9 de julho de 2022

Estacionamos na contramão


 Por Sierra

 

Fotos: Arquivo do Autor
Na esquina da Rua do Sol com a icônica Rua Nova, uma Rua Nova que nos áureos tempos de sua existência era quase o que era a Rua do Ouvidor para a capital fluminense, ocupando o térreo de um edifício que já abrigou a saudosa loja Arapuã e que exibe em sua fachada voltada para a Rua do Sol uma obra do artista Francisco Brennand, surgiu mais um estacionamento. Nossa, que retrocesso



Na contramão de políticas que visam à redução do uso individual de veículos que se verificam em grandes cidades europeias, como Paris e Roma, as grandes metrópoles brasileiras continuam insistindo em estimular, digamos assim, a circulação de um sempre crescente número de veículos em suas ruas e avenidas.

Ninguém é louco de negar a importância dos automóveis para a existência da humanidade ou, pelo menos, da humanidade tal qual ela existe e/ou passou a existir desde que os veículos automotivos foram inventados e passaram a exigir cada vez mais espaços das cidades seja para eles circularem, seja para eles estacionarem.

Não, eu não sou um ecoxiita que defende o uso maciço de charretes ou coisas do tipo tidas como menos poluentes e tal. Não, o meu enfoque é de outra ordem.  Sob um ponto de vista ecológico e/ou ecologicamente correto, substituir todos os atuais veículos por automóveis elétricos, por exemplo, seria sim, uma ação mais do que louvável; mas, para o que eu quero discutir aqui, seria trocar seis por meia dúzia. A questão que eu levanto não é o que é mais ou menos poluente e nem o que é mais caro e o que é mais barato. Não, eu falo de abundância, de superabundância de circulação de veículos em nossas grandes cidades.




Ah, é menos poluente? Ótimo. Ah, é mais caro? Ok. Em termos comerciais tudo pode e deve ser avaliado – e também reavaliado. O que ninguém pode ignorar é a voracidade com que os veículos tomam os espaços das cidades e que se privilegiam obras viárias, sobretudo para quem faz uso individual de automóveis, em detrimento do pedestre, do ciclista e de quem recorre ao transporte público de passageiros para ir ao trabalho, à escola, à unidade hospitalar, ao banco, ao supermercado e ao lazer.

De que adianta demarcar nas ruas e avenidas ciclovias e ciclofaixas se permanece imutável e intacta em nossa sociedade a mística do carro como símbolo do “eu venci na vida”? De que adianta estabelecer faixas exclusivas para ônibus sem promover a melhoria do serviço destinado à população que tem de encarar diariamente busões que muitas vezes passam atrasados e por isso – mas não só por isso – lotados,  com gente espremida até dizer basta? De que adianta discutir governamentalmente melhoria da mobilidade urbana se, entra ano e sai ano, o número de veículos registrados nos DETRAN’s só faz crescer? Mais duas perguntas: até quando as grandes cidades suportarão o constante aumento da frota? E por que não se instalam mais trens e metrôs?

Eu falei aqui da voracidade que os veículos têm por espaços nas cidades. A pressão veicular sobre a paisagem urbana é feroz, insaciável e implacável. Quem se der ao trabalho de pegar velhas fotografias de algumas de nossas cidades e comparar tais registros com o desenho urbano atual, constatará que mesmo urbs que cresciam coetâneas com o aparecimento dos veículos automotivos foram severamente mutiladas; os casos exemplarmente mais dramáticos de cidades antigas que foram, por assim dizer, adaptadas e readaptadas para acomodar esses meios de transporte são o Rio de Janeiro e o Recife, que puseram abaixo centenas de edificações, principalmente a partir da década de 1920 até 1980, para que elas dessem lugar a longas e largas ruas e avenidas, porque tudo redundava em transformar a cidade com vistas a atender as demandas dos carros e a promover o bom fluxo do tráfego.

Considerando tal lógica de destruição maciça de edificações para que elas possam dar passagem aos veículos automotivos é de se perguntar: o que fazer? Continuar o bota-abaixo de prédios? Passar a morar debaixo da terra deixando a superfície para os carros?



Não são apenas obras viárias governamentais que se encarregam de destruir a memória urbana de nossas cidades, em geral, e de nossas cidades mais antigas, em particular. A proliferação de estacionamentos privados em áreas históricas vem há anos dando o tom e marcando o ritmo de destruição de prédios antigos ou então deles deixando apenas as fachadas. Eu vi isso nos centros históricos do Rio de Janeiro – atualmente está ocorrendo por lá um imbróglio envolvendo, inclusive, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), no caso de um antigo sobrado que começou a ser demolido por uma empresa de estacionamentos -, João Pessoa, Belém, Manaus, Salvador e São Luís. No Recife não é diferente.

Semanas atrás eu me deparei com mais um caso de liberação de espaço para servir de estacionamento para carros. Na esquina da Rua do Sol com a icônica Rua Nova, uma Rua Nova que nos áureos tempos de sua existência era quase o que era a Rua do Ouvidor para a capital fluminense, ocupando o térreo de um edifício que já abrigou a saudosa loja Arapuã e que exibe em sua fachada voltada para a Rua do Sol uma obra do artista Francisco Brennand, surgiu mais um estacionamento. Nossa, que retrocesso. Quando eu saí de uma recentemente revitalizada Ponte da Boa Vista e me deparei com mais esse estacionamento no núcleo primitivo da capital pernambucana eu em certifiquei de que, definitivamente, os gestores públicos do Recife não estão de fato empenhados na revitalização dos espaços mais antigos e representativos da memória urbana recifense. Cosmetizações aqui e ali não revitalizam para valer espaços urbanos.




Acredito que, essa lógica de ocupação e por vezes de destruição de áreas centrais de nossas cidades por estacionamentos, tem muito que ver com a ignorância e com o desprezo que tantos de nós mantemos para com os testemunhos do nosso passado. Por fim e recorrendo a uma imagem automobilística, eu digo que nós atropelamos o patrimônio histórico edificado não somente para deixá-los com mutilações e outras sequelas, mas também, sempre que possível, para fazer com que eles morram, ou seja, não deixem nem rastro e desapareçam completamente dos espaços nos quais eles um dia existiram.

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