrou de vez o pacto civilizatório e lançou os
indivíduos numa “caçada” incessante e perturbadora. Eu compreendo que esse movimento
de estímulo dado pelo presidente da República ao “cada um por si” e ao “salve-se
quem puder” é mais uma declaração de incompetência do Estado brasileiro para com
a segurança pública e como que o abandono da sociedade que deve ela mesma tratar
de se autoproteger caso não queira ficar entregue à própria sorte.
No mês passado, Pernambuco
foi marcado por pelo menos dois casos exemplares do uso indiscriminado de armas
de fogo na resolução de conflitos. No dia 5 de setembro, num bar em Boa Viagem,
no Recife, um policial militar e um policial penal – isso mesmo, dois agentes
de segurança que, em tese, deveriam, vou repetir, deveriam fazer um uso
responsável dos armamentos que portavam – trocaram tiros e provocaram a morte e
o ferimento de várias pessoas. No dia 29, na cidade de Limoeiro, o dono de um
haras, certamente se reconhecendo com pleno direito para agir como agiu,
executou a tiros um funcionário de uma companhia de energia elétrica que foi
até a propriedade do dito-cujo efetuar o corte de fornecimento por causa da
inadimplência no pagamento das contas. Nos dois casos, tanto no bar como no
haras, os agentes infratores consideraram que fazer uso das armas que
carregavam era o mais acertado a fazer. E ponto.
Não nos iludamos: quanto
mais armas estiverem circulando na sociedade, mais drásticas serão as
consequências dessa beligerância; e, fatalmente, continuarão nas alturas os
índices de mortes culposas e/ou dolosas causadas por disparos de armas de fogo.
A ilusão de que o porte de uma arma é uma garantia eficiente e segura de
autoproteção com toda certeza não figurará nas estatísticas, mas sim nas faces
de todos aqueles que, inconsolados, haverão de enterrar os seus entes queridos
que o revólver, a pistola, a metralhadora e o fuzil não conseguiram proteger.
A marca da bala no portão |
Meu irmão resolveu guardar o
projetil que atingiu o portão da nossa casa como recordação do dia em que uma “bala
perdida”, mesmo sem ter sido convidada, veio nos visitar.
A direita, que defendem com unhas dentes o porte de arma, como forma fantasiosa de está seguro é um erro e de uma tamanha ignorância. Pesquisa mostram que os países onde cada pessoa pode ter sua arma, vem definindo toda a ignorância e a falta de eficiência que está política insana tem ceifado milhares de jovens da periferia e pasme na maioria, negros. A impunidade atrelado a crise institucional entre os três poderes, se misturam com supremacia de preconceitos, dessa turma, que para eles, se sentem no direito, de te xingar, desrespeitar , humilhar se achando espalhadores do ódio, junto com o insano presidente, que espalha o preconceito e fiel levantador do porte de arma. Ainda bem que vc é sua família estão bem, diante de tanta violência. Mas uma vez somos vítimas de uma insegurança que se tornou institucional,em que o homem não acredita mais justiça e com razão, infelizmente. Que bom que a família Alcântara estão bem.
ResponderExcluirMeu Caro amigo Sierra, essa marca no portão me recorda o cenário dos filmes do Velho Oeste Estadunidense. A cultura que tanto importamos do mercado cinematográfico está em pleno vapor.No momento em que uma parte do seguimento da sociedade dos EUA discutem o repensar da liberdade do uso de armas, o brasileiro está sendo encharcado a entender que liberdade é andar com o dedo no
ResponderExcluirgatilho. Parabéns por mais uma crônica textual realista e reivindicadora pela Cultura da Paz!